A puta desce o barranco como se puta não fosse. Orgulhosa na sua
beleza mulata, tendo nos olhos girassóis, nas ancas o balanço do
rio, no andar a suavidade dos peixes. Prende a saia na cintura e
finca as pernas fortes na ribeirinha, descendo a trouxa que traz na
cabeça. No bar defronte as línguas se calam, os olhos rebrilham, as
mãos suadas se esquecem nos copos. Todos calados, embevecidos, a ver
a Saúva lavar a roupa do seu homem.
O nome, Saúva, nascera já na zona, bunda grande, que ela exibia
debochada; deixara de ser Das Dores, nome de filha de Deus e virara
Saúva, nome filha da puta. Muitas histórias corriam a respeito dela.
Diziam que vinha da mata fechada, para além do Urubupitanga, filha
de seringueiro perdido e índia cinta larga. Da mãe, herdara o
segredo das ervas, o andar macio, os cabelos de juriti. Do pai, a
putaria nômade e o sangue esquentado. Diziam também que era um
vulcão. Quem se deitava com a Saúva tinha que ir preparado, ela
fazia pelo gosto, o sujeito saía babado e de olhos perdidos.
Era uma puta séria, não dada a gracejos fora de hora. O homem podia
ir para a cama com ela, uivar a noite inteira, dia seguinte
encontrar na rua e a Saúva nem olhar. Boa puta essa. Sabia se dar ao
respeito e respeitar pai de família. Começara a carreira na casa de
Joana, a Sarará, cafetina de nomeada na boca do rio e de lá não
saíra mais, prata da casa, se tornara conhecida e era a mais
disputada de todas.
Um dia levou pra sua rede o Chico, aquele mesmo que tinha descoberto
a lavra, gigante tinhoso, agora enricado, e Chico virou cliente
assíduo. Dali, para lhe montar casa e comprar uns trens, foi um
pulo, mas a Saúva era matreira, trazia o Chico na ponta dos dedos.
Ela ia, mas as tardes eram dela. Chico era um bom homem, lhe fazia
os gostos, lhe dava conforto, mas era só. Gostava da Sarará, gostava
do cheiro da casa e da putaria. Ele que escolhesse.
Chico, temendo a falta do corpo mulato, achou melhor menos do que
nada, sabia que o gosto da carne dela estava entranhado e concordou.
Dividia a mulher, mas exigia que ela não se dedicasse a um só, que
distribuísse os cheiros e os carinhos. Belle de jour do
barranco, ela topou e ia levando a vida como gostava. Cuidava do seu
homem, pelas manhãs lhe preparava a macaxeira a gosto e as noites
eram puro deleite. Mas nas tardes calorentas e suadas a Saúva
atendia os de mais sorte lá na casa da Sarará. Quando Chico andava
pela rua ninguém ousava olhar duas vezes. Era de poucas falas, cada
um sabe onde lhe aperta o couro. O homem era graúdo e rápido na
faca, disso todo mundo tinha notícia. Carregava meia dúzia de riscos
no cabo da adaga e para cada risco uma alma que ele tinha despachado
dessa para melhor. Da sua mulher não queria ouvir palavra e ai de
quem se metesse a besta. Para ele era Das Dores, Saúva ele não
conhecia não. E vivia assim, feliz da vida, estranhando o que não
queria e rindo contente da parte que lhe cabia.
A roupa era pouca e ela era forte, bater na beira do rio lhe fazia
bem. "Boto os bichos pra fora", dizia pra vizinha Alzerinda, que
vivia de olho na vida e na cozinha da Saúva. Boa cozinheira, ela
tinha aprendido com a mãe índia fazer uma tartaruga de dar gosto e
Alzerinda não perdia uma, era sempre uma boca a mais na mesa farta.
Boca na mesa e na vida da Saúva, que falava pouco, mas era um bom
ouvido. Com a roupa torcida no balaio, ela tomou o rumo de casa. A
manhã já ia alta e era hora de preparar o jaraqui para o Chico que
ia chegar louco de fome e desejo. Não deu atenção aos olhares que
lhe queimavam a pele vindos do bar, estava acostumada, eles olhavam
mas não piavam. Todos sabiam da faca afiada do Chico e do ciúme
dele. Saúva para rir de gracejo, rebolar as ancas e convidar para a
rede só na casa da Sarará, quando a tarde começava a descambar.
Aquele dia, quando já estava perto da praça, percebeu, entrando no
hotel do Pedrosa, um moço claro, com jeito de gringo, cheio de
sacolas, que quando viu a mulata, toda ela uma deusa, carregando o
balaio na cabeça, perdeu o rumo, deixou cair as malas e ficou de
olho estatelado. A Saúva riu por dentro, de novo fingiu que não era
com ela, se esmerou no gingado, deu um balanço de ombro e passou
altaneira, quase roçando o corpo suado naquela loirice estrangeira.
De rabo de olho percebeu que o dito cujo ficou ali, comendo-a com os
olhos até ela desaparecer na curva da esquina.
Dia seguinte ela foi ao mercado e quando voltava, na mesma praça lá
estava o gringo, sentado à mesa do restaurante do Turco. Tudo se
repetiu, ele a olhou assombrado e ela fingiu que não via e nessa
malemolência, o sol abrasando tudo, o brilho do suor no corpo, foi
desfilando devagar, ele engasgando no peixe, ela caprichando no
passo, ele arfando no peito, ela se dando ao deleite.
Aquilo se tornou um hábito. A Saúva mandou fazer roupa nova,
aumentou um pouco a abertura da saia, desceu o decote, usou as
essências de D. Alzerinda, lustrou mais os cabelos e fez do
restaurante do Turco sua passagem diária. Gostava de brincar com o
desejo no olho azul do gringo, de perceber que ele suava, um dia
escapou um olho no olho, outro dia um ligeiro sorriso mais
convidativo, mas foi tudo. Nada de intimidade maior que ela não era
disso. Palavra era palavra, de manhã Das Dores, de tarde Saúva.
Naquela semana Chico tinha ido para o garimpo e ela, na casa da
Sarará, espiava pela cortina os fregueses chegando, preguiça no
corpo e moleza na alma, quando viu o gringo entrar com mais dois
estrangeiros, sentar em um canto e pedir bebidas. Saúva se eriçou
toda, chamou a negrinha que anotava os pedidos. "Tá vendo lá o loiro
no canto? O de camisa azul? Esse é meu e não quero enxerida." A
negrinha assentiu, surpresa. Saúva não era desses arroubos e
exigências, não gastava tempo com conversa, topava o que vinha e
ainda se divertia. Lá pelas tantas foi até a mesa e ofereceu as
putas. Cada um abraçou uma e se escafedeu no rumo das redes, mas
para o gringo a negrinha segredou que havia um presente especial da
casa. E levou o homem, aturdido, pela mão até o quarto principal que
pra gringo não existe rede que preste quando se trata de alegrar o
corpo. Deixou o sujeito lá, uma sala alta com uma cama grande e de
lençóis muito brancos, um ventilador zumbindo no teto, uma meia-luz
provocada pela cortina estampada e um cheiro de magnólia no ar. Foi
quando a Saúva saiu do canto escuro, os dentes brilhando em um
sorriso, os olhos prometendo tudo e foi se aproximando mansinha,
tocando os dedos no peito dele, ouvindo o suspirar do homem. Ele
tentou falar, surpreso e contente, mas ela o calou com a boca, a
língua quente escorregando, as mãos hábeis lhe tirando a roupa.
Depois do gozo apressado e forte, ambos mudos, ele se pôs a explorar
o corpo dela, procurando os desvãos todos, regando de saliva as
coxas roliças, se perdendo naquela morenice que gemia e se arqueava
enquanto ele a ia comendo aos poucos. Quando ele se fartou de
trincar os dentes ela se inclinou sobre ele e bebeu de sua fonte,
devorou o azul dos olhos e se maravilhou com a brancura da pele. Não
trocaram uma palavra até ele quase adormecer e ela perceber o sol se
pôr. Então se vestiu, célere, e saiu sem ruído.
Desse dia em diante ela mudou. Não adiantava mais a Sarará vir cheia
de dengo, pedindo para receber esse ou aquele ricaço que lhe jogava
o ouro no colo e pedia a puta predileta. Saúva só tinha olho para o
gringo e só ele lhe tinha a graça. Ele continuava a babar por ela,
desejoso, pelas manhãs, quando ela passava e nem sequer lhe dava um
ai. Mas pelas tardes, quando se engalanavam no quarto mudo e
mormaçado, o mundo todo era pouco para os ais que ela dizia. Sem
permitir palavra, um nome que fosse, a Saúva delirava, calada e
perdida, nos dedos dele, e lhe tapava a voz fazendo o gringo gemer
preso na sua boca. A cada dia ela descobria um caminho novo a
percorrer naquela pele clara, tão diferente da sua, e ele se
emaranhava mais no dourado escuro dela, redemoinhava no grito e no
gemido de bicho que ela soltava quase esgarçando a tarde em
farrapos.
O gringo até esqueceu porque veio dar os costados na terra, esqueceu
endereço, ia perdendo as carnes e luzindo os olhos. Vivia no agrado
dela, sem falar, sem saber como e quem era aquela aparição que lhe
inundava o corpo, tentava dizer alguma coisa, mas percebia que se
apertasse muito a passarinha lhe fugiria pela janela. Longe disso,
ele queria mais, queria se perder, nada de falas, amor mudo, feito
de grunhido e gozo, uivar do corpo e lacerar da alma.
O tempo foi passando e o fuxico correndo solto, saindo do puteiro e
alcançando a mesa dos botecos. Chico nem sonhava com isso, que
ninguém era louco para se arriscar na conversa, mas andava
desconfiado da mulher. Ela vivia de cochicho com Alzerinda e nas
noites que se embolavam na rede ela lhe parecia impaciente. As
tardes estavam se prolongando e isso não era o trato. Começou a
seguir Maria quando ela ia ao mercado e não tardou e observar que o
caminho dela mudara. Escondido atrás do oitizeiro ele viu quando ela
requebrou o passo e o olhar do gringo a comendo toda. Dali para
apertar Alzerinda foi um pulo e a vizinha entregou tudo, inclusive o
lugar do encontro. Esquentado, ele procurou as mulheres da Sarará,
que depois de uns agrados completaram a historia. "Saúva não é mais
a mesma, está de cliente fixo, não aceita mais convites. Enluxou.
Agora a casa treme com a algazarra deles, amor de grito e gemido,
que atravessa as portas e faz inveja nas mulheres." Chico sentiu um
frio na barriga, voltou pra casa, afiou a faca e esperou dia
seguinte.
Na mesa do fundo, escondido na sombra, ele acoitou. Quando viu a
Saúva chegando de andar dengoso, rilhou os dentes e esperou que ela
se aproximasse bem, com os olhos presos no gringo que suava e
tremia. Com agonia no peito Chico, de um bote só, saltou de repente
e cravou fundo a faca no peito dele. Foi como se o sol parasse e
derramasse vermelho no mundo. A mulher estacou, apavorada, e viu o
homem virando os olhos, estrebuchando em um chafariz de sangue, a
gritaria, Chico avançando para cima dela, sendo agarrado,
esperneando. Ela correu até o gringo caído, a blusa se ensopando e
lhe acolheu a cabeça.
Foi ai então, entre espasmos e golfadas que lhe ouviu a voz pela
primeira vez.
– Frederico – ele ainda conseguiu dizer, entre todas as dores.
– Das Dores – ela respondeu lhe fechando os olhos.
Vera do Val Sobrevivente dos anos 1960, paulista,
perdida na Amazônia. Insana e delirante.
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