O dia-a-dia de Alfredo não poderia ser mais regrado. Os mesmos
hábitos meticulosamente cultivados anos a fio. Despertador
programado no mesmo horário os sete dias da semana. As mesmas
refeições de segunda a sexta: segunda, cozido; terça, dobradinha;
quarta, rabada; quinta, inhoque; sexta, feijoada – isso porque
freqüentava o mesmo bar, vizinho à repartição, desde que começara a
trabalhar. À noite, invariavelmente pão e sopa. Sábado e domingo,
almoçava na irmã mais velha: um dia carne assada e batata; outro,
macarronada.
Poucas palavras, sorrisos econômicos, gestos comedidos, voz baixa,
monocórdia. Os colegas o respeitavam – bom sujeito, não se metia com
ninguém, não discutia assunto nenhum; aliás, sempre fazia cara de
bom ouvinte, daqueles que assentem com a cabeça, dando sensação ao
interlocutor, fosse qual fosse, de que este tinha razão. Na verdade,
as pessoas apreciam aquelas que são discretas, não só por não se
meterem em sua vida, como também por que se pode com elas poupar
conversa inútil, com perguntas ou cumprimentos retóricos.
Instaura-se entre elas um pacto: ninguém pergunta nada sobre o
outro; resguarda-se assim a intimidade.
A discrição era tanta que nenhum colega de trabalho procurava saber
quais seriam os interesses de Alfredo, seus desejos ou hábitos
domésticos. Tampouco, ninguém fora a sua casa.
O metódico funcionário era um exímio colecionador. De fotografias.
Roubadas, de preferência. Tinha a habilidade de furtar carteiras de
identidade, de clube, associações, crachás etc. Uma época, na
repartição, andaram comentando estranho acontecimento. Certa manhã,
da portaria desapareceram todas as identidades que visitantes
deixavam para poder entrar no prédio; também da bolsa de várias
mulheres, algum mal intencionado roubara a identidade, carteira de
motorista, enfim, qualquer tipo de identificação que contivesse
fotografia. Homens não foram poupados: todos tiveram algum tipo de
documento furtado, assim como fotos de esposa, namorada, filhos. De
início o acontecimento provocara indignação e perplexidade. Passados
alguns meses, não se descobrira nenhum culpado e o evento caiu na
normalidade do cotidiano. Chegou-se até a brincar que os fotógrafos
deveriam estar lucrando, dado o grande número de pedidos de segunda
via de documentos.
Mas a que servia a coleção de Alfredo? Ora, àquilo a que todas as
coleções servem: ato de superação. O colecionador embrenha-se em
busca frenética de um determinado objeto, tentando superar a si
próprio. Compete consigo mesmo, no desejo de dominar uma parcela do
mundo. O colecionador tem a ilusão de que todos os objetos de uma
determinada classe lhe pertencem. Trata-se de uma ilusão consciente:
ele sabe que jamais abarcará a totalidade, mas é aí que está o
prazer – o prazer da procura, do desafio, do achar mais um espécime.
Todas as noites após o jantar, Alfredo cumpria seu ritual: arrumava
as aquisições mais recentes, revia as mais antigas, procurava novos
critérios de sistematização. Mas o que mais o absorvia eram as
tramas que ele criava a partir das fotografias, que povoavam seu
minúsculo quarto-e-sala. Soprava-lhe a vida; sentia-se criando
Golens.
Foi pela época das festas de fim de ano que Alfredo desapareceu do
serviço. Telefonaram-lhe várias vezes, mas respondia a secretária
eletrônica, que, ao final de alguns dias, nada mais registrava, pelo
acúmulo de mensagens recebidas. Vizinhos e porteiro estranharam o
desaparecimento do taciturno morador.
Quando a polícia, convocada, arrombou o apartamento, encontrou
Alfredo em sua cama, deitado exatamente ao centro, olhos abertos,
fixos, voltados para o teto. Era fétido o odor que seu corpo
exalava, mas nada impedia que as histórias continuassem a pairar no
ambiente – palavras de uma vizinha mediúnica que entrara com a
polícia. Importante assinalar que o apartamento era verdadeiro salão
de ex-votos – paredes e teto recobertos de fotografias, coladas lado
a lado, em mosaico, sem nenhuma lógica aparente.
Teresa Coutinho Andrade Carioca, de nascimento e de coração,
professora em ensino médio (português e literatura), resolveu trocar
um pouquinho de lugar, aliás, acrescentar mais um: não ficar só
teorizando sobre as letras, mas nelas mergulhar.