O que aconteceu no ontem que desde ele me rouba o sono o não saber
dos teus caminhos?
Chegança não houve e o sol nasceu quando o aberto dos meus olhos
procurava presença na curva da ribeira e só ausência fazia ali a
sombra de nada.
Os passos foram pra missa e de lá voltaram com cadência de perdão.
Não eram meus que de há tempos não cruzo o terreiro onde o sino
acorda as andorinhas.
Que de há muito vivo no esquecimento que os anjos têm de mim.
E os santos, todos eles. Deus do céu, o Pai eterno.
E o vigário nem me passa pela porta, atravessa pro outro lado, vira
a cara pra minha cara de mulher descarada.
Nem os cheiros dos meus doces fazem rastro no quintal pras pegadas
das vizinhas que de mulher de vida fácil nem os doces têm sabor.
Só o moleque de recados atreve os grandes olhos em troca de levar
esta pergunta feito carta de saber em que abraço tu dormistes que
não no meu.
Faço renda, bordo pano, lavo prato, passo o tempo que não passa e o
buraco no meu peito engole tudo e faz saudade.
Logo mais já vai ser noite na janela do quintal e azuis as
goiabeiras, a mesa posta, o café passado fresco e me dirias que é
certeza o que sonhei, mas não vens.
E me esqueces e te esqueço e já nem sei se és pão e primazia, se és
água e me sacias.
... algum tempo depois
Voltei, Maria.
Vi da vida, a vida quase. Vi do mundo, a noite clara. Vi da tarde,
os temporais e voltei, Maria.
Vi abraços mornos, ternos, esperanças, eu diria. Vi das bocas, as
palavras. Vi dos gestos, o adeus. E voltei, Maria.
Atravessei travessas, fiz cruzadas, cruzei rios, becos, vales,
vacilei na encruzilhada, mas voltei, Maria.
Pela luz do seu olhar, fogo-fátuo na neblina. Pela sombra dos seus
gestos, flor nascida no orvalho. E o calor do seu regaço, berço
frágil dos meus sonhos, voltei, Maria.
Fiz distância dos abraços que meus braços esqueceram. Fiz passado de
outros corpos que meus braços acolheram. Fiz meu norte da saudade e
voltei.
Suas tranças, seu cabelo, negro manto da nudez, cobertor do meu
depois. Seu calor, os seus gemidos, melodia em tom maior no ardor do
meu durante. Suas mãos, seus dedos, língua, seios, bunda, sua porta
escancarada, seu fragor despetalado.
Por isso e tudo isso, Maria, voltei.
Por seus doces e temperos. Por seus dengos, vendavais. Sua faca na
cozinha, o seu cofre de porquinho, seu diário, seus bordados. Por um
nada e por um tudo, eu voltei.
Nas pegadas dos meus passos. No traçado dessa dor que fez estrada em
minha vida na estrada de nós dois, eu voltei.
E encontro seu silêncio, a voz calada, seu olhar perdido longe, o
cabelo já tão branco, suas mãos pousadas frágeis no seu colo,
abandonadas.
Suas pálpebras cerradas, essa dor no seu sorriso, esse terço em sua
mão, essa flor em seu caixão, essa vida posta fora.
Porta afora a minha vida. Vida adentro a sua morte. E pra sempre o
nunca.
“O amor, já de si, é algum arrependimento.”
João Guimarães Rosa
Ela & Ele
– Viu as horas?
– Eu não.
– Você tá com um atraso de vinte e cinco minutos!
– E daí?
– E daí que faz vinte e cinco minutos que tô aqui, de pé, nesta
esquina.
– Questão de perspectiva, eu diria que faz vinte e cinco minutos que
você espera por mim que te esperei vinte e cinco anos.
– Não brinca, corri riscos por vinte e cinco minutos, esta esquina é
perigosa.
– Eu também corri riscos por vinte e cinco anos, já pensou se nas
esquinas da vida outros amores houvessem me distraído do meu
encontro com você?
– É sempre assim, né? Você sempre acha que a sua poesia de botequim
resolve tudo, que meia dúzia de frases de efeito são o bastante pra
me convencer.
– Te convencer de quê?
– Ah, sei lá.
– Cuidado.
– Tropecei, só isso, larga o meu braço.
– Escuta, vamos tomar qualquer coisa naquele barzinho ali?
– Não, a gente já tá muito atrasado e por sua culpa.
– Por que culpa? É impressionante como você gosta dessa palavra,
desse sentimento.
– Gosto uma porra, mas você não se desculpa nunca.
– Desculpa, é a culpa.
– Olha, não vou mais.
– Pára com isso. Foi o congestionamento.
– E desde quando tem congestionamento de pedestre? Você veio a pé, a
gente tá a dois quarteirões de casa!
– Então, vamos pra lá.
– Meu Deus, que ridículo.
– Escuta aqui, olha pra mim, porra.
– Não grita, a gente tá no meio da rua.
– E daí? São cinco horas da tarde...
– Cinco e quarenta e cinco.
– Foda-se, cinco, cinco e quarenta e cinco, foda-se, larguei tudo
que eu estava fazendo, corri pela rua, tô aqui e só escuto
reclamação, que merda você quer, afinal?
– Tá todo mundo olhando.
– Foda-se todo mundo, ninguém paga as minhas contas.
– Vou-me embora, não agüento isso, é grotesco, vulgar.
– Vai sim, pode ir, mas me esquece.
– Já esqueci.
– Aproveita e esquece essa babaquice também.
– Não me beija no meio da rua.
– Por que não se te beijo no meio das pernas?
– Você não bate bem.
– Nem você.
– É aqui, olha quanta gente, tem fila.
– Vai suportar ficar vinte e cinco minutos na fila?
– Claro, quero ver isso.
– Estranho...
– ???
Ela & Outro
– Vai?
– Vou.
– Volta amanhã?
– Não sei...
– E quem sabe?
– É tarde...
– Ou cedo demais
– O copo pela metade está meio cheio ou meio vazio?
– Falo sério
– Eu também, sempre.
– Fica.
– Não.
– Não pode ou não quer?
– Não devo.
– Não respondeu.
– Respondi.
– Não disse se não pode, não disse se não quer.
– Disse que não devo.
– Por quê?
– Você sabe.
– Se soubesse, não perguntaria.
– Vai chover.
– Quando?
– Logo.
– Como sabe?
– Minhas cicatrizes ardem quando vai chover.
– Minhas feridas não cicatrizam.
– Feridas?
– Sim.
– Onde?
– Na alma. Fica.
– Não acho meu sapato.
– Tá ali.
– E a chave do carro?
– Do lado do telefone.
– Já tá chovendo.
– Quer um guarda-chuva?
– Não.
– Me quer?
– Quis um dia.
– Quando?
– Não sei, papo besta.
– Melhor esperar a chuva passar.
– É. Vou beber água, quer?
– Não, quero você.
– Você já disse isso.
– Vou dizer pra sempre.
– Pra sempre não faz parte da vida.
– Frase feita.
– Nunca mais também não faz parte da vida.
– Que vida, porra, você acha que ainda tem vida depois de tanta vida
que vivemos e que você joga fora, na chuva?
– Não grita.
– Não chora.
– Choro, você pensa que é fácil pra mim? Acha que não tenho
sentimentos? Memória?
– Então, fica.
– E depois?
– Depois de quê?
– Disso tudo.
– Isso tudo o quê?
– Tenho medo de ficar, tô sem coragem de ir.
– Eu sei, pela última vez, fica.
– E...
– Vem cá.
– Não, assim não.
– Assim sim.
– Ai.
– Doeu?
– Sempre doeu, vai doer pra sempre.
– Eu sei, em mim também.
– É, eu sei.
– Dorme aqui.
– Não estou com sono.
– Só até a chuva passar.
– E se demorar?
– Aí você vai ficando.
– Por causa da chuva?
– Por causa de nós.
– Esse travesseiro é o meu.
– Eu sei, tem seu cheiro.
– Deixa ver.
– Deita.
– Apaga a luz.
Ela & Ele
– Capital de Burundi, nove letras...
– Bujumbura.
– Incrível!!!
– O que é incrível? Um país chamado Burundi?
– Não, que você saiba a capital de Burundi. Onde fica isso?
– Na África. Incrível mesmo é que alguém faça palavras cruzadas onde
se pergunte qual é a capital de Burundi.
– Tô fazendo a de dificuldade máxima.
– Da
National Geographic?
– Como você é implicante!
– Sou, mas sei a capital de Burundi.
– E posso saber em que isso muda a minha vida?
– Em tudo, foi você quem perguntou.
– Não perguntei nada, li em voz alta.
– Então apaga o que eu disse.
– E o que você disse?
– Bujumbura.
– Que porra é isso?
– A capital de Burundi, uai.
– Odeio quando você fala “uai”.
– Why?
– O quê?
– Nada, esquece, vou pegar uma cerveja, quer também?
– Outra?
– Que “outra”? Só bebi três latinhas.
– E acha pouco?
– São 10:20 da noite, bebi uma latinha no almoço, outra na hora do
jogo, outra no jantar...
– E acha pouco?
– Acho pouquíssimo. Pra te agüentar eu deveria beber umas trezentas
e quarenta e oito.
– Trezentas e quarenta e oito é elefante.
– O quê?
– No jogo do bicho, quarenta e oito é a dezena do elefante.
– Taí, amanhã vai dar elefante, sonhei com a sua mãe.
– Vai dar viado, sonhei com seu pai.
– Desisto da cerveja, vou dormir, vem?
– Não, vou ver um filme.
– Amanhã você tem que acordar cedo.
– Queria não acordar nunca mais.
– Não me envolva no seu suicídio, sou contra o extermínio das
baleias.
– Casamento é foda!!!
– Foda??? Sabe o que é isso? Tem aí nas palavras cruzadas? Ato
amoroso praticado por duas pessoas, quatro letras...
– E quem te disse que foda tem que ser necessariamente entre duas
pessoas?
– O amor me disse, sabe o que é isso? Sentimento que une, que
mantém, que preserva, que resguarda, que protege, conhece?
– Senti um dia.
– Eu também.
– Não sente mais?
– Acha possível?
– Realmente? Não sei.
– Nem eu, boa noite.
– Boa noite.
Ele & Outra
– Me dá um cigarro?
– O quê? Desde quando você fuma?
– Vou começar agora.
– Que loucura é essa?
– Sei lá, deu vontade, talvez porque eu tenha tomado um uísque antes...
– Me dá um beijo, preciso ir.
– Ainda nem começou o Jornal Nacional.
– Tem um jantar lá em casa hoje.
– Amigos ou parentes?
– Sogro e sogra, não temos amigos que jantem conosco.
– Bobagem, todo mundo tem.
– Verdade, ela afastou nossos amigos, sabe, aquele gênio...
– Não começa, por favor.
– Desculpe, foi sem querer.
– É, eu sei, o gênio dela é horrível mas você dorme com ele todas as
noites.
– Por enquanto, meu amor, por enquanto...
– Um “por enquanto” que já dura quantos anos?
– Não era assim, foi ficando...
– E você também.
– E eu também o quê?
– Você também foi ficando...
– Já te disse mil vezes: no final do ano quito o apartamento e me mando.
– O final do ano é daqui a um mês...
– No final do ano que vem.
– E onde pretende passar as
happy hours até o final do ano que vem?
– Como assim? Não entendi.
– Deixa pra lá, esquece...
– Às vezes você se parece com ela...
– Nunca mais repita isso, por favor.
– Bobagem, querida, todas as mulheres se parecem.
– Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também,
eu caço as galinhas e os homens me caçam, por isso me aborreço um
pouco.
– Como é que é?
– Nada, um trecho do Pequeno Príncipe, uma fala da Raposa.
– Você leu O Pequeno Príncipe? Foi candidata a Miss Brasil?
– Todo mundo leu o Pequeno Príncipe, todo mundo nega que leu, que
nem novela das oito que todo mundo vê de soslaio enquanto a
empregada tá vendo.
– Amanhã te ligo na hora do almoço.
– Amanhã vou pra São Paulo.
– E por que não me disse?
– Tô dizendo agora.
– Você nunca agiu assim.
– Tô agindo agora.
– Vai com quem?
– Sozinha, tenho amigos lá.
– Nunca soube desses amigos, por que nunca me falou deles?
– Nunca te falei de muita coisa...
– Não faz assim, meu amor, a gente ainda vai ter todo o tempo do mundo...
– Será que já não tivemos?
– Veja, nós dois, você e eu, não somos passado, somos futuro e
eternidade.
– Sei...
– Quando chegar de São Paulo me telefona?
– Te telefono de lá na segunda-feira, vou passar o seu aniversário em São Paulo.
– E não vamos almoçar no meu aniversário?
– Desta vez não, sinto muito.
– Tudo bem, vou indo...
– Espera, deixa a chave da porta aí na mesinha.
Ela & Outro
– Alô.
– Oi, morzinho, rapidinho que to no trânsito, desmarquei o dentista,
to indo pra aí.
– Não vai dar, gatinha, tentei te avisar mas seu celuba tava fora de
área, tô indo pra São Paulo agora.
– Como assim? São Paulo? Agora? Às três horas da tarde?
– Hehehe, e tem hora pra se ir a São Paulo?
– Brinca não, xuxureco, viado!!!
– Viado??
– Levei uma fechada de um babaca. Que papo é esse de São Paulo?
– Alô, alô...(merda de celular).
– Alô, morrrrrrrrr.
– Não tô te ouvindo, lindinha...
– Estacionei... fala... que negócio é esse de ira pra São Paulo
agora?
– Pintou um lance, meu amor, uma exposição numa galeria badalada,
aproveito e vou à Bienal...
– Escuta, dou nó em pingo de éter pra te ver, já desmarquei a porra
do dentista três vezes, não dá pra pegar a ponte aérea das sete
horas?
– Não dá, minha gota de mel, às sete é foda, cheia de yuppies, nada
a ver...
– E quando você volta?
– Na segunda-feira, a gente almoça junto, pode ser?
– Não, na segunda-feira é aniversário dele e ele não vai trabalhar,
vai ter almoço lá em casa... escuta, te pego agora e te levo ao
aeroporto...
– Não, moreca, o cara que vai comigo vai passar aqui e...
– Isso tá muito esquisito, sabia?
– Não tem nada esquisito, mulher, olha, domingo passo lá na feira da
Liberdade e compro o nosso saquê.
– Alô... alô... não estou te ouvindo... merda de celular.
– Você tá de sacanagem, só pode, troquei o filé mignon por alcatra
só pra comprar as tintas holandesas de que você gosta tanto...
– Alô... alôôôôô.
– Não paguei o judô do Júnior pra comprar aquela camisa da Richards
que você queria...
– Merda de celular... vou desligar... não estou ouvindo nada...
– Vou ligar de novo.
– Não dá, fofa, tô saindo...
– Ouviu agora, né?
– Você deve ter saído do túnel, fica calma, anjo, te ligo mais
tarde, beijo, te amo muito.
– Liga pra onde? A que horas? Alô...
...
Ela
Ele ronca quando bebe, já me acostumei, não acordaria às quatro
horas da madrugada por esse motivo. À noite passada bebeu vinho no
jantar. Ele e papai beberam muito, riram muito, mamãe até comentou
que trocaram “olhares cúmplices, coisa de homens”. Seus roncos já me
impediram de dormir, mas nunca me acordaram. O que me acordou, de
fato, foi a voz dele e ele estava falando no sonho. Não entendi o
que ele dizia, claro. Nem entendo os meus sonhos, como entender os
alheios, ainda mais a trilha sonora deles? Acho que ele disse um
nome de mulher. Por que deveria ser necessariamente de uma amante?
Ele poderia estar sonhando com a personagem de um livro, alguma
cliente, a bilheteira do metrô... Será que esse babaca arrumou
outra? Será que existe outra tão babaca quanto eu? Ele nunca dormiu
uma noite fora de casa, chega sempre na hora do Jornal Nacional,
passa os feriados, os sábados e os domingos estatelado no sofá,
vendo aqueles execráveis vídeos de filmes antigos, relendo Graham
Greene, escrevendo histórias que nunca serão publicadas... Sábado
passado fomos ao shopping e ele comprou um DVD, Fim de Caso. Uma
história do tal de Graham Greene. A história de um marido corno que
divide a mulher com o Ralph Fiennes. Ele insistiu tanto pra que eu
visse o filme com ele que fiquei bastante desconfortável. Essas
coisas de mulher casada que tem amante me causam esse sentimento.
Culpa não, desconforto. Será que ele desconfia de alguma coisa?
Nunca dormi uma noite fora de casa, não saio sozinha nos finais de
semana. Será que falo dormindo? Enfim... Vou tomar um leite morno e
voltar pra cama. Se eu descobrir que esse filho da puta tá me
traindo, me divorcio. Amanhã vou telefonar pro advogado, preciso
saber como entra na partilha o apartamento que ainda não está
quitado.
Ele
Puta merda, onde foi que eu errei? Desde o primeiro dia, naquele vôo
da ponte aérea, ela sabia que sou casado, nunca tirei a aliança,
nunca escondi isso de ninguém. Justiça seja feita: ela nunca
reclamou e eu gostava daquele texto neo-surreal de que o meu
casamento era problema meu, de que eu era casado, não ela, de que
blablablá mais blablablá é igual a blablablá ao quadrado. Nunca
telefonou pra minha casa. Nunca telefonou pro meu celular no final
de semana. Nunca choramingou, reclamou, cobrou. Cobrança, isso
existe mesmo ou é só mais um mote de papo aranha, tipo discutir a
relação enquanto pessoa “a nível de” casal? Aquele dia no Carrefour
foi engraçado. Nós três, cara a cara em frente à prateleira de papel
higiênico. Quase me borrei todo quando ela me pediu que pegasse um
pacote pra ela. E pequei o de florzinhas, perfumado. Um puta segredo
dividido na prateleira de papel higiênico do Carrefour: eu sabendo
que ela usa de florzinhas, perfumado... Fiquei de pau duro
imaginando por onde o papel higiênico desliza e ela deve ter sacado
porque seguiu empurrando o carrinho cheio da minha marca de vinho
predileta e rebolando aquela bunda delirante. Muito hard esse
negócio de eu deixar a chave da casa dela na mesinha. Eu podia
aproveitar esses dias em que ela vai estar em São Paulo e dar uma
chegada lá no apartamento dela. Quem sabe ela arrumou outro, mais
disponível... Não, isso é ridículo, impossível, ela é fiel e só eu
sei que ela usa papel higiênico florido...
A Outra
Por quê? Puta que me pariu, por que eu gosto tanto daquele filho de
uma bela puta? Vou pra São Paulo e vou dar pro primeiro que
aparecer. E pro segundo, pro terceiro... Eu vou dar e ele que se
foda com o Frank Capra e o Graham Greene. Ele que se foda com aquela
escrota de calça cigarette e sandália de plataforma. Eu a vi no
Carrefour. Cabelo pintado em casa, bunda caída, tem cara de tudo
menos de arquiteta. Nunca trabalhou um dia na vida!!! Pra cuidar dos
filhos!!! Até que são bonitinhas, as crianças. A menina parece com
ele, o menino tem cara de nerd. Fiquei olhando pra cara dela, no
meio daquele oceano de papel higiênico, e imaginando que ela tava
bem no décor: merda combina com papel higiênico. Caralho, e a minha
auto-estima? Todos os homens se parecem e todas as galinhas se
parecem também. Fiz tese de doutorado em Literatura Comparada, José
Lins do Rego e William Faulkner e, no entanto, em todas as minhas
crises eu lembro das frases do pentelho do Pequeno Príncipe. Sou uma
incoerência. Uma mulher sofisticada, culta além da média, poliglota,
independente financeiramente, viajada, bem nascida... Sou uma merda
de uma filha da puta capotada na curva, com os quatro pneus arriados
por um cara que tem um apartamento em Botafogo, financiado pela CEF.
Por quê?
O Outro
Será que ela merece isso? Qual é a minha, pô, deveria me perguntar
se eu mereço isso. Ela é bem grandinha, mãe de dois filhos, sabe
muito bem todos os riscos que corre a cada vez que atravessa aquela
porta. Preciso trocar a fechadura, ela tem a chave. Que filho da
puta, eu. Muito mais elegante será pedir a chave de volta. E
devolver o quadro. Só o quadro? E as roupas, o rolex, a grana toda
que ela me emprestou? Melhor não devolver nada, afinal, foram
presentes. Mas e a grana? Aceitei como empréstimo... Melhor mesmo é
ir levando, empurrando com a barriga até ela cansar. Claro que vai
cansar, enganar marido cansa e ela tem aquela coisa toda de menina
de colégio de freira. Tão bobinha. Frágil. Nasceu pra ser esposa,
não amante. Puta que me pariu, o que foi que eu fiz com essa mulher?
Fiz ela gozar, isso vale mais do que o quadro, as roupas, o rolex, a
grana...Amanhã vence a prestação da moto, vou telefonar pra ela logo
que acordar.
Ela & Ele
– Por que aqui?
– Porque foi aqui que nos conhecemos...
– Tem certeza?
– Claro que tenho, como eu poderia esquecer isso?
– É que foi há tanto tempo...
– Nem tanto assim. Sabe, é incrível que nem disso, do lugar onde nos
conhecemos, você se lembre.
– Eu tava de porre.
– Não tava não, ficou depois.
– Depois de quê?
– Como de quê? Você sentou ao meu lado, falou comigo e só depois
começou a beber.
– E te beijei.
– Beijou? Que papo é esse? Você me beijou uma semana depois, no
cinema.
– E qual foi o filme?
– Sexta-feira 13.
– E você teve medo?
– Do seu beijo?
– Não, do Jason.
– Quem é Jason?
– O cara do filme.
– Você lembra do nome do personagem do filme e não lembra que foi o
nosso primeiro beijo?
– Todo mundo sabe que Jason é o personagem de
Sexta-feira 13...
– Pois é, e só eu lembro do nosso primeiro beijo.
– Mas eu lembro que foi a partir daquele beijo que construímos toda
uma vida.
– Uma vida da qual você apagou as lembranças mais bonitas.
– Não fala assim. Que importam as lembranças se eu tenho a certeza
de que é, de que só tinha de ser com você, havia de ser com você...
– Você desafina.
– Vale o conteúdo.
– Que conteúdo?
– A letra da música, senão seria mais uma dor, senão não seria o
amor, aquele que a gente não vê, amor que chegou para dar o que
ninguém deu pra você...
– E você acha mesmo que me deu esse amor todo?
– Eu tenho certeza.
– E eu tenho as lembranças.
– Você fala como se tudo tivesse sido e não fosse mais.
– E não é mais mesmo, acabou.
– Acabou o quê?
– A gente, a gente acabou. Fim.
The end.
– Ta doida? Bebeu? A gente tá aqui, no mesmo barzinho onde se
conheceu, falando do nosso primeiro beijo...
– Eu tô falando disso, coisas das quais você nem lembra, você tá
cantando e se fazendo de morto, como sempre.
– Mas eu tô aqui, sempre estive e não pretendo deixar de estar.
– Acabou, eu tenho outra pessoa.
– Como outra pessoa? Como assim? Você tá tendo um caso?
– Não, eu tô tendo um amor.
– E ele te levou ao cinema pra ver
Sexta-feira 13? Te beijou no
cinema?
– Tô falando sério, vou te deixar.
– E se eu não quiser?
– Não depende de você querer ou não.
– Quem é o cara?
– Você não conhece e isso não importa.
– A minha mulher me diz que tá se mudando pra casa do amante e isso
não importa?
– Acho muito vulgar você tratá-lo por “amante”.
– Acho muito vulgar você me deixar.
– Nos tornamos só um hábito, uma rotina, um cotidiano sem graça.
– Nos tornamos um casal, uma parceria, uma vida, uma história...
– E que, como toda história, tá tendo um fim.
– Isso não pode estar acontecendo comigo!
– Isso está acontecendo com a gente.
– Sabe...
E ela o acaricia no rosto, apaga o cigarro, coloca os óculos
escuros, pega a bolsa, levanta e sai do bar. E ele a acompanha com o
olhar até a porta do bar, dá o último gole no uísque, chama o
garçom, pede a conta e disca o celular.
– Oi, amor, sou eu, hoje eu vou dormir aí.
Ele & Outra
– Dormir aqui?
– É, passar a noite toda, acordar juntinhos, dar beijos com bafo ao
amanhecer.
– E ela?
– Conto quando chegar, aconteceram coisas.
– Escuta, deixa pra amanhã, menstruei, tô de TPM.
– Que porra é isso? Você nunca teve TPM, você nunca deu importância
a essa porra de menstruação.
– Meu ciclo mudou, agora eu dou importância à menstruação e tenho
TPM.
– Escuta, estou saindo de um barzinho, chego em quinze minutos.
– E eu tô de saída, vou ao dentista.
– Dentista? Às nove horas da noite?
– É uma emergência, quebrei o siso.
– Onde é o consultório? Te pego lá.
– Não precisa, é longe, na Tijuca.
– Você vai sair de Ipanema, às nove horas da noite, pra ir a um
dentista na Tijuca?
– Vou de metrô.
– Deixa a chave no vaso de comigo-ninguém-pode, espero você voltar,
faço espaguete.
– Morreu.
– Quem morreu?
– O comigo-ninguém-pode morreu, joguei fora o vaso.
– Então deixa a chave com o porteiro.
– Ele é novo, não confio nele pra deixar a chave da minha casa.
– Tudo bem, fico te esperando na porta.
– Vou demorar, meu bem, depois do dentista eu vou dar uma passadinha
na casa da Lu.
– Da Lu? Mas vocês não brigaram?
– Vamos ficar de bem hoje.
– E tem que ser hoje?
– Tem, tá rolando uma sessão espírita na casa dela, o Guia mandou
recado, pediu pra todo mundo entrar o ano novo em paz, resolver as
pendências, sabe como é...
– Sei, resolvi uma hoje.
– Uma o quê?
– Uma pendência, anjo. Me dá o endereço da Lu, te encontro lá.
– Não pode, é uma sessão só para mulheres.
– E o Guia se chama Luluzinha?
– Como?
– Nada não, tô morrendo de saudade, tenho uma notícia maravilhosa
que vai mudar a nossa vida.
– Nossa vida já mudou.
– Como assim, porra?
– Sabe, conheci uma pessoa quando fui a São Paulo...
– Ah não, hoje não, de novo não...
– O quê?
– Nada, fala, conheceu uma pessoa, e daí?
– E daí que a gente precisa conversar, mas não hoje.
– Sobre a pessoa que você conheceu em São Paulo?
– Não, não, sobre a gente mesmo.
– Escuta, minha mulher me deixou, mudou-se pra casa de uma porra de
um amante com quem ela vinha me corneando sei lá desde quando, tô
fragilizado, tô carente, preciso de você, quero você, te amo...
– Puta que pariu.
– Puta que pariu mesmo, justo hoje você tem dentista e sessão
espírita???
– Tenho sim, mas não é isso, é que me apaixonei por outra pessoa e
acho que a gente deve parar por aqui.
– Você não pode estar falando sério.
– Tô falando sério sim. Não queria dizer isso por telefone, pensei
de a gente ir àquele barzinho onde nos conhecemos, falar do nosso
primeiro encontro, do nosso primeiro beijo... alô... alô... merda de
celular, caiu a ligação.
E ele guarda o celular no bolso, acende um cigarro, chama o garçom,
pede outro uísque. Sexta-feira, 13, 8:45 da noite. Sorri amarelo pra
mulher de vermelho que lhe sorri de volta. Levanta.
– Posso?
Ela & Outro
– Vai sair?
– É, vou, não sabia que você vinha hoje.
– Surpresa, tá feliz?
– Muito, claro, tô sim, mas você nunca veio a esta hora...
– Me dá um uísque? Tenho uma coisa pra te contar.
– Claro, com água?
– Não, puro,
cowboy. Eu o deixei.
– Deixou quem? O uísque? O
cowboy? Deixou o quê?
– Meu marido. Contei pra ele sobre nós, saí de casa, minhas coisas
estão no bagageiro do carro.
– Vai viajar?
– Como viajar?
– Suas coisas no carro, vai pra onde?
– Não vou, vim. Cheguei. Vou ficar aqui. Vamos dormir juntos, dar
beijos com bafo ao amanhecer, por todos os amanheceres...
– Dormir aqui? Minha cama quebrou, vou dormir num hotel.
– Que bobagem, a gente põe o colchão no chão.
– Não vai dar, o colchão foi pro espaço, traças, cupins, insetos, o
bug do milênio...
– Pára, porra, acabei de desmanchar um casamento feliz, de doze
anos, joguei toda uma vida fora pra ficar com você, que merda de
papo de colchão bichado é esse?
– Se o casamento era feliz por que o desmanchou?
– Porque te amo, é com você que eu quero viver o resto da minha
vida, não dá pra entender uma coisa tão simples, porra?
– Senta, se acalma, vamos conversar.
– Conversar o quê? Eu tô aqui, você disse que me queria pra sempre.
– Queria sim, quis um dia, mas a vida prega peças na gente.
– Que peças? Que vida, porra?
– Lembra quando fui a São Paulo?
– Claro que lembro, a exposição, a Bienal...
– Pois é, conheci uma moça.
– E?
– E a gente entrou numa, estamos juntos.
– O quê?
– É, eu ia te contar.
– Mas isso é muita crueldade.
– É não, crueldade foi esse tempo em que fiquei aqui, sozinho,
imaginando você com o seu marido, ouvindo você dizer que não o
largaria, a merda da história do financiamento do apartamento...
– Mas ele quitou o apartamento!
– Minha vida pendurada num financiamento da CEF.
– Mas isso é passado, tô aqui, num tô?
– É tarde.
– Não é não, nem são nove horas ainda.
– Tô atrasado, tenho um compromisso às nove horas, em Ipanema. Faz o
seguinte: volta pra casa, amanhã a gente sai e conversa sobre tudo
isso.
– Não posso voltar pra casa, não tenho mais casa.
– Besteira, volta que ele vai ficar feliz, conversa com ele, diz que
foi um mal-entendido, uma brincadeira, amanhã te telefono e a gente
acerta tudo. Vai.
– Telefona mesmo? A que horas?
– Assim que eu acordar. A gente pode ir almoçar em Petrópolis.
– Sabe, nunca fui ao Museu de Petrópolis.
– Ótimo, vamos amanhã, agora vai.
– E se ele não me deixar entrar em casa?
– Como não? No apartamento que você ajudou a pagar? Na sua casa?
Pensa bem, quem tem que sair de casa é ele, não você. Volta pra
casa, conversa com ele, diga que quer o apartamento, o carro, os
euros, a poupança, o sítio...
– O sítio? Mas o pai dele mora lá.
– Então abre mão do sítio. Telefona pro advogado.
– Que merda de advogado? Não conheço nenhum advogado...
– Tudo bem, eu telefono pra ele, digo que sou seu advogado, converso
com ele sobre a partilha dos bens, depois falo com o Arthur, ele é
advogado e faz o seu divórcio. Em um mês tudo estará resolvido e,
então, a gente pode voltar a se ver. Livres.
– Um mês? Tudo isso?
– Claro, imagina se ele descobre, no meio do processo do divórcio,
que você tem um amante? Você perde até os meninos...
– É, você tem razão...
– Ótimo. Fica combinado assim: de hoje a um mês, naquele barzinho
onde nos conhecemos, onde rolou nosso primeiro beijo...
Ela
Foi numa segunda-feira, às oito horas da noite. Temporal e
congestionamento. Todos os sinas de trânsito congelados no vermelho.
Todas as buzinas tocando a marcha nupcial. Mas a noiva tem que
chegar atrasada! Fecharam o túnel e isso alongava o caminho em mais
meia hora de noiva atrasada. E mais meia hora de flores murchas e
cheiro de naftalina. Era o véu. Todas usaram. O mesmo véu. E todas é
um conceito abrangente que vem desde a avó da avó da avó da mãe de
uma delas. Não sei, sei apenas que todas as cabeleiras cheiraram a
naftalina um dia.
Uma hora e vinte minutos de temporal e a igreja engalanada de
margaridas. Sim, de margaridas porque naqueles idos eu ainda
acreditava que a vida fosse uma sucessão de bem-me-quer,
mal-me-quer... Hoje, eu sei que foi o mal-me-quer quem escreveu a
história.
Mas isso é outra história.
Quanto ao noivo, é só isso, nada a acrescentar ao fato de ele ser um
homem. Decerto que naquele dia de temporal eu, que acreditava nas
margaridas, acreditava ser ele o homem. E mais do que isso me
espanta é que me lembre do que pensava há tantos anos se não me
lembro do que sentia. Do que sentia além de um cansaço enorme
carregando aquele cheiro de naftalina na cabeça.
E foi assim. Um temporal. Um temporal que dura desde aquele dia de
engarrafamento quando se despetalou a margarida.
Amanhã vai fazer sol, cultivarei amores-perfeitos.
Ele
E todas as cores se misturam. Caleidoscópio. Formas desfocadas e
tudo embaçado como se houvesse neblina. Amanhece. Meus olhos ardem e
alguma coisa de gosto salgado arromba meus lábios. De certo, são
lágrimas. Nítido, só o vestido vermelho. Nem ele. A lembrança dele.
E aquela mulher nem combinava com vermelho. Era um tom pastel entre
o azul e o lilás. Dormiu de bruços em meu abraço, ombros largos,
cabelo curto, parecia um homem. Gestos bruscos. Unhas curtas.
Uma nesga do vestido vermelho pra fora da porta do carro. Talvez até
varresse o asfalto. Com fúria, nas curvas. A mesma com que curva,
agora, a minha vida em direção ao nada.
Do nada se fez o nada. Sem motivo. Se chovesse, eu abriria a janela
e acreditaria que meu rosto se molha com os pingos da chuva. Mas vai
fazer sol de verão vermelho.
Talvez ela fosse vermelha e o frágil encantamento com o qual revesti
seus sorrisos a fizesse pálida e entregue. Mas não era. De certo que
não. Se o fosse estaria aqui, ainda. E não está.
Estava perto da janela e olhava o além do infinito. Colocou o copo no
parapeito e procurou um cigarro na bolsa. Ameaçou com a fumaça a
distância que nos separava. Tossiu. Eu ri e ela me viu. Sorriu.
Dançamos e ela cheirava a lilases. Talvez por isso eu pense que não
era vermelha.
Mas foi vermelha no elevador, quando me beijou. Foi azul, quando se
despiu do vermelho. Foi. Acabou.
Volto pra casa e esqueço tudo isso. Compro um vestido vermelho pra
ela. Peço que volte, que corte os cabelos e as unhas. Arrisco que
ela bata a porta e deixe outro rastro de vermelho no azul da manhã.
Talvez eu chore. Talvez.
A Outra
Preciso de olhos de ver por cima
Para que o meu homem me veja na neblina
Preciso de nariz de traço mouro
Para que o meu homem sinta o cheiro das minhas raízes
Preciso de ouvidos de vida alheia
Para que o meu homem ouça as lágrimas dos meus demônios
Preciso de orelhas de elefante
Para que o meu homem me pendure feito brincos
Preciso de boca de pão-de-mel
Para que o meu homem adoce os meus sorrisos
Preciso de dentes de pianola velha
Para que o meu homem morda o sul de mim
Preciso de língua de mulher
Para que o meu homem me faça ser mulher
Preciso de cabelos de Sansão
Para que o meu homem trance rede e me balance
Preciso de cara de paisagem
Para que o meu homem me leve em passeios
Preciso de voz de menestrel
Para que meu homem reinvente a poesia
Preciso de braços de polvo
Para que o meu homem me embarace e vida toda
Preciso de barriga de mulher prenha
Para que meu homem me parta e me reparta
Preciso de pernas de pneu
Para que o meu homem me deslize na banguela
Preciso de pés de gueixa
Para que o meu homem não se perca nos caminhos
Preciso de pau circuncidado
Para que o meu homem me coroe Minha Senhora de Todos os Gozos
Preciso de lágrimas
Para que o meu homem se purifique
Preciso de dor
Para que o meu homem se santifique
Preciso de você
Para que o meu homem me precise.
O Outro
Ê vida canalha!
Ro Druhens Sou quantas sou, eu, a mulher que eu
sou, apenas sou a pena de ser apenas eu. Carioca, perdida no cerrado
central. Prêmio Ferreira Gullar de poesia em língua portuguesa,
1999, primeiro lugar. Participação na antologia Alguns Contistas
Contemporâneos, Editora Uapê, 2000.
blog Cicatrizes:
http://ascicatrizes.zip.net