Hoje não vou trepar com seu ninguém. Pode achar ruim, me bater, ameaçar de não pagar a prestação da máquina e até sair atrás de rapariga, como fez da outra vez. Mas eu não me acostumo. Me amanso às vezes. Mas num me acostumo. Nunca fui mulher de traseiro alegre. Tô cheia de dor nas cadeiras, desmantelo e regras desmastreadas. Faz dez anos qui vivo servindo de penico. Cansei. Tô enojoada. Não agüento mais. Não sei o que esses homens vêem naquela coisa nojenta. Meter aquele troço duro num buraco sujo. E fedorento. Só pensam nisso. Dia e noite. Só sinto dor e vontade de acabar logo. Também nunca me senti satisfatona. Sorte miserável ter nascido mulher. Acordar cedo, fazer café, cuidar de menino pra ir pra escola, fazer almoço, lavar prato, lavar roupa, passar roupa... E quando é de noite tô morta de cansada e vem aquele homem com aquela coisa dura querendo enfiar todo dia. Pra que, eu num sei... E ainda tenho que encher minha barriga de piula chega dá vontade de provocar... Dá também dor de cabeça, tonteira e vista escura. Como se num abastasse a dor nas cadeiras e a daquele pedaço de coisa dura me socando... Entrando e saindo; metendo e tirando quiném mandipilão... Pra no fim escorrer aquela porcaria branca e fedorenta... E eu me levantar de novo... E ir me lavar de novo... E mesmo assim passa a noite escorrendo junto com um escorrimento fedorento a peixe pôde queutem desde quando era moça virge e nunca doutor nenhum acertou cumquié. Já me tratei em tudo qué médico. Faço duas vez por ano um tal de preventivo que num serve de nada. Quéquiadanta preventivo se a doutora passa uma porrada de remédio e eu num posso comprar? Já me lavei até com a casca da aroeira misturada com sal e vinagre... Um dia eu pensei que era pra despejar o vinagre puro dentro da minha xoxota e me queimei toda que levantou umas papoca... Depois a médica ainda foi brigar comigo. Vei com mil ignorança. Perguntou por que eu não botei também alho e pimenta-do-reino... Não explica direito. E depois quéqui a gente aprenda quié pra despejar só o vinagre na água morna... Um dia eu fui perguntar se era mesmo na água morna e ela vei cum mais ignorança ainda: minha filha pode se assentar até dendágua gelada, mas ferva primeiro. Queria ver a bunda branquela daquela égua assentada numa bacia com água gelada. Às duas horas da madrugada. Depois de ter trepado à força só pra amansar macho brabo... E ainda tive sorte de num ter ficado prenha outra vez. Foi num dia que eu me esqueci de tomar a piula e se num fosse um doutor que queria ser vereador e me escutou dois minutos e me deu duas piula preu engolir logo duma vez, já ia no sexto. Quando pari o mais novo tava doida pra mandar fazer ligação. A doutora num quis fazer porque eu ainda sou muito nova. Mas aposto qui ela, qui é mais nova do que eu, e tem dinheiro pra sustentar menino, já desligou as dela há muito tempo... E se eu tivesse dinheiro ela desligava, como eu vi a cumade Luisa qui ajuntou dinheiro um ano todo pra fazer desligamento e num instante fizeram. Tenho pena das minhas filhas. Deviam tudo ter nascido macho como os irmãos. Macho num sofre nada. Só faz aquele vucovuco de noite, despeja aquela coisa grudenta dendagente, vira pro outro lado e dorme quiném animal... Se quando eu tava prenha delas soubesse que iam ser mulher tinha dado um jeito de arrancar nem qui fosse enfiando uma agulha de fazer crochê ou um arame. Mas mulher elas num nasciam...

 
     
 
   
     
   

 

     
 

“Bordo com as mãos os versos que a minha buceta escreve / orgia de desejos”. Escreveu esses versos na tela de proteção do monitor e os deixou correndo enquanto terminava um relatório. Esqueceu de apagar. Desceu para a garagem, apanhou o automóvel e saiu.

Verão. Calor de fornalha. O efeito estufa! A Terra fez uma opção preferencial por esta cidade, para alvo da sua ira. Só pode ser isso!, pensou enquanto dirigia. Ar-condicionado no ponto máximo. Mesmo assim, transpirava. Tirou os sapatos, a calcinha e suspendeu a saia até a metade das coxas. Pelo rádio, entre uma música e outra, escutava as gotas de tempo se escoando antes de o locutor anunciar a hora certa.

Morava em São Conrado. Estacionou na garagem e tomou o elevador direto pra a cobertura. Escancarou as janelas. Uma forte brisa marítima começou a soprar. A paisagem era de tirar o fôlego. Os últimos raios do crepúsculo se refletiam nas águas do Atlântico. O contraste dos matizes provocava arrepios. A combinação do vermelho, do laranja e do amarelo da luz solar com o azul-marinho do oceano compunha um cenário colorido mais deslumbrante do que qualquer arco-íris. Sentia-se testemunha simultânea do berçário e do velório das cores. A silhueta da Pedra da Gávea sugeria, de fato, o mausoléu de um rei fenício.

Nua sob o chuveiro. Esguicho vigoroso da ducha. Jatos mornos escorrendo pela face e depois pelos seios e pelo baixo ventre. Não pôde evitar a livre associação. Acariciou os mamilos eretos. Tocou e massageou longamente os genitais. Penetrou-se com o indicador e o médio, agitando-os ritmicamente. Ondas de excitação perpassavam-lhe o corpo da cabeça aos pés. Orgasmo iminente e frustrado. Soou o interfone. Atendeu no próprio banheiro.

“Seu” Alexandre era um pernambucano diferente. Alto, dolicocéfalo, aloirado, olhos esverdeados. Bonito, mesmo. Quem sabe, um raro remanescente batavo, pouco ou quase nada miscigenado, dos tempos da invasão. Era o contínuo do escritório. Encontrava-se na portaria e pedia permissão para subir. Mensagem urgente do sócio. Trazia ordem para entregar em mãos.

Mal teve tempo de se enxugar. Vestiu um roupão e veio abrir a porta. O homem entrou e trancou-a a chave. Tinha as narinas dilatadas e resfolegava. Esboçou um grito que ele abortou com uma das mãos. Com a outra abriu a braguilha e sacou enorme peça duríssima, longa, roliça e macrocefálica. Amordaçou, algemou e a levou para a cama. Estuprou-a através de todos os orifícios.

Nunca deu queixa na polícia. Nem sequer mandou despedir o empregado.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

No dia em que o menino nasceu, o calor demorou a aparecer. Parecia presságio, no entanto, o parto não teve complicações. A mãe, devota de Nossa Senhora, já tivera outras três. Todas meninas, também chegadas na hora do frio. O pai ajudava. Quando veio a primeira, teve aflição. Daí em diante ganhou experiência. Era até capaz de prever o tempo que faltava, pelo tamanho da abertura. Aparada a criança, a primeira coisa que fazia era apalpar a genitália, antes mesmo de cortar o cordão umbilical. Daquela vez não conteve um grito de alegria. Sempre quis ter um filho homem. Fez-se a sua vontade. Aliás, a vontade de todos: a mulher e as filhas também queriam um menino. Mas o primeiro a reconhecer foi ele. As outras só ficaram sabendo ao ouvir o alarido da sua felicidade.

A mais velha se aproximou para receber o irmão. E, ao dar banho, constatou uma criança forte, de bom peso, do tamanho do cãozinho, que criavam com a fartura das sobras. Radiante, apalpava os bracinhos, as pernas e beijava cada dedo, com carinho maternal. Desenhava a face, sentindo o perfil. Depois, limpou a boca, o nariz, os olhos, os ouvidos. E sorriu, surpresa, quando o bebê segurou firme o seu indicador. Uma feliz coincidência, pensou. E aquela família simples reconheceu que chegara o que faltava.

Moravam em pleno sertão. Eram auto-suficientes. Plantavam e colhiam os alimentos. Teciam as próprias roupas. Andavam de pés descalços. Muito rezavam. O violão passava de mão em mão. A música era o único passatempo. Preenchia o lazer, enfeitava a casa. Nada mais faltava.

À medida que o irmão crescia, as irmãs ajudavam na educação. Ensinaram como distinguir melhor o mundo ao redor, usando todos os sentidos. A desenvolver um raciocínio rápido. E, acima de tudo, cultivar uma intuição, quase um sexto sentido, que os fazia perceber a alma das coisas. Assim, desde cedo, ele aprendeu a reconhecer cheiro de fumaça e a saber que onde ela estava, o fogo também estaria. Cada alimento era identificado pelo sabor e pelo odor. Os utensílios domésticos, principalmente pelo tato. Os animais, pelo som que emitiam, pela textura da pelagem, ou das penas. Como os outros, apurou o olfato. Sentia o prenúncio da chuva no ar. E, como eles, adorava sentir as gotas na face, no corpo, rindo de contente, pela generosidade do seu Deus.

Contudo, aos poucos uma diferença se insinuou entre eles. O menino tinha uma estranheza, umas alucinações, de doido, que ocorriam sempre nas horas quentes. Apavorado, gritava à mãe que as coisas pareciam querer avançar sobre ele. Podia senti-las, de uma maneira inexplicável, sem pegar nelas, sem ouvir, sem cheirar, sem nada. E chorava, o pobrezinho, agarrado a quem perto dele estivesse. E escondia a cabeça até se acalmar. Nas horas frias, o delírio parecia dormir. E ele se aquietava. Voltava a se comportar como todos.

A princípio ficaram bastante preocupados. Porém, com o tempo, acabaram se habituando a conviver com essa inquietude. A vida corria simples. Trabalho e alegria se misturavam. Andavam sempre juntos e de mãos dadas. Tocavam guitarra, cantavam, assobiavam. A felicidade parecia morar ali.

Entretanto, a criança sofria a diferença, calada. E pedia a Deus que o livrasse da tormenta. Desesperado, passou a praticar atos, que faziam diminuir as aparições: voltava o rosto, o mais que podia, em direção à fonte de calor. E assim ficava, além do suportável. Aquilo era uma tortura. Mas permitia um certo tempo sem a angústia das ocorrências. No mais, vivia esperando o tempo passar depressa, para chegar logo a hora do frio. Não suportava ficar sozinho a não ser quando o sereno caía, uma brisa fresca soprava e aquela quentura infernal desaparecia. Só então ele se sentia igual aos pais e às irmãs, pois as miragens desapareciam. Enquanto isso continuava esperando um milagre. O fim daquelas odiosas sensações.

A salvação veio de uma descoberta ao acaso. Era o tempo das novenas da Padroeira. Maio, "fins d’água". Foi um detalhe tão simples, tão fácil, mas que mudou seu entendimento da vida. Começou no fervor da oração, quando, compenetrado, se entregava de coração ao louvor da Santa. Percebeu que quando fazia isso, mesmo durante o período quente, como num passe de mágica, deixava de ter as temíveis alucinações. E fez desse hábito o seu ideal. Adotava rotineiramente aquela atitude. O quanto suportasse, obstinadamente, com a certeza de ter encontrado o caminho. E, quanto mais praticava, mais se igualava aos outros e mais realizado se sentia. Até que, finalmente, chegou à perfeição de conseguir permanecer de olhos fechados e enxergar pra sempre a escuridão.

 
     
 
   


 

           

 

 

Raymundo Silveira
Nasceu em Massapê, vilarejo cearense no Nordeste do Brasil. Cursou a primeira fase do segundo grau no Seminário São José, na cidade de Sobral (CE). A segunda fase (curso científico) se processou no Colégio João Pontes, em Fortaleza. Foi o sexto colocado no concurso vestibular de 1965 para a Faculdade de Medicina da UFC – uma façanha, se forem considerados a feroz concorrência a uma vaga e o seu trabalho de carteiro: seis horas por dia, sem descanso aos sábados ou domingos. Colou grau como médico em de 20 dezembro de 1970.
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