Abriu a porta com cuidado e aumentou o esforço para não fazer o
menor barulho enquanto botava a bicicleta na calçada, o cinto sem
abotoar direito, a gola da camisa a denunciar a pressa em vestir-se
e a preocupação em não acordar ninguém àquela hora da manhã.
Arrumou-se, montou e saiu pedalando, o vento fresco da madrugada
batendo no rosto e ele manobrando livre pela rua larga em direção à
casa de seu professor de música.
A cidade amanhecia à beira de um porto com embarcações do mundo
inteiro atracadas no cais. O casario abria suas janelas e homens e
mulheres se espreguiçavam antes de escancararem as portas dos
estabelecimentos e exibirem tabuletas de preços.
As carroças dos leiteiros passavam tilintando por sobre as pedras
das ruas estreitas do bairro comercial. Apitos de usinas e de navios
misturavam-se ao badalar dos sinos das igrejas, latidos de cães
ouvidos ao longe, tudo pronto para que a cidade abrisse devagar seus
braços.
Uma mulher de preto voltando provavelmente da missa na Catedral viu
quando o rapazinho atravessou a praça, desmontou da bicicleta e
bateu com força a aldabra da porta do professor.
Parte II
A vila dos Industriários, conjunto habitacional onde moravam
famílias de aposentados, ficava nos limites do centro da cidade.
Construída a princípio num grande espaço vazio aonde os circos que
chegavam à cidade armavam suas tendas, às cercanias da Estação
Central da Estrada de Ferro, a vila rapidamente urbanizara-se.
Crianças, velhos, vendedores de rua, uma escola pública, uma
chefatura de polícia, uma loja de tecidos e um armazém de atacados
fizeram daquele antigo espaço lugar intermediário entre o centro e a
periferia com casas de porta-e-janela, cadeiras na calçada,
estudantes nos pontos de ônibus, homens de peito nu às portas de
oficinas acanhadas, de pequenos consertos.
Por trás da estação com todos os ruídos característicos e mais o
cheiro de óleo e carvão, uma boate mal falada fazia brilhar seu néon
na escuridão da noite.
Era esse néon que o ex-combatente fitava nas noites de insônia. As
lembranças iam e vinham como ondas, num tempo recuado de onde ele
emergia correndo como um vencedor, desapartado de seus achaques, de
suas pernas fracas, de sua palpitações.
Fitava o néon e sonhava com seu corpo, músculos de seu corpo, com as
mulheres que amara, com os ganhos que a vida lhe dera.
Fitava o néon enquanto esperava o dia seguinte, os dias seguintes.
Domingo era o dia seguinte e seu vizinho havia chegado de viagem; o
ex-combatente teria novidades, uma prosa que se estenderia até a
noite.
Parte III
Não obstante parecer ter caído do céu, o professor Stock chegou pelo
rio desembarcando ali mesmo de um navio da Booth Line que largara há
um mês do porto de Nova York.
O
Hildebrand trazendo cargas e passageiros atracara quando a cidade
quente e úmida recebia as generosas chuvas de janeiro.
A
princípio atormentado pelo calor e pelos mosquitos, o professor
Stock vagueou um pouco tonto por pensões da zona do meretrício, mas
depois de um tempo não muito longo, organizou seus caixotes, comprou
sapatos novos e alugou os altos de uma livraria bem no Largo da Sé.
Archibald Stock, formado pela Escola de Música de Nova York,
pertencia àqueles tipos a quem a natureza agraciou com um eterno ar
de juventude. A maturidade, longe de marcar-lhe o rosto ou
vincar-lhe o queixo tornando sua fisionomia mais severa,
emprestava-lhe, isso sim, uma inquietação, um riso de surpresa, uns
olhos de ressabiada inteligência.
Como
se isso não bastasse, Archibald Stock, comprido e magro, vestia
calças que sempre ficavam-lhe alguns centímetros acima do
comprimento desejável. Daí, vê-lo ao longe, em largas passadas
atravessando o Largo da Sé, era ver um adolescente em crescimento.
Só
precisou de quinze dias. Preparou-se. Lustrou as velhas tábuas
corridas do grande salão, posicionou o toca-disco Garrard a um canto
e, ao lado dele, sua imbatível coleção de long-plays.
Os
caixotes transformados em bancos e as janelas abertas para a baía,
visão que o deixava inspirado e melancólico, a dose certa para
mantê-lo viajante, a água por perto e sempre por perto as
possibilidades.
A cada
vez que descia as escadarias com estrépito e limpando o suor com as
costas das mãos, os caixeiros da livraria acenavam um “como vai?”
amistoso para o simpático vizinho que falava um mau português.
Havia
os que ardiam de curiosidade, mas para esses o jornal de domingo
esclareceu quase todas as dúvidas:
PROFESSOR STOCK
Da escola de música de Nova York.
Aulas de flauta transversa e trompete.
Largo da Sé, 38
Parte IV
Foi justamente neste anúncio que o olho perscrutador do velho
ex-combatente bateu. O jornal de domingo era sua mania, lia-o de
cabo a rabo começando pelas ocorrências da polícia, movimento das
marés e terminando pelas farmácias de plantão, sem escapar nada.
Pensou no neto, tão aplicado nas aulas do Conservatório, tão afeito
ao instrumento que já manejava com destreza e sentimento (o
confessado orgulho de sua velhice) e na possibilidade de ter aulas
com um trompetista norte-americano. Por outro lado, quem seria o
estrangeiro? Como fora bater com os costados ali naquela cidade? E a
competência?
Foi aí que pensou no seu melhor amigo, o marinheiro Raimundo Paulo
Pinheiro, a quem poderia recorrer.
Parte V
Raimundo Paulo dos Santos Pinheiro era um velho marinheiro de
cabelos cortados à escovinha e rosto vermelho.
Havia
começado a trabalhar ainda rapazinho como prático do Purus, mas há
muito que subia e descia o Amazonas, rota de um vapor que
atravessava o oceano em busca de paragens mais longínquas para
atracar: Hamburgo, Nova York, Liverpool.
Casado
e sem filhos, não lhe custava muito transtorno separar-se tanto
tempo da mulher que vivia entre a Igreja e a família numerosa de sua
única irmã, sobrinhos e sobrinhas que ela transformara em filhos que
não tivera.
Quando
o velho marinheiro retornava das longas viagens, a mulher sorria
envaidecida para a vizinhança que passava a vê-lo consertando
coisas, descansando das travessias.
Além
da mulher – uma beata que sorria para os vizinhos – quem ansiava por
sua chegada era o vizinho da direita, o ex-combatente viúvo que
morava com o neto.
Formais, era bonito vê-los como velhos companheiros que se estendiam
as mãos selando a cada encontro uma amizade que se consolidava a
cada vez que o Hildebrand atracava no porto.
– Bons
ventos...
Esta
era a senha inicial, o mote preciso para que, apoiando melhor as
cadeiras na calçada, os dois homens enveredassem pelos fatos,
paisagens, situações de dentro e fora do navio e em meio à prosa
animada o velho marinheiro oferecesse o regalo de viagem, quase
sempre uma garrafa de bolso de White Horse para o aperitivo de
domingo.
Por
sua vez o ex-combatente repassava o que ficara e sobre quem ficara:
histórias do bairro, a carestia, as últimas da política, os
desmandos.
Notícias da família, curiosidades sobre fatos passados no porto de
Nova York, os progressos do neto, um rapazinho esforçado, estudante
do Conservatório de Música.
Esperou chegar a noite, esperou passar "As últimas do Esporte" e
chegando à janela do velho marinheiro mostrou-lhe o anúncio do
jornal e pediu uns aconselhamentos, pois se o menino ia tão bem com
seu trompete, por que não ficar melhor? Por que não tomar aulas com
um trompetista americano?
Por
outro lado, como certificar-se da idoneidade, da competência e da
probidade desse estrangeiro?
O
velho marinheiro assentiu. Sim, precisava-se saber quem era, de onde
era e foi assim assentindo que o ex-combatente passou-lhe o anúncio
do jornal.
E foi
assim também que o velho marinheiro batendo com a mão aberta na
testa avermelhada soltou um “Oh! Oh! Sim eu conheço esse gringo,
tocava na orquestra do Hildebrand, embarcou em Nova York, sim, sim”.
Parecia-lhe gente direita mas não lhe custaria nada, iriam os três
ao endereço do jornal e tirariam tudo a limpo. Veriam o lugar, as
instalações, levariam o menino.
Foi
nesse exato momento que o ex-combatente confessou ao amigo que o
menino ainda não soubera de nada, mas que de certeza, a idéia não o
desagradaria.
Parte VI
Quando Archibald Stock olhou lá de cima para ver quem batia à sua
porta, reconheceu de pronto o velho marinheiro, seu companheiro de
viagem. Um segundo depois os dois homens e o menino subiam para
serem recebidos pelo professor que os aguardava no topo da escada
esfregando as mãos de contentamento.
O
encontro não poderia ter sido mais efusivo. De início falando em
inglês o professor e o marinheiro deram-se conta em seguida do ar
desconfiado do ex-combatente que se dividia entre olhar por todos os
cantos e tentar entender o que eles falavam. O velho marinheiro
apressou-se em traduzir enquanto o professor esforçava-se em
articular algumas frases em português.
Apresentaram-se. Apresentaram o menino, sentaram-se nos bancos
improvisados, falaram das aulas, viram a casa e o velho marinheiro
esclareceu ao professor sobre a longa amizade que os unia enquanto o
avô do menino sorria envaidecido. Resolvido preço e número de aulas
semanais deram por falta do menino e o foram encontrar de joelhos no
chão, fascinado pela coleção de LPs de Archibald Stock. O menino não
resistiu:
–
Harry James!
– Yes,
Harry James! – disse o professor.
E se
para aquele encontro foi necessário acertar mais algum detalhe,
Harry James intermediou fazendo a ligação que faltava.
Ao se
despedirem e descerem as escadas, A. Stock havia conseguido o seu
primeiro aluno, um rapazinho interessado que, pelo que pudera
avaliar, faria progressos. Nesse instante o sino da Catedral tocou e
o menino olhou para cima em admiração.
No
ônibus de volta para casa o ex-combatente ainda fez perguntas,
queria saber se o professor era casado, viúvo ou solteiro e o
marinheiro repetia que isso ele não sabia embora tivesse uma leve
impressão de que na história de Archie Stock houvera uma noiva
frágil que falecera por envenenamento involuntário.
Depois
ambos chegaram à conclusão de que o professor era muito jovem para a
responsabilidade de uma família. Quanto à chegada na cidade, o
deslocamento entre continentes, o lançar-se ao mar e às viagens,
isso, confirmou o marinheiro, isso devia fazer parte mesmo de sua
alma de artista.
O
menino, contente, pensava na coleção de discos que o impressionara.
Ficou combinado que teria duas aulas por semana, cedo pela manhã,
porque o professor dera preferência ao horário em que a temperatura
estivesse mais amena.
Parte VII
Foi assim que o menino ganhou da noite para o dia um sentido novo em
sua vida.
Neto
único de um ex-combatente aprendera desde muito cedo sobre batalhas,
ataques aéreos, temperaturas baixas e altas tensões. O avô sempre
fora um bom narrador e ensinara-lhe da vida e da guerra, dos
sacrifícios dos vencedores e da tristeza dos derrotados.
Aprendera com ele a correr o dedo por cima dos mapas e diante de um
minúsculo alvo, imaginar a trincheira, o tiro certeiro que fazia
voar pelos ares todas as seguranças.
Mas
preferira sempre a paz que lhe chegava daquelas horas em que, diante
do rádio Pioneer, ouvia as grandes orquestras. Foi assim que
começara a gostar de ouvir Harry James e daí para o trompete e daí
para o bom aluno do conservatório de música.
Mas
naqueles tempos, a Escola era lugar de rigidez e se os meninos não
eram rebeldes, o que fazer com os meninos? Os colegas o queriam para
as brincadeiras, mas para aquele grande salto sobre o mundo, ele
saltava sozinho, caía sozinho e, às vezes, até chorava sozinho.
Foi
assim quando sua mãe casou de novo e mudou-se para o Acre. Como
imaginá-lo feito caixeirinho da loja de tecidos do libanês, seu
padrasto?
Decidiu ficar com o avô ex-combatente, pois acreditava que mesmo sem
a mãe por perto, poderiam ser mais felizes os dois.
Parte VIII
Ao chegar para o que seria sua primeira aula de música com o
professor americano, o menino encontrou um grupo de quatro novos
companheiros acomodados em caixotes, a maneira de bancos, prontos
para ouvir o mestre que primeiramente fez sua própria apresentação
entrecortando com expressões em inglês, o fraseado em português do
qual nada se perdia graças às expressões fisionômicas ali postas
para dissipar qualquer dúvida.
Já foi
dito aqui que o professor Stock alugara os altos de um casarão do
século XVIII. Pois bem, para quem subindo a escada, chegasse por ela
ao seu topo, ao fazer um giro de 180 graus veria, em puro
oferecimento à contemplação, espaços grandiosos que se distribuíam à
direita e à esquerda com generosidade. Em todas as direções o que se
via era uma profusão de portas, salas abertas e desnudas, nudez
envolta em luminosidade fantástica a invadir casa adentro.
Não há
motivos para descrer que o arvoredo secular que rodeava o Largo e o
majestoso edifício branco da Catedral fossem os responsáveis por tão
perfeita obscuridade, uma sombra aqui, um jorro de luz mais adiante,
fagulhas que se multiplicavam incontáveis reverberando nas vidraças,
na construção dos espaços translúcidos onde ficavam as clarabóias.
O
lugar se afigurava uma grande caixa de luz e nessa câmara lúcida
flutuavam cinco meninos aprendizes e um professor de trompete.
Em suspensórios que tornavam mais curtas as suas calças, o professor
Stock pedindo concentração e atenção desapareceu por um instante
para ao cabo de três longos minutos fazer ecoar pela casa, vindo da
cozinha, o som de seu trompete em aproximação gradativa, entrando e
saindo dos aposentos para finalmente surgir, pela porta à esquerda,
ele, o professor, na sala onde estavam os alunos, continuando a
tocar para eles, como se estivesse num palco e a platéia se
constituísse de finas referências.
Por
sua vez, atentíssimos, os meninos não perdiam um só movimento,
nenhuma expressão facial, nenhum fraseado melódico, nada.
Só o
som do instrumento a invadir cada canto derramando-se pelo vasto
chão de tábuas ou a esconder-se, em murmúrios, a cada vão de porta.
Os
meninos cá dentro pareciam encantados. A baía lá fora, escura e
clara a um só tempo, assegurava a permanência e o torpor.
A aula
prosseguiu em sessões de perguntas, observações, metodologias,
estímulos vindos daquele professor inquieto que acabara de tornar
aquele primeiro encontro definitivamente inesquecível. Seguiu-se a
exibição de sua coleção de LPs, grandes orquestras, fotos, livros
sobre a vida de grandes trompetistas para, ao final, presentear com
uma moeda antiga aquele que soubesse o título da canção que ele
havia tocado no início da aula. Só o menino respondeu sem nenhum
esforço porque simplesmente sabia tudo sobre Harry James e "You made
me love you" era um sucesso dele. O professor, visivelmente
satisfeito, aplaudiu.
Parte IX
Os progressos advindos das aulas do professor americano não tardaram
a aparecer. As férias de julho já estavam no final quando começaram
a chegar os convites para apresentações em sociedades artísticas,
quermesses e até, por ocasião do aniversário da cidade, uma audição
sua ao lado do professor, escolhido que fora entre os demais alunos.
A
formação, ou melhor, o recrutamento para a formação de uma orquestra
de uma emissora de rádio a ser inaugurada brevemente e o convite
para que o professor Stock dela fizesse parte deixaram o rapazinho
muito agitado.
O
professor, por sua vez, se apercebia de uma mudança muito maior do
que previra, pois se por um lado a cidade o encantara e muito bem o
recebera, ele próprio começava a acreditar que aquele menino lhe
trouxera muita sorte.
Audaz,
curioso, o aluno aceitava todos os desafios do professor e dia após
dia ia se tornando quase um prodígio. Além disso, estimulava o seu
professor para conhecer pessoas da cidade, como aconteceu com um
poeta a quem, por insistência do menino, o professor Stock foi
apresentado. Não levou muito tempo para que o poeta o transformasse
em membro de um grupo de intelectuais que se reunia uma vez por mês
em uma espécie de estúdio, na periferia da cidade.
Lá
falavam de poesia, de música, de tradução, as coisas do espírito que
tanto faziam bem ao professor Stock e que o deixavam mais
confortável no confronto diário com as pessoas e coisas de uma
cidade pela qual ele começava a se afeiçoar, percorrendo-a em longas
caminhadas de preferência após as chuvas que caíam no princípio da
tarde, com suas galochas, saltando com suas longas pernas as poças
d’água que se formavam nas calçadas quebradas.
Um
tipo curioso, um bom sujeito, uma alma de poeta era o mínimo que
diziam dele os intelectuais, seus amigos, para quem às vezes ele
tocava a pedidos especiais.
Por
causa deles era que, naquela tarde, tirava, na partitura, "I’m
getting sentimental over you" quando o menino chegou esbaforido,
subindo de dois em dois os degraus da escada do professor para
falar-lhe da festa de aniversário, do convite e do pedido de ajuda
para que pudesse executar com perfeição "St Louis’Blues".
Parte X
Ficou sabendo da sua existência ao receber o convite para a festa em
que completaria quinze anos, entregue em suas mãos por seu colega
Túlio Marcus, o próprio irmão da aniversariante.
Ficou
sabendo seu nome porque era impossível não reparar em nome que se
escrevia Maria Thereza Servinthal Ferrer.
Pensando bem jamais vira escrito um nome assim como esse e, na
realidade, sentiu-se orgulhoso por ter sido convidado. Túlio Marcos
era filho de cientista, usava sapatos de verniz e morava em uma
residência oficial dentro de um imenso parque zoobotânico. Tinha
passagens por inglaterras, bélgicas, índias e bahias e como se isso
não fosse suficiente, ainda era alto demais para sua idade e para
sua turma, se o comparássemos à média dos meninos da escola.
Ainda
permanecia parado no meio do pátio da escola e olhava o convite,
fixando o nome, quando Túlio Marcus segurou-o pelo ombro e pediu-lhe
que levasse o trompete, que ele queria fazer uma surpresa para a
irmã que passava o dia ouvindo Harry James.
Naquele excepcional momento pareceu tão alto como Túlio Marcus.
Correu-lhe rápido um frio pela espinha e um aquecimento no rosto
porque se sentiu como a vida toda gostaria de, daí pra frente, ser
reconhecido: um músico, um trompetista, um homem capaz de tocar na
festa de uma menina que atendesse pelo belo nome de Maria Thereza
Servinthal Ferrer. Apertaram-se as mãos.
A
partir desse convite, feito numa sem-graça quarta-feira lá pelas
quatro da tarde, nosso trompetista não teve mais sossego. Ao deixar
a escola, não tinha jeito de voltar pra casa. Queria voltear,
emendar caminho, montar na bicicleta e sair, ir até o Largo da Sé
falar com seu professor, ensaiar, tocar para que ele pudesse
avaliar, porque na noite da festa de aniversário tudo deveria estar
impecável. Andando a esmo, mesmo em direção a casa, parou olhando a
vitrine da Casa Salomão porque lá estava uma linda camisa azul
vestindo um manequim. Vesti-la e entrar na festa, segurando o
trompete com a mão esquerda e com a direita cumprimentando Maria
Thereza era só em que ele pensava.
Duas
semanas o separavam do grande dia e o nervosismo aumentava. O avô,
orgulhoso, não perdia oportunidade de exigir-lhe atenção, ensaios,
limpeza do instrumento e cuidados para esquivar-se das chuvas, não
apanhar resfriado.
Faltando só três dias para a festa foram os dois à Casa Salomão e
compraram a camisa azul e o menino considerou quase tudo perfeito,
mas o melhor e inesperado foi que, quase na véspera, seu querido
professor ofereceu-se para acompanhá-lo, quem sabe não faria um solo
de "Ciribiribin", tal fizera o próprio Harry naquela histórica
apresentação em Nova York?
Poderia haver felicidade maior se avizinhando? A cabeça era um
grande turbilhão e em meio a toda essa ansiedade vinha a imagem de
Maria Thereza a quem ele jamais vira ou fora apresentado. O parque
ele conhecia desde criança, ele e o avô a visitar as lontras, as
araras, o macaco-barrigudo e o altivo gavião-real nas manhãs
calorentas de domingo. O parque fazia parte da sua vidinha simples,
mas pensar que ali entre a bicharada toda existia a casa de uma
menina que ia fazer 15 anos? Uma rainha das selvas... uma menina que
adorava Harry James deveria ser especialmente esguia como uma
palmeira... Teria grandes olhos românticos?
E os
cabelos? Qual a cor dos cabelos de Túlio Marcos? Deu-se conta de que
sua cabeça não lembrava de nada, quem era esse Túlio Marcos a
impedir que a imagem de Maria Thereza aflorasse?
Um
busto de Jane Russell, o penteado de Veronica Lake, pernas de Cid
Charisse, páginas de Cinelândia folheadas para passar o tempo e
chegar logo o dia da festa.
Parte XI
O pequeno e último ensaio foi feito diante das janelas abertas dando
para a baía no velho sobrado do Largo da Sé. Como a noite estava
muito quente, professor e aluno, ambos de peito nu, passaram e
repassaram as peças a serem tocadas, a camisa azul no espaldar da
única cadeira da casa. O professor exibia um suspensório novo e os
sapatos do aluno estavam impecavelmente engraxados. Ao final, sem
que o menino esperasse ou porque estivesse especialmente feliz ou
infeliz, o professor Stock aproximou-se da janela do meio e como se
iniciasse um tributo às águas barrentas da baía tocou como o menino
jamais ouvira e como ninguém jamais ouviria. Era "With a song in my
heart". O menino aplaudiu emocionado, o professor sentou-se para
enxugar o suor do rosto e a noite estava em coroamento.
Meia
hora depois, como ameaçasse cair uma chuva, tomaram um carro de
praça no Largo do Palácio e às 21 horas adentraram os jardins do
parque iluminado onde a família de Maria Thereza recebia os
convidados.
A
figura daquele alto e desengonçado professor ao lado do aluno, ambos
sobraçando seus instrumentos, causou um frisson em todos os
presentes. Túlio Marcos adiantou-se, apresentando-os aos pais e
depois a uma menina franzina, de cabelos encaracolados e óculos de
lentes grossas que era a aniversariante. Sorrisos, mãos estendidas,
garçons e cheiro de jasmim, copos de uísque, a festa havia começado
e alguns pares dançavam ao som de uma eletrola. As tábuas corridas e
as janelas abertas acolhiam as esperanças e os sorrisos. Nenhuma
flor do jardim negava seu perfume, a noite estava esplêndida.
Acomodados em poltronas de vime o cientista acendia o cachimbo
entabulando conversa em inglês com Archibald Stock, enquanto o
menino, de brilhantina nos cabelos, seguia com olhar de admiração um
casal que dançava tango e, aos poucos, também ia se dando conta do
lugar, da casa, de um imenso vaso de cerâmica a um canto, de alguns
colegas da escola, de Maria Thereza e da senhora dona da casa. Na
hora das apresentações nem tivera tempo de reparar melhor mas agora,
sentado a sua frente, jamais vira mãe tão especialmente bela.
Os
olhos românticos atribuídos a Maria Thereza haviam pousado no rosto
da mãe a combinar com um riso muito infeliz mas nem acabou de
concluir o pensamento e já ela estava ao seu lado querendo saber se
ele ia tocar "Shine" e se o filho havia falado de sua paixão por
Harry James. O menino deu-se por perdido, a confusão teria sido
feita por quem?
Disse
que sim, que seu filho havia pedido para tocar sucessos de Harry
James e mais diria, concordaria diante daquele colo branco e
perfumado, do hálito de uísque embriagando-o, da seda que
farfalhava, do aroma que soltava o leque com que ela se abanava.
Virou-se procurando pelo professor Stock, mas o pai de Túlio Marcos
o entretinha com uma conversa em tom baixo e o professor nem podia
desconfiar que o menino havia se perdido na floresta e estava,
agora, sem outra saída, diante da jaula da onça pintada, da
jaguatirica que saltava e abocanhava.
Procurou o lenço no bolso e enxugou o suor. Acuado, tentava
lembrar-se de como tudo começara, de como atravessara os jardins, de
como seu avô ensinara rezar para livrar-se das tentações, de como
viera parar ali naquele salão enorme no meio da floresta.
Tentou
recompor-se. Sim, a "Canção de Setembro" seria a primeira peça a ser
tocada, depois "With a song in my heart" e depois seu professor
faria um solo de "Ciribiribin". Depois... depois ela chegando perto
perto e a música parando e a voz de Túlio Marcos anunciando aluno e
professor.
Foi
uma noite memorável. Alguém pedira "Moonlight Serenade", mas o casal
do tango insistia para que tocassem "I’m in the mood for love". O
professor Stock estava encantado com a festa e com os anfitriões e
orgulhoso de seu aluno com quem dividira os aplausos.
O
motorista da família levou-os em casa. O automóvel percorrendo a
cidade de madrugada dava ao menino a sensação de que anos haviam se
passado e quando amanheceu ele ainda estava de olhos abertos.
Guardou para si o mistério daquele dia com a certeza de que jamais
tocaria como naquela noite.
Naquele mesmo ano foram muitas as cartas recebidas pelo professor
Stock até que ele comunicou aos seus alunos que precisava regressar,
que partiria no próximo navio de volta para o seu país. As aulas
tinham chegado ao fim.
Parte XII
Ao vencer, aos pulos, os dois lances de escada, o menino já se
deparou com os caixotes embalados para a viagem, a mala grande, um
grande barco, o S. Miguel, azul e branco e caixas de papelão,
revistas velhas, uma atmosfera de mudança e tristeza.
O
professor suava em bicas e se atrapalhava empacotando os discos no
que o menino se ofereceu para ajudar, os olhos faiscando por sobre
as capas dos LPs: Yma Sumac, Brahms (concerto para violino) Mario
Lanza, Tito Gobbi e Glenn Miller, Tommy Dorsey, Art Shaw, Benny
Goodman e Harry James.
– Oh,
Harry James! – disse o menino caindo de joelhos com o disco nas
mãos. Passou pela sua cabeça pedi-lo ao professor, tanto era o
desejo de tê-lo, mas não encontrou coragem.
Continuaram na arrumação da bagagem e o menino olhou para o seu
relógio de pulso para perceber que a noite não demoraria a cair.
Mais 15 minutos e estaria tudo pronto.
O
professor pediu licença para tomar um banho e retirou-se,
desaparecendo lá no final do corredor.
O
menino voltou-se para as janelas da frente e olhou os barcos que
passavam. “Lá vai um S. Miguel, um Fé em Deus, um
Estrela-Guia...”, pensou ele livrando-se da camisa para receber
no peito a brisa da baía. Depois se voltou dando as costas para a
janela para ter, pela última vez, a visão do casarão, dos amplos
espaços, dos arcos das portas, do assoalho, da clarabóia, do
corredor sumindo lá para os fundos da casa, do correr de janelas
batendo na hora da chuva.
Um
bico de luz se acendeu na cozinha. Archibald Stock saíra do banho.
Foi nessa hora que veio uma vontade e veio uma certeza: podia descer
as escadas e bater a porta, sair sem se despedir do seu professor.
Mas veio também um desejo que o deixou de mãos frias. Então foi
andando com passo arrastado em direção à cozinha e olhando o
professor Stock com o roupão aberto, saído do banho, teve o desejo
de abraçá-lo. E o fez demoradamente, em despedida.
Naquela noite ele não teve medo de descer a pé até a Praça do
Relógio nem de atravessar para o clipper da Avenida Portugal, onde
pediu um café forte e comprou um maço de Continental. Também não
teve medo de olhar os barcos e demorar-se assistindo a um jogo de
dominó. Quando chegou em casa, tarde da noite, com o disco de H.
James debaixo do braço, a preocupação do avô, sua vociferação e
insônia não fizeram o menor sentido. Pela primeira vez.
Maria Lúcia Medeiros "Eu nasci em Bragança, uma cidade
simples do interior, com um trem de ferro e um rio na frente. Tive,
portanto, uma infância bem brasileira: quintal, primos, frutas,
tios, igreja, cinema Olympia. Em Belém já cheguei quase adolescente
e meus fantasmas viviam sob as mangueiras, nas ruas largas, na
arquitetura imponente de uma cidade de 250 mil habitantes que era
Belém dos anos 50. Quando descobri os livros, descobri um outro
jeito de viver. Personagens, situações, lugares ajudavam meu
aprendizado do mundo. Ler para mim sempre foi uma salvação. Agora,
escrever, acho que sempre escrevi. Lembro que muito menina eu me
recolhia e escrevia, escrevia para mim." (A escritura veloz,
1994)
Maria Lúcia estreou com o livro de contos Zeus ou a menina de
óculos (Roswitha Kempf, 1988). Depois vieram Velas, por quem?
(Cejup, 1990), Quarto de hora (Cejup, 1994) e Horizonte
silencioso (Boi Tempo, 2000).
O conto publicado no Caixote é inédito.