Abro o pesado Livro e registro os fatos tais como aconteceram. As linhas tortuosas denunciam o tremor das mãos exaustas; a pena oscila, em uma quase desistência:

“No princípio, era a Palavra.

E todos, sem exceção, temiam a palavra do padre confessor. Além da palavra, o gesto. Sua figura alta, magra e de aspecto austero impunha, mais que respeito, medo. O olhar profundo, constantemente cravado nas faces juvenis, a procurar pecados inconfessos. A odiosa boca que jamais sorria, de lábios arroxeados como se já não tivessem vida. E as mãos pálidas de dedos finíssimos, as garras de uma harpia que joga com sua caça indefesa. Certamente as vestes, sempre negras, também contribuíram para compor a imagem assustadora. Mas os excessos nas interpretações de meus ensinamentos foram, sem dúvida, as razões principais de tanto temor.

O ambiente, desde logo, é todo voltado para despertar culpa, vergonha e arrependimento. Os acusadores olhos dos santos, do alto de seus nichos, em sua imobilidade perpétua. A pouca luminosidade que irradia dos vitrais multicoloridos, onde anjos e demônios duelam pela alma humana, a confirmar que luz e cor são conceitos diversos. E o silêncio quase absoluto, interrompido apenas pelo eco dos passos ao longo do corredor asséptico. A um canto, o temível confessionário, pequena cela de madeira bruta, com uma tímida grade a separar os pecadores daqueles que se acreditam sacros. Prostrados de joelhos na rigidez de um genuflexório intencionalmente desconfortável, cada um à sua vez, suplicam a benção do confessor. Ouvem a voz de quem se nomeia promotor, juiz e carrasco de minha vontade. Desfila um rosário de acusações, enumerando os pecados cometidos ou intentados, exigindo a confissão como quem arranca das entranhas, a bofetadas, as declarações de um assassino ou de um ladrão. Na ingenuidade própria da inocência, aqueles jovens ignoram que suas consciências carregarão para todo o sempre o estigma de pecadores. A voz acusa, atentaste contra a castidade? Sozinho ou acompanhado? Por obra ou em pensamento? Desobedeceste a pai e mãe? E assim por diante, constrangendo alguns, a outros tornando pálidos e trementes, a não poucos levando às lágrimas. Em todos, no entanto, provocando medo. Acusa, julga e castiga. Impõe as penas. E crê, deste modo, estar cumprindo sua pretensa missão.

Naquela tarde, no entanto, havia algo diferente. O menino, ainda jovem demais para compreender conceitos de culpa e redenção, ajoelhou-se ao lado do confessionário bem como lhe haviam ensinado. A nave da igreja estava vazia. O confessor, ao contrário da crueza e da severidade com as quais costumava tratar suas ovelhas, utilizou-se de paciência e simpatia. Também a penitência aplicada foi diversa das costumeiras. Fez-se acompanhar do pequeno pecador até seus aposentos. E, a sós, tocou-o. Alisou os negros cabelos. Acariciou as faces. Deslizou pelo colo e pelos ombros, desnudando o tórax. E mais além. Beijou o abdômen, a pelve. Com um sorriso nos lábios, despiu o que restava, cobrindo o corpo emagrecido com um breve escapulário. Postou o infante de pé, braços abertos como um Cristo redivivo. E mostrou ao pequeno pecador também sua nudez, fazendo com que o menino repetisse seus gestos na descoberta suja dos corpos. Nesse momento, cerrei meus olhos oniscientes, turvos de vergonha e lágrimas.

Ao final da tarde, despediu seu cordeiro, perdoando plenamente seus pecados, desde que jamais contasse seu segredo. Sob pena de danação eterna, assim na terra como no céu.

Livro, em que ponto perdi o controle?

Terá sido quando permiti que se utilizassem de minha palavra para benefícios próprios? Quando deixei que se matassem em meu nome? Quando vi, impassível, as moedas a encherem as burras eclesiásticas sob minha fiança?

Agora é tarde, Livro, e os registros que traço a ferro e fogo em tuas páginas servirão não apenas como peças de acusação e defesa no julgamento final, mas como confissão de meus crimes em meu próprio juízo.

Sou, eu mesmo, o pecador maior.”

Exausto, afasto as lágrimas, fecho os olhos e o pesado Livro.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

“Até que um dia
O mais frágil deles
Entra sozinho em nossa casa,
Rouba-nos a lua e,
Conhecendo nosso medo,
Arranca-nos a voz da garganta
E porque não dissemos nada,
Já não podemos dizer nada.”
Eduardo Alves da Costa

 
     
 

O silêncio quase absoluto só é quebrado pelo ruído das teclas sendo pressionadas. Escrevo como última e desesperada forma de deixar algum registro para as gerações que virão – se elas existirem. A escrita tornou-se o único meio de expressão, mesmo que clandestino, desde que o governo calou nossa voz. Literalmente.

Primeiro, foi a Lei do Silêncio. Como em um sermão de Niemöller, não fizemos nada, apesar das prisões daqueles que insistiam em se pronunciar contra o regime. Foram arrastados ao cárcere jornalistas, poetas e cantores. Quando começaram a levar também os estudantes e os operários, os advogados e os professores, os médicos e os estivadores – qualquer um que ousasse manifestar uma opinião – é que houve a revolta popular. De início tímida, com o tempo foi tomando vulto. A revolta era ainda mais intensa porque o governo que agora oprimia fora eleito licitamente pela vontade da maioria. Então foram proibidas as reuniões, mesmo as familiares. Como as vozes principiaram a se elevar, foi autorizado o uso da força. Às vozes calaram com tiros e torturas. Mas os mandatários do regime perceberam que não seria possível silenciar a todos desta forma.

Foi assim que o poder central determinou a retirada cirúrgica das cordas vocais de todo o cidadão comum. Depois de cadastrados e apreendidos, todos tivemos extraídos nossos órgãos da voz, gerando o silêncio tão almejado pelos governantes. Não podemos mais expressar nossa opinião. Nossas mulheres já não gritam quando são violadas reiteradamente pelos agentes da repressão. Só percebemos o choro de fome de nossos filhos através das lágrimas inocentes que descem pelas faces pálidas, pois não há um som sequer que saia de suas doloridas entranhas. Não há mais música. Não há poesia. Só silêncio.

O silêncio quase absoluto que só é quebrado pelo ruído dessas teclas. Escrevo enquanto ainda é tempo.

Quando percebeu que começávamos a escrever com vigor cada dia maior, o governo editou a Lei da Escrita. Permite-se apenas aos órgãos oficiais manifestar-se através da palavra grafada. Ao cidadão comum proíbe-se a escrita, sob as penas da lei. Entenda-se execução sumária. Como antes, os mandatários federais perceberam a inutilidade de sua legislação. Os panfletos, os romances e os contos, os sonetos e as elegias, os ensaios e as novelas prosperaram pelos becos escuros, ganhando os corredores das grandes repartições, as linhas de montagem das fábricas, as enfermarias dos hospitais e sanatórios.

Então mandaram arrancar nossos olhos.

Enquanto espero, em silêncio, escrevo minhas últimas e desesperadas linhas como testemunho de toda uma geração, ouvindo o ruído breve do teclado e os passos dos agentes que sobem pela escada.

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Tecnicamente ele está morto, ouvi o homenzinho de branco dizer, certamente apontando para mim, olhos cobertos por vendas de gazes, um tubo enfiado goela abaixo para manter a respiração e um cano no nariz, tudo isso graças ao primeiro tiro que me acertou durante a perseguição, depois de eu ter matado três deles, os idiotas nem tiveram tempo de reagir, era meu AK contra os três-oitão enferrujados deles, mas vacilei e me acertaram primeiro na perna, saí tropeçando, os caras me pegaram e me colocaram dentro da viatura, bateram bastante sem usar os cassetetes e as coronhas, pra não deixar marca, e atiraram bem no meio da minha cabeça como se tivesse acontecido durante o tiroteio, aí me largaram afogando em sangue na porta do hospital pra fazer de conta que estavam me socorrendo, fazendo vez de bonzinhos, os filhosdaputa, achando que eu já era, mas não perceberam que estava vivo, os caras de branco me meteram numa maca, enfiaram este tubo pela garganta, tinha uma mina bombando um tipo de balão de borracha verde que mandava oxigênio pra dentro dos pulmões, soro e sangue nas veias corroídas pelo pó, me deixaram peladão como vim ao mundo, cortando minhas roupas de cima a baixo com uma tesoura sem ponta, e logo me mandaram pra dentro duma geringonça que parecia um túnel, tomografia, ouvi alguém dizer, e dali correndo pra sala de cirurgia, paredes de azulejos brilhantes, azul turquesa e branco por todos os lados, rasparam às pressas meu cabelo descolorido de água oxigenada, em contraste com a pele morena, saco, eu cuido tanto dessa carapinha, a Juliana adora enrolar os dedos nela, eu vendo tudo, apesar de muitos já me darem por finado, não havia dor, só medo, medo, medo e frio, não sentia os braços, as pernas, caralho, será que vou ficar brocha, já vi mano levar azeitona na coluna e nunca mais poder andar nem trepar, de repente uma luz forte, ofuscante, doendo nos olhos, um sol dentro da sala, senti, apesar da anestesia não dormi nem nada, senti mexerem na minha cabeça, um barulho de serra elétrica, lembrei da vez que matei aquele jornalista metido a esperto, só porque trabalhava na Globo, usei uma serra pra separar os braços e as pernas do resto do corpo, caralho, agora não sinto mais meus próprios braços e pernas, será que vou ficar brocha, não vai faltar neguinho querendo comer a Juliana se eu não puder mais comparecer, senti os caras de branco mexendo na minha cabeça, dentro dela, embaralhando as idéias, uma vez vi no Fantástico uma reportagem sobre esse negócio de lavagem cerebral, será que é isso, vão me transformar num zumbi de merda, um robozinho, um escravo do sistema, sim senhor não senhor, ou quem sabe os caras só estão fazendo o lance deles, tentando salvar minha vida de merda, eles nem devem saber quem eu sou nem o que faço pra defender o meu, os meganhas me atiraram aqui dentro sem falar quase nada, não devem saber que transo bagulho pros filhinhos de papai, pros filhos deles mesmos, que eles acham uns santinhos mas quando descobrem um baseadinho de nada no quarto da molecada xingam e brigam e depois vão encher a cara com uísque importado, não devem saber que já apaguei a bala um médico, estão fazendo o deles, tentando salvar essa vida de merda, me tiraram da mesa cirúrgica com um turbante de ataduras na cabeça e agora já estou num salão grande, cheio de aparelhos, gente berrando e gemendo nas camas, outros mudos como se já estivessem mortos, com a pele amarelada, caquéticos, vejo tudo mas não sinto nada do pescoço pra baixo, tem um velho amarrado com lençóis no ferro da cama, do lado de um gordo com um dreno enfiado no meio das costelas, um outro que se sacode todo como se estivesse recebendo a Pomba Gira, até que me vendam os olhos com gaze, queria tirar esse tubo de merda da goela, esse turbante de atadura da cabeça, será que a bala ficou lá dentro, será que me transformaram num zumbi, que vou ficar paralítico e brocha, neguinho que quiser comer a Juliana vai se ver comigo, não sinto as pernas e os braços, não sinto dor, só medo, medo frio e sede, o tempo indo embora, me enfiaram mais um cano pelo nariz, ouço os gemidos e ouço o silêncio em volta, ouço as horas e os dias passando devagar, no salão, o velho, vizinho do gordo, sumiu do mapa, acho que bateu as botas, levaram uns e trouxeram outros, não sei há quanto tempo estou aqui, e agora esse cara vem dizer que estou tecnicamente morto, vejo as paredes de azulejos azuis e brancos, o tempo, o medo, o frio...

 
     
 
   


 

           

 

 

Marcelo Domingues D'Ávila
É médico, tem 34 anos e vive em Sant´Ana do Livramento, na fronteira do RS com o Uruguai. É membro da Academia Santanense de Letras e, no prelo, tem o primeiro livro, um trabalho em contos chamado Encont(r)os e outras histórias, com apresentação de Flávio Moreira da Costa. É casado com a advogada Cláudia e pai da Bruna, que aos 8 anos já começa a escrever seus primeiros contos.