Vinte anos. Ah, os vinte anos. De casados, claro!

Casamos novos. Ela com 19 e eu com 20 anos de idade. Lua-de-mel, viagens, mobílias na casa alugada, prestações da casa própria e o primeiro bebê. Anos oitenta e a moda era ter uma filmadora do Paraguai. Sempre tinha um vizinho ou amigo contrabandista disposto a trazer aquela muambazinha por um preço módico.

Ela tinha vergonha, mas eu desejava eternizar aquele momento. Irrompi na sala de parto com a câmera no ombro e chorei enquanto filmava o parto do meu primeiro filho. Todo mundo que chegava lá em casa era obrigado a assistir o filme. Perdi a conta das cópias que fiz do parto e distribuí entre amigos, parentes e parentes dos amigos. Meu filho e minha esposa eram o meu orgulho.

Três anos depois, novo parto, nova filmagem, nova crise de choro. Como ela categoricamente disse que não queria que eu filmasse, invadi a sala de parto mais uma vez com a câmera ao ombro. As pessoas que me conhecem sabem que havia apenas amor de pai e marido naquele ato. O fato de fazer diversas cópias da fita era apenas uma demonstração de meu orgulho. Nada que se comparasse ao fato de ela, essa semana, invadir a sala do meu proctologista, câmera ao ombro, filmando o meu exame de próstata. Eu lá, com as pernas naquelas malditas braçadeiras, o cara com um dedo (ele jura que era só um!) quase na minha garganta e a mulher gritando:

– Ah! Doutoor! Que maravilha! Vou fazer duas mil cópias dessa fita! Semana que vem estou enviando uma para o senhor!

Meus olhos saindo da órbita a fuzilaram, mas a dor era tanta que não conseguia falar. O miserável do médico girou o dedo e eu vi o teto a dois centímetros do meu nariz. A mulher continuou a gritar, como um diretor de cinema:

– Isso, doutor! Agora gire de novo, mais devagar. Vou dar um close agora...

Alcancei um sapato na mesa e joguei na maldita.

Agora, estou escrevendo este e-mail, pedindo aos amigos que receberem uma cópia do filme, que o enviem de volta para mim. Eu pago o reembolso.

 
 

01/11/04

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Amiga:

Conforme minha promessa, estou enviando um e-mail contando as novidades da minha primeira semana depois de ser transferida pela firma para o Rio de Janeiro. Terminei hoje de arrumar as coisas no meu novo apartamento. Ficou uma gracinha, mas estou exausta. São dez da noite e já estou pregada.

Segunda-Feira: Cheguei na firma e já adorei. Entrei no elevador quase no mesmo instante que o homem mais lindo desse planeta. Ele é loiro, tem olhos verdes e o corpo musculoso parece querer arrebentar o terno. Lindooooo! Estou apaixonada. Olhei disfarçadamente a hora no meu relógio de pulso e fiz uma promessa de estar parada defronte ao elevador todos os dias a essa mesma hora. Ele desceu no andar da engenharia. Conheci o pessoal do setor, todos foram atenciosos comigo. Até o meu chefe foi superdelicado. Estou maravilhada com essa cidade. Cheguei em casa e comi comida enlatada. Amanhã vou a um mercado comprar alguma coisa.

Terça-Feira: Amiga! Precisava contar. Sabe aquele homem de quem falei? Ele olhou para mim e sorriu quando entramos no elevador. Fiquei sem ação e baixei a cabeça. Como sou burra! Passei o dia no trabalho pensando que preciso fazer um regime. Me olhei no espelho hoje de manhã e estou com uma barriguinha indiscreta. Fui no mercado e só comprei coisinhas leves: biscoitos, legumes e chás. Resolvido! Estou de dieta.

Quarta-Feira: Acordei com dor de cabeça. Acho que foi a folha de alface ou o biscoito do jantar. Preciso manter-me firme na dieta. Quero emagrecer dois quilos até o fim de semana. Ah! O nome dele é Marcelo. Ouvi um amigo dele falando com ele no elevador. E ainda tem mais: ele desmanchou o noivado há dois meses e está sozinho. Consegui sorrir para ele quando entrou no elevador e me cumprimentou. Estou progredindo, né? Como faço para me insinuar sem parecer vulgar? Comprei um vestido dois números menor que o meu. Será a minha meta.

Quinta-Feira: O Marcelo me cumprimentou ao entrar no elevador. Seu sorriso iluminou tudo! Ele me perguntou se eu era a arquiteta que viera transferida de Brasília e eu só fiz: "U-hum"... Ele me perguntou se eu estava gostando do Rio e eu disse: "U-hum". Aí ele perguntou se eu já havia estado antes aqui e eu disse: "U-hum". Então ele perguntou se eu só sabia falar "U-hum" e eu respondi: "Ã-hã". Será que fui muito evasiva? Será que eu deveria ter falado um pouco mais? Ai, amiga! Estou tão apaixonada! Estou resolvida! Amanhã vou perguntar se ele não gostaria de me mostrar o Rio de Janeiro no final de semana. Quanto ao resto, bem... ando com muita enxaqueca. Acho que vou quebrar meu regime hoje. Estou fazendo uma sopa de legumes. Espero que não me engorde demais.

Sexta-Feira: Amiga! Estou arruinada! Ontem à noite não resisti e me empanturrei. Coloquei bastante batata-doce na sopa, além de couve, repolho e beterraba. Menina, saí de casa que parecia um caminhão de lixo. Como eu peidava! (Nossa! Você não imagina a minha vergonha de contar isto, mas se eu não desabafar, vou me jogar pela janela!)

No metrô, durante o trajeto para o trabalho, bastava um solavanco para eu soltar um futum que nem eu mesma suportava. Teve um momento em que alguém dentro do trem gritou: "Aí! Peidar até pode, mas jogar merda em pó dentro do vagão é muita sacanagem!"

Uma senhora gorda foi responsabilizada. Todo mundo olhava para ela, tadinha. Ela ficou vermelha, ficou amarela, e eu aproveitava cada mudança de cor para soltar outro. O meu maior medo era prender e sair um barulhento. Eu estava morta de vergonha. Desci na estação e parei atrás de uma moça com um bebê no colo, enquanto aguardava minha vez de sair pela roleta. Aproveitei e soltei mais um. O senhor que estava na frente da mulher com o bebê virou-se para ela e disse: "Dona! É melhor a senhora jogar esse bebê fora porque ele está estragado!". Na entrada do prédio onde trabalho tem uma senhora que vende bolinhos, café, queijo, essas coisas de camelô. Pois eu ia passando e um freguês começou a cheirar um pastel, justo na hora em que o futum se espalhou. O sujeito jogou o pastel no lixo e reclamou: "Pô, dona Maria! Esse pastel tá bichado!"

Entrei no prédio resolvida a subir os dezesseis degraus pela escada. Meu azar foi que o Marcelo ficou segurando a porta, esperando que eu entrasse. Como não me decidia, ele me puxou pelo braço e apertou o botão do meu andar. Já no terceiro andar ficamos sozinhos. Cheguei a me sentir aliviada, pois assim a viagem terminaria mais rápido. Pensei rápido demais. O elevador deu um solavanco e as luzes se apagaram. Quase instantaneamente a iluminação de emergência acendeu. Marcelo sorriu (ai, aquele sorriso...) e disse que era a bruxa da sexta-feira. Era assim mesmo, logo a luz voltaria, não precisava me preocupar. Mal sabia ele que eu estava mesmo preocupada.

Amiga, juro que tentei prender. Mas antes que saísse com estrondo, deixei escapar. Abaixei e fiquei respirando rápido, tentando aspirar o máximo possível, como se estivesse me sentindo mal, com falta de ar. Já se imaginou numa situação dessas? Peidar e ficar tentando aspirar o peido para que o homem mais lindo do mundo não perceba que você peidou?

Ele ficou muito preocupado comigo e, se percebeu o mau cheiro, não o demonstrou. Quando achei que a catinga havia passado, voltei a respirar normal. Disse para ele que eu era claustrofóbica. Mal ele me ajudou a levantar, eu não consegui prender o segundo, que saiu ainda pior que o anterior. O coitado dessa vez ficou meio azulado, mas ainda não disse nada. Abaixei novamente e fiquei respirando rápido de novo, como uma mulher em estado de parto. Dessa vez Marcelo ficou afastado, no canto mais distante de mim no elevador. Na ânsia de disfarçar, fiquei olhando para a sola dos meus sapatos, como se estivesse buscando a origem daquele fedor horroroso. Ele ficou lá, no canto, impávido. Nem bem o cheiro se esvaiu e veio outro. Ele se desesperou e começou a apertar a campainha de emergência. Coitado! Ele esmurrou a porta, gritou, esperneou, e eu lá, na respiração cachorrinho. Quando a catinga dissipou, ele se acalmou. As lágrimas começaram a escorrer pelos meus olhos. Ele me viu chorando, enxugou meus olhos e disse: "Meus olhos também estão ardendo..." Eu juro que pensei que ele fosse dizer algo bonito. Aquilo me magoou profundamente. Pensei: "Ah, é, FDP? Então acabou a respiração cachorrinho..."

Depois disso, no primeiro ele cobriu o rosto com o paletó. No segundo, enrolou a cabeça. No terceiro, prendeu a respiração, no quarto, ele ficou roxo. No quinto, me sacudiu pelos braços e berrou: "Mulher! Pára de se cagar!". Depois disso, ele só chorava. Chorou como um bebê até sermos resgatados, quatro horas depois. Entrei no escritório e pedi minha transferência para outro lugar, de preferência outro país.

Apague este e-mail depois de ler, tá?

Sua amiga, Ana.

 
 

29/11/2004

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Quando soube que o Arnaldo havia quebrado os braços, corri para sua casa. Arnaldo é um amigão. Daqueles de todas as horas, para todos os fins.

Nos conhecemos desde crianças. Ele era aquele garoto grandão do condomínio, que enfiava a porrada em todo mundo. Eu era o menino magricela, aquele que apanha de todo mundo. A cada três surras que o Arnaldo dava, uma era em mim. Mas aquilo era coisa de crianças. Na adolescência, Arnaldo era o garoto bonitão do bairro, que tinha uma bicicleta incrementada e namorava todas as meninas. Até a Aninha, a garota mais feia das vizinhanças, minha namorada, ficava com o Arnaldo, vez ou outra, quando ele não podia sair de casa e ela ia para lá.

Casei com a Aninha, mas o Arnaldo me ajudou a entender que a Aninha não era muito fiel.

Alguns amigos diziam que eu deveria romper a amizade com o Arnaldo, mas eu vejo por outro ângulo. Sem a ajuda dele, eu continuaria casado e infeliz com a Ana. Hoje ela vive sua vida e eu a minha. Às vezes nos encontramos na casa do Arnaldo, mas nos tratamos como bons amigos.

Então, o Arnaldo sofreu um acidente. Algum infeliz derrubou um vaso de plantas de uma das janelas do prédio, sobre o Arnaldo, que passeava tranqüilamente na calçada. Bem a tempo, Arnaldo olhou para cima e colocou os braços para proteger o rosto. Resultado: fraturou os dois braços, perdeu vários dentes da frente e não está podendo falar. Faz sinais com a cabeça e por mímica, acabamos entendendo o que ele quer.

Quando tomei conhecimento da notícia, fui visitá-lo. Cheguei a dar um suspiro de alívio ao vê-lo tão bem. Vários amigos estavam em seu apartamento, mas foi a mim que ele fez o pedido, que ficasse para ajudá-lo. Então fiquei.

O coitado não consegue comer, beber, sentar, nem ir ao banheiro sozinho. Principalmente ir ao banheiro. Você consegue se imaginar com os dois braços engessados até quase o ombro, quase urinando nas calças e não conseguindo fazer nada?

Para ser sincero, dar comida na boca, pegar um copo d’água e colocar um canudo dentro, é fácil. Chato é ir com o cara no banheiro e segurar e balançar o Arnaldinho, como ele chama.

Na primeira vez que me pediu que o ajudasse a ir ao banheiro, procurei por todo o apartamento alguma coisa, até que achei aquela luva de forno, para pegar travessas quentes, sei lá o nome daquele diacho. Mas demorei até achar e, quando voltei ao banheiro, ele já havia se urinado todo. Para ajudá-lo a se vestir, também tenho minhas dificuldades. Para ele colocar a cueca eu a prendo aberta entre duas cadeiras e ele se enfia lá. Vou ficar encostando o rosto em perna cabeluda, nada!

Teve uma vez em que eu estava usando a luva para pegar a travessa de feijão que acabara de aquecer no microondas quando vi que ele queria ir ao banheiro. Na hora em que peguei o "Arnaldinho" com a luva, meu amigo deu um salto. A luva estava muito quente...

Depois a coisa foi piorando. O sujeito no banheiro pedindo que o ajudasse com o papel higiênico, indicando o rolo com o queixo e fazendo: "Ã... ã..."

Quando entendi o que ele queria, fiquei enjoado. Mas estava ali para ajudar. Desenrolei um bom pedaço de papel e estiquei no chão. Expliquei a ele que deveria esfregar a bunda no papel, que seria a mesma coisa.

Ele fez que não com a cabeça, mas não pôde resistir aos meus argumentos e uma rasteira. Caiu sentado bem em cima do papel. Aí, foi só arrastá-lo pelo chão do banheiro, puxando-o pelas pernas. Bem, para ser sincero, como era a primeira vez e ainda não tinha prática, o chão ficou meio lambuzado também. Quando peguei mais prática, depois de esfregar a bunda dele no papel, sem que ele perceba, eu o esfrego naqueles borrões que ficam no chão e este fica limpinho. Só para continuar sendo sincero, devo confessar que o apartamento está com um fedor miserável, mas acho que ele não se incomoda. Bem, eu me incomodo, por isso uso uma máscara de pintor. Ele não pode usar a máscara sobre a boca por causa dos pontos e da inchação, por isso acho que ele não se incomoda com o fedor da casa.

Digo da casa, porque às vezes ele está tão sujo que, ao arrastá-lo sobre o papel higiênico no chão, dou uma esticadinha até a varanda, passando pelo tapete da sala, pelo piso de cimento da área. Tem uma parte da varanda, que ao meio-dia o piso está bem quente. Ele gosta tanto que eu o arraste até lá que seus olhos ficam cheios d’água de gratidão.

Eu bem que já tentei levá-lo até o elevador, para dar uma voltinha lá no playground, mas ele sempre se enrosca na porta da sala e não há modo de fazê-lo passar para fora do apartamento.

Claro que depois da sessão de higiene no papel (e fora dele) ambos ficamos muito cansados. O Arnaldo pesa quase oitenta quilos! Puxar pelas pernas um sujeito tão pesado, arrastando a sua bunda cabeluda no chão, não é nada fácil. Cabeluda? Bem, para falar a verdade, ele está com a bunda lisinha agora. Acho que é o atrito com o piso quente. Dia desses tentei arrastá-lo puxando pelas orelhas, mas é mais difícil e eu me canso logo.

Está fazendo muito calor e achei melhor depilar o meu amigo, para diminuir sua sensação de calor. Mesmo com os braços engessados, resistiu tanto que tive que amarrá-lo a uma cadeira para poder depilar seu peito. Aliás, bem lembrado! Assim que meu amigo melhorar, vou patentear a minha invenção: as Folhas de Depilação Arnaldinho. É o seguinte, eu besunto aquelas folhas de papel laminado com superbonder, colo nos cabelos do peito do cliente e depois é só puxar. É quase indolor!

Para que ele não fique sem banho, eu também tive que bolar um aparelho. Comprei uma vara de bambu e fiz diversos furos. Encho a banheira, coloco o bambu lá dentro até encher os furos. Depois é só bater com o bambu no Arnaldo. Coloco sabão na água da banheira, mergulho o bambu de novo, bato novamente no meu amigo e ele está ensaboado. Depois, é só enxaguar de novo. Ele compreende a minha questão de não tocar suas partes com as mãos, porque ele é homem também. Então, durante o banho, Arnaldo chora de felicidade por ter um amigo tão prestativo.

A alimentação do meu amigo também ficou por minha conta, claro. Eu faço um tutu de feijão maravilhoso. Então, o Arnaldo come feijão com farinha todos os dias. Ás vezes, quando percebo que ele está com prisão de ventre, dissolvo uma lata de azeite no feijão e ele se solta todo. Mas eu desconfio que o cara anda conseguindo comida em algum lugar. O feijão é um alimento que passa compactado pelos intestinos, limpando tudo, empurrando os gases para fora. Mas os flatos de Arnaldo têm um fedor horroroso de ovo de urubu estragado. Nossa! Que catinga terrível! Só para me certificar de que não andava comendo nada diferente, faço um quilo de feijão por refeição e dou tudinho para o meu amigo.

Arnaldo é um camarada muito brincalhão. Então, para que possamos nos divertir, na hora da refeição, encho uma saladeira de feijão com farinha, descarrego meia lata de azeite ou óleo de soja, ou óleo de fígado de bacalhau (aí eu misturo uma garrafa), que é bom para os ossos e pergunto:

– Adivinha o que tem para o almoço?

Ele arregala seus olhos como se estivesse sendo examinado por um proctologista, balança vigorosamente a cabeça de um lado para outro e meio que grunhe:

– Nã-nã-nã-nã...

Isso quer dizer:

– Não, meu fiel amigo! Eu não faço a menor idéia do que seja a maravilhosa refeição que estou prestes a devorar com toda a minha gratidão...

Sei que ele está pensando na gratidão, pois associei suas lágrimas à essa palavra. Depois de comer um quilo de feijão em cada refeição, o estômago de Arnaldo fica dilatado. Acho que o feijão fermenta, forma tantos gases que a barriga dele fica dura e inchada. Espero cerca de uma hora ou duas para ver se ele solta seus gases sozinho. Quando não consegue, amarro suas pernas e sento sobre a sua barriga, violentamente. Ele dá uma gemida e solta todos os gases de uma só vez. Às vezes, quase sempre, sai mais alguma coisa também, mas eu não espero para conferir, porque a catinga é tão forte que chega a arder os olhos dele. Normalmente saio do quarto, fecho a porta e espero meia hora até que o fedor dissipe.

É verdade que outros amigos vêm visitar o Arnaldo, mas sempre o escondo dentro da banheira e digo aos visitantes que ele foi fazer algum exame no hospital, ou está na fisioterapia. Mês passado a mãe dele veio. Elogiou muito a minha atitude solícita de estar ajudando de maneira tão desinteressada um amigo.

Quando preciso sair, para as compras, por exemplo, fico com medo que meu amigo se machuque e amarro suas pernas no lustre da sala. Coloco um facão preso com chiclete no lustre e aviso a ele que, se balançar muito o facão pode cair e ZÁP! Decapitar o Arnaldinho. Meu amigo fica lá, imóvel, não importa quantas horas eu demore. Um dia desses, no mercado, encontrei a noiva dele. Eu lhe disse que estava aproveitando a ida do Arnaldo ao fisioterapeuta para fazer umas compras com o cartão dele. Aliás, nem precisei perguntar a senha, porque é a sua data de aniversário.

Conversa vai, conversa vem, ela disse que precisava me agradecer de uma forma especial, toda a atenção dedicada ao Arnaldo e acabamos em um motel. Passamos a noite juntos. Foi maravilhoso! Ela é demais! Quando lembrei do Arnaldo, já haviam se passado dezoito horas, mas ele estava lá, impávido e faminto!

Para compensá-lo, dei-lhe o dobro de feijão, enquanto contava a maneira delicada que a Priscila encontrou de me agradecer. E ele só:

– Nã-nã-nã...

Que tanto queria dizer:

– Não, meu amigo! Não tenho palavras para agradecer o que está fazendo por mim e pela minha noiva, que está tão solitária...

Mas também queria dizer:

– Não, meu amigo! Não demore a colocar uma colher desse maravilhoso feijão na minha boca!

Os médicos prescreveram apenas dois meses de gesso para Arnaldo. Por minha conta, prorroguei o prazo para seis meses, de início, mas achei que ele precisava de um pouco mais de repouso e continuei tratando dele, mas no oitavo mês, algo aconteceu.

Arnaldo agora está gordo, bem barrigudo. Feijão engorda, sabiam? Eu estava voltando das compras quando vi um carro da polícia defronte ao prédio. Desconfiado, fui até um telefone e liguei para o apartamento do Arnaldo. Uma voz estranha atendeu e desliguei.

Entristecido, pensei:

– É! Ele não precisa mais da minha ajuda.

Fui para a rodoviária e comprei uma passagem para fora da cidade. Algum tempo depois, empregado em uma fazenda, o Arnaldo me encontrou. Não sei como conseguiu.

Me amarrou em uma cama, deixando apenas uma das mãos livres, colocou um laptop ao meu lado e mandou que escrevesse porque o tratei daquele jeito. É o que estou fazendo, enquanto sinto um cheiro de feijão vindo da cozinha...

 
 

16/01/2005

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Ganhei na loteria. Não foi nada o suficiente para dar um pontapé no traseiro do imprestável do meu cunhado e o expulsar da minha casa, ou de largar ele, a irmã dele, minha sogra e os outros sanguessugas que vivem sob as minhas expensas. Nada disso! Para meu pesar, foi apenas um prêmio bom, mas não dava para começar uma vida nova ao lado de nenhuma modelo. O suficiente para comprar um carro popular. Mas que besta seria eu se fizesse isso! Certamente o cunhado convenceria minha esposa a ficar com o carro (que logicamente ele dirigiria), eu continuaria com o meu carro velho e teria as despesas adicionais de combustível, taxas e o que é pior: as multas. Não! Certamente, carro nem pensar!

Reuni a família na sala de casa para discutirmos o melhor destino para o dinheiro. Bem que desejava que fossem apenas os titulares da casa, mas até o cachorro deitou no tapete.

Em rápidas palavras, contei que havia recebido uma certa quantia e desejava saber a opinião de todos quanto ao destino do dinheiro. O primeiro a falar foi o namorado da minha filha:

– O senhor podia fazer um puxadinho na casa e colocar uma porta no quarto da Diana para a frente, assim, nós poderíamos sair e chegar sem perturbar ninguém...

Tenho certeza de que o meu olhar perfurou os olhos do atrevido. Mesmo assim, não pude deixar de colocar minhas convicções em pauta:

– Eu não sei se o seu pai permite que a sua irmã entre e saia de casa sem ser notada, mas aqui em casa a coisa é diferente. E tira a mão da coxa da minha filha!

Não quero ser um pai retrógrado, mas a garota só tem quinze anos! E já tem brinco em tudo quanto é parte do corpo!

Mais que tentando mudar de assunto, minha esposa mandou sua sugestão:

– Poderíamos trocar toda a mobília da casa...

– De novo?! – exclamei. – Ainda nem terminei de pagar as prestações da mobília que compramos quando sua mãe veio morar aqui...

Minha sogra resmungou algo como:

– Tá vendo? Eu não disse que ele reclama de eu estar aqui?

Minha filha mandou pesado:

– O senhor podia pagar a plástica da mamãe. E o implante de silicone...

– O implante de silicone eu já falei: estou juntando o dinheiro para um dos peitos. Depois de três anos juntando mais dinheiro, a gente coloca o outro...

Começou o bate-boca de sempre, que eu era um imprestável, um desalmado e aquelas outras abobrinhas que sempre ouço, até que meu cunhado, em um lampejo de lucidez, sentenciou:

– Olha, gente! Não pode ser uma coisa individualizada, para um ou outro. Nem algo que dure apenas uma semana ou duas, como um passeio. Tem que ser algo para todos e que dure muito... que tal uma piscina?

A algazarra se estabeleceu. Enquanto minha filha e o namorado pulavam, gritando "piscina, piscina", minha sogra deu um beijo na testa do meu cunhado, meu filho caçula ficou pulando no sofá e o cachorro rodava atrás do rabo, estragando o tapete.

Meu cunhado ficou encarregado da construção. Eu bem que fui totalmente contra a idéia, mas sou voto vencido em minha casa. Contratou um grupo de cachaceiros e começaram a cavar. Apenas para encurtar a história, dois meses e quinze mil reais depois, mais exatamente esse fim de semana, inauguramos a piscina. Não sou muito entendido no assunto, mas é a piscina mais horrorosa que já vi. É bem pequena, com horrorosos ladrilhos coloridos. Não tem nada daquelas lajotas azuis ou brancas. São diversas lajotas com o escudo do Flamengo, que é o time do meu cunhado. Em volta da piscina, no "deck", ou melhor "déqui", como ele diz, são metros e metros de lajotas lisas com o escudo do Flamengo. Resultado: ninguém pára de pé à beira da piscina. Se é que posso chamar aquela porcaria de piscina.

Sexta à noite, depois do trabalho, passei no açougue e comprei carne para um churrasco de inauguração do nosso parque aquático, como diz minha sogra. Será que ninguém percebeu que a piscina é do tamanho de uma banheira?

Sábado, seis da manhã, começaram a bater no portão. Tocaram a campainha, mas não está funcionando. Meio sonolento, atendi. Ao abrir o portão, quase caí para trás. Um mundo de gente me empurrando:

– E aí, "seu" Nestor! Viemos inaugurar a piscina...

Eu não conhecia ninguém ali... já foram entrando e se alojando. Ao menos, alguns trouxeram cadeiras de praia.

TABUF! O primeiro escorregão. Era uma senhora enorme de gorda. O ladrilho rachou onde ela caiu. Uma mulher toda emporcalhada de um óleo avermelhado foi ajudá-la a levantar e também caiu. Uma criança com uma câmara de ar de pneu de caminhão pulou na água. Coloquei a mão na cabeça e tive uma idéia. Sorrateiramente, fui até o canil e soltei o cachorro. Esperava que ele mordesse ao menos um. TABUF! Escutei enquanto caminhava para os fundos da casa.

Soltei o cachorro e fiquei aguardando sorridente os gritos que coroariam minha vitória. TABUF! Outro tombo...

Os gritos continuavam, mas nada de pânico. Fui conferir e o desgraçado do cachorro estava nadando na piscina, junto com o povaréu. Fiquei pensando em colocar chumbinho na ração do miserável.

Resolvido, dirigi-me a casa. Quem tivesse convidado aquele pessoal teria que os colocar para fora. Passei por uma turma na cozinha, preparando sanduíches. Fui direto ao quarto, chamar minha esposa. Ela não estava. Entrei no quarto da minha filha para perguntar pela mãe e encontrei o asqueroso do namorado dela deitado na cama. Ela também não estava. Dei um tapa na cabeça do sujeito e mandei que ele ralasse dali.

Abri a porta do quarto da minha sogra no exato momento em que ela jogava os pés para o alto, tentando entrar em um maiô pelo menos uns quatro números menor que o dela. O que vi? Nossa! Só de lembrar me arrepio todo! Foi a visão do inferno! Era algo assim como um misto de barriga, bunda, celulites, duas enormes tetas e muitas varizes. Nada arrumado, se é que me entendem. Ah! E um umbigo enooorme. Certamente era do tamanho da piscina.

Fiquei estático na porta. O terror foi tamanho que o sangue congelou nas minhas artérias. Não conseguia me mexer. Não sei como ela interpretou minha atitude, de ficar ali parado, mas certamente não condizia com a realidade. Me jogou alguma coisa que estava na cabeceira da cama e ficou gritando:

– Sai daqui, tarado! Pervertido!

Ainda com os cabelos arrepiados, saí.

Só nesse momento me dei conta da multidão que circulava pela casa. Um garotinho coberto de óleo e terra, com a mão entre as pernas, mijava no canto da parede da sala.

Segurei o garoto pelos ombros:

– Menino! Você mija na sala da sua casa? Nessa casa tem banheiro, sabia?

Com a cara assustada ele fez que não. Nem deu tempo de saber não o quê. Um sujeito de uns dois metros de altura encostou no mesmo canto e começou a urinar.

Aquilo era demais. Resolvi ir embora de casa. Entrei no quarto e comecei a fazer as malas. Não importava para onde iria. Só queria sair dali. Perdi um tempão procurando as chaves do carro, até que a mulher entrou e avisou:

– Meu irmão foi com uns amigos comprar cerveja e levou o carro...
– Mas a padaria é na esquina!

– Ele foi comprar no mercado, que é mais barato. Aliás, coisa que você devia ter feito ontem.

Lá fora, agora ouvia um pandeiro e um coro de vozes desafinadas:
– Minha egüinha pocotó! Pocotó, pocotó, pocotó... TABUF!

Peguei as malas e sentei na calçada, enquanto esperava o cunhado chegar com o carro. A cada momento chegava uma nova cara. Do lado de dentro do muro, só um som me aprazia: TABUF!

A noite começou a cair e meu cunhado não chegava. Entrei para ligar para a polícia e dar queixa do roubo do carro, mas havia alguém pendurado no telefone:

– É! Uma festa! Na piscina, na casa do Filé...

Filé é o apelido do meu cunhado. Na verdade o apelido era Filão, fui eu quem o colocou. Alguém tirou o aumentativo.

Tentei usar o telefone, mas o sujeito foi taxativo:

– Aqui, mermão! Esperei duas horas prá usar o telefone. Agora vê se espera sua vez na fila...

O pessoal na fila também reclamou. Fila? Foi só aí que eu percebi que tinha fila pro telefone.

O cheiro de urina na sala estava insuportável.

Peguei minhas malas e saí portão afora. Fui para a rodoviária e comprei passagem para o primeiro ônibus para fora da cidade. Enquanto me encaminhava para o embarque, um vendedor de loteria tentou me vender um bilhete e dei-lhe uma porrada.

 
 

09/01/2005

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Minha semana começou assim:

Segunda-Feira: às três da manhã minha mãe me liga para saber o telefone celular do meu irmão. Ainda na cama, peguei os óculos na mesinha de cabeceira, abri a caderneta e passei-lhe o número. Larguei os óculos sobre o leito e adormeci com o telefone na orelha.

Quando estava pegando a caderneta, esbarrei no despertador, que travou sem que eu percebesse.

09:50 h. Acordei sobressaltado com o barulho da empregada na cozinha. Olhei as horas e não acreditei. Saltei da cama lançando os óculos ao chão, quase ao mesmo tempo em que os pisava, quebrando-os. Corri para o banheiro para fazer a barba o mais rápido possível. Estava agendada para as nove horas uma reunião com os gerentes de setor sobre um problema da empresa, intitulado: "A FALTA DE PONTUALIDADE DOS EMPREGADOS E SEU CUSTO PARA A EMPRESA". O tema era meu...

Não me perguntem como, mas fazendo a barba consegui cortar o nariz e metade de uma sobrancelha. Devo confessar que sou quase cego sem os óculos. Tentei consertar usando o lápis de sobrancelha da minha esposa.

A empregada, uma senhora de meia-idade, usa uns óculos de mesmo grau que os meus, ou quase. O chato é que eles são antigos, da época das discotecas. Tem aquele formato de gatinha, aros rosa-choque e pedrinhas coloridas. Mas eu não tinha tempo de passar em um oculista. Afanei os óculos da empregada e saí para a rua. Por vergonha de ser visto dirigindo usando aquela armação, fui de táxi para o trabalho.

Desci na calçada defronte ao prédio exatamente às 10:15 h, na hora em que uma senhora gorda saía da lanchonete com um sanduíche gorduroso, empanturrado de cebolas e catchup. Foi um esbarrão daqueles! A salsicha veio parar no bolso da minha camisa, que ficou toda emporcalhada de cebola e creme de tomate. E eu ODEIO cachorro-quente!

Penalizado com a minha situação, o porteiro gay do edifício me emprestou uma camisa amarela e sua gravata verde abacate.
Eu estava uma pilha. Confesso que quase chorava. Como poderia aparecer diante dos gerentes de toda a empresa vestido daquele jeito e ainda atrasado?

Me deram um calmante e nem pestanejei. Tomei um copo de um refresco de groselha do porteiro para ajudar a engolir.

O porteiro notou que minha calça também estava suja, na altura do zíper. Ali não teve jeito. Tive que lavar mesmo. Para secar mais rápido, coloquei uma folha de jornal amassada por dentro da calça, enquanto subia pelo elevador.

No elevador, examinei a minha figura no espelho e notei que até que não ficara mal com aquela camisa amarela e a gravata verde. Os óculos de aro rosa, em forma de olhar de gatinha, com aquelas pedrinhas coloridas também combinavam com a minha sobrancelha desenhada. E tudo combinava com os lábios rosados pela groselha... na verdade, o elevador estava tão bonito... o mundo era tão bonito... me deu vontade de chorar de felicidade.

11:15 h: Saí do elevador meio cambaleante... que remédio porreta! Acho que eu estava cantando quando entrei na sala de reuniões. O superintendente geral estava na cabeceira da mesa. Fui para minha cadeira, pedindo desculpas a todos pela demora e sentei... no colo de alguém. Era o chefe de RH.

Não sei bem exatamente o que disse durante a reunião, mas o superintendente não parava de me olhar. Até que percebi que havia esquecido de retirar o jornal de dentro das calças. Aquilo me dava um volume monstruoso!

Em algum momento do meu falatório esbarrei no copo d´água à frente de um colega e o líquido se esparramou por sobre suas pernas. Rapidamente, peguei um guardanapo e tentei secar a calça do colega, que deu um tapa nas minhas mãos. Acho que ele pensou que eu o estava assediando.

12:00 h. Olhei para o relógio e não compreendi direito como estava sentado na calçada do prédio. Lembro assim, meio vagamente, de ser arrastado para fora da sala, com o superintendente berrando "FORA! FORA! RUA!..."

Uma senhora passou e jogou uma moeda no meio das minhas pernas.

Um guarda municipal me pegou pelo braço e me arrastou para um ônibus que me levou para um abrigo de mendigos. A língua estava meio presa na boca. Quando tentava falar, meio que grunhia.

No fim da tarde, um grupo de mendigos conseguiu fugir do abrigo e me arrastaram junto. Sentamos em uma praça e ficaram todos conversando. Um grupo de estudantes veio e tirou algumas fotos.

Terça-feira: acordei deitado na calçada, abraçado a um mendigo enorme, que cheirava como um bueiro em dia de chuva.

Minha carteira, dinheiro, relógio, documentos, sapatos, tudo sumira. Ficara apenas com a camisa amarela, a gravata verde, os óculos de gatinha (por que será que não os roubaram?) e a calça com uma mancha enorme, como se eu houvesse me urinado.

Sentei no banco da praça e fiquei pensando em nunca mais voltar para casa. Outra senhora idosa me jogou mais uma moeda.

Estava morto de fome e o mendigo com o qual dormira me trouxe um sanduíche de ovo e uma garrafa de cachaça. Bebi no gargalo mesmo. Devo ter bebido bastante, porque não lembro de mais nada desse dia.

Quarta-feira: Acordei de novo abraçado ao mendigo. Almoçamos juntos e bebemos mais algumas garrafas de cachaça.

Quinta-feira: Passei a noite em claro. Marreta – esse era o apelido do mendigo – passou a noite fora. Foi muita falta de consideração dele. Tivemos uma discussão e ele me bateu. Levantei muito chateado e resolvi voltar para casa.

Quinta à noite: cheguei em casa andando e inventei uma história de que fora seqüestrado. Era mais fácil de explicar.

Sexta-feira: minha foto saiu na capa de uma revista sobre gays abandonados na terceira idade.

Sábado: Minha mulher, meus filhos e a empregada foram embora. O Marreta que fez o almoço. Como ele cozinha mal!

 
     
 
   


 

           

 

 

J. Miguel
É carioca, tem 39 anos de idade e mora no Rio. Estudou no Colégio Pedro II e depois fez Física na Faculdade de Humanidades Pedro II, em São Cristóvão, também no Rio. Lecionou por um período, mas deixou as salas de aula para trabalhar na Petrobrás, onde passou dez anos, até 1998, quando resolveu se dedicar a uma empresa de equipamentos de informática, ramo de atividade com o qual trabalha até o momento.
Editou apenas um livro, lançado em maio de 2004, com o título Contos de vida – e vida após a vida, cujo conteúdo reúne cinco contos relacionando os conhecimentos científicos e a existência de uma vida após a morte.
Vem escrevendo, simultaneamente, um romance baseado na história de Antônio Conselheiro e Canudos; um livro de ficção futurística, a respeito de uma raça de humanóides criada geneticamente para suportar o fim da camada de ozônio e uma guerra entre essa raça e a humanidade; um livro científico a respeito das teorias de formação do Universo, inclusive a semimorta atual, do Big Bang e sua provável substituta, a Teoria das Supercordas e Multiversos (que particularmente pensa tratar-se de uma manobra, apenas para não dar fim à Teoria do Big Bang – o que enterraria muitas mentes soberbas da atualidade) e, por fim, diversos contos curtos, alguns de humor, outros metafísicos.