Gente fina é outra coisa, já disse alguém. E quem pensa que tanto
faz ser bem ou mal educado, não entende nada da vida. O tipo de
fineza a que me refiro tem bem menos a ver com a arte de usar os
talheres certos num jantar de cerimônia, e muito mais com aqueles
pequenos gestos quase imperceptíveis, mas que asseguram a
superioridade do seu executor mesmo na mais terrível derrota. Não
depende de classe social, nível escolar, idade ou raça. Todos nós,
com certeza, conhecemos gente com dinheiro (da nova ou velha
estirpe) que não chega aos pés dos próprios criados.
Mas em casos de amor, é muito comum terminar tudo em barraco,
independentemente da conta bancária. Portanto é sempre de admirar
quando nos deparamos com um caso que foge da regra.
Antero do Vale desde sempre almejara ser um espécie de Jean Cocteau
carioca, e, embora esbanjasse talento, faltava-lhe o traquejo social
necessário. Ao contrário do francês, que foi poeta, cineasta,
dramaturgo, desenhista e romancista de qualidade – e lançou os
igualmente geniais Radiguet e Genet – nosso Antero se especializou
numa só forma de expressão, a fotografia artística, com a qual
acumulou dinheiro e prestígio. Não teve a generosidade, ou a
oportunidade, de alavancar outro artista de renome. Redimiu-se
disso, entretanto, construindo uma pessoa real, Douglas José Soares,
com quem coabitava há pouco mais de dez anos. Até os inimigos mais
ferrenhos concordavam em afirmar que essa relação foi a sua
obra-prima incontestável.
Conheceram-se quando ele era estudante, e o belo Dodô, então pouco
mais que um pivete de classe média, modelo vivo para pintores,
desenhistas e fotógrafos. Era “protegido” do secretário da escola, e
por isso, durante quase dois anos conviveram apenas formalmente.
Antero conhecia cada detalhe de seu corpo, sem nunca tê-lo tocado.
Mas o garoto foi servir o Exército, se afastou, e o tal protetor
entrou em outra. Um belo dia, no Metrô Arcoverde, o acaso fez os
dois se reencontrarem, e foi como naquela música: primeiro olhar,
depois sorrir, depois gostar. O ex-reco foi morar com o fotógrafo,
de quem se tornou assistente, e no correr de um certo tempo, sócio
numa galeria especializada em fotografia.
Por isso causou tanta surpresa o fato de Douglas abandonar Antero
por uma mulher, e logo quem: a já sambada Clarinha Ramos e Castro,
três vezes divorciada de milionários, e mãe de quatro filhos
adolescentes! A notícia se espalhou como uma nuvem de gás venenoso,
das encostas de Santa Teresa à planície da Barra da Tijuca, cobrindo
toda Zona Sul com uma neblina de estranho odor. Já bem de manhãzinha
o telefone tocou na casa de Azambuja, principal informante da coluna
de Edelweiss Develish. Este acordou de má- vontade, assustando-se
com a voz metálica de araponga do outro lado da linha. Era o
Reinaldo, seu amigo dentista.
– Acorda, viado. Tem notícia quente.
Espreguiçou-se bocejando.
– O Dodô da galeria Diafragma fugiu com a dona Clarinha da butique
Chez Madame, depois de ficar uns duzentos anos com o Antero do Vale.
– Como é que é?!
A bomba teve de ser detonada mais duas vezes.
– Tem como confirmar? – resfolegou Azambuja.
– Um amigo meu de confiança, o Zé Maria, professor de mitologia da
Católica, por acaso mora em frente, e soube pelo porteiro. A mudança
já saiu e parece que a secretária eletrônica já dá o novo endereço.
É um furo ab-so-lu-to!
– Gente! Essa é uma fofoca com ph! Edelweiss vai pirar! – e, depois
de uma pausa: – E o pobre do Antero? Ele praticamente inventou esse
bofe!
– C’est la vie, mon cher… Ficou a ver navios. Por mim, quero
que se dane. Sempre achei um metido a besta… A vida inteira me
esnobou, fingindo que não me via. E olhe que estudamos juntos… Certo
dia…
– Querido, agora tenho de desligar pra avisar a coluna. Obrigado,
viu? Quando precisar é só telefonar…
Mas a verdadeira história não foi exatamente como o porteiro contou…
Seis meses antes, numa noite de inverno, o meticuloso Antero reparou
num detalhe que escaparia aos menos sensíveis: o parceiro não ficava
mais excitado antes de tirar a roupa, como no início do
relacionamento. “Há quanto tempo isso vem acontecendo sem eu
perceber?!”, inquietou-se. A partir daí foi como se um brinquedo
quebrasse. Nada voltou a ser como antes. “Nem sente mais tesão
espontâneo. Será que tô ficando velho?”, refletiu com tristeza, no
apogeu dos 39 anos. Acontece que amava o amigo cada vez mais, cada
vez mais para sempre.
Chegou então à conclusão que, para o bem dos dois, era preciso
separar-se. O pássaro estava pronto pra voar. Mas como fazer isso,
delicadamente, se Douglas não parecia perceber nada, continuando a
seu lado, tão solícito e ... tão assíduo? Diante da sua frieza
progressiva, que só o próprio Antero julgara imperceptível, o rapaz,
rejeitado e ciumento, chegara a reclamar, como um cliente mal
atendido.
– Não é nada não. Impressão sua… Depois passa – mentia o fotógrafo,
evasivo e distante.
A melhor solução, decidiu, era fazer o amante se apaixonar por outra
pessoa, e deixá-lo. Numa boa, com futuro garantido. E isso foi
planejado com a mais minuciosa estratégia, digna de um gênio
militar.
“Melhor mulher, pra não haver confronto ou comparações. E com grana,
pra garantir o futuro do rapaz, que ele merece.”
Mas quem?! Antero percorreu diversas vezes sua lista de endereços em
busca de uma amiga disponível. Espremeu o cérebro como uma laranja
para extrair qualquer informação que fosse útil nessa empreitada.
Zélia Simões, a embaixatriz do Distrito Federal no café-society
carioca? Não teria coragem pra enfrentar as críticas. Nelly Nigriti,
a genial pintora naífe de Santa Teresa? Bem que ela ia querer, mas
está arruinada, é tudo fingimento e ostentação. Deborah Randau, a
super economista e executiva de sucesso, tipo belle juive?
Fora de cogitação, muito careta e autoritária. Clementine Roxo?
Puta, reputa e repuputa. Jocasta Negrão de Ficelles? Ninfo. Marina
Moreno, ex-horizontal do eixo Paris-Nova York? Viciada em jogo.
Candinha de Fátima? Drogada reincidente.
Terminava a seleção da próxima exposição da Diafragma, dedicada a
Emerico, fotógrafo da Companhia Walter Pinto de Revistas. Juntando o
sorriso de Mara Rúbia, as pernas da Virginia Lane e o violão da
Nélia Paula, Antero, como um escritor ou pintor, brincava de criar a
mulher ideal. Estava imerso nesse divertimento quando chegou o
convite para a festa anual da condessa Torlato-Favrini, que sempre
abre a saison carioca na sua sensacional cobertura da Avenida
Atlântica, uma semana antes do réveillon.
Na hora marcada, compareceu chiquérrimo com seu terno de linho de
Positano, e Douglas com uma túnica mao-tse-tung de seda imaculada. A
anfitriã, sempre simpaticíssima e ansiosa, de tanta plástica acabara
parecida com um Picasso da fase Dora Maar. Havia gente de todo tipo,
de respeitáveis socialites a expoentes do underground.
Champanhe e drogas leves corriam soltos, ao som do disco dos samba
enredo das escolas do ano. Lá fora, um magnífico pôr-do-sol
assegurava estarmos no Rio de Janeiro.
– Conosce Clarinha Ramos e Castro, carissimo? –
cacarejou a condessa, trazendo pelo braço uma ruiva interessante e
magra, com os belos olhos verdes exoticamente debruados com negro
delineador.
Já se conheciam de nome, e bastaram cinco minutos para se tornarem
amigos de infância. Conversaram como matracas durante toda a festa.
Enquanto Douglas freqüentava outro grupo, Antero exaltava suas
qualidades. Uma hora depois, decidiu: “É a mais forte candidata até
o momento”. Na saída, deu-lhe carona, fazendo questão de deixá-la
sentar ao lado de companheiro. E descobriu que não havia mais volta
atrás ao não sentir ciúmes ao surpreendê-la, pelo espelho
retrovisor, piscar para o rapaz com o rabo do olho. Mas faltavam
ainda duas coisas: investigar seu (dela) passado e fazê-la se
interessar pelo outro, a ponto de assumir a relação. Tinha de agir
rápido.
No dia seguinte, telefonou a Deus e o mundo atrás de maiores
detalhes sobre a nova amiga. Isso demanda uma arte. Certas pessoas
não contam nada se abordadas diretamente, é preciso inventar uma
historinha. Outras já possuem o dom da intriga: basta um peteleco e
soltam logo o verbo. Existem ainda os historiadores informais, que
sabem tudo, mas só falam se consultados oficialmente. Não é um
trabalho fácil. Gastou nisso toda a manhã. Exausto, fechou os olhos
para recapitular.
Maria Clara Imaculada d’Altos Ramos, quase sessentona, mas
aparentando muito menos, carioca. Filha de um famoso político do
Espírito Santo com a herdeira de um industrial alemão. Ex-manequim
dos anos dourados, contemporânea das lendárias Vera, Ilka, Geórgia e
Mila, com o pseudônimo de Zelda (isso pouca gente lembrava). Três
vezes casada. Com um semi-Matarazzo, um Gutierrez Montezuma del Rego
(da aristocracia mexicana), e finalmente um Teixeira e Castro, do
qual estava num processo acelerado de divórcio amigável. O filho
mais velho mora com o pai em São Paulo. O segundo estuda em Londres.
Ela cuida dos caçulas, gêmeos de 14 anos. Dona da butique Chez
Madame, especializada em perfumes importados. Sólida situação
financeira. Bons quadros nas paredes do apartamento em Ipanema.
Casas na serra e na praia. Sem grandes vícios de caráter, fora uma
terrível incidência em separar casais homossexuais, o que realizava
como uma missão na vida. Parecia feita por encomenda.
Dois dias depois, pela manhã, surgiu de surpresa na loja dela, muito
animado.
– Tive uma idéia genial! Uma exposição sobre a moda brasileira dos
anos 60! Guilherme Guimarães! Denner! Zuzu Angel! David Zingg!
Rhodia!
– Maravilha! Sabe que eu tenho bastante coisa? E o que faltar, a
Maria Augusta… Já fui maneca, sabia?
– Pois eu não sei?… Vim exatamente te convidar pra fazer a
curadoria. Não precisa se preocupar com nada, o Douglas faz toda
produção, ele é ótimo nessas coisas… Posso providenciar uma notinha
no jornal?
Ela acabou cedendo. E assim foi se enrolando, pouco a pouco, na
grande teia. Por outro lado, em casa, Antero, cada vez mais frio com
o amante, só falava bem dela, que convidava para jantar duas ou três
vezes na semana. Falavam do projeto, bebiam licores, ouviam música.
De repente, um telefonema estratégico tirava o anfitrião da sala por
cerca de quarenta minutos, deixando os dois a sós. Finalmente um
dia, ao voltar, Antero encontrou a sala vazia.
Douglas voltou tarde da madrugada, e foi recebido por uma cena de
ciúmes daquelas, ao molho de lágrimas de crocodilo. As desculpas não
fugiram do clássico: Clarinha o convidara de repente pra ver o
último Almodóvar, Antero estava num telefonema que parecia tão
importante… Achou que não havia nada de mal em concordar, já que iam
trabalhar juntos… Esticaram numa pizzaria em Ipanema… Depois foram
dançar.
– Guarde essas desculpas esfarrapadas pra você mesmo – foi a frase
melodramática que desencadeou o incidente.
Da surpresa e da humilhação, Dodô explodiu, passando ao
ressentimento escancarado. Berrou que o companheiro de tantos anos
já não gostava dele, que evitava o sexo, parecia estar com nojo, e
por aí começaram as cobranças. Quase partiu pra cima do outro.
Antero manteve-se frio e ambíguo.
No dia seguinte de manhã, atrás da porta, surpreendeu o amigo ao
telefone, contando o caso para a suposta rival. Percebeu que tinha
ganho a parada. Do outro lado da linha, Maria Clara não se conteve,
e balbuciou, com voz rouca:
– Pega logo as suas coisas e venha pra cá i-me-dia-ta-men-te.
Estava feito. Desde que vira Douglas pela primeira vez, fazendo
cooper na Lagoa, cismara: “Esse aí vai ser meu!” Foi a própria
Torlato-Favrini quem se ofereceu para apresentá-la ao Antero,
estrategicamente o caminho mais curto para cercar o objeto do
desejo. “Primeiro envolver o viado, que pode ser perigoso, para
depois chegar ao garotão”, recapitulou. Se funcionou em Ravelo,
quando abiscoitou o escort paulistano daquele famosíssimo escritor
americano, porque não iria funcionar aqui no Rio, essa província?
“São favas contadas, ou não me chamo Maria Clara Imaculada,
gourmet de homem!”
Na festa da condessa lançou sua isca, e, ingênua como só uma mulher
pode ser, acreditou piamente ter conquistado Antero com seu papo
inteligente e levemente irônico. A idéia da exposição trouxe a
oportunidade, e agora estava fascinada por ter novamente um corpo
jovem, quentinho ao seu lado. “Chega de milionários! Viva a
juventude e o pau duro!” Deu um grunhido de prazer, como uma
pantera. O bofe já devia estar a caminho. Arrumou-se um pouco e
resolveu folhear o jornal enquanto esperava. Na segunda página,
gelou. Numa famosa coluna, leu o seguinte:
Maria Clara Ramos e Castro e Dodô Soares, sob o patrocínio de
Antero do Vale, serão os responsáveis pela exposição “Fashionable
sixties”, sobre a moda brasileira nos anos 60. Em breve na Galeria
Diafragma, em pleno bochicho de Ipanema. Aguardem.
Estava criado um incidente diplomático. As partes teriam de se
falar, para evitar um escândalo. Não havia como fugir. Minutos
depois, chegou Douglas, com duas sacolas de couro. Só contou para
ele à noite, depois de uma tarde de diversões carnais, que ninguém é
de ferro. Decidiram telefonar no dia seguinte.
Antero foi muito compreensivo, agradável mesmo, só insistiu numa
coisa. Encontros separados com cada um dos dois pombinhos. E assim
foi feito.
Do alto de seu pedestal, sob um céu ameaçador e música épica,
destinou a Maria Clara apenas quinze minutos, onde ela mal teve
oportunidade de abrir a boca. Saiu com lágrimas nos olhos. Não
transpirou nada dessa conversa, salvo que o projeto da exposição
continuava de pé. Com o ex-namorado o clima foi outro, nostálgico
como um pôr-do-sol em Acapulco, ao som dos boleros e mambos que
cantam amores perdidos. Mise-en-scène meticulosa, onde uma
parte da conversa foi assistida por Rogerinho Posto 6, notório
biscate de salão, que jogava paciência, aparentemente distraído,
numa mesinha da varanda. A preocupação do anfitrião foi basicamente
transmitir uma sensação de segurança. Douglas voltou irritado com a
ironia do amigo, que em tudo espetava seus alfinetes de ouro. Isso o
aproximou ainda mais de Maria Clara, que fazia espertamente a
liberal/compreensiva, toda ouvidos.
Apaixonado pelo seu guru, mas simultaneamente magoado com suas
recentes atitudes, Dodô resolveu encarar o affair Maria Clara
como uma maneira de punir Antero. “Daqui a uns quinze dias ele pede
arrego, eu volto e tudo continuará como antes”, decidiu, adepto da
máxima “ciúme, tempero do amor”. Não previu a possibilidade de algo
imponderável.
Enquanto isso, depois de tudo acabado, Antero se retirara pra casa
de um amigo em Angra dos Reis, onde mandou desligar o telefone.
Morreu quarenta e oito horas depois, de falência múltipla dos orgãos,
sob o efeito anestésico da morfina, depois de ditar o testamento.
Seu médico particular, doutor Aluísio, revelou que o falecido
descobrira um câncer terminal havia seis meses, e recusara qualquer
tratamento, para morrer “com cara de gente”, segundo suas próprias
palavras.
No São João Batista, na beira do jazigo perpétuo, o advogado
testamenteiro entregou, a Maria Clara e Dodô, um pequeno envelope
lacrado pra cada um.
No dela havia apenas uma simples frase: Mulher, cuida bem da
herança que te deixei.
No outro, um resumo de toda a história (foi essa a fonte principal
desta narrativa), terminando com um tudo isso é pra provar como
sempre te amei.
Durante o inventário, confirmou-se Douglas como herdeiro universal.
Tinha agora patrimônio suficiente para ser aceito sem maiores
restrições. A exposição foi um sucesso de público e crítica, com a
presença de tout Rio. Logo depois, o casal embarcou para uma rápida
lua-de-mel em Barcelona.
O plano de Antero acabou assim, coroado num sucesso absoluto,
eficiente e discreto. Uma obra de arte, sem a menor dúvida, pérola
sem jaça digna de um tesouro oriental, provando que gente fina é
mesmo diferente dos outros mortais. Se existem deuses no céu, o que
cuida do enredo das nossas vidas possui com certeza uma elegância
requintada. Merece flores, incenso e mirra. Mesmo que exija, vez por
outra, sacrifícios humanos.
Jango Rodrigues É o pseudônimo artístico de alguém
que prefere manter-se no anonimato. É carioca da Zona Sul, signo de
Câncer e seu orixá é Oxóssi. Nasceu nos anos 1960 mas prefere não
dizer a data exata. Trabalha como jornalista e pesquisador nas áreas
de literatura e cinema. Decidiu agora investir na carreira
literária. Só para desafinar o coro dos contentes.