Primeiro veio o sol. Descobria o lençol da noite e abria a boca. Berrantes: cor e som. Depois vieram umas nuvens claras, brancas que nem algodão doce. Formavam chipanzés, borboletas e bicicletas. Me lembraram as brincadeiras de criança. Depois veio o dia, madurava no pé do tempo a cada minuto parecendo uma bebedeira de vodca velha. Quando tudo é novo, nada azeda. Depois veio a tarde, fugindo do dia claro, assim como as nuvens que ficaram com a cor de chumbo. Por fim, a noite começava a aparecer e embrulhava tudo aquilo, como os médicos embrulhavam Genivaldo e o despejavam no primeiro hospício, como um dejeto, um resto e dele só se ouviam os gritos: “Desembrulhem meu pinto! Desembrulhem meu pinto!”

 
 

Da série Os nanicos, contos em miniatura

 
     
 
   
     
   

 

     
 

O avô contava entre 94 e 95 anos. Uma vista era de vidro, a outra só via metade das imagens. O tumor da próstata já tinha acasalado a medula. A vida do avô partia, mas ele ainda comia empadinhas com guaraná e ria sozinho sentado na cama. O neto chegou, beijou-lhe a testa e lascou a pergunta no seco daquelas mordidas da massa da empada: “Vô, logo-logo você vai, que lição de vida deixa pro neto?” O vô olha ao redor do quarto e pergunta se estão sozinhos, o neto responde sim em gesto com a cabeça e ouve atento: “Você tem é que chacoalhar muito”. “Como assim, vô?” “Chacoalhar, ô catzo! Dar o pulo do gato, o pulo da cerca, trepar, porque no fim o que resta é só isso... o pulo do gato.”

 
 

Da série Os nanicos, contos em miniatura

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Férias de verão. O ônibus cortava as estradas do sertão baiano. A certa altura, suado, roupa colada no corpo, o motorista encosta na beira da estrada. A vegetação espessa do cerrado baiano aguavam de verde os olhos. Aquelas mulheres baianas, com sacolas, caixas, caixotes e um monte de badulaques invadiam o corredor do ônibus. A moça mais nova trazia grudado no ouvido um radinho de pilha e com ele cantarolava feliz, por isso eu vou na casa dela, ai, ai, tá me esperando na janela, ai, ai... Se acomodam. A mulher mais velha pega de dentro de uma lata um pente, e tira da mão da menina o rádio. Depois comanda, menina, seu espelho taí, vai se pentear na janela, vai.

 
 

Da série Os nanicos, contos em miniatura

 
     
 
   
     
   

 

     
 

Sábado é um dia universal. Os outros dias da semana também o são, mas sábado, ah, sábado. É dia que os batistas guardam. Meu sobrinho me perguntava como se guarda um dia. No bolso, na gaveta, no armário? Sábado, disse um dia o poeta Vinícius de Moraes, é dia de sífilis. É dia de tanta coisa. É dia de baile, por exemplo. Noite adulta, o som rolava alto. Tem punk da periferia, tem muamba atravessando a ponte, tem um beijo esquisito na quina do muro. E a turma toda grita, é proibido fumar, não, não, o perneta largou a bengala, tirou o biscoito e beijou a punk. Línguas e piercings, desejos em tripés. Alguém borrifa no muro: o perneta se apaixonou pela punk.

 
 

Da série Os nanicos, contos em miniatura

 
     
 
   


 

           

 

 

Carlos Alberto Francovig Filho
Vencido pelo destino, invisível estrada, sucumbi aos encantos da literatura. Doce ócio. De libra, nasci aos 21 de outubro de 1960. Agora me lanço e lanço livre minha literatura.