Ronaldo sempre foi intuitivo. Eu não, preciso aprender a gostar.

Ele quando via um quadro, emocionava-se naturalmente. Quanto a mim, não conseguia; precisava construir um olhar para admirar. A minha primeira impressão é que nada significa, mas para não passar por ignorante, repetia o que todos diziam:

– Realmente, é muito bonito.

Sinto uma inveja dilacerante, não sou como Ronaldo. Ele disse que tenho que parar de pensar, mas sentir. Não consigo, sou muito pragmático.

Ronaldo escrevia muito bem, não era intelectual, desenvolvia seus textos de acordo com as pulsações do seu coração; gritava em palavras. Eu queria matá-lo, eu o odiava.

Lúcia era esposa de Ronaldo. Ele a conquistou com uma poesia. Mas a amei primeiro e meu amigo a roubou de mim. Era professora de literatura de uma universidade conceituada; adorava estruturar e analisar os textos de Ronaldo.

Um dia, ele me confessou, rindo, que Lúcia interpretava certas coisas, que nunca tinha pensado:

– Eu escrevo por escrever, cara. Não tento buscar significado, só quero sentir. Deixar a emoção me envolver.

Afastei-me. Ronaldo me procurou, eu fingia que estava ocupado.
Ele pertencia a uma família de intelectuais. Os pais queriam que ele seguisse a carreira acadêmica. Mas Ronaldo não quis. Só fez o ensino médio. Foi embora de casa, com uma prancha de surf, algumas roupas e livros. Dizia que quanto mais lia, mais queria viver perto da natureza. Ralou bastante, os pais não o ajudaram. Como era excelente em português, arranjou alguns bicos como professor particular. Estudava a sua maneira, conseguindo dominar a palavra.

Um dia o telefone tocou:

– Alô, quero falar com você

– É que estou ocupado.

– Poxa, sinto saudades de você, cara.

– Desculpa. Conviver contigo me deixa mal.

– Por quê?

– Não queria dizer, mas tenho inveja de você. É intuitivo, inteligente e eu...

– Você tem o seu valor.

– Desculpa, não quero ser mais seu amigo. Fico mal, perto de você.

– Bati com força o telefone.

Tento escrever sobre Ronaldo. Está sendo muito difícil. Lúcia me ligou, perguntando como estava a biografia. Disse que estava indo. Falou que os pais de Ronaldo queriam ler antes da publicação. Concordei.

Ele faz falta. Num dia, foi surfar e nunca mais voltou. A liberdade que tanto almejava o consumiu.

Como fui idiota...

O telefone tocou novamente, era Cláudia. Combinamos de sair juntos.

Adeus, meu amigo. Mais uma vez, desculpa...

 
     
 
   
     
   

 

     
 

O menino pega escondido a caneta de ouro e de estimação do pai. Ele tinha ganho do avô do menino, quando se formou na faculdade:

– Filho, você é dotô, tô orgulhoso.

O garoto corre para o quarto, pega uma folha e começa a desenhar. Depois, vai aos aposentos da mãe. Vê uma echarpe sobre a cama. Gostava de ir à janela para que o vento a esvoaçasse. Imaginava que voava nela, como o Aladin no tapete mágico. Esta echarpe foi um presente de um antigo namorado de sua mãe, quando estava em Paris. Ela nunca deixou de amá-lo, mas gostava do marido também. Aliás, em seu coração havia lugar para os três homens de sua vida...

Ele começa a brincar com carrinho de madeira, que foi feito pelo seu avô paterno; quase não o via. Não sabia o motivo de o avô não visitá-lo, só escutou um comentário da cozinheira:

– O patrão tem vergonha do pai.

Larga o brinquedo, vai ao quarto fechado pela mãe. Pega a chave da porta, que a mãe esconde junto com as jóias. Quando entra no recinto, a primeira coisa que faz é olhar a foto da irmã morta. Era um moça de dezoito anos. Morreu de uma hemorragia... ninguém falava no assunto, o garoto só escutava frases soltas. A foto da irmã foi tirada em Petrópolis, estava com um vestido azul que a avó materna lhe deu de presente. Sobre a cama, havia uma boneca loira de olhos azuis que o pai comprou nos Estados Unidos, quando viajou a negócios. O garoto imaginava que ela era sua princesa. Inventava histórias cheias de aventuras e que era um guerreiro, que a salvava das situações mais perigosas.

De repente, uma xícara se quebra. O grito da mãe o assusta e vai ver o que está acontecendo. Vê o rosto da mãe desfigurado. Ela quase bate na empregada, por quebrar a frágil relíquia. Comprou-a num antiquário em Praga. O vendedor lhe disse que pertencera a um rei famoso de nome complicado. Mas ainda bem que não foi o uísque de doze anos do patrão, presente do embaixador inglês. O salário da empregada seria descontado até o dia de sua aposentadoria.

O pai chegou, veio com o carro que toda vida sonhou ter. Nunca se cansava de olhar a casa, onde vivia agora; era antiga e espaçosa. Lembrava-se de que a mulher lhe dizia sempre:

– Foi habitada por pessoas influentes.

A noite chega e avança, todos foram dormir. O menino adormece com um livro nos braços. Uma antiga babá o lia para ele, quando era mais novo. Quando cresceu, a mãe dispensou os seus serviços. Não queria concorrência... Ele sempre se lembrava da "bá".

 
     
 
   
     
   

 

     
 

"Meu Deus, por que eles fizeram isso comigo? Eu os adoro tanto, até mais que a minha própria vida e família. Desgraçados, vou matá-los. Mas e a minha monografia, tenho que terminá-la logo, para me preparar melhor no mestrado do período que vem. Filhos da puta."

Ronaldo estava na kombi. Pegava esse mesmo transporte para ir ao estágio e à faculdade, que eram muito longe de onde morava. Vivia o dia inteiro fora de casa.

Trabalhava com o professor e orientador de sua monografia. Foi segunda opção. Um outro aluno não aceitou a proposta de estágio, por ter arranjado coisa melhor. Ronaldo era esforçado, fazia de tudo para agradar o professor, mas este nunca o elogiava. Só dizia que seus trabalhos eram fracos e que tinha que melhorar bastante. Mandava Ronaldo refazer tudo de novo.

Ana, a namorada, no início era apaixonada por outro rapaz, só que ele já tinha uma outra. Ronaldo, que sempre gostou dela, consolou-a. Logo, foi a segunda alternativa outra vez. Ele não se importava com essa situação, queria ser feliz. Desde criança vivia a mesma coisa. Era sempre o reserva nas partidas de futebol na rua, onde morava, e até o cachorro, que ganhou de presente de aniversário, primeiro fazia festinha em qualquer um que chagasse com Ronaldo, depois era que brincava com o seu dono.

Um dia, Ronaldo ficou desesperado porque o seu computador havia quebrado. Pediu para usar o de Ana. Ela relutou um pouco, mas vendo o desespero do namorado resolveu deixar. Ronaldo estava digitando o trabalho, bem concentrado, quando o telefone privativo do quarto de Ana tocou. Estava tão absorto que não prestou atenção. Após alguns toques, a secretária eletrônica atendeu. Uma voz conhecida começou a falar. "Essa voz é do meu professor", pensou Ronaldo.

– Ana, você esta aí? Sinto a falta do seu corpo contra ao meu. É a melhor parceira de cama que já tive na minha vida. Vamos nos encontrar de novo?

O rapaz sentiu que o teto desabou sobre a sua cabeça. "Não acredito!! Meu professor orientador e minha namorada tendo um caso!! Vou matá-los!"

Não quis saber mais de nenhum de trabalho, quis vingança. As pessoas que ele mais admirava estavam de sacanagem com ele. "Ela é uma ratinha no cio. Ele é um idiota que só vive do passado. Para ele, a década de 1970 ainda não passou. Se acha o máximo só porque lutou contra a ditadura, fez orgias sexuais e foi para Cuba exilado. Mas isso não quer dizer que seja melhor do que eu, nem a sua geração melhor que a minha!"

Traído e revoltado fez um plano, iria matá-los. Seguiu a namorada até o apartamento do professor, gastou tudo que tinha, pediu um empréstimo aos seus pais, que deram muito a contragosto e roubou a cartela de vale-transporte da empregada para vender no ponto de ônibus. Tudo isso para subornar o porteiro e entrar no apartamento escondido.

Conseguiu entrar. Foi direto ao armário do quarto esconder-se. Ronaldo ficou admirado com a performance do professor. "Como ele faz tudo isso? Quero aprender também, que disposição, é mais velho do que eu e tem muita energia! Ele é inteligente, intelectual e bom de cama, desgraçado! Tanta perfeição me enoja. Com esta faca que estou segurando, vou acabar com toda essa personificação da perfeição!!"

Depois de o casal fazer quase todas as posições do Kamasutra, Ronaldo, que a tudo assistia, se preparava, com a faca na mão, para vingar-se daqueles "traidores nojentos". Contudo, o casal de amantes começou a conversar, alguns assuntos triviais, até começarem a falar de Ronaldo. Ele ficou inibido em atacá-los.

– Ronaldo é um cara legal. Gosto dele, apesar de ser um pouco limitado – disse a Ana.

– É um cara legal, está até melhorando na escrita. Mas ainda está muito ruim.

– Eu falo para ele ler mais. Até tenta, mas lê um minuto e já dorme esgotado. Só consegue ler um livro por ano. Eu disse para ele que deveria ler pelo menos seis livros por ano.

– Você não está sendo muito exigente com ele?

– Eu sou assim, não gosto de mediocridade.

– Ele vai conseguir melhorar, para ser uma pessoa tão culta quanto a gente.

– Tomara que sim, outro dia peguei um filme do Bergman e ele simplesmente dormiu, e até babou, molhando todo o meu ombro.

– Puxa, Bergman é divino!

– Mas ele gosta de filmes do Spilberg e possui uma coleção dos livros do Sidney Sheldon. Fazer o quê, né...

– Não acredito! Precisamos queimar essa coleção para salvar a intelectualidade que está nascendo naquela pobre cabecinha!

– Vamos fazer isso!

Ronaldo ficou apavorado. "Não! Minha coleção de Sidney Sheldon, nem pensar!". Saiu do armário e disse:

– Sei que vocês gostam de mim. Querem me salvar da alienação e do mau gosto. Posso até permitir que vocês controlem a minha vida, mas não vou deixar que vocês destruam a minha coleção do Sidney Sheldon, herança da minha falecida avó Marinalda. – E foi embora.

Ana e o professor ficaram chateados. Não conseguiram iluminar a mente de Ronaldo.

Pela primeira vez quis encontrar o seu caminho, sem interferência de ninguém. Não sabia o que ia fazer, porém desejava ser ele mesmo e não o que os outros diziam para ser.

Chegou em casa, subiu na laje e gritou bem alto:

– SEGUNDA OPÇÃO, NUNCA MAIS!!!.

Os vizinhos olharam assustados, achando que Ronaldo ficara louco. Dona Cleuza, uma senhora bem idosa, disse para uma colega sua:

– Minha filha, esses jovens universitários é tudo maconheiro. Deve ser que o filho da Maria Augusta fumou tanto, que agora tá louquinho da silva.

E assim o dia terminou, com uma nova fofoca para se comentar na rua chamada Sossego.

 
     
 
   


 

           

 

 

Eduardo Oliveira Freire
Acabei recentemente a faculdade de Ciências Sociais. Sou aspirante a escritor. Tenho um projeto de publicar meu livro de contos daqui a quarenta anos.