É estranho como vivemos para nós mesmos. O mundo parece girar em
torno das nossas vontades e, caso não gire como queremos, ficamos
putos da vida. O que menos sei é sobre mim e sobre as mulheres. Sei
as manias dos meus amigos e o preço do cigarro. Sei fazer um belo
macarrão com coisinhas do mar que ficam boas com qualquer idiota
fazendo e sei me apaixonar fácil.
Quando a vi pela primeira e última vez, ela estava linda usando um
tipo de camisa oriental, daquelas que fecham até o pescoço. Tinha
acabado de sair do elevador do hotel onde eu estava hospedado. Tinha
vindo para São Paulo assistir uma pré-estreia de um filme. Eu não
gosto de filmes nem de hotéis. Ficava na Frei Caneca. Esperava um
amigo e apenas estava lá na hora em que ela saiu do maldito
elevador. Seu cheiro era daqueles matadores e sua pele era branca. O
cabelo era curto e preto. Eu tenho um e setenta e cinco de altura e
ela devia ter isso também, só que usava saltos. Era uma gigante com
um belo corpo e um nariz esculpido e uma cara de brava e pouca
maquiagem e com belos peitos levantadinhos e uma bunda que pelo amor
de deus. Maldita bunda. Ela apenas me olhou rápido e eu fui falar
com um amigo que me esperava no lobby.
– Caralho! Você viu aquilo?
– Boa – disse sem ligar muito. – Vamos logo para o Belfiore, estão
esperando a gente lá.
Saímos com um pouco de pressa em direção ao bar. A noite era
chuvosa, chuva fina. Ainda paramos para eu comprar uma latinha de
cerveja no caminho. Meu amigo dirigia rápido como tem que ser. No
som do carro dele, um country tocava alto. Eu esperava ficar
mais alto ainda, com certeza ficaria.
Para chegar ao nosso destino, era preciso pegar a Frei Caneca até o
final, subir um pouquinho a Augusta, direita na Caio Prado, direita
na Consolação atravessando para a esquerda e fazer uma conversão
para seguir pela Amaral Gurgel. Depois era só fazer um caminho
rápido pelo centro e pronto. Ao virarmos pela Consolação, meu amigo
perdeu o controle ou sei lá o que aconteceu e o carro colidiu com um
poste. Foi uma colisão feia e acabei cortando a boca com a lata de
cerveja. Bem na hora da porra da batida eu tomava um gole e não
senti nada. Só um clarão e um arrepiou no rosto. Devo ter batido a
cabeça. Devo ter ficado desacordado. Quando percebi, havia fumaça e
sirenes. Tinha um bando de prostitutas olhando pela janela. Tinha
sangue. Não tinha mais meu amigo do lado. Ele tinha sumido e eu
estava lá cheio de sangue. Tentei tirar o cinto e percebi que na
maior idiotice minha, estava sem. Não tinha colocado o maldito cinto
e por isso estava todo fodido. Tentei abrir a porta e consegui. As
pessoas diziam para eu não me mover e eu mandei todo se foderem. Saí
do carro e sentei no chão. Meti a mão no bolso e acendi um cigarro.
Uma garota se aproximou e perguntou se eu estava bem e eu respondi
que “estava melhor agora”. Ela ficou brava. Perguntei em voz alta se
alguém sabia do meu amigo e ninguém sabia, então levantei e comecei
a caminhar para um ponto de táxi que tinha na frente. Percebi que a
multidão aos poucos foi sumindo. Era só lavar o rosto que em mais
dois minutos estaria tudo normal: voltaria a ser mais um rosto
triste nas ruas de São Paulo, mais um rosto anônimo no meio das
prostitutas e traficantes, por isso que amo essa cidade. Pretendia
voltar a viver logo ali. Assim que meu contrato acabasse.
Antes de pegar o táxi, ainda fui comprar mais uma lata e juntei o
útil ao agradável podendo, depois de consumir na espelunca, lavar
minha cabeça ensanguentada no banheiro. Peguei o táxi e disse o
endereço. Conheço bem a cidade, só fiquei fora uns meses, na
verdade.
Esperava que alguém tivesse lido Cartas a um jovem poeta, do
grande Rainer Maria Rilke. Eu andava pensando nisso. Andava pensando
em quantas pessoas teriam lido. Andava pensando o quanto idiota eu
fui toda minha vida e o quanto continuo sendo. Era dificil viver
sozinho pois tinha descoberto alguns grandes problemas em mim: eu
sempre fui mal educado, destratei as pessoas, fui arrogante quando
tive dinheiro, na escola sempre tive problemas e sempre fui
mentiroso. Por isso estava sozinho. Por isso meu amigo tinha ido me
buscar, porque caso não o fizesse, ninguém faria.
O táxi foi andando devagar. Aquele senhor com cara de italiano,
nariz romano e mancha de molho de espaguete na camisa, não calava a
boca. Falava sobre um dos netos que tinha feito uma besteira que não
me lembro qual era. No meio do caminho mudei de idéia.
– O senhor pode encostar aqui? Preciso telefonar.
– Paga a corrida e eu espero. Mas tem que pagar primeiro.
– Quanto?
– Oito reais.
– Caramba!
– Bandeira dois, filho.
– Tá, tá. – Paguei e ele ia esperar.
Desci e procurei na agenda do meu celular o telefone de uma antiga
namorada. Liguei para ela e ela concordou em me encontrar.
Combinamos na Paulista. Na prainha. São bares em uma travessa que os
paulistas chamam de prainha. Voltei para o carro e o velho italiano
dirigiu até lá com a mesma velocidade e com o mesmo assunto chato.
Chegamos e eu paguei mais quinze reais para o velho. Procurei o bar,
sentei, pedi um submarino e esperei por ela.
As pessoas passavam rápido. Os carros buzinavam e a sexta-feira
estava coberta por chuva fina e recheada com mussarela. Ela chegou
logo. Nos abraçamos forte e aquele abraço foi sincero. Não sei por
que tinha feito aquilo. Nos sentamos e começamos a falar de nossas
vidas. O que andávamos fazendo. Aquilo de sempre. Quando as pessoas
sentem afinidade, não importa nada além do conforto que dividem.
E fomos tomando.
Lembramos do aborto por que passamos e eu fiquei triste. Ela lembrou
da vez em que eu a traí e eu disse que era um troco meu por ela ter
feito o mesmo, ela me jurou que nunca tinha me traído e eu fiquei
mais triste ainda porque, AGORA, sentia que ela não tinha feito nada
do que imaginei. Ela disse que eu fui o único que ela tinha amado e
eu disse o mesmo. Eu ainda a amava e o amor dói quando você pensa.
Nós nos destruímos durante três anos e meio. Uma crueldade atrás da
outra. Um com o outro. Sem o mínimo respeito, nós nos tratamos feito
dois prisioneiros. Tínhamos nos isolado do mundo mas aquilo tudo
tinha sido maravilhoso mesmo com as dores e as lições. Agora
entendia o motivo de estar lá. Entendia que era para esclarecer e
para chorar. Eu a olhei e percebi que ela estava gasta, então
levantei e fui ao banheiro. Olhei meu rosto no espelho. Eu estava
gasto também. Minhas roupas estavam velhas e tinha mais pêlo no
rosto. As entradas no cabelo tinham aumentado e os dentes estavam
mais amarelos. Minha barriga tinha crescido e as rugas ao lado dos
olhos estavam ficando mais nítidas. A vida não tinha parado nem
nunca ia parar.
O que tinha feito todo aquele tempo? Quantos livros tinha lido?
Quanto dinheiro tinha perdido? Quantas relações amorosas? Qual tinha
sido o principal engodo? Naquele banheiro, naquele espelho, me
arrependi do primeiro cigarro que roubei da minha avó, das brigas
com a minha família, das mentiras que contei e de tê-la
reencontrado. Então lavei o rosto e liguei mais um cigarro.
Atravessei o bar todo até a nossa mesa e ela sorriu quando eu
cheguei. Sorriu como sempre fazia. Então ela atendeu o celular e
falou com alguém. Desligou e continuamos falando de tudo o que
passamos e como fomos idiotas, mas no fundo, bem no fundo, eu estava
triste por ela ter concordado que tudo tinha sido uma idiotice.
Agora ela era uma mulher e eu um homem. Nós fomos imaturos. Durante
uma pausa lembrei da minha primeira namorada... chamava Danielle e
ela era minha vizinha e já tínhamos começado a levar vergastadas.
Mesmo jovens. Por onde ela andaria? Comecei a achar aquilo tudo
maluquice. Depois a conversa tomou rumos mais engraçados e começamos
a rir falando de filmes antigos e músicas e shows e bares e toda
essa coisa boa. Falamos do Lula, do dólar e de investimentos.
Falamos do Bukowski e do Kundera. Falamos do trânsito, de um amigo
preso e do meu celular que tirava fotos; dos nossos cachorros, do
patrão dela, dos straight edges, da morte dos Ramones, das
novas tatuagens, da prima grávida, da mãe, do pai morto, do
quarteirão duplo, Bin Laden, Cicciolina, Guinness, trabalho no
exterior, namorado, namorada, pelos, sexo, ânus, pílula
anticoncepcional, ex-namorados e ex-namoradas, adoção e morte.
Gaita, anel, casamento, me dá um cigarro, isqueiro, drogas,
anfetaminas, seios que caem, lingerie, dores estomacais, exame de
toque e sobre a psiquiatra dela. A gente não parava de beber. Ela
tinha começado a beber feito gente grande. Ela não era assim.
Pedimos a conta por volta das quatro. Nem lembro quanto deu. Ela me
deu uma carona para o hotel no Palio verde. O mesmo Fiat Palio verde
que tinha. Chegamos e nós encostamos nossos lábios muito forte. Um
beijo forte e demorado. Sem língua. Um beijo de carinho. Eu quis
chorar mas segurei. Ela passou a mão na minha face e eu fui embora.
Tomei um pouco de chuva atravessando a rua. Mas chuva é bom.
São Paulo. Os prédios. Era tudo que me cobria. Resolvi tomar mais
uma em um bar ali ao lado. Tomei e depois entrei no hotel andando
até os botões do elevador. Lembrei da garota com a camisa oriental.
Pensei em perguntar na recepção mas desisti.
Quanto arrependimento. Que lição levei. Liguei a tv e passava um
filme em que o Jack estripador pegava uma máquina do tempo e
aparecia em São Francisco em 1979. Eu adoro essa coisa de viagem no
tempo. Acho que seria a melhor coisa a ser feita no meu caso.
Acordou e olhou em volta. Parecia tudo normal dentro de seu vidro.
Ele só não aguentava mais aquela solidão. Estava morto fazia dez
anos e vivia recluso, dentro daquele vidro de formol, querendo
sentir uma mulher nua... ou vestida, sei lá. Ele queria conversar
com alguma mulher, queria sentir algum cheiro sem ser o do produto
químico, queria ver algo sem ser aqueles malditos alunos de medicina
que o observavam... aqueles alunos de medicina pareciam tão
distantes de seus amigos de infância, pareciam pessoas de quem ele
nunca seria amigo. Gostava de observar a mulher da limpeza e o vigia
noturno que fazia rondas no laboratório. Imaginava que o vigia
gostasse de uma bebida, talvez ele morresse bebendo também. Era tão
ruím ser morto e objeto de estudos. Era horrível viver solitário em
um vidro cheio de formol.
Não sabia as horas, o dia, ou o mês. Sabia o ano pelos inícios dos
anos letivos. Ele contava. Via os veteranos e os calouros se
confraternizando no laboratório, um pintava o cabelo do outro,
cortvam os cabelos dos novos e faziam as garotas beijarem seu pinto
pelo vidro, seu pinto morto. Ele tinha perdido o tesão pelas vivas.
Estava morto com um pênis enrugado e desativado por Deus ou seja lá
o que for.
Durante as aulas, em algumas aulas, um professor que bebia escondido
no laborátorio, usava-o para a classe assistir e aprender alguma
coisa. Eles anotavam tudo. Cada pinta, sarcoma, quelóide e verruga.
Anotavam o sacro, o plexo, a tíbia e a perônia. Ele não ouvia nada
de dentro do vidro, só sentia um som abafado sempre que o professor
batia a régua de madeira por fora. O professor dava umas batidas lá.
Era uma bela manhã de outono. Ele a viu entrar toda coberta. Ela
posava sobre uma maca celestial branca. Ela era toda branca, menos
os cabelos. Cabelos pretos para caralho. Seu rosto aparentava uns
trinta e poucos. Os homens a trouxeram, tiraram a moça da maca
rapidamente e a colocaram naquela mesa de alumínio. Tiraram o lençol
de modo que ela ficou lá deitada nua. O professor bêbado chegou logo
e a abriu com o bisturi. Em dois minutos ela estava vazia. Vazia
como ele. O professor pegou o telefone celular e fez uma ligação de
segundos. Em cinco minutos a sala estava cheia de alunos. Todos a
olhavam e tocavam com luvinhas cirúrgicas. Ele apenas a olhava de
dentro de sua cápsula. O professor a fechou. Foi toda costurada e
ganhou as amarras que ele tinha também.
A aula terminou e ele não sabia o tempo que tinham levado para
costurá-la. Ela ficou ali sozinha. Os mesmos que a trouxeram
voltaram, ergueram o corpo rijo e subiram no banquinho ao lado do
seu vidro. Tiveram um trabalhão para desrosquear a tampa, mas
abriram e a jogaram dentro da cápsula. Ela estava ali para ele.
Ganhou uma morta só para ele.
Na hora que estavam fechando, ela abriu os olhos. Ele sorriu e ela
fez a parte esquerda da boca para baixo e os olhos olhando para
cima, na direita. A mesma expressão que fazia para os espertinhos
que vinham oferecer bebida ou falar alguma besteira. Desdém. Foi
isso. Desdém. O sorriso dele aumentou. Pôde ver a boca dela mexer.
Parecia estar dizendo “saco!”.
Os homens saíram da sala e trancaram a porta branca. Ele começou a
chegar perto, nadando no formol. Ela fugia mas ele era um morto com
o pau mais duro que a terra jamais viu. Ela fugia e ele nadava
atrás. Fugia mas acabou cedendo. É aquela velha coisa de mulher.
Eles se beijaram. Era bom para ambos. Nunca tinham sentido isso. Ele
a virou de costas e mexeu na xota dela. Ela estava com tesão. Então
transaram ali, naquela posição. Depois em muitas outras posições. E
as horas passaram. Dormiram abraçados. Juntos até a turma da manhã
chegar e o velho professor bêbado decidir separá-los de potes. Ela
passou a viver em um pote bem na sua frente.
Um dia no verão, entraram carregando outra maca. Tinha alguma coisa
lá. Os dois cruzaram olhares. Com certeza tinha alguém lá embaixo do
lençol. Só não sabiam se era homem ou mulher. Ambos ficaram cheios
de esperança.
Daniel Wiegel Nasci em Bonn, Alemanha e vim para o
Brasil com um ano e meio. Atualmente trabalho durante o dia e
escrevo quando tenho tempo, ou seja, quando não estou trabalhando ou
bebendo. Dificilmente faço mais de uma coisa por vez, porém o que
escrevo é a junção de tudo. Nunca fui bom aluno e não completei
faculdade alguma. Evito missas e acredito que não exista nada melhor
que um par de belas pernas sob uma saia justa ou belos seios pulando
fora do decote... É difícil ou quase impossível passar batido.