"Salve ó Guardião dos portais misteriosos, dos
quais parte um caminho. Eis que os diques do Oceano Celeste são
forçados e os passos dos Filhos da Divina Luz ficam livres. Eles dão
a volta no céu com seus Discos de Fogo, apanhados por sua vez no
próprio movimento. As portas do Santuário Oculto então se
entreabrem."
Do Livro dos Mortos do Antigo Egito
"A noite ainda me envolve mas se em
alguma parte existir aurora e se eu souber o caminho, irei para
lá..."
Albertine Sarrazin
Meu nome é Laukenickas, Marcel Laukenickas... Estou neste planeta...
A garota do limiar! Por três vezes a vi em sonho, bela, suave,
graciosa, brilhando como uma luz nas trevas; e por três vezes fui
arrebatado abruptamente da presença dela. Onde a encontrei? Eu
estava no meio da noite, à meia-noite, envolvido por uma escuridão
completa. Não sabia como, mas tinha certeza absoluta de que não
estava em parte nenhuma de Gaia nem de qualquer outro planeta dentro
da Via Láctea. Então vi uma luz bruxuleante, rósea e dourada, mais à
frente – com uma titânica massa escura e sólida acima dela, um
monstruoso castelo todo de pedra estendendo-se até uma altura
estonteante, além do alcance de minha visão. Vislumbrei então, na
escuridão reinante, os portões de ferro gradeados, entreabertos,
através dos quais brilhava a luz pálida. E lá estava ela, de pé, à
porta de entrada do santuário. Ela era pequena e esbelta, uma
sílfide de cabelo escuro e corpo fascinante, delicado e flexível.
Pelos padrões humanos, não devia ter mais de catorze ou quinze anos.
Seus cabelos sedosos e escuros, repartidos ao meio, desciam até a
altura dos ombros. Sua pele? De um cor-de-rosa pálido, e parecia
difundir uma doce radiância que contrastava com o marrom penumbroso
que se via no interior do portal. Permaneci como que hipnotizado,
contemplando aquele rosto oval, os grandes olhos azul-safira, que
tendiam para o formato oblíquo, o nariz ligeiramente arqueado e os
lábios cheios e macios, fortemente pincelados de vermelho. Grande
Gaia, que boca mais sensual tinha aquela garota! O contraste com o
resto de seu rosto de menina, de uma beleza tão imaculada como a de
um anjo, desconcertou-me. Ela vestia um traje muito fino de seda –
uma blusa decotada e sem mangas, cor de lavanda, estampada com
flores e folhas cor de ouro, e uma saia justa trespassada na
cintura, em dourado com bolinhas brancas, indo até os tornozelos –
que sugeria remotamente os trajes que as mulheres de certo país do
planeta Terra, chamado de Índia, vestiam no distante passado
pré-galático. Essa impressão era reforçada por uma dúzia de
finíssimas pulseiras de ouro em seus braços e por um delicadíssimo
colar de missangas douradas que rodeava seu pescoço.
"Será uma deusa, ou uma mulher mortal?", pensei.
Eu não conseguia tirar os olhos da garota. Ela parecia deslocada
naquele cenário "gótico" de sombrias e bolorentas paredes de pedra
marrom-esverdeada e velhos portões de ferro cinza desgastados pelo
tempo. O que estaria fazendo em tal ambiente estranho e tenebroso?
Num primeiro momento eu a vejo parada à frente dos portões
destrancados e entreabertos, de costas para os mesmos e olhando para
mim, como que barrando a entrada com seu corpinho lindo e frágil; a
seguir, ela está parada do lado do portão aberto (por ela mesma) e
continua me olhando, aparentemente exibindo-se – como se estivesse
esperando por mim – e sem jamais tirar as mãos do portão de grades
de ferro. Mantinha-se calada e reservada, mas a certa altura um
sorriso maroto aflorou em seus lábios carnudos.
Lampejavam em minha mente, enquanto me sentia mergulhar no esplendor
azul daqueles grandes olhos amendoados, comparações tão variadas
como uma virgem solitária vivendo reclusa num castelo de tamanho
descomunal – no Zohar dos místicos judeus, assim é descrita
alegoricamente a Torah divina – e uma Sentinela ou Guardiã que vigia
o portal e guarda a chave dos outros mundos. Ela podia ser tudo
isso, ou nada disso. Então uma voz que soava como prata retinindo,
mais musical do que as cordas de uma harpa vulcaniana, respondeu da
infinidade cósmica:
– Ela não guarda a chave, ela é a chave.
Foi quando aconteceu... Subitamente, sem nenhum aviso...
Senti um profundo impacto atingir o âmago de meu próprio ser, como
se fosse alvejado por um tiro de disruptor sônico. Foi como se
ocorresse uma descontinuidade momentânea na existência da Vida, do
próprio Tempo e da Eternidade...
De repente, a consciência voltou-me e acordei dentro de meu quarto,
em minha aerocasa Mark VIII, em Gaia. Enrodilhado aos meus pés Mizar,
meu gato branco, dormia. O quarto, um espaço esférico de dois metros
de diâmetro, se achava imerso na penumbra climatizada e aromatizada,
própria para sono, que Zephram – o computador central que era o
cérebro, coração e alma de meu lar cibernético voador – programara
naquela noite. Olhei para o biomonitor em meu antebraço; a microtela
marcava 03:00 h da manhã, tempo gaiano, em dígitos suavemente
luminosos. Com toda certeza, o mundo lá fora estaria mergulhado na
escuridão avassaladora das primeiras horas da madrugada, que
infundia terror e pânico nos bárbaros iletrados que foram meus
ancestrais em priscas eras. Assim, e cheio de desejo simples e
humano de voltar a ver a linda adolescente que encontrara no mundo
onírico – um universo "paralelo" com suas próprias leis físicas e
uma contagem de tempo totalmente diferente, conforme aprendi em meus
experimentos com as técnicas projetivas de Cortus –, fiquei deitado
no leito pulsante, cujas vibrações de freqüência e intensidade
variáveis proporcionavam o máximo de bem-estar físico, e cedi
voluntariamente à pressão sutil do "tempo dormente" ligado dentro da
bolha-dormitório cibernética. E mergulhei novamente no vago mundo
crepuscular da sonolência, quando a mente – ou o espírito – se
liberta da tirania da matéria e avança para níveis mais altos de
consciência.
Senti meu corpo voando, pairando no ar, sem gravidade... Tudo
escurecia, escurecia...
* * *
Mais uma vez me vi diante do decrépito portal de sonho, com os
portões de ferro bizarramente góticos, entreabertos, e a parede de
pedra, de um marrom bolorento, ao fundo. Mais uma vez ela se achava
parada junto à entrada daquele lugar imemorial, com as mãos pousadas
sobre o portão imensamente velho – logo identifiquei os sinais de
oxidação nos pontos onde a pintura cinza-chumbo tinha descascado e
exposto o metal escurecido –, como se estivesse fazendo pose. Ou
guardando a Passagem... uma passagem para visitantes de outra
dimensão? Ao aproximar-me, vi que resplandecia a pele de seu rosto,
rosada e brilhante, como uma pérola com iluminação interna... como
se a aurora que precede o nascer do sol tivesse assumido a forma
humana, para viver entre os homens. Linda, tão linda ela era! Foi
com relutância que confessei a atração irresistível que sentia pela
deusa-menina... Sim, sim, uma deusa ela devia ser, com certeza...
Havia algo na expressão fria e orgulhosa de seu rosto juvenil,
atemporal, no resplendor do seu ser, na calma transcendental,
transterrena, que irradiava daqueles olhos de safira, que indicava
que ela não era uma garota mortal.
À
medida que a emanação da sua luz rósea matizada de dourado clareava
a escuridão ao redor do pórtico, notei que a atmosfera do lugar
começava a ficar mais cálida, e seu aroma, mais agradável e
perfumado. Parecia que a garota absorvia e transmutava, com sua luz,
as trevas, os terrores noturnos, as forças inferiores e regressivas,
de tal modo que, paulatinamente, o cenário foi ficando limpo da
profunda melancolia e opressão que impregnavam as paredes e os
portões. Era como se estivesse abrindo caminho para... Para quê?
Para um novo amanhecer cheio de luz e de calor, me ouvi dizer; para
guiar o universo visível e seus habitantes, humanos ou outros, das
trevas para o esplendor do sol.
Ela
mirou-me durante um micron, e os lábios vermelhos mostraram um
sorriso delicado, tímido e divertido ao mesmo tempo. Naquele
instante uma voz de prata pura, que há de ecoar para sempre em meus
ouvidos, falou-me:
– Esta
é Ushas.
De
repente, aconteceu... de novo....
Não
houve nenhum aviso, de maneira alguma, mas tão-somente o súbito
impacto que trespassa cada fibra de existência consciente, igual à
dor de uma punhalada mental sargônida. Minha visão turvou-se. Tive a
sensação horrível de me precipitar eternamente num abismo mais negro
do que a mais escura das noites... Depois, o nada total da
inconsciência...
Despertei com a palavra "Ushas" nos lábios e os olhos molhados de
lágrimas, quando me lembrei do biomonitor que assobiava baixinho
para chamar minha atenção. A linha luminosa em ziguezague no
microvisor digital e as pequeníssimas luzes de controle piscando em
amarelo indicavam uma ligeira disfunção psicossomática.
Encéfalo-sensores no meu travesseiro informaram ao onisciente
Zephram o exato momento em que as primeiras imagens visuais chegaram
ao meu cérebro. Alguns microns depois, um sinal de controle
antidepressivo foi enviado eletronicamente aos centros cerebrais
específicos de emoção e comportamento. Uma sensação de profundo
alívio invadiu-me o corpo, enquanto sentia toda Angst esvair-se do
meu íntimo. Ah, Zephram, meu sempre eficiente mordomo-computador. A
existência humana exigia, imperiosa, prosseguimento. Olhei de novo
para o bracelete em meu antebraço; o minúsculo visor assinalava
03:05 h da manhã, tempo de Gaia. Levantei-me e não quis mais dormir,
enquanto Mizar também despertava, bocejando, de seu sono embalado
pelas vibrações relaxantes do leito. Afinal, temos um nexo, eu e meu
velho gato clonado, de modo que um pode sintonizar as emoções do
outro. O Mizar original foi um gato extraordinário, e seu clone
também o é, à sua maneira. Apesar de alguns... "defeitinhos".
(Gatos
e atitolilai são capazes de absorver bioenergias negativas de
pessoas e lugares. Pessoalmente, prefiro os gatos.)
Parei
para refletir. Já por duas vezes alguma coisa provocara-me o
retorno antecipado – e a contragosto – ao mundo da vigília quando me
achava parado diante da encantadora mocinha, Guardiã do Portal, na
dimensão extrafísica. Ushas! Tão perto e tão longe! Pareceu-me muito
simplista atribuir a reintegração violenta no corpo denso ao impacto
da emoção, a despeito de concordar com a máxima vulcaniana, segundo
a qual "o emocionalismo constitui desequilíbrio-involução e a
serenidade atesta o equilíbrio-evolução". Eu não podia deixar de
sentir que algum ignoto ser transcósmico ou manodim me
afastara bruscamente da garota que, entre outras coisas, seria a
responsável pela abertura dos portais para um continuum
espaço-tempo completamente alienígena, proibido – e a minha memória
enciclopédica não pôde deixar de recordar que, na cultura sienata do
planeta Umbria, a Eredine é a Regente das Luzes de Avera e vive
reclusa no grande templo de Salbenkuan, que a Nobelinsse, Guardiã do
Grande Selo, reside num castelo senhorial arcaico, e que as duas
criaturas figuram em certas lendas umbrianas, um tanto
perturbadoras, sobre "portais da Passagem". Mas e o nome de Ushas?
Obviamente não é um nome umbriano, muito menos sienato. Seria
pavonês? Ela vestia-se como as moças de Pava, o paraíso tropical do
sistema Delta Pavonis. Minha curiosidade sobre a jovem estava
atiçada a tal ponto que, saindo da bolha de dormir e adentrando a
cabine de banho para tomar uma boa ducha sônica em gravidade zero,
eu só pensava em duas coisas: primeiro, descobrir quem era ou havia
sido Ushas; e segundo, reencontrá-la na dimensão extrafísica onde a
vira pela primeira vez. Já sentia prazer diante da perspectiva da
próxima excursão onírica noturna – em "além da barreira do sono",
para usar a expressão poética do meu autor clássico favorito, o
terrano H. P. Lovecraft.
* * *
O relógio marcava 03:20 h da manhã. Pedi a Zephram que acessasse a
Starnet e, por meio de um meticuloso processo de eliminação e
joeiramento de dados, identificasse nos bancos de computadores
dentro e fora da Federação Estelar Unida (como os vastos Bancos de
Dados de Alpha-Mnemósine e seus incríveis
computadores-bibliotecários) quem ou o que era Ushas, pesquisando os
registros históricos e mitológicos de milhares de civilizações
galáticas.
Em 30 microciclos, o infalível computador doméstico trouxe a
resposta que eu buscava. Bendita seja a ultratecnologia, com suas
interações moleculares e subespaciais, sem as quais não existiriam
comunicações interestelares a velocidades superiores à da luz nem
redes de computadores como a Starnet. Saber é poder, e agora eu sei,
com absoluta certeza.
Segundo o Rig-Veda – um dos livros sagrados de uma das
antigas religiões da Índia, na Terra –, Ushas é a Aurora, deusa do
alvorecer, filha de Dyaus, o Céu, e amada de Savitar, o Sol. A sua
irmã é Râtrî, a Noite, deusa das trevas. Ushas atravessa os céus num
refulgente carro puxado por vacas ou cavalos de cor vermelha.
Eternamente jovem, renasce todas as manhãs. Os poetas a
representaram ora como uma deslumbrante virgem ornamentada com todo
o esmero por sua mãe – Aditi, o princípio Universal –, ora como uma
dançarina coberta de jóias; às vezes é uma bela adolescente que sai
do banho, ou uma esposa magnificamente vestida (com trajes
cor-de-rosa e um véu dourado) que se oferece ao marido. Ela é a
causa efficiens que faz os deuses e os homens mortais
despertarem, agirem e se desenvolverem. É a mãe dos raios de luz, a
luz que afasta as trevas. Pela sua ação de iluminar, a natureza
humana fica mais clara; por ela se chega à Verdade, por ela se goza
da Beatitude. Deusa humana entre os mortais, ela impele e conduz os
homens para a justiça e a felicidade. Não é só a mãe das verdades,
mas a própria Verdade.
Ushas! Imortal, divinal, etérea, áurea. Ushas, graciosa moça dos
dedos cor-de-rosa. Adorada, intocada Ushas. Meu Teos, que loucura!
– Imagine só – eu disse, encarando os olhos de Mizar, um azul e o
outro amarelo-limão, que me observavam de modo enigmático. – Imagine
só, eu, um antropólogo galático e velho explorador dos mundos
oníricos e extrafísicos, apaixonado... Por quem, ou melhor, pelo
quê? Por uma... "deusa" de uma religião primitiva de outro planeta?
Por uma forma-pensamento?
E no entanto sentia-me incapaz de deletar de minha mente aqueles
olhos de gata siamesa e lábios rubros em um rosto de menina, rodeado
por uma auréola de luz tremeluzente. Tudo bem. Eu cumpriria o que
decidira: regressar ao portal do sonho e reencontrar a bela Ushas.
* * *
Foi que nem da primeira vez. Ushas lá estava, bela e misteriosa, à
entrada do pórtico arcano eivado de terríveis segredos. A pequena
deusa, inclinada para a frente, apoiava as mãos sobre um dos portões
entreabertos enquanto recostava-se ligeiramente ao outro portão,
postando-se na estreita abertura entre eles. E sorria, um sorriso a
um só tempo tímido e provocante. A Guardiã, a ligação entre todos os
mundos, esperando aqueles que entrassem e viessem, esperando... Era
uma função de tremenda responsabilidade dentro da ordem cósmica. Ah,
Ushas! Tão bela como a aurora que tinge de vermelho o céu matinal.
Ela fitou-me com um olhar furtivo mas alegre, os lábios macios
repuxados no sorriso cativante de sempre. Ah, deliciosa...
encostando-se no portão tal qual uma ardilosa ninfeta. Pensei em
Lauma, ou Laumé, a "Dama Branca", uma fada benfazeja das lendas
antigas de Gaia. Mas Ushas não estava nua... como Lauma... Tudo bem,
eu não tenho segredos para ela que conhece cada pensene, cada
pensamento e sentimento meu. Sentia por todo lado um tipo de
atmosfera encantada. Estava de volta à porta da minha bem-amada e
isso era tudo o que importava.
Ao
aproximar-me, vi que a doce radiância dourada aumentava cada vez
mais e rodeava a jovem até envolvê-la por completo, e
transfigurá-la; por um instante, vi a face etérea e luminosa de
Ushas, brilhando em dourado, em meio ao ofuscante resplendor
parecido com o sol. Ela parecia encher o mundo, transcender o limite
do observável. Quando o clarão se dissipou e com ele a face
espectral de luz, procurei Ushas e fiquei estupefato: descobri que a
esguia menina tinha se tornado uma jovem mulher belíssima, na
exuberância dos seus dezoito anos, presumivelmente. Fiquei
fascinado. Era maravilhosa como uma deive, uma fada da
floresta do antigo mito. Não me cansava de admirar o rosto oval de
bela conformação, com o queixo pontiagudo e o nariz afilado, os
longos olhos amendoados de um azul estratosférico, e a boca ampla,
com aqueles lábios de coral, carnudos, úmidos, macios, cobiçantes.
Ela se aproximou, sorrindo largamente para mim, e tomou-me pela mão.
Tinha um vestido longo de seda iridescente tão fina que permitia ver
cada contorno, cada curva de seu corpo lindo. O decote era amplo,
revelando parcialmente os seios redondos, firmes. Ah, os seios de
Ushas! Pareciam ter sido esculpidos em madrepérola cor-de-rosa; nem
os seios nus das nativas hesperianas se lhes comparavam em beleza. E
os quadris tinham a proporção certa em relação à cintura. Todo o seu
corpo prorrompente de sensualidade, desde as pontas dos pés
delicados providos de sandálias douradas até a ondulante cabeleira
castanho-dourada que descia cascateando sobre os ombros desnudos,
era perfeito como um sonho, o sonho de um deus sem preconceitos.
Muito confuso, pensei nas Noivas da Aurora umbrianas, na Procissão
dos Grandes Fogos no Vale das Luzes de Avera.
Mas
minha Ushas é a própria aurora. Sempre sorridente e sem dizer uma
palavra, ela levou-me para dentro dos portões agora escancarados,
puxando-me pela mão, e naquele exato momento eu me senti extasiado.
Finalmente, finalmente...!
Passamos através do Primeiro Portal. Mais fácil que ir a Quiberon
Prime de teletransportador.
Dentro
das vastas muralhas tudo era noite e escuridão. Eu e Ushas
atravessamos o gigantesco pátio, a luz dela espargia-se suavemente
como um véu dourado ao ar – seria o propalado "Caminho Dourado" dos
cultores de Banakul? Ou só um pálido reflexo que prenunciava o
cegante fulgor do sol absoluto? Senti que estava no limiar, por
assim dizer, de algo de inconcebível magnitude, uma espécie de
cerimônia de iniciação, e isso me deixou apreensivo. Então percebi
que não estávamos sós: de todos os lados começaram a chegar rapazes
e moças, todos os estilos concebíveis de seres humanos – e alguns
deles, não muito humanos. Casais abraçados, alguns se beijando.
Todos riam e se dirigiam à enorme construção em forma de palácio
onde um titânico portal ladeado por colunas dóricas de um branco
pálido e brilhante abria-se, tal qual uma voragem, para tragar os
grupos de pessoas que enxameavam à nossa volta. Do interior do
pórtico jorrava um clarão rubro-alaranjado como a lava candente da
boca de um vulcão. Ou um vórtice transdimensional, pensei – e
estremeci com a idéia. Entretanto, eu agora compreendia que Ushas
era a "chave" que abriria as sucessivas portas ocultas – tanto
"internas" quanto "externas" – que vedam ao comum dos mortais a
livre progressão pelos corredores e câmaras além do espaço e além do
tempo rumo à temida Fronteira final, a qual, por sua vez, dá acesso
ao Nada inimaginável, o perfeito e sagrado Reino Eterno que situa-se
fora de todas as dimensões, todos os universos, toda matéria e toda
energia. O "não-ser" dos niilistas místicos cortusanos.
A mão
delicada da deusa me puxava para segui-la, acompanhando a multidão
que ficava cada vez mais densa. Sorri triunfante, mais feliz do que
jamais esperara ficar. Sabia que só aqueles que o merecessem seriam
iniciados. Chegamos aos portões, e ela rodeou-me a cintura com o
braço, e juntos, unidos num estreito abraço, ultrapassamos o Portal
Interior.
"Ushas...
Ushas... Meu amor!..."
* * *
Lembro-me das luzes faiscantes... a dança sensual, ao som de uma
música estranha e monótona... Ushas, toda linda e provocante, uma
dançarina coberta de jóias... Ela enlaçou-me com seus braços e senti
o roçar do seu corpo contra o meu numa cadência erótica que
transcendia toda a sensualidade humana. Por Teos! Fui invadido por
uma indizível sensação de prazer e deleite jamais experimentada –
nem mesmo em holossuítes e cibersuítes –, como se o centro do prazer
cerebral fosse estimulado até o seu limite extremo. Ondas psi? Algo
se debatia dentro de mim... pequenos anéis ondeantes de luz...
vibrando em si sustenido maior... a claridade
dourado-alaranjada... Algo se libertou, rodopiando num caleidoscópio
de dor e prazer, luz, cor e escuridão, silêncio e explosões chegando
a uma escala hipersônica inaudível... Bolhas-universos que emitiam
uma radiância dourada e flutuavam em uma espécie de limbo cinzento
sem fim, cortado por estrias luminosas e explosões brancas... Será
isto o "não-ser"? Já não havia "longe" nem "perto", "acima" ou
"abaixo", "pequeno" ou "grande". Por um instante e de súbito eu
vislumbrei – nalgum ponto ignoto da multidimensionalidade – a grande
bolha verde e translúcida de "energia inteligente" que repousava
sobre o topo de um pilar de pedra de altura descomunal coberto de
hieróglifos alienígenas e incompreensíveis – o "olho do deus
celeste, que tudo vê". E a mensagem-raio-cosmocomunicação-irradiação
varou-me o cérebro com a força dos impulsos de vários sargônidas de
Sorgalt. Caí ao chão – se chão havia –, como se tivesse sido
atingido por um tiro de phaser regulado para tonteio. Um negror
pesado desceu sobre mim, e com ele a paz total do não-ser.
* * *
Abro os olhos. Estou deitado de costas, nu da cintura para cima, em
uma cama baixa forrada com lençóis da brancura da neve; ao meu lado
está uma garota seminua, deitada de bruços, o rosto enterrado no
travesseiro e os brilhantes cabelos castanho-escuros espalhados
sobre as omoplatas. É Ushas, somos amantes. Todo o quarto se acha
banhado pela luminosidade rosada-avermelhada da filha de Prajâpati.
A deusa do amanhecer, toda minha! E no entanto eu não sou eu mesmo!
Sou um deus... um deus solar. Meu corpo fisicamente perfeito, eu
sei, mede um metro e noventa centímetros, tipo atlético... tórax
apolíneo, braços musculosos. Pele dourada, com um brilho sedoso.
Tenho em cada braço, circundando os bíceps, uma tatuagem que parece
uma corrente de caracteres luniformes curiosamente entrelaçados. O
rosto – meu rosto – é vigoroso, duro, sem parecer brutal... de uma
dureza angulosa... queixo proeminente, enérgico... nariz fino. O
cabelo escuro e curto é extraordinariamente espesso e macio. Tenho
olhos castanhos, um castanho bastante claro, com cílios escuros. E
orelhas de lóbulos compridos, como convém a um deus. Aparentemente
na faixa dos vinte aos trinta anos, incrivelmente belo como o sol e
como a luz, podendo passar por tertariano – exceto pelas longas
orelhas, é óbvio. De qualquer modo, não sou tertariano, não sou um
mero mortal. Sou Savitar, o deus do sol, fonte de toda a vida, um
dos Sete Grandes que governam o mundo. Minha luz amarela e brilhante
enche o aposento e clareia tudo. Reconheço a forma bioplasmática – o
psicossoma – de Ushas, estendida preguiçosamente ao meu lado, entre
mim e seu próprio corpo denso, inerte. A Ushas extrafísica,
transparente, imersa em pálida luz amarelada, move-se sensual e
languidamente no leito, as pálpebras cerradas, como que sonhando...
Agora
muda a cena: eu, Savitar, encontro-me em um lugar ensolarado e
aprazível à beira-mar, sob um céu azul forte. Meu corpo dourado
rebrilha ao sol. Eu e Ushas abraçamo-nos e acariciamo-nos
ternamente, depois beijamo-nos... Beijo-lhe o pescoço quando ela
joga a cabeça para trás... Pelos sete deuses, você é tão linda! Eu a
beijo sem parar, beijo-lhe o pescoço, o rosto, os olhos... Sou vinte
centímetros mais alto que ela... O corpo dela é esguio, branco, leve
e delicado. Eu aliso suavemente seu longo cabelo castanho, olhando
para seus olhos fechados, para os lindos lábios vermelhos e macios
entreabertos, tão convidativos... Então começo a acariciar-lhe os
lábios com os dedos, num roçar leve e excitante... Ushas me beija
num ímpeto de paixão, explorando-me os lábios espessos, o céu da
boca e por baixo da língua... Eu a amo, deuses! Eu a quero! Com um
sorriso radiante, ela me toma pela mão, puxando-me para segui-la.
Uma parte de mim sabe que estamos em uma espécie de balneário
marítimo muito procurado pela raça de deuses que rege este mundo –
os poderosos Prajâpatis. Nós percorremos a praia, parecendo volitar
sobre a areia branca... as ondas azuis do oceano quebrando-se
estrondosamente, desfazendo-se em espuma sobre a areia úmida... Com
nossos poderes, criamos desde auroras douradas que esbraseiam o
horizonte de um extremo do mundo a outro até arco-íris de nove cores
ou da cor do mais puro ouro, e até mesmo auras de luz e fogo tão
intensas rodeando nossos rostos que cegam os pobres mortais. Agora
prendo Ushas em meus braços, por trás... Eu a tenho cingida, pela
cintura, em meus braços, e minhas mãos acariciam-lhe a barriga de
uma alvura quase láctea... Que lindo o seu corpo tão jovem! Que pele
macia, gostosa! Eu me deito de costas na areia aquecida pelo sol,
contemplando as gigantescas e frondosas palmeiras. Ushas deita-se
sobre mim, seus cabelos úmidos roçando meu rosto... a fina proteção
de tecido multicor sobre seus seios...
Muda a
cena: é uma claríssima noite estrelada e uma multidão crescente,
heterogênea, caminha para o grandioso e vasto edifício em forma de
palácio (ou templo), todo de alabastro e ônix, com inúmeras colunas
dóricas de um branco ofuscante. São jovens humanos de ambos os
sexos, louros e ruivos de olhos claros, morenos e negros de olhos
escuros. Belas garotas em túnicas de seda preta e robustos rapazes
em roupas de couro preto, todos enfeitados com braceletes e
pulseiras, cavilhas, ornamentos para as orelhas, cintos
incrustados... Plumas suaves, incríveis arranjos de penas de todas
as cores nas cabeças. Minhas vestes brilham como o ouro –
indumentária própria para o deus do sol. Estou no imenso salão
central... Outros Prajâpatis comigo, conheço-os: Dyaus, Vâyu,
Parjanya, Agni, Umâ... Todos têm a pele dourada, longas orelhas e
imensos olhos negros, são os deuses do planeta Nekkar... Sim, o nome
deste mundo é Nekkar. Os deuses "banham-se" na adoração que recebem
dos fiéis, sugam-na como se vampiros fossem. E o salão, cujas
paredes e teto altíssimos se perdem de vista envoltos em cintilantes
espirais de névoa, está apinhado de jovens mortais (devotos?) aos
gritos, dançando, cantando, saltando no ar, na esperança de
vislumbrar seus deuses.
Nós,
junto com os imperadores dos templos, reis dos templos e príncipes
dos templos, formamos um círculo em torno dos tocadores de tambor, a
poucos metros de distância deles; o resto da multidão participa da
dança e forma círculos em volta do primeiro. Miríades de lâmpadas
acendem-se e apagam-se ininterruptamente, explodem em labaredas
cegantes como luzes de neon dos velhos tempos... Os címbalos
repicam, os tambores estrondam, as flautas trinam. Eu toco um
instrumento de cordas similar à vina, acompanhando os cantores.
Todos dançam, do mais poderoso Prajâpati ao último de seus súditos.
Mas,
quem é aquela figura feminina que me atrai a atenção? É Ushas?
Reconheço o rosto oval, da brancura luminosa de um lírio, os olhos
lindos de gata siamesa – agora pintados com kohl –, a boca ampla e
sensual, os cabelos escuros e brilhantes caindo pelos ombros nus e
por cima dos seios rutilantes – parcialmente vistos através do longo
decote em "V" de sua veste negra sem mangas –, o talhe gracioso do
corpo flexível, delicioso de se olhar, que se move em requebros
provocantes de caráter abertamente erótico, seguindo o ritmo da
música que parece dominá-la de corpo e alma. Ela olha diretamente
para mim, que só então identifico aquela que desde sempre é a Rainha
da Noite.
Não,
não é minha Ushas, mas a sua irmã gêmea, Râtrî, deusa da noite e do
amor. Sua pele irradia uma fria luminescência lunar azulada que lhe
dá a aparência de uma mulher feita de gelo, e não de carne e sangue.
Ou que Aditi, deusa lunar, criou-a usando a luz do luar, das Três
Luas, como matéria-prima. É a um só tempo maleável e voluptuosa. É
maravilhosa... e perigosa! A música repentinamente muda, fica mais
alta e adquire um ritmo mais lento e mais vibrante. Eu canto e
dedilho minha vina com ardor, porém não consigo desviar os olhos
dessa deusa belíssima, tentadora, com seus cabelos longos e
escorridos, o corpo escultural, os seios que resplandecem como que
iluminados de dentro... Desinibidos, balouçantes... Seus braços
alvíssimos enfeitados com pulseiras de prata se agitam com
movimentos lânguidos, ritmados, de uma graça felina...
Ela
dança com tamanha paixão e ausência de inibições que não
envergonharia uma odalisca de pele verde dos Reinos Nebulares de
Órion. Ah, quanta beleza e sensualidade! Tão linda quanto minha
Ushas e ainda mais sensual. Que olhar estranho ela está lançando
para mim... Sedução holochacral. Râtrî costuma atrair os
homens como se eles fossem dominados por uma loucura incontrolável,
fome e sede insaciáveis... Seu olhar azul-neon é um raio laser que
dilacera e fere profundo... Parece que vê dentro de minha mente, de
minha alma... Recordo-me, sem saber por que, dos poemas do terrano
Baudelaire. A música, até então lânguida, começa a ficar mais
rápida, mais alegre, mais selvagem... acordes freneticamente
agitados que aceleram a pulsação e fazem o sangue ferver. Rostos
brilham e somem num turbilhão de luz colorida, no meio da
multidão... Râtrî continua dançando livre, leve, solta, acima e além
do bem e do mal... Não consigo olhar para sua boca sem ter vontade
de beijá-la, sim, beijar aqueles lábios de rubi... seus lindos
lábios macios e úmidos, tão ávidos de prazer...
Fecho
os olhos, e o que vejo? Mais uma vez, vejo-me na cama lado a lado
com Ushas, sua forma astral entre nossos corpos... Eu e Ushas,
presos num abraço forte e apaixonado, subindo no ar e flutuando
sobre as águas azuis e a areia branca da praia... Mais uma vez... Só
que não é Ushas... É Râtrî! Na realidade as duas são uma!
Eu
enlouqueço... Impulsivamente atiro ao chão minha vina e abandono
meus co-irmãos Prajâpatis e os músicos mortais que os acompanham.
Atravesso o salão lotado, sentindo as mãos humanas que tocam,
sequiosas, em minhas roupas, em minha pele cor de ouro, ouvindo os
gritos de "Savitar! Savitar! Savitar!" misturados ao rufo dos
tambores e ao sopro das flautas. Sinto a mão delicada de Râtrî
tocar-me no braço. Volto-me. A Rainha da Noite, linda, sedutora, tão
pálida e luminosa, dançando juntamente com o semideus Chons, que
representa a Primeira Lua – outro de seus amantes? –, ambos bem
encostados, as mãos dele possessivamente em torno dela... costas
contra peito... Sim, há uma aparência de excitação sexual em Râtrî,
alguma coisa selvagemente lasciva. Apesar disso, ou por causa disso,
ela procura meu olhar. Ela me quer... É a mim que ela ama.
Eu me
recuso a olhar para seus olhos ovalados, estreitos, delineados de
preto e que têm um brilho especial, para que minha paixão não
desperte de novo. Sigo em frente até uma porta coberta de cortinas,
que parece uma saída. Empurro as cortinas violentamente, penetro em
um comprido corredor ornamentado de colunas esguias e arcos de
mármore... Curioso. Mais à frente há uma luz bruxuleante que se
transforma na face etérea, radiosa e ofuscante de Umâ, a deusa que
personifica a luz e a beleza, resplandescente com o fulgor de mil
sóis – um rosto diáfano de beleza transcendental com grandes olhos
puxados, orelhas de lóbulos compridos, nariz fino e queixo pontudo,
bem de acordo com o ideal Prajâpati. A face de Umâ, imensa e
radiante, barra-me o caminho. Parece que quer falar alguma coisa. Eu
sigo adiante.
A cena
muda novamente, e eis-me de volta ao salão principal do templo
apinhado de jovens devotos mortais, com gritos, aplausos, pés
batendo no chão. A louca cacofonia da música não cessa... Os
címbalos retinem, os tambores trovejam e as flautas gemem. "Râtrî...
Râtrî... Râtrî...", cantam os celebrantes que formam um coro vindo
de todos os lados. Deusa benevolente, seus acólitos vestidos de
negro suplicam-lhe proteção contra o pavor da noite, ladrões e
lobos. Ei-la, dançando ainda com Chons, tão branco e brilhante
quanto ela – um sujeito magro como a lua minguante, de algo mais de
um metro e setenta de estatura, olhos oblíquos, nariz aquilino,
cabelos negros, finos e abundantes, e um sorriso que me faz lembrar
de uma ave de rapina. Jamais gostei muito desse serviçal de nossa
Mãe Aditi, regente das Três Luas. Acho que estou com ciúmes...
afinal, ele é o deus do êxtase, de um orgiástico-dionisíaco que não
conhece limitações.
Ah,
mas minha agridoce Râtrî não tira os olhos de mim. Conheço seus
pensamentos. E ela, os meus. Com um meio-sorriso autoconfiante, eu
me aproximo da jovem deusa. Ela é perfeita, desde as curvas suaves
das coxas aos cabelos quase negros desmanchando-se em ondas sedosas
sobre os ombros perolados. Num momento seu rosto é o semblante frio
de uma deusa da noite; noutro, parece o de uma fogosa e despudorada
rusalka. Meus olhos encontram-se com os dela. É uma mulher
que emana força erótica, um enorme poder psíquico, verdadeiro
mana. Em lampejos mentais a vejo abraçar-me com paixão,
enquanto, diante de mim, é Chons quem ela abraça! Limito-me a
tocar-lhe o ombro e uma mecha de cabelo escuro com os dedos.
E me
afasto, indiferente à adoração nos olhos das mulheres nekkarianas,
indiferente aos toques de suas mãos, aos seus gritos finos e
extasiados. Leio seus pensamentos. E não ligo a mínima. Então me
aproximo de uma das princesas do templo e pego-lhe a mão, puxando-a
para junto de mim. E ignorando os gritos ardentes do meu nome,
dirijo-me para a saída abraçado com minha nova companheira de
prazer, abrindo caminho com meu poder telecinético naquela massa de
adoradores e derrubando e machucando acidentalmente muitos deles.
Nos
jardins do templo, o tríplice luar nekkariano clareia a noite. Chons,
Joh, Thoth. Subitamente surge em meu cérebro, de novo, a imagem da
grande esfera azul-esverdeada de energia compacta, deitada sobre o
topo da coluna (Djed) gravada com os hieróglifos de uma
língua desconhecida... Udjat! A esfera se chama Udjat... O Olho do
deus solar. Está vivo! Udjat está brilhando em todas as cores do
arco-íris. Sinto-me caindo ou flutuando ou nadando nesse oceano de
luz dentro da esfera. Em um lapso vejo novamente, em ritmo
acelerado, as imagens... Olho para baixo e vejo meu corpo e o de
Ushas, deitados juntos na mesma cama, e o psicossoma dela no meio de
nós. É uma vasta câmara de paredes pintadas de branco e verde, com
uma abóbada; há tapetes e cortinados multicoloridos, almofadas,
mesas e cadeiras feitas de madeira rara, divãs, um par de delicados
vasos de esmalte cor de ouro e, num dos cantos, um biombo de couro
trabalhado... Eu e Ushas abraçamo-nos e beijamo-nos, subindo no ar,
sob um sol tropical, na praia...
Vejo
os sete Prajâpatis, incluindo eu mesmo, no templo em meio ao clima
de música e festividade: Dyaus, Vâyu, Parjanya, Prithivî, Umâ, Agni
e eu, Savitar... Agora, Dyaus e seu filho, o guerreiro Indra, deus
do trovão e do relâmpago. Ambos medem mais de dois metros de altura,
mas Dyaus ostenta cabelos brancos como a neve e olhos como cristais
azuis... Eu canto e toco meu instrumento... Râtrî, reluzindo em
preto, branco e prata, dança... As jovens e belas mulheres mortais,
dançando loucamente, em sedas e capas escuras, como se em transe...
pérolas, correntes de ouro, opalas... Os homens, trajados de couro
brilhante, ostentam minúsculas jóias de cristal, turquesa e jade
incrustadas no nariz, no lábio inferior e no queixo... Vejo-me
sozinho numa sala estranha e bela, iluminada pelo clarão que irradia
do aposento como um todo... abro os braços e jogo a cabeça para trás
e grito para o alto – mas não há som algum –, numa explosão de
cólera súbita, de luz e calor solar... Vejo o templo dos gatos, em
Akkyr, e gatos grandes e pequenos, pretos, cinzentos, rajados,
fulvos e brancos... São animais consagrados a Aditi, os nekkarianos
os amam... As cenas se repetem cada vez mais velozes, vertiginosas,
quase que ao mesmo tempo...
Agora
eu e Ushas (ou será Râtrî?) estamos separados por uma rede brilhante
composta de formas geométricas interligadas, fulgurante como ouro,
que se estende do chão indefinidamente para cima e para os dois
lados. Parece uma barreira energética de alguma espécie. A julgar
pela cor do horizonte, branco, deve ser imediatamente antes do
levantar do sol. Eu e Ushas caminhamos lado a lado, ou cara a cara,
porém separados pela "muralha", e a filha do Céu vai acompanhando,
tateando com a mão sobre os elos da "grade" dourada, o meu percurso
ao longo da mesma. Ela parece querer me tocar, mas a barreira a
impede de fazê-lo. Seu olhar úmido, repleto de tristeza e amor,
encontra o meu, frio de olímpica indiferença. Uma lágrima cristalina
lhe escorre pelo rosto lindo. E eu, ou melhor, Savitar, Grande Gato
Que Está Em Shrwat, porte altivo, olhar tranqüilo, o orgulho
Prajâpati estampado na face da cor do sol nascente, viro-lhe as
costas e afasto-me, sem olhar para trás – em seguida desaparecendo
numa esteira de luz branca cegante, como convém ao Deus do Sol e da
Luz.
Em
nome de Teos, grita silenciosamente, dentro de mim, a
faceta-Laukenickas, que tipo de monstro desumano é você?
Quero gritar... fazer-me ouvir. Tudo inútil. Neste microcosmo eu não
passo de uma galáxia de terabytes gravada nalgum banco de memória
cegamente impessoal. Sou um ponto infinitesimal de consciêcia sem
substância, rodopiando num oceano ilimitado de espaço-tempo
azul-verde, informe, que preenche o Udjat. Ondas violentas me
cercam, pulsando em tons de azul, amarelo, vermelho, branco,
verde... Crescem como moloques draconianos do mito de T'ienlohn, e
em sua imensidão ameaçam devorar-me, aniquilar meu ego, sufocar a
ínfima centelha de identidade que permanece em mim. É... pavoroso!
Eu luto, debato-me em silêncio, inutilmente, nos verdes eons
insubstanciais de tempo sem espaço... Espaço sem tempo... Mas EU
SOU! Eu sou eu mesmo! Sou Marcel Laukenickas, de Gaia, Alpha
Centauri... Eu sou um homem!
De repente, cessam as terrificantes ondas que parecem fluir de toda
parte e de parte nenhuma. Sinto-me envolto num impenetrável cobertor
de gelo negro, um fiapo de consciência, uma chama bruxuleante de
humanidade no coração da Eternidade. Em um mundo sem movimento, dor,
sensação... Um fio de ego que fora Marcel Laukenickas, imerso no
profundo e indizível silêncio do não-ser.
* * *
Eu existo! Eu penso! Eu sou eu mesmo! Sou Laukenickas, Marcel
Laukenickas... Ushas!
Acabo
de acordar aos gritos. Um longo sinal eletrônico ressoando em meus
ouvidos enquanto as luzes diminutas do biomonitor em meu antebraço
piscando em "alerta laranja" me chamam a atenção. Ato contínuo,
arranco impulsivamente o bracelete de plastex computadorizado, que
tanto monitora as funções vitais do meu organismo quanto liga-se em
biofeedback ao meu sistema nervoso, e o atiro ao chão.
Repito: sou o doutor Marcel Laukenickas, humano, doutor em
antropologia galática, nascido na data estelar 55293.333, ou
décimo-quarto dia de Tchetchi do ano 3019 do antigo calendário
centáurida, na cidade-máquina de Matronis, continente Zamora, Bloco
Sul. Planeta Gaia, sistema Alpha Centauri. Estou em minha cama, em
minha residência aérea. Planeta Gaia, sistema Alpha Centauri. Sou de
novo o Marcel Laukenickas do mundo da vigília, alto e magro, pálido
e de nariz adunco, 100% mortal.
O
sensor de movimentos da cama medira o grau de agitação do meu sono e
Zephram, o invisível e onipresente serviçal que habita a memória
molecular do computador doméstico, ativara a transparência do teto
da bolha-dormitório, deixando entrar a rubra claridade da aurora.
Além disso, aquecera o quarto até o termômetro atingir 299 K. Ele
faz isso todos os dias. Sem outra opção, vou me levantar.
Data
estelar 92471.208. Às 05:00 h da manhã, tempo gaiano. É o que
Zephram me informa com sua voz suave.
A
aurora ilumina os céus de Gaia com uma tonalidade dourado-alaranjada
que me faz lembrar de Ushas. Largos raios de luz muito forte e
vermelha atravessam o teto do quarto, tornado transparente por uma
sutil alteração eletrônica na polaridade das moléculas que formam a
camada de plástico antes opaca. Sinto uma tristeza profunda, uma
sensação de perda que não pode ser superada. Mal ouço a voz do
computador discorrendo sobre nosso presente curso, destinação,
altitude e velocidade, tampouco as condições climato-meteorológicas
lá fora, a temperatura e a umidade do ar. Meus pensamentos estão com
a jovem deusa de olhos azul-safira de gata siamesa, em uma outra
realidade, outra dimensão de espaço e de tempo.
Mizar,
cujo sono fora perturbado por meu sobressalto e meus gritos, já está
de pé e, após espreguiçar-se pata por pata, mira-me com um olhar
demorado de preocupação... não, não é só isso. Estou percebendo nele
uma advertência silenciosa: seria muito melhor eu parar com essas
incursões extrafísicas por dimensões desconhecidas – acima de tudo,
deveria esquecer "a tal da Ushas".
Isso
está fora de cogitação, Mizar. Sou um explorador à procura de
conhecimento. Estive em muitos lugares estranhos, em projeções de
consciência, tanto nos mundos oníricos que envolvem nosso próprio
planeta e que formam a esfera refletora que serve de morada
temporária para as consciexes dos mortos, quanto nos que envolvem os
planetas habitados da União Solar e do Vice-Reino de Typhoon, nossos
vizinhos mais próximos no espaço federado. Aprendi que existem três
tipos de sonhos: os que provêm do mundo onírico particular do
projetor, suas próprias criações, formas-pensamentos; os que provêm
do mundo do desejo em geral, esfera refletora ou plano astral, com
suas centenas de faixas vibratórias povoadas de seres das mais
variadas espécies, inclusive as "cascas" vazias que a alma já não
pode utilizar e que se volatilizam mais cedo ou mais tarde; e os
mais raros de todos, oriundos do plano mental, das regiões da luz,
um estágio superior onde a forma não existe e "pensar" e "fazer" são
sinônimos. Mas até então só conseguira uma única projeção mental,
por sua extrema dificuldade. Mais fácil que projetar o corpo mental
é o "mero" desdobramento astral, o que já fiz vezes sem conta. Até
encarei fantasmas clorze e outras consciexes alienígenas, inumanas e
heteromorfas, nos planos invisíveis – e escapei por um triz.
Certa
vez, utilizei um cristal de ilusão uttmanari do planeta Efrós, para
fazer uma viagem psíquica ao passado ultra-remoto, 100 milhões de
anos atrás, quando os terríveis e odiosos Seres Antigos, ou
antivivos, dominavam a Galáxia e nem se sonhava com o homo sapiens.
Vi a megalópole de pesadelo que construíram no lugar em que, um
milhão de séculos depois, os homens haveriam de fundar Quiberon
Prime. Não é diferente de explorar planetas virtuais e viver
aventuras em universos virtuais no ciberespaço, como bilhões de
cidadãos da Federação fazem todos os dias. Por sinal, não são poucos
os historiadores que garantem que a tecnologia de RV, que abriu
caminho para a aceitação do conceito de múltiplas realidades,
derivou da projeção astral consciente.
Mas
receio agora ter ido longe demais. Desta vez abri uma porta mental
que me permitiu acessar algumas imagens de um planeta desconhecido –
tão verdadeiro como Gaia ou Patras –, talvez de outro universo ou
dimensão alienígena de tempo e espaço. Não, não fui eu quem abriu a
"porta". Foi Ushas, ela é a "chave". Mostrou-me um pouco de seu
planeta natal, Nekkar. Um mundo onde meta-humanos governam como
deuses e seus poderes são bem reais. Por um curto período de tempo,
eu fui um deus em forma humana. Eu conheci a mente de Savitar. Olhe,
eu sei que há um sem-número de softwares para entretenimento por aí,
dando ao usuário de holossuíte, ou cibersuíte, "poderes divinos" em
troca de um punhado de créditos. Brincar de deus e viver outras
realidades é tão velho como o ciberespaço. Mas, por Teos, Mizar,
jamais esquecerei o sentimento de paz e felicidade total que me
envolveu quando tive Ushas nos meus braços. Apesar de não
compreender bem as coisas que eu vi... Por exemplo, aquela
misteriosa identificação entre Râtrî e Ushas, tão inexplicável para
Savitar quanto para mim.
E
quanto ao ser esférico, constituído de campos energéticos, do qual
só tive vislumbres vagos, breves e fugidios? Udjat! Será um tipo de
I.A.? Um computador cósmico que manipula realidades controlando as
mentes dos projetores lúcidos? Quem sabe, Mizar, quem sabe! Dizem
que os Senhores de Worgtal, Mestres do Grande Jogo, reestruturam a
realidade a partir de seus sonhos e se comunicam por intermédio
deles. Afinal, a realidade está dentro da cabeça. E Ushas, minha
bela Ushas, desempenhou o papel de "iniciador", para despertar-me a
consciência espiritual a ponto de permitir-me entrar em sintonia com
o Udjat, que então me projetou na realidade escolhida – ou "sonhada"
– por ela. Agora entendo por que dançava de um jeito tão
provocante... Para ativar em mim a bioenergia sexual que é o
"combustível" para desencadear este despertar... O que diria o
celibatário do Randolph Carter disso tudo? Caramba, meu cérebro está
voando em transdobra! Preciso reverter para sub-luz...
Muitas
perguntas sem resposta. Tudo porque encontrei Ushas no limiar
daquele portal do sonho, em algum lugar do plano astral; e se
encontrei-a não uma e sim três vezes, foi porque ela estava
esperando por mim. Tenho certeza de que ela queria me revelar alguma
coisa muito estranha e muito grande, um segredo que envolvia seu
Universo e o meu. Se o contato não tivesse sido interrompido tão
inopinadamente, sempre que...
E que
tal se houvesse um portal ou passagem dimensional que permitisse,
sob certas condições, enviar objetos sólidos e até criaturas vivas,
corporalmente, deste Universo para o outro, onde moram Ushas e os
Prajâpatis, e vice-versa? Haverá um tipo de chave ou código de
ativação para abrir e fechar tais passagens dimensionais, se elas
existirem? Talvez seja esse o segredo de Ushas... uma chave para "a
Chave"... Nesse caso, talvez forças adversas estejam tentando
barrar-me o caminho para ela! Superforças paracósmicas? Seres
super-poderosos, verdadeiros "deuses dos deuses", de um continuum
de ordem superior, da quinta ou sexta dimensão? De qualquer forma,
uma chave tanto simboliza os meios para se chegar a um estado de
consciência, a um conhecimento, quanto serve para fechar, isto é,
para impedir o acesso a esse conhecimento.
O novo
dia já raiou e está brilhando, além das paredes de plasteel deste
palácio pressurizado flutuante, sob os quentes raios benéficos de
Hélios, nosso sol principal, que os nossos fraternos vizinhos
solarianos chamam de Alpha Centauri A. Um novo amanhecer. A luz da
alvorada é só um reflexo da luz cegante do sol. É o "precursor"
deste que simboliza a força luminosa da razão, que dissipa as trevas
e afugenta os terrores da noite, verdadeiro campeão "messiânico" dos
seres sapientes. Não foi à toa que divinizaram os dois, o Sol e a
Aurora, um junto ao outro, em tantos mundos habitados. Savitar e
Ushas... é uma bela história de amor. Porém, eu não sei se teve ou
terá um final feliz.
E
Râtrî, a gêmea "negra", onde se encaixa? Assim como a noite tem
duplo significado, positivo e negativo – gestação criadora de tudo
que surgirá durante o dia e sua sepultura –, assim a Senhora da
Noite é uma criatura ambivalente; ela é a própria imagem da femme
fatale, da mulher sensual e perigosa, é uma Virgem Negra e é
também Mãe e Filha, exaltada em suas boas qualidades e temida em sua
ira. Râtrî está mais próxima do protótipo natural da mulher do que
Ushas. E se ambas fossem, cada uma, "meia-mulher", lembrando o
clássico caso do ser vivo que sofre uma cisão e duplicação por um
defeito no teletransporte? Râtrî e Ushas e Savitar... será uma
espécie de coniunctio oppositorum, reunião dos princípios
antagônicos da Noite e do Sol, sendo a Aurora o elo de ligação entre
os dois? Não pense que estou maluco, Mizar. Laima sabe de onde me
vêm essas idéias esquisitas.
Paciência. Esta noite, quando Saule, a Companheira (Alpha Centauri B
para os solarianos), estiver brilhando com o resplendor de cem luas
cheias, no seu apoastro, esta noite voltarei à dimensão extrafísica
onde avistei Ushas pela primeira vez – a região central do mundo do
desejo, ou "região do sentimento", onde as bordas do mundo do sonho
compenetram as regiões menos sombrias do plano astral –, na
esperança de reencontrá-la. Porque agora eu a amo mais do que nunca.
Sinto que ela me abriu a mente para outros aspectos do Multiverso e
reinos fantásticos até então inacessíveis. Caso necessário,
percorrerei todas as dimensões, tal qual um Randolph Carter
centáurida, ou "um Cavaleiro da Aurora Espiritual que galopa para a
luz do alvorecer, sempre à procura do Graal da Sabedoria", nas
palavras da minha boa amiga Mathilde Rastignac, do planeta Avalon.
Aurora Espiritual – é o título de um poema de Baudelaire. Eu juro
que não darei sossego enquanto não achar essa "deusa", essa mulher,
seja qual for seu verdadeiro nome, e desvendar seus segredos. Possam
todos os dievini de minha família me favorecer nessa
empreitada.
Ok, ok,
Mizar, captei seu recado. Vamos para a cozinha tomar nosso café da
manhã.
Zephram, após o resumo do noticiário matutino em trivídeo vou querer
uma varredura temática na Starnet: tudo sobre portais universais e
interuniversais, por favor. Depois gostaria que reunisse o máximo de
informações a respeito das tribos de humanóides do ramo
sienato-ahranita e dos planetas Tamozkal e Bellus, no sistema
Fabrini; vou começar a trabalhar em uma tese de pós-doutorado
versando sobre o parentesco longínquo entre bellusianos e umbrianos.
Ah, sim! Ligue-me com a residência de Mathilde Rastignac, em
Arestown, planeta Marte, União Solar, via canal subespacial 1220, às
417 horas, tempo estelar. Faça uma conexão para projetar
holograficamente no salão principal – holograma em estado sólido,
com direito a cheiro e sabor. E por favor, programe um novo curso
para as montanhas Cascari d'Adelfa, subcontinente Illyria, porção
ocidental do Grande Continente. Cruzeiro standard,
sobrevoando o Mar Interior. Já estou farto das selvas de Zamora.
* * *
O mundo da vigília intrafísica é apenas uma plácida ilha de luz
cercada por um litoral muitíssimo mais amplo de sombra e mito que se
perde em meio a tenebrosos mares de escuridão e ignorância que se
estendem quase ao infinito. Somente no sonho, essa fascinante
realidade paralela de nossas visões noturnas, está o portal para o
mundo dos deuses e dos demônios, dos seres arquetípicos, míticos e
históricos que inda subsistem nalguma parte, disfarçados e
esquecidos, por onde se revela a rubra e dourada aurora das
primeiras e das últimas idades. A aurora brilhante tem uma mensagem
de outros tempos e outros mundos. Não é com palavras que fala, mas
na linguagem sutil dos céus infinitos que proclamam a glória de
Deus, em silêncio e per omnia secula seculorum.
* * *
Este conto é dedicado a
MICHELLE TRACHTENBERG.
Carlos Alberto Abraham Duarte Nasceu no bairro de Quintino, Rio de
Janeiro, RJ, em 14 de maio de 1962. Segue a religião judaica dentro
do rito sefaradi (conservador), sendo descendente de judeus
hispano-portugueses. Graduou-se em Geografia na Universidade Federal
Fluminense (UFF), em Niterói, RJ. Atualmente, leciona Geografia na
rede estadual do Rio de Janeiro (município de Nova Iguaçu) e reside
no bairro da Glória, Rio de Janeiro, RJ.
Libertário e humanista-universalista, suas preferências são a ficção
científica, astronomia, arqueologia, misticismo judaico (Cabala),
gnosticismo, projeciologia e animais, principalmente os gatos. Suas
inspirações advêm de Jornada nas Estrelas, Pery Rhodan,
Stargate,
Battlestar Galactica, Buck Rogers e Andromeda. E na literatura, de
Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Jorge Luís Calife, Anne Rice, H. P.
Lovecraft, Erich von Däniken, Peter Kolosimo, Carl Sagan, Zecharia
Sitchin, Waldo Vieira e Alexis B. de Lemos (seu ex-parceiro
literário no inconcluso “Projeto Prajâpati”).
Obras e trabalhos já publicados em outros sites: “Interlúdio em
Naboo”, fanfiction de Star Wars, publicada no site “Indefinido
Indeterminado on-line” e a versão em inglês, “Interlude on Naboo”,
publicada no site “Fanfiction.net”; “A Caçadora e o Deus da Guerra”,
fanfiction de Buffy the Vampire Slayer, publicada nos sites “Scriptonauta”,
de Lorna Dannan, e “Boca do Inferno”, de Marcelo Milici; a
fanfiction “Pacto Profundo” (continuação de “A Caçadora”) e o conto
original “Aurora Dourada”, também no “Boca do Inferno”.