Tinha medo de dormir sozinha naquele quarto. Seu quarto da infância e da adolescência. Desde pequena tinha medo. Era um quarto comum para a época. Amplo, as paredes forradas de um papel rosa pálido, com um barrado estampado de flores miúdas num rosa mais escuro na parte de baixo. Um armário de madeira antigo, a cama de solteiro com a guarda alta, o criado-mudo no mesmo padrão da cama. Um tapete delicado sobre o assoalho de madeira. A janela grande de madeira com cortinas brancas de tecido leve. Era arejado, bonito e singelo. Mas ela nunca gostara muito dele, por causa do homem da parede.

Quando criança tremia de medo quando via as ondulações por dentro da parede. Ele passeava apenas por uma delas. A que dava de frente para sua cama. Ela suava frio e cobria a cabeça com o cobertor para não mais ver a estranha movimentação dele, contínua, cheia de ruídos estranhos e lentos.

Ele só se movimentava quando ela estava por perto. E sozinha. Ninguém nunca vira tal fato e sua mãe e seu pai achavam simplesmente que aquilo era coisa de uma criança muito imaginativa.

Mas era verdade. Ela passou anos e anos dormindo naquele estado de medo, porém sobreviveu.

Então com dezoito anos foi para a faculdade numa cidade maior. Dividia agora um apartamento com duas amigas. Entretanto, mesmo longe do homem da parede e podendo então dormir sem medo, nunca perdeu o hábito de dormir com a cabeça coberta.

Mesmo há vários anos morando fora, ainda visitava seus pais freqüentemente. Mas evitava hospedar-se em sua antiga casa, pois sabia que inevitavelmente teria que dormir no seu antigo quarto e ele estaria lá, esperando por ela à noite para exibir sua dança macabra debaixo da parede.

No cair da tarde, sob a insistência de seus pais, alegava que tinha um compromisso no dia seguinte logo cedo e teria que ir embora.

Mas dessa vez teve que ficar. Passou por uma cirurgia relativamente simples, que no entanto exigia de cuidados. Estava de férias e suas amigas não se encontravam na cidade. Sua mãe foi buscá-la e a trouxe sem que ela pudesse colocar resistência.

Agora era noite. Jantara com os pais, conversaram muito, tomaram a brisa sentados na varanda e então, depois de acomodá-la carinhosamente em sua antiga cama, tratando-a como um bebê, eles se recolheram. E aí começou o seu pavor.

Acendeu imediatamente o abajur quase num salto, ajeitou o travesseiro nas costas e tentou não encarar a parede. Mas o coração já batia surdo. Pegou o livro e tentou concentrar-se. Não conseguiu por muito tempo. Os estranhos ruídos sob as paredes começaram. Primeiro lentos, baixos, depois mais fortes e compassados. Ela então olhou. E viu a mesma coisa que presenciara anos a fio, apavorada. As ondulações. Em algumas partes maiores, noutras menores, onde dava para perceber nitidamente os membros de um homem. Pernas, braços, joelhos, rosto, mãos que iam e viam como se executassem movimentos normais.

Ela gelou. Suou. Tentou respirar fundo. Preciso encarar isso. Preciso chegar perto. Tentar saber o que é. Sou uma adulta. Não sou louca e isso não é uma alucinação. Vou lá.

Levantou-se devagar, pois ainda sentia-se um pouco fraca. E passo a passo foi se aproximando da parede, que ainda ondulava como antes. Ela tremia e sentia o ar faltar-lhe, mas prosseguiu. Muito perto focalizou a cena. Os olhos escancarados, tentando captar todos os movimentos. Então estendeu a mão muito devagar e tocou. Imediatamente o corpo de dentro da parede estancou os movimentos. Ela tocava com as mãos abertas todo o contorno que podia ver, muito lentamente, detendo-se em cada parte e sentindo a silhueta de uma pessoa. Realmente a de um homem. Até que de repente pôde sentir, na altura do peito, o batimento de um coração humano. Que pulsava acelerado.

Seu corpo tremia da cabeça aos pés apesar do calor do quarto e ela sentia as pernas cada vez mais fracas. Percebeu que ia desmaiar.

E foi aí que num transe começou a esmurrar a parede com fúria. O ser encolhia-se de dor e gemia baixo. Começou, totalmente tomada de súbita loucura, a rasgar com as unhas o papel, e apanhando o abajur, a tentar perfurar com a haste a parede, com descontrole, gritando saia daí, demônio, mostre quem você é, seu maldito.

Desmaiou.

Acordou depois de algumas horas com as mãos amarrados na cabeceira da cama, os pontos da cirurgia em sua barriga refeitos pois se abriram em sua luta, rodeada de seus pais chorosos e um médico pálido. Olhou imediatamente para a parede e a viu perfeita, reta, desabitada, normal, apenas com as marcar das perfurações que fizera e os rasgos no papel de parede.

Então fechou os olhos, mordeu o lábio e chorou.

 
     
 
   


 

           

 

 

Alessandra Mascarenhas
34 anos, residente em Sorocaba/SP, formada em História e Direito. Tem como hobby e paixão as palavras. Escritora sem publicações (ainda!!!). Escreve compulsivamente contos sobre temas diversos e os divulga em sites especializados. Possui um site onde divulga seus textos e de outros colaboradores.
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