A protagonista de Debora fala reservadamente com todos
(Editora Altana, São Paulo, 2004, 176 páginas, R$ 30,00 em média),
primeiro romance de Ivy Knijnik, é uma mulher criada em São Paulo,
numa família de tradições judaicas (o livro é cheio de citações, com
notas, mas isso não aborrece o leitor). Classe média, casada, mãe de
dois filhos, descobre-se infeliz no amor – casara-se virgem com um
médico de renome – e cai num vício: a internet. Na rede mundial, em
salas de chat, tenta explicar/entender e superar a ausência
do marido e destrói sua vida a partir de paixões mais que efêmeras –
às vezes duram apenas o tempo de uma boa (às vezes nem isso)
trepada. Desilusões, decepções, frustrações. E a volta por cima.
O enredo do livro da paulistana é construído sobre temas sempre
bastante atuais: internet, infidelidade, sexo, vícios, paixões. A
estrutura da narração também é interessante: os capítulos
subdividem-se naturalmente, trazendo aspectos da
infância/adolescência de Debora e mostrando os diversos homens –
todos apresentados pelos nicks que usavam – com quem Debora foi para
a cama, sua desgraça e recuperação.
Ivy traça um olhar curioso, inusitado e despido de preconceitos
sobre o mundo virtual, trazendo-nos o que há de bom e ruim internet
afora: amizade, alegria, paixão, engano, engodo, assédio, solidão. O
romance poderia ser a história de qualquer usuário da web: algumas
das histórias apresentadas no livro são verídicas e foram
pesquisadas por Ivy em diversas salas de chat que ela
“freqüentou” para construir a sua história.
Li Debora fala reservadamente com todos em um dia. Adiei
bastante o início (“depois do carnaval começo”, eu dizia), mas a
escrita leve de Ivy Knijnik não nos permite largar o livro antes do
final. O virtual é um espaço onde praticamente tudo é permitido e
talvez por isso fascine tanto. O livro de Ivy, apesar de palpável,
de sentirmos o cheiro do papel e nele o cheiro de sexo – assim como
no carnaval, que é real – sem compromisso(s) e de uma incessante
busca por liberdade, bem poderia ser virtual: é virtuoso.
Zema Ribeiro Tem 23 anos e nasceu em São Luís do
Maranhão onde está cursando Jornalismo. É assessor de imprensa do
Fórum Municipal de Cultura daquela capital e edita o blog Shopping Brazil.
Já teve contos publicados n’O
Carapuceiro e na extinta revista eletrônica
TXTMagazine. Tem dois livros inéditos: Companheira de solidão
(poesia) e Vaselina de pimenta (coletânea de poemas e contos
eróticos).