Acorda pela manhã, olha pela janela e agradece ao Universo pela linda manhã ensolarada.

Olha para o lado e vê a cama imensa, vazia... E tudo volta a sua mente... Mais um dia solitário recomeça... Mais um dia sem o Amor!
Diante do espelho se pergunta: Como esquecer? Em meio aos seus conturbados dias de workaholic, vários convites, diversas personalidades, e nenhuma reação, dela.

Nunca foi masoquista. Muito pelo contrário. Fugia de competições amorosas e das famigeradas dores de cotovelo.

Mas, dessa vez, estava difícil!

Viveu quarenta anos numa tórrida temperatura emocional. Tinha algumas raríssimas febres, oriundas mais do psicológico do que do emocional e do físico. Ao descobrir esse Amor, ela descobriu a si mesma também. Obrigada pelas circunstâncias da vida a lutar pela sobrevivência sozinha, adotou um comportamento auto-suficiente como defesa na sua caminhada. Era tida como uma mulher forte e segura. O relacionamento com os homens era correto, franco e seguro. Sempre seguro. Nada abalava seu temperamento forte. Nada derrubava a soberba de sua personalidade.

Um dia Ele apareceu. Um verdadeiro exemplar do homo erectus. Um tanto primitivo em seus posicionamentos diante da vida. Infantil em alguns momentos. Másculo e dominador em outros momentos. Pra dizer a verdade era um Homem essencialmente dominador. O físico dele colaborava para que essa característica se evidenciasse. Tinha quase dois metros de altura, seus sapatos tinham número quase cinqüenta, coxas longas e grossas e aqueles braços que a enlouqueciam. Sim, ela adorava braços fortes. Adorava coxas longas e grossas. Adorava deitar sua cabeça no peito forte do seu Homem e sentir aquelas mãos enormes a abraçando. Sentia-se fêmea, protegida e delicada.

A relação sexual do casal era a Perfeição. Tudo que ela não sentiu em quarenta anos desabrochou em rios de prazer e êxtase. Todas as vezes que se amavam era maravilhoso. Todas, sem exceção. Era um prazer tão intenso que valia a pena deixá-lo ser um pouco autoritário, um pouco ciumento, um pouco possessivo.

Pela primeira vez ela se sentia delicada, insegura, e fêmea. Sua verdadeira personalidade. Seu verdadeiro Eu, que ela foi obrigada a esconder por tantos anos.

Mas a tendência Autoritária da personalidade dele gostou de ver aquela mulher tão forte subjugada a sua vontade e ele começou a exagerar em exigências e ciúmes, querendo mantê-la em um pedestal próprio para seu uso pessoal. A carreira dela começou a ser prejudicada, os amigos começaram a se afastar, pois não suportavam ver aquele brutamontes destruir o que ela conseguira com tanto sacrifício e luta.

A última palavra era sempre dele. E isso causava nela uma dicotomia de sentimentos. A mulher da essência adorava, mas a mulher que ela se tornara, durante sua corrida solitária pela sobrevivência, abominava essa situação.

E o conflito estava formado. Seu coração não conseguia explicar tantos sentimentos divergentes. Era Amor e Ódio. E começaram as brigas. Inicialmente dentro dela, depois com Ele.

A vida deles estava se tornando uma guerra de Poder.

Era inevitável. A diferença de idade entre Ele e ela reforçava o litígio. Ela era mais velha e possuía uma segurança econômica maior do que a Dele. Isso deixava o Machismo dele em constante pé de guerra e era um trunfo usado por ela nos momentos que falhavam todos os seus argumentos.

O tempo foi passando dessa forma, com muitas brigas e desentendimentos. Às vezes as discussões eram tão insanas que chegavam quase às raias da agressão.

Ela lutava, inconscientemente, pela suposta liberdade alcançada em tantos anos de luta. Lutava pela sua dignidade. Ela aprendera quando estava sozinha na batalha de sua vida emocional e profissional que o respeito se alcança com o sucesso. Nunca questionou esse fato. Ela queria fazer parte do sistema capitalista. Queria produzir, construir e mostrar aos seus filhos que era capaz. Mas, ao mesmo tempo, descobrira que gostava de ser a fêmea delicada e possuída pelo seu Homem sempre com muita Paixão e Desejo.

Não houve uma vez sequer que o relacionamento sexual dos dois fosse depreciado pelas brigas existentes. Em nenhum momento do relacionamento deles, nem no auge das idiossincrasias mais absurdas houve uma relação insatisfatória.

E essa relação sexual era mágica, inusitada, ímpar e multi-orgásmica para ambos.

Depois de alguns anos nessa relação cheia de controvérsias houve a ruptura provocada por ela, pensada, ensaiada, calculada e muito, mas muito sofrida. E ela mandou o seu Homem embora.

Mandou e saiu de casa porque senão não agüentaria. Passou o pior dia de sua vida. Chorava o tempo todo. Seus colegas de trabalho, sem entender o que estava havendo, procuravam confortá-la, pensando se tratar de uma briga passageira, mas ela sabia que era o Fim. Ela sentia que não haveria mais volta.

Quando chegou em casa à noite, Ele não estava mais lá. Dali pra frente essa mulher nunca mais foi a mesma.

Sentiu na pele o dilema da Escolha de Sofia: teve que escolher entre viver uma grande Paixão sendo apenas uma fêmea ou ser uma profissional de sucesso, respeitada e guerreira.

Hoje em dia essa mulher é uma profissional de sucesso. Sem Amor. Ela descobriu que só foi ela mesma com Aquele Homem, daquela forma. Daquela forma animal e máscula. Com aquele Amor entregue ao desvario e à luxúria.

Isso a fez entender que jamais amaria novamente.

A Fêmea precisava de um Macho para amar. E só Ele foi o que ela queria. Só Ele a fez sentir verdadeiramente Mulher.

E foi aí que ela compreendeu que também tinha o dark side of the spirit.

Descobriu que não era só Ele que era descodificado socialmente. Ela também era.

Esse relacionamento não era normal! Normal! O que é normal?

Quem decidiu o que seria certo e o que seria errado?

Que mal há em querer ser simplesmente Mulher?

A culpa foi daquela mulher que bradou pela liberdade da mulher aquela do sutiã, a tal Beth.

Os tempos mudaram e se tornou retrógrado a mulher ser dependente do Homem, antes não era. As regras e os conceitos da relação Homem x Mulher mudaram, mas ficaram enraigadas nos espíritos desse casal.

E essa Mulher renunciou aos valores antigos em prol dos valores adotados pela sociedade contemporânea.

Mas esse Homem também não suportou ver tanta fragilidade, tanta submissão, acabou extrapolando, acabou abusando do poder por não saber mais usá-lo. Falta de hábito. Mudança de cultura.

 

Até hoje Ela é triste, nunca mais amou ninguém. Mas recuperou o sucesso profissional.

E Ele está desaparecido. Dizem que enlouqueceu. Contam que teve um caso com uma mulher muito, mas muito feia e dizia a todos os seus amigos que ela era perfeita. Normal. Ele procura não enxergar o que perdeu. É primitivo, não consegue entender o que aconteceu.

 

Teria sido um lindo Amor! Mas isso, se tudo tivesse acontecido a long long time ago.

Maldita Beth! Maldito sutiã! Maldito capitalismo!
 
 

 
       

 

     


 

 

Fernanda Fernandes Mesquita
Sou jornalista, carioca, morando em Salvador. Tenho uma revista eletrônica na TV Bandeirantes que cobre toda a Bahia e Aracaju chamada "Fala Sério". Faço assessorias para vários restaurantes em Salvador. Edito um jornal para a Associação dos Servidores da Saúde do Estado da Bahia. Não como acarajé. Sou Fluminense. E pilota de Rallye.