Quando eu era menina, criança mesmo, fazia continhas para ver quantos anos teria no ano 2000. Trinta e nove! Por algum motivo, sempre me esquecia desse número e sempre refazia os cálculos, constatando, repetidamente, com o mesmo assombro (!), que seria mais velha do que minha “mamma” era naquela época.

E com a cabecinha cheia de sonhos infantis, pensava que ser “grande” era como os contos de fadas – uma casa branca, com janelas coloridas, muitos filhos para enchê-la de brinquedos, barulho e alegria, e um marido que não deveria nada ao príncipe encantado da Cinderela. E eu, a própria Cinderela! Era uma garotinha singelamente feliz!

Adolesci e continuei refazendo os cálculos da minha idade para a virada do século. Acredite! Eu era ótima aluna em matemática, possuía uma memória fantástica, mas o resultado de dois mil menos mil novecentos e sessenta e um era um número que, simplesmente, não se fixava.

Pappà” e “mamma” se empenhavam, com amor e dedicação inesgotáveis, a formar sua “figliola” para a vida, a vida de uma mulher forte, íntegra e independente. Mas não uma formação qualquer. Uma formação à italiana pós-Guerra Mundial II: muita paixão, sentimentos intensos, somados a disciplina e responsabilidade. Aulas de inglês, aulas de francês, balé, piano... Mas como poderia deixar de sonhar? Evidentemente, não era mais uma casinha branca, os filhos já tinham se reduzido a dois, quem sabe três, o consorte (sorte?) continuava um ser especial e eu, a rainha do lar, moderna e independente, mas ainda rainha. Era uma adolescente sonhadoramente feliz!

A partir daí, não era mais relevante saber quantos anos teria na entrada do novo século. Aliás, nem tempo havia para cálculos ou reformulação de desejos. (Sim, a partir de um certo grau de maturidade, penso que nossos sonhos se tornam desejos. Descartamos o impossível e guardamos o provável.) Simplesmente, o futuro foi tomando corpo e ocupando espaço. Era a vida exigindo decisões, respostas e atitudes... de gente grande e responsável. Meu Deus, como esse mundo tem pressa! Deixei-me atropelar por aquilo que os outros esperavam de mim. Cometi diversos erros, a maior parte deles inéditos, sinal de que estava aprendendo com as faltas anteriores. Tomei decisões acertadas, também. Descobri minhas potencialidades, fruto do que me foi plantando por meus pais e professores na infância. Essas descobertas ora me surpreendiam, ora me decepcionavam. De qualquer forma, foi um prazer indiscutível me perceber pessoa atuante, produtiva, de valor. Era uma jovem determinadamente feliz!

O tempo não pára. Estamos no século XXI. Agora não preciso mais fazer contas – tenho meus 39 anos completos e mais alguns que prefiro não calcular mais. Nunca morei numa casa, tenho um único filho, que é uma bênção (e vale por três!), e o príncipe? Bem, esse não apareceu – isso só acontece nos filmes românticos.

As estatísticas dizem que já vivi pouco mais da metade do meu quinhão de vida. Então, ainda me sobra um copo meio cheio para brindá-la. Hoje, percebo que a beleza de viver só é possível graças ao lado amargo do seu reverso. A dor é um sentimento que me fortalece, a adversidade revela minha força oculta, os desafios testam meu caráter. E tudo isso valoriza minhas conquistas, minhas superações e meus prazeres.

É igualmente verdadeiro que meu olhar sobre o mundo perdeu parte do seu glamour ainda que eu persista em conservar um otimismo quase pueril. Quem disse que só há esta maneira de olhar? Sorrateiramente, foi se instalando em mim um desejo crescente de transcender minha racionalidade, extravasar minha natureza, sentir os movimentos à minha volta, resgatar os desejos prováveis daquela jovem mulher do século passado. Quero adquirir muitos óculos, de todos os graus e tipos de lentes, para ver a mesma realidade de formas diversas. Quero me apoiar em balizas que permitam ver de outra perspectiva o que me rodeia. Quero experimentar formas diferentes de abstrair. Quero descobrir um mundo novo, no entanto, já velho conhecido meu.

E para isso, conto com a minha porção arteira. Como num desenho animado, levanto e me recomponho do atropelamento da vida. Quase novinha em folha, com escoriações de menor gravidade, começo a me permitir o novo sentir, o diferente ponderar, o desconcertante deixar. “Faça alguma coisa de útil!”, diz a minha “mamma” quase em súplica. Nem ela nem eu sabemos ainda o que sua “figliola” vai encontrar nesta estrada para ser uma mulher conscientemente feliz!

Junho 2004
 
 

 
       

 

     


 

 

Claudia Ritossa
Fotógrafa diletante, tem coisa melhor? Observo. Sinto. Busco. Fotografo. Escrevo. Projeto. Executo. Deixo... Nem só razão. Nem só emoção. Uma colcha de retalhos inacabada...