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Às vezes, preciso me esquecer. Deixar-me sozinha, sem palavras, muda e cabisbaixa, fazendo nada. Desleixada, sem ninguém por perto, vestindo moletom, calçando apenas o meu pensamento. Livre, me afasto do medo de emudecer. Não sei mentir com precisão, então, apenas finjo que me esqueço. Tudo de que preciso é deixar que ela fale por mim: a minha mãe. Ela sempre falou por mim. Eu a ouvia, calada. Nos dias em que estou mais alegre gosto de brincar de ouvir minha mãe falando por mim "menina, você está brincando com a verdade". Que mãe diria isso? Minha cabeça infantil pensava, "não há nada melhor do que brincar com a verdade, se eu nem sei o que é a verdade. Bom mesmo é desconstruir". E partia sozinha para o meu canto com o meu mundo de bonecos e histórias fantásticas de pequenos amores, famílias e construções de personagens fortes e auto-suficientes. É isso. Eu nunca precisei de ninguém pra brincar, eu gostava de brincar sozinha e assim me esquecer. Trancava-me no quarto com meia dúzia de bonecas, livros e alguns brinquedos. Esquecia de comer. De beber. Fazer xixi. Esquecia, até, de dar "boa noite, mamãe". E de lembrar do meu pai com tristeza e saudade. Mas quando acordava, lá estava eu novamente, no reflexo do espelho, olhar abatido, cabelos desgrenhados, boca suja, encarando-me como a uma desconhecida e sorrindo pra mim tentando ser simpática. Mas a outra não me devolvia o sorriso, e eu, então, me recolhia conformada. Minha mãe surgia com seus braços enormes e me abraçava no meio do corredor, cobrindo-me de beijos. Sufocava-me o seu abraço. Ao fundo, escutava um grito de socorro abafado e tossia, tossia, tossia. Um apito estalava no meu peito, era a bronquite. Desvencilhava-me com cuidado dos braços enormes da minha mãe, para não magoá-la, e saía sozinha: a outra me aguardava no quarto para começarmos a brincar.
Hoje a brincadeira mudou. Evaporou-se da minha vida aquela criança
desconhecida que todos os dias vinha me dar bom-dia. Há uma mulher no seu
lugar, contudo, sua aparição é rara e, por isso, valiosa. Juntas,
recordamos das coisas mais pueris da minha vida. Pequenas pérolas. Como
tesouros esquecidos que me explicam. |
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Comprou um sofá carésimo, de mil e oitocentos reais, porque viu num encarte de uma revista de domingo. Reformou a sala, a cozinha e o banheiro com uma equipe eficiente de arquitetos bonitões. Gastou os tubos. Mas o seu maior deslumbramento mesmo era acreditar que tinha algo a dizer. Nas reuniões sociais e familiares, gabava-se de seu escasso saber, com opiniões recortadas sobre política, economia, religião e até futebol, que detestava. Procurava ser uma mulher ativa, mas na intimidade, não tinha nada, era oca e lenta, muito lenta. Casou-se duas vezes. A primeira, com um médico respeitado e rico, mas muito autoritário, com quem teve um filho. A segunda, com um jovem artista plástico, ainda desconhecido, pobre, nem bonito nem feio, bem informado e tranqüilo, de quem, também, engravidou. Nunca trabalhou. A pensão do primeiro marido a sustentava e sabia que a herança da família a aguardava. Em todas as ocasiões apresentava aos amigos e familiares seus novos projetos. E sempre tinha um novo para apresentar. Era projeto de filmar, de estudar, de viajar, de abrir um restaurante, escrever, fazer mestrado, abrir uma empresa ou uma butique. Tinha mil planos, nenhum dinheiro no bolso, e vivia dizendo "estou exausta" e "não tenho tempo para nada". No fundo, no fundo, acreditava em todas as investidas, era quase um hobby. O segundo marido irritava-se com as vulnerabilidades da mulher. Passou anos sem pintar, sem encontrar inspiração para voltar a colorir suas telas, sem conseguir estudar. Foi sugado pela vida dela e, como se estivesse sendo sugado por um ralo, foi escoando. Absorvido, desceu num redemoinho ao caminho do esgoto mais pútrido.
Então, lá surgiu a idéia de pintar um retrato da mulher em meio a jóias e
bostas, jóias e bostas, jóias e bostas, jóias e bostas, jóias e bostas.
Vendeu como água e assim ele ganhou milhões de reais e de jóias para
sustentar a bosta de sua mulher. |
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