Cinco da tarde. Sábado escuro, com jeito de chuva. O professor José Renato e o jovem Carlos sobem a rua da Bahia em conversa animada sobre literatura. Na porta da Lanchonete Nacional param para tomar o habitual cafezinho após a reunião na Academia de Letras.

– Vamos entrar logo, antes que comece a chover – alerta o professor.

– Parece tempestade – ressalta Carlos olhando para o céu, cada vez mais carregado.

Na saída do bar, José Renato segura o jovem pelo braço.

– Já ia me esquecendo. Viajo para Aracaju no próximo final da semana.

– Vai passear?

– Imagine!... Um congresso. Antes, quero um favor seu.

Carlos arredonda os olhos:

– Se tiver ao meu alcance, pode contar.

– Sei que está. Preciso que durma na minha casa, enquanto estiver fora. Suzana morre de medo de passar a noite sozinha com o menino – explica o professor.

– Sem problemas.

– Obrigado, Carlos. Assim, viajo mais tranqüilo.

– De nada. Em Aracaju, espero que aproveite bastante.

– Pode ser. Congresso puxa muito, o tempo fica curto.

José Renato é um professor já maduro; pouco riso, mas simpático e elegante, sempre metido num terno vincado a ferro e lenço no bolsinho do paletó. Carlos estuda Literatura, é aspirante a poeta e trabalha na redação de um jornal. Usa calças jeans e camisa quadriculada exibindo um peito farto em pêlos dourados.

No dia da partida, Carlos acompanha o professor até o aeroporto. Em seguida, passa pela república, lugar em que mora com outros estudantes, pega uma muda de roupa e sai apressado para o apartamento do professor.

Suzana recebe o amigo com um largo sorriso.

– Que bom que veio, rapaz!

– Um pouco atrasado.

– Nada, sô. Entre.

Carlos atravessa o hall de entrada e se instala no sofá da sala. A moça fecha a porta e senta-se na poltrona, bem na frente do estudante.

– Como o Zé partiu? – pergunta.

– Feliz da vida. Ah!... Ficou com os olhos cheios de lágrimas ao mandar lembranças para o Júnior.

– Esse menino é a paixão dele...

– Você também, é claro – apressa o amigo.

– Não me faça rir.

– Hein?!...

– Há muito tempo anda enfarado de mim. Também... não dou a mínima!

– Brigam muito?

– Bobagens!... Bem, vamos falar de coisas mais interessantes. Que tal uma cervejinha?

– Para comemorar o quê?

Suzana ri com ar de deboche.

– A vida em família!... Vou pegar uma geladinha.

A moça se levanta, vai até a cozinha e volta com uma garrafa de cerveja, dois copos e uma bandeja cheia de azeitonas.

– Gosta?

– Boa pedida! – aprova o rapaz já espetando o fruto verde, enquanto Suzana enchia os dois copos de cerveja.

– Tim-tim – ela brinda.

– Tim-tim – repete o rapaz, levantando o copo cheio. E logo quis saber: – Cadê o Juninho?

– Dormindo. Não agüentou esperar por você. Depois da novela, apagou.

– Pena!

– Música!... O que prefere ouvir?

– Pode ser... pode ser uma canção romântica que não seja chata.

– Ah, é!... Achei que apreciava as baladas de rock´n´roll!

– Gosto também. Mas tenho preferido melodias com letras mais profundas.

– Então vai curtir de montão o último disco que comprei.

Suzana corre até o toca-disco, coloca o novo long play de Agostinho dos Santos e torna a sentar na mesma poltrona. Carlos bate palmas em sinal de aprovação e os dois se põem numa conversa repleta de risos, fumando e esvaziando os copos; vez ou outra, ela puxa a saia que, apesar de seus esforços, mal chega ao meio das coxas, mostrando a beleza de suas pernas. Por fim, Carlos pergunta de onde vem tanto medo de dormir sozinha num apartamento.

– Bicho-papão!... – ela ironiza.

Carlos dá uma gargalhada:

– Só isso?

– Sim.

– Você é divertida, menina!

– Que ótimo!... Menina.

O moço mais risonho ainda:

– Feliz o homem que tem uma companheira tão chique assim.

– O quê?

– Isso mesmo: você é chique, elegante. E muito bonita.

– Acha mesmo que sou bonita?

– Muito.

My Good!... É mesmo um galanteador e tanto!

– Eu! Espere aí!... Não pense bobagens.

– Não!... Não!... Sei que não canta mulher de amigo! – diverte-se Suzana.

O moço se contrai ligeiramente:

– Ainda bem.

– Relaxe, cara. Numa boa, o Zé já me contou suas aventuras com as mulheres. Numa paquera é capaz de persuadir as mais incautas.

Risos.

– Exagero dele – contesta Carlos.

– Também, com essa lábia!...

– Não é bem assim. Vivo apostando: às vezes ganho, outras vezes perco.

– Sei como é. Fica circulando... fica circulando.... quando conquista, papa e descarta.

– É o que pensa sobre mim?

– É.

– Tudo bem. Duas coisas norteiam minha vida: os livros e as mulheres.

– Parabéns. Pelo menos é honesto.

– Não engano ninguém. Quero me divertir.

– Tipo Don Juan ou Casanova?

– Excita-me a abundância das mulheres, mais do que uma relação intensa com uma namorada.

– Don Juan. Sedutor e não se apaixona por ninguém.

– Sim. Também não exijo fidelidade delas.

– É. Devo admitir que as mulheres têm uma certa queda por esse tipo de homem. É mais interessante... mais ousado no assédio.

– E você?

– Ah!... Não vai saber nunca.

– Duvido que não tem fantasias!...

– Segredo... Espere aí, não mude de assunto. Você é o meu entrevistado.

Carlos esboça um leve sorriso de intimidade:

– Tudo bem. Tudo bem. Que mais quer saber?

– Deve ser um bom dançarino?

– Adoro dançar. Distraio pra caramba!...

– Aposto que não perde um baile nos clubes da cidade.

– Prefiro os do Caap. As acadêmicas de Direito são mais liberadas, cometem mais extravagâncias. Danço também no Montanhês. Lá, posso até pisar no pé das dançarinas que elas não se importam.

Suzana, admirada:

– Montanhês!?... Não acredito que freqüenta esse lugar!

– Algum preconceito?

– Nenhum.

– Não se preocupe, o Zé Renato não me acompanha. Não é chegado nesse tipo de exercício.

– Não estou nem aí. Verdade que elas cobram para dançar?

– Sim. Por minutos – confirma Carlos.

– Vale a pena?

– Se tivesse dinheiro sobrando, dançaria mais no Montanhês.

– Fala sério?

– Lá, o homem encontra o prazer em diversos graus.

– Não tem nojo?

– Nojo!... Nojo de quê? São limpinhas, cheirosas. São mulheres alegres.

– Imagino!... Vejo falar que a zona da Guaicurus é a pior possível, um entra-e-sai nas pensões dia e noite. Trottoir de bichas na rua... Promíscua, cheia de marginais... um fuzuê danado.

– Pode ser. Ali, apenas danço.

Suzana, meio desconfiada:

– Só isso?

– Juro. Tenho juízo. Não arrisco minha saúde nem minha vida naquele lugar, um verdadeiro campo minado. Para aventuras amorosas, prefiro os barzinhos e os bailes da cidade.

– Sempre atrás de um rabo de saia! – troça Suzana, mais aliviada.
– Não nego. No programa sentimental meu pensamento nunca se ocupa de uma mesma mulher mais do que uma semana.

– Meu Deus!... Os homens são todos iguais!

– Você acha?

– Acho. Mas um dia pode encontrar uma moça que ponha fim nessa vida de malandragem.

O jovem franze a testa:

– Não me rogue praga.

– Isso é o que acontece com todos.

– Pode ser. Agora, fale de você, de seus desejos.

– Secretos? – insinua a moça.

– Adoraria saber.

– Outro dia. É tarde. Amanhã, levanto cedo.

– Então... abre a saideira!

– Tudo bem.

A moça deixa a poltrona; da geladeira traz outra garrafa de cerveja. De novo se aloja na poltrona, cruzando as pernas. O rapaz, olhando de viés, pôde ver as rendas peroladas da calcinha rosa que ela estava usando, mas foi só tempo para se ajeitar no assento; Suzana cobriu-a logo, esticando a saia.

– E você, o que tem escrito?

Pegando uma azeitona, ele responde:

– Só a pauta do jornal.

– E as poesias?

– Vez ou outra. Quando pinta inspiração.

– Huuummm!... – exclama a moça.

Por um momento, Suzana fecha os olhos reclinando a cabeça de lado da poltrona. Logo eles se abrem, vivos, com as badaladas do relógio da igreja da Boa Viagem.

– Meia-noite! Tarde demais!... – se espanta a mulher.

– Muito bem. Então, vamos descansar.

– Isso mesmo. Você dorme no sofá. Não é muito confortável, mas é melhor do que no quarto com o garoto.

– Ótimo. Não se preocupe. Abraham Lincoln já dizia: ... Não importa o ninho onde você foi posto, se você for um ovo de águia.

– Gavião, né?

Suzana deixa o copo de cerveja pelo meio, pega a roupa de cama e forra o estofado. Antes de sair da sala, põe uma tolha de banho nos ombros do rapaz e se despede com beijinhos no seu rosto. Entra apressada no quarto e fecha a porta por dentro.

Carlos toma banho e retorna para a poltrona só de short, o dorso nu. Quando ia pegando no sono desperta com o barulho de uma porta que se movia. Abre os olhos pela metade e avista Suzana na penumbra, em pé, vestida de uma longa camisola de seda dourada, aberta ao meio. Mal acredita. Em seguida, pisando nas pontas dos pés, ela caminha para o sofá e fixa o rapaz diretamente no tórax, ajoelha-se e começa a mordiscar os pêlos de suas mamas.

A ousadia da amiga surpreende Carlos. Imediatamente um arrepio percorre-lhe a espinha, mistura inflamada de desejo e remorso. Mas, pouco a pouco, embriagado pelo suave perfume que inunda a sala e o carinho sedutor de Suzana, não se contém. Aperta com força o corpo dela no seu e a beija com paixão. Ao mesmo tempo, inspirada pelos desejos mais ardentes, ela afasta a boca da boca do homem e balbucia-lhe um pedido ao ouvido. Carlos sorri. Tira-lhe o resto de roupa e, cheio de manha, desliza a ponta do nariz pela pele fina da sua nuca, beija-lhe os seios e passeia a língua, com a mesma malícia, até o baixo ventre. Inconfundível delírio!...

– Aiiiiiiiiiiiiiiiii!... – Suzana solta um prolongado gritinho de satisfação.

E amolece. O rapaz, com os lábios sedados pelo sabor de líquidos misturados, envolve-lhe os ombros com as mãos e enfia suas coxas entre as dela. E assim, um dentro do outro, rolam no sofá aos abraços e beijos até a última gota de prazer.

Depois, ainda enroscada nele:

– Que bom, meu anjo!

– Feliz, morena de cabelos cacheados?

– Posso garantir.

– Bela. Belíssima! – entusiasma-se o poeta.

Tomada por uma alegria nova e pura, Suzana se desembaraça dos braços rígidos do rapaz, desce da poltrona e se veste. Pega o lençol no chão, cobre o moço e acaricia novamente seus cabelos, ornados de ouro.

– Tenho que ir.

– Já?

– Boa noite, querido.

Suzana sai de mansinho. Logo desaparece atrás da porta de seu quarto.

FBN© 2004/Bela. Belíssima/Welington Almeida Pinto/Categoria:conto
 
 

 
       
     
 

 
       
       
   

Sófocles larga o jornal e levanta os olhos para o relógio na parede, que marca nove horas da noite. Esfrega as mãos, ajeita o colarinho da camisa e despede-se dos amigos da sala de leitura do clube. Desce a escadaria até o hall de entrada do salão de festas e fica ali por um minuto, passeando o olhar pela fila de mesas; quase todas ocupadas. Escolhe uma entre as vazias e se acomoda apressadamente. Examina outra vez o salão, quase lotado, e estala os dedos para chamar a atenção dos garçons. Um deles se aproxima:

– Boa noite, senhor.

– Traga a melhor cerveja e dois copos.

– Brahma ou Boemia?

– Não tem outra?

– Trabalhamos apenas com as duas marcas.

– Então, a mais gelada.

– É só?

– Por agora, sim.

– O comando, por favor – pede o moço.

– Comando!?....

– Não lhe deram uma folha na entrada?

– Ah, sim. Desculpe-me, está no bolso do paletó.

– Grato. Trago em um minuto a bebida.

– Bem gelada, viu!... – repete Sófocles.

O moço sai e volta logo com uma garrafa de cerveja e serve Sófocles, que fica ali entretido com o burburinho das pessoas saudando uma às outras, sentadas ou circulando pelo recinto – um barulho tão ruidoso como o de um recreio de colégio.

Poucos minutos depois as cortinas do palco se abrem e a orquestra começa a tocar. A iluminação clara e incandescente é trocada por outra que deixa o salão numa penumbra maliciosa, convidando os primeiros casais para a pista de dança. Em seguida, surgem outros e mais outros, girando sem parar em diversos graus de intimidade: uns acanhados, outros mais animados e aqueles mais sisudos com a fisionomia fria de banqueiros envelhecidos, mostrando no rosto rugas características de quem muito se preocupa com dinheiro.

Mesmo encantado com a animação da festa, Sófocles ainda continua oculto na penumbra da garrafa escura de uma cerveja, pensando que poderia convidar alguma moça para dançar. De repente, uma jovem senhora, cabelos cor de palha e ares de garota, chega até sua mesa.

– Oi.

– Oi – responde o homem, abrindo um pouco mais o sorriso.

– Permita-me?

Sófocles, muito gentil, fica de pé e puxa a cadeira:

– Sim, claro! Sente-se, por favor.

Ela agradece:

– Obrigada! É novo por aqui?

– Sim. Debutante.

A moça ri com ar de surpresa.

– Que bom!... Já deve saber que o clube promove duas sextas dançantes por mês.

– Serei assíduo!... – brinca Sófocles.

– Dança?

– Mal.

– Não tem importância. Aqui ninguém liga.

– Tenho que beber um pouco para ficar mais animado. E você, toma cerveja?

– Acompanho você.

Sófocles enche o outro copo, convidando:

– Vamos brindar?

– Tim-tim!... Tim-tim!...

– Qual o seu nome?

– Luciana. E o seu?

– Sófocles.

– Sófocles!... o poeta grego?

– Sim. O poeta trágico.

– Gosto muito de poesia – revela a mulher.

– Escreve?

– Curto bem, mas não sou poeta. Fiz letras e leciono literatura. E você, escreve?

– Sim. Às vezes, quando a inspiração bate.

– Pelo jeito, deve bater sempre.

Depois de algum tempo trocando risos e palavras, Sófocles põe uma das mãos no joelho da mulher e fica um momento admirando seus lábios, cobertos de vermelho.

– Você tem uma boca bonita e alegre – elogia.

Antes que ela dissesse qualquer coisa:

– E os olhos também. Azuis como o céu de Paris.

– Obrigada. É um observador perspicaz.

– Pode ser. O belo me atrai.

A moça ri, satisfeita. Do longo vestido de organdi azul em que moldava o corpo sarado, surgiam dois braços arredondados e claros, nus até aos ombros, onde o homem, de leve, deposita um beijo, elogiando:

– E a pele tenra como veludo.

– Meu Deus!...

– Seu perfume também me seduz.

– Rommage.

– Huummm!... Suave, doce e sedutor!...

Luciana, sorrindo, tira a mão dele de cima de suas coxas.

– É mesmo!... Posso revelar um segredo?

– Claro.

– Você é um cara magnético. Muito perigoso para uma mulher sozinha.

– Ah, é!... Explique melhor!

– Há qualquer coisa em você que acalma e seduz ao mesmo tempo.

– Você acha?

Grandes focos de luz, rápidos e azulados, a todo minuto riscam as paredes e o teto do salão, empalidecendo o ambiente. Novamente Sófocles estala os dedos para o garçom e pede outra cerveja.

– Tive uma idéia. Que tal dançarmos uma música? – sugere a moça.

– Você esqueceu, minha flor. Deixe que eu beba só mais um pouquinho. O álcool me ajuda a descontrair.

– Sinto muito.

Luciana abaixa os olhos e começa a mexer na bolsa, só para dissimular o desapontamento. E diz:

– Fica para depois. Vou conversar com minhas amigas.

– Já?

– Já. Foi um prazer.

– Daqui a pouco tiro você para dançar. Posso?

– Quem sabe! Talvez, a última valsa.

E com a mesma expressão afetuosa e divertida, Luciana se despede:

– Tiauzinho, meu fofo! Divirta-se.

– Espere.

Sófocles toma um gole de cerveja e, num beijo furtivo, passa o líquido para a boca da mulher, que deixa a mesa rindo do gesto audacioso do macho, remexendo os quadris sensualmente arredondados.

A festa continua animada. Sófocles estende o olhar para os lados como se quisesse aparecer para as outras mulheres, que se misturavam no vai-vem da dança. A certa altura, decide sair. Deixa morrer sob os dedos a melodia que devolve lembranças ligadas à sua mocidade, chama o garçom e paga a conta. Atravessa a porta principal e toma o elevador, deixando atrás de si a felicidade resgatada pela música dos anos sessenta que ainda tocava:

... Óóóóhhh Diana, por favor...

– Valeu!... – suspira, enquanto pegava no bolso das calças a chave do carro.

FBN© 2004– Aconteceu Naquele Baile/Welington Almeida Pinto/Categoria:conto
 
 

 
       

 

     


 

 

Welington Almeida Pinto
Escrevo desde criança, quando comecei pensando que poderia continuar a obra principalmente de Monteiro Lobato e outros que povoavam minha imaginação. A Literatura tem para mim o efeito de uma responsabilidade, quanto mais escrevo, vejo que preciso trabalhar mais. Acredito que o livro pode ser o grande instrumento de mudança social no Brasil, como em qualquer país do mundo. Apesar dos 55 anos, todos vividos em Minas, ainda me sinto um leão voraz na luta pelo livro de qualidade em sala de aula, na cesta básica do trabalhador, o reconhecimento do escritor como profissional, loteria cultural para financiar bibliotecas públicas em todas as escolas públicas, presídios e entidades comercias.
Escritor e jornalista, sou autor, entre outros livros, de Santos-Dumont, no coração da humanidade. Relação de meus livros nos sites
www.welingtonpinto.kit.net
www.ieditora.com.br.