Bip
"CONTROLE DE TERRA PARA MAJOR GAGARIN."

...

Bip

"CONTROLE DE TERRA PARA MAJOR GAGARIN."

Meus olhos tensos se abrem. À minha frente, grandes luzes piscam em muitas cores, enquanto que ao meu lado, a escotilha mostra uma escuridão mórbida e infinita. Cheguei ao espaço.
Bip

"MAJOR GAGARIN PARA CONTROLE DE TERRA. MAJOR GAGARIN NA ESCUTA."

Ela deve estar orgulhosa de mim, apesar de muito apreensiva. Afinal, eu sou o Colombo do cosmos, o desbravador do espaço virgem. O primeiro homem a flutuar no universo, em meio às estrelas. Sou bravo, o homem mais ousado da Terra. Aliás, onde está a Terra?

Bip

"CONTROLE DE TERRA PARA MAJOR GAGARIN. INICIE A MISSÃO."

A Terra. Deus, como é pequena! Estendo minha mão e consigo tapá-la com meu polegar! E é azul! De um azul límpido e resplandescente!

Bip

"MAJOR GAGARIN PARA CONTROLE DE TERRA. A TERRA É AZUL."

Bip

"CONTROLE DE TERRA PARA MAJOR GAGARIN. INICIE A MISSÃO."

Sim. Eu vim ao espaço para trabalhar, não para admirar o azul da Terra, de uma beleza tão pura que quase arromba a retina. E é nessa pequena esfera, tão frágil e solitária, perdida na escuridão, que está o meu amor. Ah, o meu amor... deve estar tão nervosa...

Bip

"MAJOR GAGARIN PARA CONTROLE DE TERRA. DIGAM À MINHA ESPOSA QUE A AMO."

Bip

"CONTROLE DE TERRA PARA MAJOR GAGARIN. INICIE E MISSÃO."

Certo. Ok. Eu devo me esquecer de que sou o primeiro homem no espaço, que estou a milhares de milhas de casa, e simplesmente trabalhar.

Bip

"MAJOR GAGARIN PARA CONTROLE DE TERRA. INICIANDO A MISSÃO."

Me desato do cinto que me prende ao assento. Flutuo até a escotilha e agarro com firmeza a manivela que sela a minha saída dessa lata de sardinha até o vácuo mortal. Abro a pesada porta da minha cápsula e tenho o nada à minha frente. Mergulho sem medo, pois um forte cabo me conecta à minha nave espacial. Flutuo e vejo as estrelas. No espaço, as estrelas não estão perto e brilham como almas num necrotério.

Bip

"MAJOR GAGARIN PARA CONTROLE DE TERRA. ESTOU FORA DA NAVE."

Olho para baixo e vejo a minha casa. É estonteante. Mas... que estranho... a Terra parece estar se afastando de mim... me viro e vejo as luzes da nave falhando. Algumas se apagam, enquanto outras piscam desordenadamente. Olho para o cordão umbilical que me dá segurança e... meu Deus! Está rompido!

Bip

"CONTROLE DE TERRA PARA MAJOR GAGARIN. SEUS CIRCUITOS ESTÃO FALHANDO. HÁ ALGO ERRADO, MAJOR GAGARIN?"

Tento flutuar até a nave, único lugar onde poderei estar seguro até a volta para o planeta Terra. Deus... não estou conseguindo... como se estivesse sendo... puxado... para o... nada!

Bip

"CONTROLE DE TERRA PARA MAJOR GAGARIN... PODE ME OUVIR MAJOR GAGARIN?"

Me esforço para atingir a nave, mas vejo-me distanciando dela e do planeta azul. Deus... eu vou morrer?

Bip

"CONTROLE DE TERRA PARA MAJOR GAGARIN... PODE ME OUVIR?"

O espaço acalma. É impossível manter o desespero quando se tem tanto silêncio e uma escuridão, de certo modo, confortante. Me deixo flutuar no esquecimento. Preciso apenas de minhas pílulas de proteína...

Bip

"CONTROLE DE TERRA PARA MAJOR GAGARIN... PODE ME OUVIR?"

bip

...

Bip

"PODE ME OUVIR, MAJOR GAGARIN?"
 
 

 
       
     
 

 
       
       
   

J. era o tipo de pessoa que não pode estar desocupada. Sua mente tinha que se concentrar em alguma tarefa que a impedisse de pensar besteiras. Qualquer coisa que evitasse seu cérebro de ter idéias e tirar conclusões a respeito de sua vida. Por isso, num surto, decidiu arrumar a casa.

Olhou ao redor, estava tudo impecavelmente arrumado. Não havia nada esperando para ser guardado, para ser limpo. "Não pode ser". Desesperou-se.

De súbito, lembrou-se de que não fizera sua cama. Lembrou-se também de umas roupas, jogadas no canto do quarto, que deveriam, prudentemente, ir para o cesto de roupas sujas.

Rapidamente, entrou no quarto arrecadando as roupas do chão e as que estavam no encosto da cadeira. Foi até a área de serviço e enfiou-as no cesto, onde calcinhas e camisetas suadas se misturavam a toalhas de mesa e lençóis encardidos.

Voltou num pé para o quarto, tirou as cobertas da cama, o travesseiro também. Pegou o lençol do chão, suspendeu-o no ar e deixou cair sobre a cama, como um balão que murcha e vai ao chão. Começou a esticá-lo, alisando-o. "Eu preciso me expressar mais." Uma tristeza infantil envolveu o coração de J. Seus olhos começaram a se afogar sob as lágrimas, que não escorreram, estranhamente. Achou que estava ficando louca. Achou que nada mais que fizesse poderia abstrair seus pensamentos de questões que talvez nunca fossem ser resolvidas. Talvez nem devessem ser pensadas, não merecendo nem um segundo de sua atenção.

J. era o tipo de pessoa não pode estar desocupada. Por isso, ao acabar de fazer a cama, resolveu escrever o que acabara de lhe acontecer.
 
 

 
       
     
 

 
       
       
   

Quando as quatro paredes já estavam cobertas com fotos de suas estrelas preferidas, desesperou-se. Restava o teto e o chão. Optou pelo primeiro, pois não ousava pisar naqueles rostos que tanto admirava. Tinha Hollywood ao seu redor. Dormia – no chão, pois livrou-se dos móveis, prejudicavam a contemplação de seus
afetos –, acordava e masturbava-se sob aqueles olhares inertes que recortara das revistas de celebridades.

Quando faltou teto, sobrou a pele. Tatuaria. Começou pelo pescoço e foi descendo. Costas, braços, pernas. axilas, rego, virilha. Quando restava apenas o rosto, chorou. Era o último resquício de quem ainda era. Sua vida, sua pele, seu sexo, cobertos pelo rosto de outros, como um carimbo de posse de terceiros sobre documento de sua propriedade. Mas sua face ainda era sua.

Procurando uma resposta, nunca mais saiu de lá. Afogou-se em sua Hollywood, tentou com muito esforço manter a cabeça acima da água. Com a última porção de ar que guardava nos pulmões, gritou por socorro, mas ninguém ouviu. Pensou em sinais de luz, mas que luz seria percebida com tantas estrelas ao seu redor?
 
 

 
       
     
 

 
       
       
   

Eu, um ótimo anfitrião, recebia a todos os fantasiados que coloriam meu salão. Super-heróis se encontravam com personagens de Lewis Carrol e Guerra nas Estrelas. Eu, Tio Sam, me ocupava abrindo a porta e recebendo mais personagens. Corria de um lado para outro, "se vocês quiserem, tem mais na geladeira". Risadas fáceis e piadas babacas para diminuir o estranhamento de ver meus convidados ridiculamente trajados.

Abro a porta e só não me assusto porque, ora bolas, é uma festa à fantasia. Gordo, gigante. Debaixo daquela banha toda, pezinhos muito pequenos. Um capacete branco, uma malha branca e azul divide as gorduras da barriga. É o Homem-Bala e veio sozinho, tímido, gordo e desajeitado. Nunca vi esse cara antes.

Sorri e abri mais a porta, liberando espaço para o Homem-Bala arrastar suas toneladas pela entrada até o salão. Quando passou por mim, vi os pêlos de suas costas que saltavam pela malha, na altura do pescoço. Suas mãozinhas pequenas, não sabia onde as colocar – a malha não tinha bolsos. Olhava tímido e bufava. Dentre tantos ridículos, era apenas mais um. "Ele não tem muita vida social", pensei.

Fechei a porta e vi o Homem-Bala arrastando-se com dificuldade pelo salão, indo em direção à salinha anexa. O síndico proibia a entrada de estranhos na salinha. Me apresso para tentar segurá-lo, mas vejo-o sumindo à direita. Entrou na sala.

Ele, parado e fitando a porta, parecia saber que eu vinha atrás. "Desculpe, você não pode ficar aqui" eu teria dito, se não tivesse me sentido estupidamente atraído por aquele monstro branco, cujos braços eram arqueados pelas banhas do corpanzil. Fechei a porta e me aproximei. Abri as calças e empinei a bunda. "Vem".

Enquanto a minha cara estava a alguns poucos centímetros da porta, minhas mãos abriam minha pequena e branca bunda. Queria o monstro todo dentro de mim, sabia que ia doer. Senti suas mãozinhas – senti-as engorduradas – nas minhas costas, tentava enfiar seu, imagino eu, pequeno pauzinho em mim. Não sei quem ele era, mas acho que isso pouco importa, numa festa e numa fantasia.
 
 

 
       
     
 

 
       
       
   

Ajoelhado, tenho uma arma apontada pra minha cabeça. Vejo os teus sapatos na minha frente. Levanto os olhos com medo de não conseguir levantá-los até os teus. "Puxa o gatilho pra mim?". Pega a arma da minha mão e a afasta da têmpora. O cano frio, no topo da minha cabeça. "Vai". Me resigno pra sempre, perdedor.
 
 

 
       

 

     


 

 

Vitor Diel
Teve seu conto "Um dia na vida" publicado na antologia "101 Que Contam", lançada em outubro de 2004. Seus contos "Hollywood" e "Tio Sam e o Homem-Bala" figuram na Vitrine Literária do site do escritor Charles Kiefer - www.charleskiefer.com.br/oficina. Outros textos do autor podem ser conferidos no seu blog
http://bumerangue.pitas.com.