Estranho destino o dela, filha de deuses e, contudo, mortal. Na solidão a que fora condenada sonhava com homens fortes que ousassem acariciar seus cabelos, com olhos firmes que pudessem enfrentar os seus. Suas mãos de bronze eram vazias, suas coxas nunca se abriam. Todas as manhãs banhava-se na fonte mais límpida, tateava seu corpo virgem e chorava. Tentava conhecer sua imagem nas águas, mas a fonte, generosa e compadecida, se anuviava inteira. Todas as tardes ela via, com estranheza, os homens que chegavam, e que, ao lhes sorrir, se tornavam pedra. Ao anoitecer, quando as mulheres se fazem flores, ela vagava, solitária e desgrenhada, por aquela estatuária sem fim, tocando, acariciante, nos frios corpos e procurando o que eles não podiam lhe dar. Não sabia cantar nem rir e seus lamentos, urros de dor, estremeciam o céu.

Um dia ouviu o anúncio dos pássaros, estranhos augúrios de grandes acontecimentos e se quedou à espera. Quando o sol já se inclinava no ocaso ele chegou, bonito como um deus, com suas sandálias aladas e seu escudo de bronze. Ela estremeceu em sua toca e, percebendo o herói, aproximou-se expectante e terna. Observou, maravilhada, aquele olhar azul tal qual a fonte, a testa alta e orgulhosa e o aguardou com um sorriso aberto. Quando ele a viu ergueu o escudo, brilhante como um espelho, e ela, surpresa, se enxergou toda ali, pela primeira vez, megera refletida e horrenda, os olhos esbugalhados, as serpentes dos cabelos, os dentes pontiagudos e um esgar na boca.

Aterrorizada fechou os olhos e Perseu, em um átimo, desembainhou a espada e lhe cortou a cabeça.

Ela caiu sem um ai, e do sangue que jorrava, surgiu, de um branco intocado e rutilante, Pégasus, o cavalo alado, enfim renascido e parido da dor da Górgona solitária.
 
 

 
       
     
 

 
       
       
   

– Um drops de anis?

Ela sorriu, era verão.

Os olhos dele eram azuis, ela tinha a boca carmim.

– Por que não?

Os olhos dele pediram, os dela sussurraram.

– Por que não?

O azul dos olhos dele eram lilases. O carmim que ela trazia na boca eram cerejas.

Suculentas!

Ela escorregou no céu do verão dos olhos dele e lhe ofereceu o verão do céu da boca.

Ele roçou os dedos nos lábios dela, bebeu deles e sentiu o néctar escorrer na língua.

Dia seguinte nódoas azuis e vermelhas nos lençóis. E um drops de anis.
 
 

 
       
   
 

       
       
   

O rio. Sempre o rio, sinuoso, correndo lascivo e sem pressa. Ela perambula pela margem, curuminha perdida e parida no leito do Negro, ninada pelo seu murmúrio, amamentada com sua água. Afilhada da Iára traz na boca o gosto do cajá, nos olhos os igarapés, no andar a onça pintada. A noite se faz escura, tão escura quanto o rio, noite e rio, rionoite, amalgamados. São um só, ambos negros, são mutantes, cintilantes, rio bicho, rio estrela, rio macho, pai do Boto e das curuminhas que vagam na noite.

– Vem, curuminha, se perder às minhas margens. Vou lamber teu cio; levante a saia e abre as pernas, espoje na areia fina, espume entre as coxas e uive de gozo.

O rio se insinua e ela olha, no fundo das águas escuras, todas as formas de ardores recolhidos, a miragem, a euforia que traz no corpo. Quando a noite vai mais fundo e a madrugada pipila com as aves da noite ela vê o homem que sai das águas, nu e moreno, faíscas do Negro na pele, vidente dos seus desejos. As águas rodopiam, se tornam abraços quentes, olhos de estrela, boca candente a devorá-la. A areia branca é leito dos desvarios, do abrir das pernas, do escorrer da espuma, do ranger dos dentes. O Boto saliva em suas orelhas, afaga os ombros e lhe baba o sexo entre o gorgolejar da boca e o piar das aves. Dedos d’água penetram em seus cabelos, titilam os seios e lhe invadem o ventre. A cada gemido dela ele murmura e a engole mais e mais.

Quando o rio se recolhe, vazante e apaziguado, o Boto cicia, suave, marulha nas pedras, e vai embora.
 
 

 
       

 

     


 

 

Vera do Val
Sobrevivente dos anos 1960, paulista, perdida na Amazônia. Insana e delirante.
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