|
|
|
As pessoas não paravam de chegar. Mulheres elegantes, homens numa cerimônia inicialmente circunspecta. Pouco a pouco, grupos se formavam em conversas até calorosas. Oduvaldo no meio do recinto, terno quase novo. Raramente adotara gravata e paletó: sentia-se desajeitado, não combinando em nada com seu estilo de vida. Usara passeio completo apenas na formatura do filho, no próprio casamento e no de sua filha, sem contar a posse do sogro na presidência da empresa. Naquele dia, porém, o traje fazia-se imperioso. Ali, quase todos os presentes eram conhecidos da mulher, dos filhos e do sogro. Mas para ele tanto fazia. Não tinha nenhum amigo e acostumara-se a ter de lidar com os conhecidos dos outros. Seu dia-a-dia contribuía para o isolamento: trabalhava em casa, sozinho, em meio a livros e folhas e folhas de papel. Era tradutor e eventual escritor. Começara a traduzir ainda antes do casamento, como algo provisório, mas aos poucos foi se identificando com a tarefa de apoderar-se das palavras alheias e plasmá-las em português. Vieram os filhos, responsabilidades aumentadas; porém a vida lhe passava entre as palavras, nas zonas abissais da poesia e da ficção. Ficava encantado com a capacidade que se tem de ir de um universo lingüístico a outro. Sentia-se orgulhoso de penetrar em textos ingleses, franceses e italianos, desmistificando-lhes significados e estruturas. Imaginava-se trocando idéias com Poe, Hugo e Pirandello, embora jamais lhes tivesse traduzido algo, oficialmente. Recém-casada, Ruth sofria um misto de ciúmes e de preocupação com os prováveis parcos proventos do marido. Como era possível aqueles textos ocuparem tanto o espírito de Oduvaldo, horas a fio? A um certo ponto ela desistiu de trazê-lo à realidade – que ficasse por ali entre seus escritos e traduções; no fundo era uma pessoa íntegra, boa, apenas absorto por outro mundo. Sabia de outros maridos sempre presentes, participantes, e, no entanto, compondo casamentos frustrantes ou conflituosos. O seu estava bom daquele jeito. Havia um pacto tácito: Oduvaldo e Ruth acatavam o modo de vida um do outro, tal o dia e a noite sempre respeitaram seus horários de entrada em cena. E mais e mais pessoas continuavam a chegar. Três indivíduos, contudo, chamaram a atenção de Oduvaldo. Foram ter diretamente com Ruth. Pareciam combinar alguma coisa. O mais velho, mais bem vestido, provavelmente fazia perguntas, cujas respostas anotava em um bloquinho; em seguida mostrou à mulher algumas páginas de um livro azul, capa dura, com fitas coloridas que marcam páginas. Ruth assentiu com a cabeça. Quem seria aquele sujeito? Os outros dois vestiam-se de forma bem simples – calça e camisa cáqui, destoando do resto dos presentes. Mantinham-se um pouco afastados dos demais grupos, em atitude de espera, braços para trás, posição quase de descanso. Um perfume doce pairava no ar. Seria das senhoras presentes? Não, era muito doce. Começou a procurar na memória olfativa os perfumes que conhecia, mas não encontrava nada parecido. Apesar das conversas em torno, ele mantinha sua capacidade de abstração e continuava a vasculhar as lembranças. E aqueles três, quem seriam? Desconhecidos. Não se lembrava de tê-los visto em outras reuniões. Em dado momento os filhos se aproximaram, mas nada disseram. A filha lhe ajeitou os cabelos, seguida de Ruth que consertou um pouco a gravata – ela sempre fazia isso em situações formais, visto sua falta de intimidade em dar nós. Ah, era o fogo dos castiçais que aguçava o cheiro doce. Um calor... Começava a sentir-se abafado. Pensou em chamar Ruth: queria sair dali, caminhar um pouco, queria respirar a brisa da noite. Ruth estava ali ao lado. Que bom. Pouparia tempo em procurá-la entre tantas pessoas. Nesse momento aproximou-se o tal sujeito do livro azul. Abriu na página assinalada com fita roxa. Ruth pegou a mão do casal de filhos e todos silenciaram à escuta das palavras daquele senhor. "Estamos aqui reunidos para a despedida de nosso Oduvaldo, que, nos deixando, já se encontra perante o Senhor..."
Dessa vez Ruth tinha ido longe demais. Deixara-o tanto em paz entre seus
textos que nada lhe avisara. Silêncio. E a noite se fechou em sua própria
escuridão. |
|||
|
Teresa Coutinho Andrade |