Postergou até o último instante a definitiva posse.

Por toda vida sonhara tê-la, um dia. Desde o tempo em que seus pés descalços de menino pisavam a lama dos quintais, ansiava por tê-la, um dia. E no tempo em que já calçado pisava a solidão das madrugadas, era por ela que ansiava.

Frágil, entregue e lasciva, agora, ao alcance de seus dedos, de seu toque. Sempre e tão ansiada, ali estava ela.

Terno e manso tocou-lhe o veludo da pele. Sentiu sob os dedos o calor de todas as cores e a fragilidade dos derradeiros gestos que ela fazia, antes da entrega absoluta.

E postergou a definitiva posse, até o último instante.

Um Bordeaux.

Billie Holliday.

Sorriu e reviveu todos aqueles anos de jardins e busca. De espera.

Sôfrego e arfante mais uma vez sorriu.

Os espasmos do resguardado e aguardado gozo, guardado nas curvas de seus sonhos, ecoaram pela noite fria. Uivo de lobo ferido pela definitiva entrega, ante a definitiva posse.

E, cravando-lhe um alfinete no corpo finalmente ofertado, pendurou mais um quadro de borboleta na parede branca.
 
 

 
       
     
 

 
       
       
   

A altiva testa, enfeitada de rugas e fios brancos, curvou-se em direção à mão de longas unhas, vermelhas, manchada pelo tempo. Os lábios finos ensaiaram um movimento de beijo. Entre os lábios e a mão passou a sombra dos boleros, da casimira inglesa, dos Cadillac. Ele a viu envolvida em cetim e pérolas e as longas luvas que lhe cobriam os antebraços. Ela se viu envolvida em Bond Street e Brilcream.

Os olhos dela não mais lhe permitiam proximidade com o cardápio, sem que seus braços não atravessassem a mesa e quase o tocassem. Os olhos dele não mais lhe permitiam proximidade com o sonho, sem que seus braços não atravessassem o tempo e quase a tocassem.

Era aquela a primeira vez que se viam depois de tanta conversa de fim de tarde.

O sorriso dela custara mais do que seis meses do aluguel dele. O sorriso dele custara noites insones, a procura dela.

O corpo dele era uma curva descendente em direção ao cansaço. O corpo dela era uma curva ascendente em direção a ele.

Os limites impostos pelo chá de saquinho. Pelo medo de que ela se aventurasse pelas tortas austríacas, pelas geléias inglesas, pela boulangerie francesa que, do outro lado do balcão, traziam até ele os melhores dias.

Os limites impostos pelo chá de saquinho. Pelo medo de que ele se aventurasse pelas pregas de sua saia, pelos botões de seu decote, pela coqueterie francesa que, do outro lado da vida, traziam até ela os melhores dias.

A visão do tempo na cara do outro trazia o tempo pra dentro da xícara do chá, dos botões e das pregas. Impedia o hoje. Levava de volta o amanhã para o ontem.

Mais velhas do que eles, as lembranças.

E assim, em meio à teias e traças, traçaram a teia do nada.
 
 

 
       
   
 

       
       
   

Queria vê-lo dobrar a esquina e ter certeza de que ele iria sem olhar pra trás, sem guarda chuva, no temporal.

Queria ter a certeza de que ele iria.

Riu.

Riu diante do absurdo, da chuva, da madrugada que deixava a rua deserta.

Riu da vida absurda, deixada numa madrugada de chuva.

Riu da chuva, que absurda a deixava ensopada na janela, olhando a rua deserta e esperando vê-lo dobrar a esquina, para ter a certeza do absurdo.

Da absurda vida sem ele e da chuva.

Abriu a janela e pouco se importou com a chuva, com o vento.

Espalharam-se os papéis, seus cabelos, um copo voou longe e espatifou-se no chão.

Pouco se importou.

Pouco importava a chuva, o vento , os cacos de vidro, o vinho derramado.

A gripe, a pneumonia, a tuberculose.

A vida ou a morte, pouco importavam.

Queria ter certeza de que ele iria.

Queria ter a certeza de que os caminhos da chuva, na vida deserta, na madrugada absurda o levariam para sempre.

Tudo absurdamente comum nos papéis que o vento espalhava pela sala. Nos papéis que a chuva inutilizava. Nos papéis que o vinho manchava.

E ele dobrou a esquina.
 
 

 
       

 

     


 

 

Ro Druhens
Sou quantas sou, eu, a mulher que eu sou, apenas sou a pena de ser apenas eu. Carioca, perdida no cerrado central. Prêmio Ferreira Gullar de poesia em língua portuguesa, 1999, primeiro lugar. Participação na antologia Alguns Contistas Contemporâneos, Editora Uapê, 2000.
blog Cicatrizes: http://ascicatrizes.zip.net