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Nos tempos idos em que os políticos eram corruptos, coisas estranhas aconteciam. Desvio de verbas. Supersalários. Mordomias para todos os gostos. Se bem que alguns acumulavam fortunas simplesmente por sorte... Chegavam a ganhar cinco, seis ou mais vezes por ano, o grande prêmio das loterias. Um desses sortudos, deputado novato, grande fazendeiro, nunca tinha saído do país. Então, decidiu ir conhecer a Europa. Ora, até vereadores foram, imagine ele que era federal. E depois a mulher não podia ficar por baixo. Queria porque queria conhecer o Papa. Embora ele achasse que uma romaria ao Juazeiro do padim Pade Ciço resolveria muito bem. E lá se foram, de armas e bagagens, prontos pra aproveitar e trazer em compras tudo o que o Velho Mundo pudesse oferecer. Estavam se esbaldando, de encher as malas de souvenires, comer e beber nos lugares mais chiques, gastar incontáveis fotos nos monumentos. Tudo conforme mandam as regras de brasileiro de primeira viagem. Museus, não tinham visitado. Até que, numa manhã chuvosa, a mulher, sabendo que era dia de o Papa aparecer, inventou de se plantar na Piazza S. Pietro e disse que dali não arredava pé até ver o santo homem. Então, pra passar o tempo, já que estava ali pertinho mesmo, ele se enfiou no Museu do Vaticano. Seguia o povo, meio distraído, passando rapidamente pelas salas, sem reparar detalhes, época e proveniência das peças ou autoria dos quadros. Até que desembocou em plena Capela Sistina. E olhou para o teto. Abriu a boca de espanto e não fechou mais. Deus Pai, com um severo rosto, de barba branca, cercado de anjos, atravessa os céus, qual cósmico meteoro. Adão, fisicamente perfeito, recebe do dedo direito do Criador, uma centelha, que começa a percorrer o corpo. Seu olhar tem uma expressão maravilhada e submissa. A criação da Mulher, com elementos que transcendem ao episódio meramente físico. Reflete antes o Deus demiurgo, concebido na tradição medieval primitiva. Adão sob hipnose profunda. Enquanto Eva surge da sua costela e se inclina, respeitosamente, diante do Onipotente. A queda de Adão e Eva representada por desenho único. O episódio da tentação se passa à esquerda e a expulsão, à direita. A serpente, ao centro, com dorso humano, oferece a maçã. Um anjo desterra o casal. As imagens, que retratam o Dilúvio, são esparsas. Mas se integram ao conjunto. A sensibilidade do artista captou as forças destrutivas da natureza. O elemento decisivo não é a catástrofe em si, mas o resultado dela sobre as vítimas. Outros cinco painéis complementam o esplendor. "A Separação da Luz e das Trevas". "A Criação dos Astros". "A Separação da Terra e das Águas". "O Sacrifício" e "A Embriaguez de Noé”. O deputado cada vez mais espantado. Ele nunca na vida pensara que pudesse existir tanta coisa bonita assim reunida. Tinha lembrança das aulas de catecismo, mas seu Deus não chegava nem aos pés daquele. E as figuras e os anjos e... Não abaixava a cabeça um instante. E foi invadido por um desejo, maior do que ele, de possuir aquele encantamento. Seu primeiro impulso foi procurar o dono do museu, e dizer que botasse preço. Que pagaria o que fosse pra levar a maravilha pra casa. Depois pensou no trabalhão que ia dar e desistiu. Ele podia contratar o artista! Levava pro Brasil, hospedava com honrarias diplomáticas, criava um orçamento, quer dizer, separava uma loteria só pra isso. Perguntou ao guarda, assim como quem não quer nada, onde poderia encontrar o “cara” que tinha pintado aquilo tudo. Falou meio por mímica, meio carcamano, mas finalmente se fez entender. E recebeu uma sonora gargalhada e a resposta de que o “cara” tinha morrido há mais de 400 anos. Desacostumado de frustrações, não teve jeito senão enfiar o desapontamento na mala e voltar pra casa. Não conseguiu mais pensar em outra coisa. Comentava com todo mundo, pesquisava o que encontrasse sobre a obra. Ampliou fotos dos detalhes, ficava horas e horas admirando. Virou o maior entendido no assunto. Até sonhava. Ele era Adão. O Senhor não apenas estendia o Seu dedo. Mas apertava calorosamente a sua mão e dizia: “A casa é sua. Esteja à vontade. Quer beber o quê? Hoje você é meu convidado especial. E estarei às suas ordens para o que der e vier. Peça o que quiser”. Tinha de realizar o seu ideal a qualquer custo. E, como quem não tem cão caça com gato, o jeito foi mandar chamar um pintor de telas, barato, que morava próximo. “Quero que você copie uma obra pra mim. Mas tem de ser idêntico! Cada pedacinho, as cores, tudo! Faça por essa foto. Leve o tempo que precisar, não economize material. O que acha, assim pelo tamanho, quando me entrega a obra?" “Mas deputado, isso tá pintado no forro”. “Pois é mesmo onde quero que pinte”. “Ah , vai me desculpar, mas não posso, não senhor. Tenho uma dor nas costas danada desde menino. Impossível pintar nessa posição esquisita. Isso é coisa de doido”. “Bote preço, home! Te ajeito a vida!” “Já disse que não tem como. Quando eu terminasse ia estar com o pescoço duro. Passar o resto da vida espiando pra riba”. Ah, macho frouxo. Na certa era meio afrescalhado como um artista que ele tinha conhecido na capital, pensou. Já ia despachando o sujeito, quando teve a grande idéia: “E se fosse no chão, você pintava?” “Bom, no chão é outra conversa”.
E o deputado passou o resto da vida orgulhoso, realizado, caminhando com
todo cuidado pela criação do mundo. Apesar da trabalheira que dava
contornar as cabeças das figuras no ir e vir do movimento da casa. Sinal
de respeito. Nas cabeças ele não pisava nem deixava pisar de jeito nenhum. |
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Entrou no elevador suando ansiedade por todos os poros. Apertou o botão do sexto andar. Saiu. Então, presumiu um equívoco. Desceu para o quinto. Nas mãos um envelope pardo. Ressabiado, foi até o fim do corredor. Na sala de espera, uma velha amparada pela neta, e dois homens. Sentou na cadeira vaga, junto às mulheres. Quase em seguida, se levantou. Foi um tal de senta levanta e levanta e senta, de endoidar qualquer cristão. Parecia doença de são Guido. Pulga nas partes. Fogo no rabo. Depois começou a caminhar de um lado para outro, como se quisesse gravar sua aflição na trilha das passadas. O mexe, remexe, anda, senta, bufa, gesticula foi tirando a paciência das pessoas. Fazia muito barulho. Pisava com força. Abanava-se insistentemente com o envelope. Tossia e pigarreava. Sua angústia contagiava os circunstantes. Um comportamento exagerado, mesmo para pai de primeira viagem, e tava na cara que era. Seu sofrimento era de causar compaixão. Exceto para a velha senhora que não parava de reclamar. Então, a mocinha falou para quem quisesse ouvir: “Vovó é cardíaca. Não pode sentir emoções fortes. Está muito preocupada com minha mãe, que passa por um mau pedaço na sala de parto. Pela idade dela, sabe, é de alto risco”. Os dois homens entenderam. O desajeitado fez ouvidos de mercador. E continuou a agitação. Cada vez que ia sentar, puxava um pouco a cadeira. O barulho era intolerável. A mocinha simpática mostrou um pôster com uma enfermeira pedindo silêncio. Mas o rapaz era diferente. Não percebia... Aquele símbolo nada significava para ele. As coisas nem sempre são o que parecem. Signos, às vezes, não remetem ao mesmo significado. Uma cruz, por exemplo, pode sugerir morte ou vida. Conforme esteja plantada no chão ou enfeitando a cabeça coroada de um monarca. Para quem nunca viu um balão, o desenho de um balão nada representa. Ficou embaraçado. Aquele dedo apontando para cima, ereto, sobre uns lábios rubros e carnudos tinha, para ele, um sentido meio sinuoso. Nada a ver com silêncio. Não acreditou no que via. Aquela gostosura de menina não podia estar dando em cima dele. Seu orgulho de macho veio à tona. Tímido, esboçou um sorriso sem graça e disfarçou. A inquietação ganhou mais um excitante motivo. Agora, além de arrastar a cadeira, puxava e empurrava o porta-jornais, de onde retirava exemplares para folhear, numa desordem infernal. Ninguém agüentava mais. A não ser, talvez, a mocinha. A velha se deu ares de conhecedora do assunto e falou: “Sei muito bem o que acontece com os nervos de um pai novato numa situação como esta. Mas não precisa desse exagero. Todos viemos ao mundo desta maneira. Afinal, tem sempre de haver um primeiro, não é mesmo?” E esboçou um sorriso meio forçado que traduzia mais irritação do que simpatia. O estabanado não se mancava. “Será que é estrangeiro?” Os dois homens abriram os braços num gesto de não sei. “Sorry, can I help you?” O infeliz olhou com um semblante abobalhado. Estrangeiro não era. A moça, então, com toda a paciência desse mundo, já achando que devia estar tratando com um esquisitão, grudou em seu braço e foi mostrar bem de pertinho o cartaz da enfermeira pedindo silêncio. “Escute. Sei que o senhor tem razão de estar aflito. Mas tente se conter. Não faça tanto alvoroço. Desculpe, está vendo este cartaz? Significa que aqui não se deve fazer barulho”. A proximidade, o perfume, o calor, aqueles seios quase roçando o seu braço completaram o apelo. Dessa vez, com um sorriso bem significativo e uma voz estranha, meio gutural, meio, sei lá, insinuou: “Mais tarde”. A moça até demorou a entender aquele “mais tarde”, porém, quando a ficha caiu ficou tão desenxabida que o maior dos homens decidiu intervir. “Ô amigo. O que ocorre, hem? Pensa que só por estar emocionado pode perturbar o sossego alheio e até mesmo faltar com o respeito a uma senhorita?”
Nesse momento, um choro de recém-nascido. Aparece o médico. O “sem parar”
corre para ele, abraça e entrega o envelope. “Caro Doutor. Peço o favor de
encaminhar o paciente à cirurgia, pois apresenta graves lesões nos
condutos auditivos”. “Erro de endereço, é claro. Será possível que ninguém
soube explicar a esse rapaz onde fica o andar da Otorrino?” E foi dizer
aos interessados que o bebê era um menino forte e que a mãe passava muito
bem, graças a Deus. |
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Aconteceu nos idos de 1968. Meu amigo era baixo e entroncado. Naquele tempo, a polícia não costumava falar, antes de atirar. Nem depois! Era outubro. Andávamos a pichar as paredes da cidade. Tubos de spray, com tinta preta e vermelha, nas mãos. E não era arte de rua, a que hoje chamam grafitismo. Era pichação mesmo. De revolta. De precisar fazer alguma coisa. A juventude, dentro de mim, mandava agir. Embora, confesso, eu me pelasse de medo. Qualquer ruído que lembrasse um veículo e já me jogava no chão, certo de que vinha bala. Ele tinha o corpo fechado. Surdo a tudo, assobiava seu medo enquanto escrevia nas paredes palavras gentis contra o governo. A revolta, que em reuniões indignadas discutíamos e projetávamos, repetida em eco, veladamente: “Abaixo a Ditadura”. Noite exagerada. De correria. De pulsar acelerado. De nos sentirmos brasileiros. No fim, o corriqueiro prêmio: comer um “cai-duro”, com suco de maracujá. Depois, merecidamente, dormir. No dia seguinte fui colher os frutos da glória. Saborear a repercussão. Revisitar o perigo. Voltar ao local do crime. Mas uma surpresa estúpida me esperava. O crime virou castigo! Tudo, absolutamente tudo o que o meu companheiro pichara, expressava exatamente o contrário do nosso trato. “Abaixo a Ditadura” transformou-se em: “Viva 1964”. “O povo, unido, jamais será vencido” tinha se travestido em: “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Era um traidor. Meu amigo, comparsa de tantas aventuras, era um traidor nojento! Um agente da repressão, infiltrado no movimento estudantil. Quando o encontrei, mais tarde, o inimigo, além de tudo, correu. Covarde! Foi a prova definitiva. Não havia mais dúvida: o baixinho era “dedo-duro”. Depois, voltou a se aproximar, sorrateiro, e se fazendo de inocente, me perguntou, com cara assustada, o que estava acontecendo. Fiquei paralisado, sem saber o que dizer. Esperava, a todo momento, que chegassem os homens para me prender. “Nada, baixinho. Não está acontecendo nada.” “Então por que tá me olhando com esta cara de cobrador de vigarista?” Um de nós estava doido. Eu não, porque sabia onde estava, o que ia fazer, o que tinha acontecido de madrugada e o que tinha visto pela manhã. Então era isso mesmo: o coitado estava maluco. Dei conversa, deixei que se abrisse: disse que me acreditou sendo seguido. Por isso tinha se escondido. Pra não piorar ainda mais as coisas, ficou observando de longe. Então, em nome das incontáveis horas de amizade, resolvi dar um crédito de confiança. Contei o que se passava. "Que brincadeira besta é essa?" “Brincadeira, é? Então vai dar uma olhada ali na Faculdade de Direito. Vê com teus próprios olhos o que está escrito nas paredes.” Eu vigiando a chegada de policiais, tremendo de medo e aquele assobio. Se era hora de assobiar! Não vou descrever sua reação. Basta dizer que ele voltou mais amarelo do que uma flor de algodão. Pensando melhor, ele vinha mesmo era da cor do próprio algodão. “Pelo amor de Deus, eu nunca escrevi aquilo! Acredita em mim! Foi algum cabra safado, da direita, que apagou tudo e escreveu de novo. Algum sacana reacionário e...” Quem tremia era ele. Muito mais do que eu, na noite anterior. Ficamos de bate-boca. De dúvida e juramento. De lembrar anos de cumplicidade e provas irrefutáveis. Talvez houvesse uma razão psicológica, ou mesmo comportamental pra isso tudo. Um caso raro, parecido com dislexia, sei lá. Muito difícil de acreditar... Então, pra tirar a teima ficou combinado um ato extremo: pichar o prédio do INPS, vizinho à Secretaria de Polícia. O local era vigiado quase o tempo todo. O risco ia ser só dele. Se aparecesse algum agente da repressão ia se entregar sozinho. Dizer que nem me conhecia. Que eu estava passando ali por acaso. Fiquei com pena. Quase desistia. Mas era uma luta muito perigosa, para ser compartilhada com alguém suspeito de traição. Tive de aceitar. Na hora combinada, a delegacia parecia uma trincheira. Só na calçada, havia uns dez homens, armados até os dentes. Disfarçadamente contornamos o prédio da Prefeitura, que ficava quase em frente. Eu queria surpreender o baixinho, mandando pichar ali mesmo, para o caso de ele ter armado alguma arapuca contra mim. Mas tive pena. A situação era muito perigosa. Estava exigindo demais. Não fosse aquela dúvida... Precisava acabar com ela, ou não dormiria tranqüilo. Seguimos para o local combinado. Na mão, o papel com a ordem pra ser transcrita: “Fora, gorilas fascistas!” Desta vez ele não assobiava. Pelo contrário: parecia muito assustado. Sacou o spray do bolso da calça e pichou. Fui conferir com uma lanterna bem forte: estampado ali, claramente, em letras vermelhas, garrafais, o descalabro: “Pra frente Brasil!” Quando, estarrecido, me virei para o baixinho, uma bala passou zunindo e se incrustou na parede, a poucos palmos das nossas cabeças. Ambos disparamos em rumos opostos, como foi acertado, se a coisa apertasse. Ele desapareceu dentro de um ônibus. Foi a última vez que o vi. Soube, por outros companheiros, que acabou sendo preso. E que na prisão sofreu todas as humilhações e maldades que um ser humano pudesse experimentar. Torturado até a exaustão. Repetidas vezes. Dia e noite. Até que já não sabia quem era, nem o que era coragem, ou lealdade. Vomitou nomes e endereços. Na dor, gritava detalhes. Na súplica de que parassem, entregou tudo o que sabia. Finalmente, quando já não sobrava mais nada, jogaram o fardo na rua, com a recomendação de que sumisse, pois a próxima etapa seria a morte. Parentes o mandaram para o exterior, onde vegetou, anos e anos, o desespero de ter sido infiel aos seus ideais. Entretanto, sua angústia poderia ter sido evitada, se certos fatos fossem confrontados. A dolorida verdade é que os policiais nunca conseguiram utilizar as informações. Pelo contrário, elas precipitaram uma confusão, tamanha, que causou um rombo na inteligência dos repressores. Eram verdadeiras, mas ao mesmo tempo não eram. Estavam todas invertidas. Muitos companheiros escaparam das garras da ditadura apenas por este motivo. Essa artimanha da sorte, essa sarcástica lição ao presunçoso poder, embora involuntária, foi a remissão do infeliz que, contudo, só ficou sabendo do ocorrido depois de mais de vinte anos de angústia e culpa. Só depois da anistia, quando ele retornou ao Brasil. Mas aí já era tarde. Ele era só a sombra do que poderia ter sido. Sua alma foi lavada. Mas a mancha permaneceu. Renitente, seqüela de se carregar pro resto da vida.
Perdi a conta do tempo. Nem lembro quantos anos se passaram. Mas ao saber
que finalmente iria se casar, me deu vontade de reencontrar o passado.
Resolvi aparecer, mesmo sem convite. Cheguei cedo, para que ele me visse.
Sabia que iria gostar. Sentei bem no banco da frente. A noiva estava quase
bonita, de vestido curto. Não era nenhuma menina. A preleção do padre
durou pouco: falou sobre amores construtivos e aquelas coisas que se falam
em casamentos. Eu mal ouvia. Fiquei lembrando a juventude. Logo chegou a
hora tão esperada. Aquela que todos estavam ali para testemunhar. Ver meu
amigo ali, com a fisionomia radiante de felicidade, me fez muito bem. "É
de sua livre e espontânea vontade aceitar a Maria Helena como sua legítima
esposa, sendo sempre fiel, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza,
até que a morte os separe?" Então, transparecendo todo o seu amor pela
futura esposa, que o esperara por tantos anos, ouvi aquela voz, embargada
de emoção, dar a resposta mais importante de sua vida: "Não!" |
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Sua busca da beleza era obsessiva. Em nome dela sujeitava-se a qualquer circunstância. Inventava um outro eu, alucinado, até para poder agir livremente, sem precisar explicar suas razões. Ninguém iria entender, mesmo, a nobreza de seu intuito. O quanto sofrera e pesquisara pra chegar ao caminho que agora adotava. Lembrou-se da vida. De tudo. Lembrou-se da mãe, extremamente cuidadosa quanto a limpeza. Coitada, seu amor cheirava a desinfetante. A severidade do pai. Apanhava tanto. Pelos motivos mais banais. Ele próprio ia buscar a palmatória. Enquanto era surrado nas nádegas, com as calças arriadas, já nem gritava. Olhava o tempo todo para uma reprodução de Monet, pendurada na parede. Tão linda, tão iluminada que o fazia esquecer os açoites. Nem ele mesmo sabia por quê: parece que mergulhava na figura e ia viver sem problemas lá dentro, naquele mundo de fantasia. Recordou seus gritos aterrorizados, quando os meninos mais velhos o molestaram no banheiro da escola. Ele não queria. Ele não era assim. Só fazia pelo pavor de apanhar. Eram tantos e mais fortes. Se contasse em casa apanhava ainda mais. E na certa iria, mais uma vez, se contorcer em cólicas e despejar aquele piriri nervoso, que o acometia em qualquer situação de estresse. Vergonhosa ocorrência, que acompanhou sua timidez e sua esquisitice a vida inteira. Lembrou-se também de como aos catorze anos descobriu a pintura e mergulhou de cabeça nessa arte. Tinha o incentivo da mãe. O pai, esse reprimia, alegando que ele não tinha o menor talento. Além disso, vencer na vida por meio desse ofício não era pra qualquer um. Talvez fosse medo de que fracassasse, ou de que fosse vitorioso e o sobrepujasse. Nunca entendeu aquele pai. Mesmo assim, não desistiu. Como os impressionistas, fazia tentativas acuradas e objetivas para transformar a realidade visual em efeitos transitórios de luzes e de cores. E tinha certeza de que com o tempo reproduziria as imagens projetadas sobre a água e a reflexão colorida das suas ondulações. Captaria o contraste, entre a sombra e os raios solares, de uma forma especial, como ninguém fizera. Abandonaria o uso do cinza e do negro. Assim, para reproduzir as sombras, substituiria as cores tradicionais por aquelas que melhor traduzissem as suas sensações. Mais importante do que isso, aprenderia a construir objetos, por meio de técnicas específicas, harmonizando ou contrastando as cores de acordo com a incidência da luz solar sobre eles. Seria um novo Van Gogh. Como o mestre holandês, tinha uma preferência pelo amarelo. Todavia, ao contrário dele, teria a genialidade reconhecida ainda em vida. Aos que tentavam dissuadi-lo, nada respondia. Pensava consigo próprio: serei um novo Monet. Um Pizarro brasileiro. Um Cézanne tropical. Vou tapar a boca desta gentalha. Ainda os verei, nos meus vernissages, a me beijarem as mãos. A implorarem que venda uma das minhas telas. E ele venderia sim. Mas cobraria caro. Pagariam o preço da sua arte e do desaforo de ter depreciado o seu talento. Seus quadros seriam disputados e arrematados a peso de ouro na Sothebys de Londres e na Christies de Nova York. Estava certo de que seria um formidável inovador. Nada o desviaria de seus propósitos. Se os estúpidos não entendiam sua obra, se os medíocres não apreciavam a originalidade dos materiais que utilizava, iria persistir na busca até descobrir o seu espaço. Em algum lugar, a sua obstinada luta seria viável. E vagava, como um Diógenes, a procura de respostas. Solitário, visionário. No entanto, não era louco. Sua lucidez avançava além do ponto onde o resto das pessoas podia enxergar. Ele via através. Via longe. Havia chegado à conclusão de que apenas um lugar aceitaria suas idéias inovadoras. Então, inventou-se o que não era, para conseguir ser. E, nessa busca da perfeição, ele mesmo se encarregava de recolher diariamente o material para as tintas, com a paciência e o desprendimento dos iluminados. Tinha chegado a essa fórmula depois de quase uma vida de pesquisas árduas. Queria uma originalidade de cores jamais conseguida, sequer pelos grandes mestres, que estudara tão exaustivamente. Pretendia, além de tudo, levar às ultimas conseqüências a sua fixação ecológica no reaproveitamento orgânico. Pesquisou, também, todos os tipos de pincéis, experimentando as novidades e, mesmo, retornando aos recursos da antiguidade. E o resultado, surpreendente, foi o purismo de usar as próprias mãos, pois desenvolvera uma tal sensibilidade nos dedos, que nenhum outro instrumento lhe daria os recursos de que se aproveitava.
Quanto às telas, depois de passar por incontáveis experiências, buscando o
seu ideal de textura e de absorção, chegou à conclusão que apenas os
afrescos poderiam se aproximar da perfeição que almejava. Seus temas eram
abstratos, mas tinham uma crueza e uma veracidade que chocavam todos os
sentidos. E as cores agressivas remetiam a radiações policromáticas,
típicas de terra fina contendo argila e óxido de ferro hidratado. Aludiam
ao pardacento de fezes reservadas por diferentes períodos de tempo, no
relento. Outras ainda lembravam o ocre de copiosas diarréias misturadas
com sangue e muco, dos intestinos de alguns internos mais obstipados, que
dividiam com ele as acomodações. Não fora à toa que escolhera tão
acertadamente se isolar naquele inusitado atelier, onde mesmo os ruídos,
os sofrimentos e as fisionomias alucinadas das pessoas lhe davam
inspiração. Ali tinha encontrado as respostas, a perfeição, o amor e uma
relativa paz. |
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O boteco do Valdemar vive atulhado, de gente sedenta que costuma se abancar pra beber cerveja gelada e comer caranguejos. Pois numa dessas tardes de sol ardente aconteceu uma vazante de pessoas, uma estranha calmaria, sabe-se lá se por presságio ou por preguiça do povo sair de casa. Estavam lá umas poucas figuras: alguns adiando chegar em casa; vários estudantes e um sujeito de terno escuro, suando em bicas, naquele baita calor, que tinha entrado pra beber um copo d'água, por favor, pra aliviar uma asma danada, que carregava desde menino. Casal, só tinha um: o homem, magro, de chapéu de couro, roupa de brim e um relógio ordinário. Ela, também sertaneja, vestido ramado, sandálias de couro, jeitosinha. Nariz pequeno, olhos de cabocla, envergonhados e, por contraste, uma boca carnuda, que pedia beijos. Dono de mulher gostosa devia preferir uma bebida quente a cervejas. Pra não ter que ir ao banheiro a cada dez ou quinze minutos. Foi precisamente numa dessas ausências que entrou o forasteiro. Cabra forte, bigodudo, chicote na mão e um pau de fogo bem à mostra na cintura. Típico jagunço. Desses, que se pega com o diabo. Mas temente a Deus, pelo lado da mãe, romeira devota, que, a vida toda, o amedrontou com pecado, e o fazia usar medalhinha no pescoço e tudo mais. Tanto, que o cabra não deixava de se benzer quando apagava um. Pois o tal, no rodeio dos olhos pelo ambiente, deparou com a noivinha, sentada, só. E inventou de se enxerir pro lado dela. “Ai meu Deus, minha mãe precisa duma nora.” “Valei-me são Bento das mariquitas.” “Que mulher boa, minha nossa...” Quando ia completar a frase, o noivo voltou e, num relance, percebeu tudo. Nunca se ouviu falar que andasse metido em confusão, mas não era frouxo. E, vermelho que nem pimenta malagueta, na raiva explodida, deixou escapar pra fora da boca a dentadura postiça, que usava, mas escondia até de si próprio. Nem a noiva sabia. Preferia ser corno a ter aquele segredo revelado. Todo o resto ficou pequeno, diante do acidente. Deu graças a Deus pelo desastre ter sido tão rápido, que ninguém percebeu. Por outro lado, não tinha a menor idéia de onde a ponte voadora tinha aterrissado. Não sossegava, até encontrar a dita. Mas teve de agüentar firme e disfarçar. O pior é que todos ali esperavam a sua reação, diante do atrevimento do matador. E sua vergonha, coitado, era muito superior à humilhação de ver a noiva sendo assediada. Então, sentou-se à mesa e enfrentou o valentão: olhou feio. Mas ficou só nisso, pois o único som que saía, da sua boca de esconder vazio, era “hum, hum!” A noiva olhando e ele "hum hum". “Diz o que tu quer dizer fio duma égua.” E ele repetia: “Hum, hum!” "Este corno é mudo.” “Hum, hum.” “Fala, filho da mãe, não te põe fazendo motim com esse hum, hum. Quer me gozar, é?” “Hum, hum. Hum, hum, Hum, hum.” “Abre a boca, seu viado safado, diz ao menos que eu sou feio.” “Hum, hum”. Esse falatório de "hum hum hum", de "mudo", foi a única coisa captada pelo beato de terno preto, que bebia a água, por favor. Achou que cabia bem um milagre ali. Pois não tinha um mudo? Livro aberto na mão, deixou a providência divina se apresentar, e atacou sua oratória abençoada. Estufou o peito, o pouco que conseguia pela asma, coitado, e, suando sua fé, começou a pregação, compenetradíssimo: "Irmãos é che... gada a hora de se arr... ependerem porque o apo... calipse se apro... xima”. “Diz ao menos que sou feio, seu baitola." “Hum, hum.” “Então tá me achando bonito, hem, boneca?” “Hum, Hum, hum, hum." “Arre égua!" "Hum, hum.” “Hum, hum é meus ovos.” “Hum, hum.” Na aflição de se fazer ouvir, o suor do pregador cada vez mais pingava, aumentava o chiado na voz e as respirações seguidinhas, pra agüentar o falatório, piavam como um apito de juiz de futebol de várzea. Melhor subir num banquinho, para que todos pudessem ouvir a sagrada palavra: Lucas, versí... culo quin... to... Arre... pendei-vos... Ale... luia, Senhor... Sal... ve. Ale... luia. Salve... "Aleluia, fio de uma rapariga." Aleluia, o valentão não agüentava ouvir sem responder. Misturava a reza com o desaforo: "Hum, hum." "Sapo sem brejo!" "Hum, hum." 'Lazarento!" "Aleluia, se... nhor!" ''Salve!' E o beato na pregação e na sufocação. E o valente no Aleluia Salve e na xingação. E o noivo humilhado no hum, hum, mas aproveitando a distração do cabra. Tentando ver se pescava a postiça, caída por debaixo da mesa, com os pés. A noiva, convencida que ele não reagia por ser covarde, assistia àquela opereta cabocla, com uma mistura de ódio e desdém. Mas o hum hum se repetia tanto, era tão descabido; as provocações, de tal forma, irreverentes... E, além disso, aquela pregação suarenta e sufocada, acompanhada dos Aleluias do beato e do jagunço, soava tão ridícula, que sentiu lhe subir um frouxo de riso inadiável. Aflitíssima, pra não provocar a ira do valentão, espremeu a risada na boca de cima... Mas a de baixo não agüentou e libertou um frouxo de mijo. Sem censura, gostoso, esparramado. Parecia uma jirita mijando sem parar em cima dum saco de risadas. Essa frouxidão, que ria, encharcando seu vestido, escorrendo pelas pernas, fazendo poça no chão, deixou-a tão relaxada, que começou a chorar convulsivamente... Mas não era choro de tristeza, era choro de risada, de prazer. E o beato, suarento, a invocar o Senhor para exorcizar a choradeira. E o matador, cada vez mais "Aleluias", distraído da valentia. Louco pra aproveitar a chance e ser libertado, também, de seus pecados. "Aproxi... ma-te peca... dor!” O cabra ajoelhado ali, com arma na cintura e tudo. "Afas... ta-te espírito im... undo, deixa esse corpo arr... ependido.” "Salve Ale... luia salve". Todo mundo ali espiando. Querendo ver as pernas molhadas da noiva, querendo ver a falta de ar do beato, o suador e, acima de tudo, o cabra, danado, de joelhos... O banguela, que tinha perdido os dentes, mas não a esperteza, foi escorregando pro lado, dando um passo e outro... Até escapar, de fininho, sem que ninguém percebesse.
Debaixo da cadeira encharcada, no meio da poça, ainda morna, a tão
procurada dentadura arreganhava os dentes, com jeito de quem não ia parar
de rir, nunca mais. |
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Raymundo Silveira |