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A primeira troca de olhares aconteceu quando aguardavam o próximo trem com destino ao sistema nervoso cultural da cidade. Embora ambos tivessem sido atraídos pelo físico do outro, chegando até a imaginarem como seria bom se a especialidade do outro fossem além de bíceps bem-definidos ou coxas insuportavelmente bem-torneadas, estavam detentos pela certeza de que não haveria como sequer apresentar-se um ao outro, ainda mais em um meio tão repressivo como o metrô. Embarcados, tentavam concentrar suas atenções em pequenas distrações que fizessem com que esquecessem aquela troca de olhares e a impossibilidade cruel que a cada dia nos é escancarada. Reabriram então suas respectivas leituras na página selada pelo marcador. Conseguiram de fato concentrar suas atenções nas tais leituras, embora por alguns momentos as crianças-amestradas pedindo esmolas para salvarem a mãe cancerígena fizessem com que uma indignação pela incapacidade dos seres humanos se sobrepusesse à concentração; tanto é que só perceberam que ainda estavam próximos um do outro quando passaram pelas catracas. E continuaram distantemente próximos por mais de cinco minutos, fato este que começou a gerar uma certa desconfiança de um para o outro, mesmo eles achando ótimo ficarem tanto tempo (três minutos em uma metrópole é muito tempo; mais de cinco são uma eternidade) próximos um ao outro, mesmo que nessa proximidade houvesse uma penca de pessoas inseridas indevidamente, numa prova de resistência à sensibilidade. Os autoquestionamentos aumentaram quando entraram na mesma fila para o cinema, ela logo à frente dele. As desconfianças foram minando, afinal de contas um detetive não se exporia tanto assim. E, o mais importante: o cinema possuía um detector de metais. Não era uma garantia de fato, afinal de contas já tinham passado por outros vários detectores de metais e nenhum alarme soara; porém, precisavam afastar qualquer insegurança, mesmo esta forma sendo crer num detector de metais pífio de um sistema falido. Foi quando a mulher teve a idéia: ir ao banheiro para distanciar-se de uma vez daquele sujeito que se num primeiro momento lhe inspirara interesse, no segundo inspirava desconfiança. Ao retornar, olhou aliviada para os arredores com a não-presença do rapaz. E tratou de se apressar, pois a sessão já começara e os trailers por certo estariam no fim. Teve dificuldade em encontrar um lugar para se acomodar, pois além de escura, a sessão estava cheia. Acomodou-se, enfim, em uma cadeira relativamente bem-posta. E com prazer deleitou-se com a película biográfica do bom-moço do momento. Em poucos instantes de luz acesa, o prazer deu lugar a um desconforto, pois viu saindo da mesma sala onde ficara por mais de duas horas o homem que há quase três invariavelmente se encontrava nos mesmos metros quadrados que ela. Foi tomada por um impulso incontrolável de sair daquela situação, daquele impasse. Ela era incapaz de lidar com meio-termos, mesmo o exagero não lhe trazendo boas experiências; não voltaria para casa depois de tanta coincidência como se nada tivesse acontecido. Resolveu finalmente por em prática sua ousadia: tratou de pedir um cafezinho e um pão-de-queijo, pra poder se sentar exatamente à direita da frente dele. O homem? Há um bom tempo fingia dar continuidade a sua leitura, matutando alguma forma de demonstrar para aquela mulher, que há muito o rondava e que esperava sua vez na fila do cafezinho, a intensa e curiosa forma com que ela lhe chamara a atenção. Suas idéias estavam confusas, não fazia idéia de quais emoções estavam postas naquele momento. Nem estava interessado em saber – ela conseguira chamar sua atenção, no meio da estática multidão. Isso já era grandioso. Ele, o macho, impecavelmente vestindo camisa e calças jeans, uma blusa de gola alta preta por baixo, os cabelos loiros lisos e volumosos, a barba há uns dois dias sem ser feita dando-lhe um ar de garoto-maroto-intelectual que ia além do que ele de fato era; percebeu com seu faro que uma fêmea belíssima se localizara estrategicamente na frente, à direita dele, com sua saia preta eroticamente tracejada, realçando atributos e escondendo imperfeições, aliada a uma jaqueta em parte aberta que aguçava a imaginação ao decote magicamente colado à pele. Seus cabelos negros encaracolados terminando no meio das costas aliados aos olhos castanhos ratificavam a competência de ser mulher bela. Temeu ser incômodo; temeu ter que lançar mão de artimanhas típicas de jogos: blefes, insinuações, representações. Temeu, sobretudo, não encontrar nenhuma receptividade e ver seu orgulho de predador ferido. Resolveu apostar alto por estar sedento por uma variante afetiva – tinha fome. Permitir que ela escolhesse se ele poderia sentar-se com ela na mesa era ceder demais, ela teria a faca e o queijo na mão. Pensou em alguma forma de aproximar-se dela que ao menos propiciasse um diálogo, mínimo que fosse, para que ele então lançasse mão de todas as suas potencialidades de conquista. Seus pensamentos eram mais instintivos que afetivos. Embora eficiente, não foi original: lascou um bandeira pra cima dela. Ela, enfeitiçada pelo timbre de voz dele, por seus olhos azuis, seu sorriso, sua tentativa de mostrar-se digno e todos os outros vários pequenos elementos que o transformavam num homem raro. Ele, tomado pela idéia de conquista, seguro de sua competência, impaciente por um gesto singelo daqueles que só uma mulher é capaz de praticar, para que evidenciasse enfim seu sucesso. Tomado por ela, também, detentora de qualidades que a colocavam num patamar acima das acima da média. Ela sacramenta: sugere que ele se sente na mesma mesa que ela. Ele externalizava um ar de agradecimento, mas seu âmago fora tomado por uma superioridade existencial típica dos vencedores, aqueles que sabem que pouco se importam sobre quais são as adversidades: suas qualidades sempre prevalecerão. O livro dela desde o início da sessão fora parar na bolsa. Para que o livro, a literatura, a intelectualidade, a erudição e o status quo vigentes em nossa sociedade não fossem os primeiros assuntos a serem abordados, ele tratou de sobrepor à capa do livro sua gorda carteira, tipicamente masculina. Não contava, porém, que aquele gesto fosse o desencadeador de um desejo nela, desejo de ultraje, de afrontamento, excitando-se com a possibilidade de tratar da literatura, da intelectualidade, da erudição e do status quo vigentes em nossa sociedade, desejo atiçada pela gorda carteira tipicamente masculina que tentava não só encobrir a capa do livro, mas, sobretudo, encobrir a chance que teria de saber, logo de início, como ele lidaria com uma conversa daquelas – fundamental para saber até onde poderiam ir juntos. Falaram de Eça; pior que Machado, ainda assim competente. Falaram da academia. Falaram da sociedade. Ela falava, ele concordava; ele discordava, ela apresentava outro viés; ainda insuficiente para que chegassem a um ponto de concordância – forte para que ela explicitasse sua capacidade de persuasão e sua necessidade de ter alguém ao seu lado que lhe dissesse que, talvez, as coisas não fossem exatamente como ela acreditava serem. Principalmente, alguém que a fizesse esquecer, por alguns instantes, que aquela singularidade alcançada com tanta resistência ao mediano-quentinho-descartável não era passaporte para a felicidade em todos os campos. Alguém que compensasse esta frustração de tal forma que canalizasse todos seus instintos na flor de sua pele. Ele era um candidato em potencial, principalmente por não se permitir a grandes questionamentos – sim, era ele um covarde. Estava, ele, iludido de ter total domínio da situação – era um macho, afinal. Não considerava a hipótese de um calcanhar de Aquiles (seria se sofisticar de forma exagerada caso pensasse nisso). A conversa rumava para um campo subjetivo demais. Campo romântico para ela, que o via como um candidato a namorado pra valer, alguém que colocava as contas do final do mês num plano inferior. Finalmente. Campo esperado, para ele, afinal de contas uma moça recatada como ela não se permitiria tratar sobre considerações objetivas em um primeiro encontro, ainda mais da forma que se deu este encontro – ainda mais sendo sexo a objetividade almejada. Pensaram que estavam entendidos. Um equívoco, claro, afinal a verbalização não tinha sido totalmente explorada. Sendo que só há como deixar o verbo de lado quando as almas se comunicam, fruto de um longo período de vidas cúmplices. E eles, coitados, eram mais um casalzinho na lanchonete daquele cinema. Afoitos, perdidos, imaginando estar conhecendo melhor um ao outro. Não imaginavam que poderiam estar lidando com a ausência da verdade. Quer dizer, até imaginaram, mas o desejo naquela mesa era enorme. Quando que duas pessoas se conheceriam daquela forma, naquelas circunstâncias, e conversariam por tanto tempo, conversa tão agradável, tão inacreditável, tão “não-acredito-que-já-são-nove-e-meia”; entendiam-se e iludiram-se acerca de uma reciprocidade. O fato era que moldaram seu imaginário sobre o outro sem conhecer este outro antes. Dirigiam-se para uma mesmice. Marcaram outro encontro, desta vez uma peça num teatro relativamente badalado. Encontraram-se nas árvores da frente que tão belo deixavam o local; ele esperara por sete minutos antes de ela chegar, quando faltavam três minutos para o horário marcado. Abraçaram-se fortemente, ela sentindo-se protegida, ele excitado em garantir-lhe um porto seguro. Trocaram olhares, cada um com sua construção sobre o outro que em nada tinha a ver com a essência daquele. Não pensaram se estavam dispostos a levar adiante o menosprezo pela razão. Estavam mesmo era dispostos a canalizar no outro suas necessidades individuais. Ignoraram a idéia de antes saberem aonde queriam ir, para daí então levarem o outro consigo; talvez por ausência de amor-próprio. Tomaram, enfim, uma atitude que extrapolava toda aquela situação. Resolveram negar aquela peça de teatro assistida por milhares de intelectualóides e de certo sucesso na crítica vaidosa. Negaram aquele espaço, aquelas pessoas que mais se autodeclaravam enquanto bacanas do que procuravam ser e viver, aquela falsa sincronia de ambos com o lugar. Resolveram sair dali. Ele convidou-a para ir a sua casa. Estavam tão interagidos que se ele não se indagasse, ela se autoconvidaria a ir a casa daquele ser ainda estranho – e ele nada veria de intromissão numa atitude como essa. Seguiram então para a casa dele. Digo, apartamento do homem. Que mais era um escritório adaptado numa quitinete que um lar. Gargalhadas. Vinho tinto, James Brown. Toques, meia-luz, des-cobrimentos. Risinhos ao pé do ouvido. Entrelace de membros. Tapete da sala. Um só corpo, intensidade dos sentidos. Corpos suados. Pequenas orações. Descanso. Recomposição. A cena repetida quatro vezes, com algumas variantes de uma para a outra como banhos, quitutes ou leituras. Estavam saciados. Chegaram ao ponto de satisfação máximo: ele não se lembrava do nome, onde morava, o que almoçara pela manhã nem quem era o artilheiro do campeonato até a rodada daquela noite. A delicadeza das pernas dela entre as suas trazia como única lembrança a magnitude daqueles instantes. Ela estava desconsiderando a conseqüente perda de compromissos que aquelas horas a mais em sua agenda inflexível viriam causar; esquecera, pelo menos naquele momento, a falta de satisfação sexual que enfrentava naqueles tempos, as vezes em que deu por piedade ou sua rigorosa dieta à perigo, com tanto vinho e queijo. Lembrava-se única e exclusivamente em acomodar-se ao peito dele, incrivelmente moldado em insuportáveis meses de academia. Agora na cama, ele teve um gesto de coragem e desligou o despertador que os vigiava do criado-mudo. Dormiram até quando quiseram. As catástrofes de desligar um despertador numa metrópole em plena quinta-feira, embora estendidas por longos dias, com direito a esporros de chefe e olhares maledicentes no trabalho, foram minimizados por ambos – aquilo tudo tinha definitivamente valido a pena. Sorriam mais. Passaram a não ver tantos defeitos no governo, chegaram até a ver virtudes. Deram seus trocados para os pedintes que invariavelmente surgiam. Encontravam poesia no amor, na dor e no elevador. Estavam mais leves. Saciados. A vontade de estarem juntos surgia mais e mais vezes. Fora um compromisso inadiável, um almoço com a família ou uma estafa causada por horas de trabalho, não mediam esforços em se encontrarem. Falavam pouco pelo telefone, não eram adeptos a celulares, entravam na internet quando muito para verificar a caixa de e-mails e não se prendiam em longas missivas. Era no encontro olho por olho, boca por boca, sexo por sexo, que exerciam suas afinidades. Completavam fantasias um do outro, sempre surgiam com um ineditismo, uns avanços; chegavam a se assustar com a sintonia na qual estavam. Não comentavam nada um com o outro, embora soubessem que esse susto pela concretização do imaginário estava sim presente em ambos. Tão presente quanto a sensação de que aqueles momentos um dia não mais existiriam. Como tudo na vida, eles também teriam um fim, claro; e quanto mais se calavam a respeito, quanto menos falavam a respeito, mais isso ocupava suas respectivas mentes – cada um com seu jeito próprio de pensar, obviamente, mas com a essência do assunto idêntica. Silenciavam-se mais por temor ao outro, como o outro encararia esta sensação, esta fragilidade, esta inabilidade. Com a possibilidade de fuga do outro, tiveram um gesto tipicamente humano: afastar-se do medo antes, problematizá-lo depois, quiçá. Não mais perderiam tempo pensando naquilo. E essa decisão foi intensificando seus encontros. As leituras dedicadas um ao outro, os jantares feitos por ela, as vezes que ele a pegava no trabalho para irem a um concerto... todos estes convites surgiam para que o relacionamento (!) ganhasse um sabor a mais e não se esgotasse em variantes realizáveis na cama. Tudo realizado num clima fora-da-lei. Quando saíam de mais um jantar, no restaurante da Liberdade que nunca tinham cogitado, resolveram parar para conversar numa praça a alguns metros dali. A paisagem da metrópole, noturna, a poucos minutos da madrugada de sábado, intensa e concreta, mesclada à certeza de privacidade possível apenas ali, os encorajou para uma conversa. Era a primeira conversa densa depois do atípico encontro no cinema. Primeiro cada um falando de si, depois um falando sobre o outro, eles falando de todo mundo para somente então falarem sobre eles, por eles. Lado a lado, eqüidistantes e simétricos, o homem segurou a mão daquela fêmea como nunca o fizera; talvez para evidenciar sua predominância física, evitando assim um ato de loucura dela, ao menos naquele instante. Revelou, então, que não mais poderia esconder seu casamento de dois anos com uma modelo internacional, entupida de compromissos e viagens, que não raro o deixava dias, semanas até, na solidão da mansão onde moravam, numa cidadela a caminho do litoral. Disse ainda que, embora aquilo pudesse soar como mentira ou hipocrisia, sua esposa era a única mulher que ele realmente amava, que se sentia completo quando estavam juntos. A família era a única instituição em que ele depositava esperança, e não estava disposto a afundar a sua; mas também não se sentia bem em ter que largá-la, ela, que ali na sua frente, naquele instante, o fazia recordar daqueles meses de tanto prazer interagido, ela que lhe abrira um horizonte que ele imaginava ser incapaz de atingir, possibilidades que até foram testadas com sua esposa, mas prazerosas apenas com ela. A moça, cafajeste que só ela, não derramou uma lágrima. Não se afobou, suou frio ou gaguejou. Deixou escapar, propositalmente, um leve sorriso; e propôs que continuassem juntos, agora com ela ciente das condições em que ele se encontrava. E de até onde poderia ir com ele, literal ou metaforicamente. Era ela, afinal de contas, que descria no relacionamento a dois, com os mesmos dois, eternamente. Pra que escândalo? Não disse mais nada. Sua reação o surpreendeu. Não lacrimejou, não cobrou mais satisfações, sequer ameaçou levantar a mão para alguma agressão física ou sair correndo daquele lugar, daquele homem. Respondeu-lhe com o mais sincero dos beijos que já tinham trocado. Ali, naquela praça apressada, naquele sigilo, numa aglomerada privacidade, ele entregou-se por inteiro, e ela fora posta numa confortável situação dominante. Continuaram juntos. Os encontros aconteciam com a segurança típica que a sensação de sinceridade traz. E a sensação é mais importante do que o factual. Ele, desprovido de omissões. Ela, segura pela impossibilidade de cobranças. A quadrilha era mantida, feliz. Mas os pré-supostos estragam qualquer relação. Quando são amorosas, ferem. Tiveram todos a mesma idéia naquele domingo: almoçarem na churrascaria da família brasileira. E se espantaram quando perceberam um ao outro, no mesmo espaço, mas em lugares distintos, em mesas distintas, numa dolorosa coincidência. Ele, transpirando amor por todos os poros, amor-cortês, com direito a mãos dadas e puxar a cadeira para a outra, a esposa, sentar-se. Ela, formosa como nunca, com um vestido soberbo, visivelmente feliz, prontamente acompanhada: pelo outro, o marido, e pelo rebento, que não colocou dúvidas sobre sua condição ao chamá-la de “mamãe” por diversas vezes, chamado que martelava cruelmente na mente dele toda aquela situação, toda a coxia exposta.
Permaneceram no restaurante, cada um com sua realidade, até que as
refeições fossem completadas e a fome, saciada. Saíram quase que no mesmo
instante, ele antes, sem investir sequer uma respiração mais intensa nela,
sem deixar claro sua indiferença ou seu contentamento. Embora tivessem
contatos e soubessem bem onde um localizar o outro, não mais se
encontraram desde aquele almoço. |
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Paulo Nascimento |