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Arlete dormia. Não era bela, há muito perdera o frescor e a jovialidade. Nem mesmo ali, naquele momento sublime do sono, onde as mulheres parecem submersas numa certa aura de mistificação e encantamento, podia-se dizer que estava mais bonita. Era somente um corpo fatigado, que ao final de mais um dia, encontrava seu descanso. Cícero levantou-se. Não quis olhar Arlete na cama, como se a ele não pertencesse tal direito. Bebeu um copo d’água e colocou-se diante da sacada do apartamento a admirar as ínfimas luzes da madrugada. Um carro passou em alta velocidade, furando o sinal fechado. Inconcebível, de fato, que alguém se desse o trabalho de esperar o sinal abrir a essa hora. Bem que ele quis prolongar por mais alguns minutos esse pequeno momento de prazer, mas por trás da madrugada vinha a expectativa da aurora, e com ela deveres inadiáveis. O sol, pensava, somos escravos do sol, somos obrigados a trabalhar enquanto o sol brilha, somos honestos enquanto andamos sob a luz solar, pois a noite é marginal, o sol nos compele à mediocridade e à alienação, o sol nos queima, e no entanto... Lançou-se na madrugada. Em alguns minutos alcançava a rua, ainda tonto com as expectativas que aquele novo universo lhe prometia. Sequer se deu conta de que trajava um ridículo e minúsculo short de futebol no melhor estilo anos setenta. Em poucos minutos alcançava a avenida Anhangüera, imensa ferida supurada que rasga Goiânia no sentido leste-oeste. Não demorou para que chegasse ao centro. Sentia-se bem naquele lugar, em meio a prédios decadentes, ruas encardidas cheirando a urina, prostitutas em fim de carreira buscando qualquer trocado para o almoço do dia seguinte e mendigos amontoados sobre a calçada de um banco. Sozinhas num bar, três mulheres sentadas a uma mesa: duas lésbicas baixinhas, gordas e cabelos curtos. A terceira, belíssima morena de coxas roliças e nádegas firmes. Não demoraram em sair dali, certamente para elas a noite estava apenas começando. Cícero dirigiu-se ao balcão: – Uma dose de uísque, por favor! O rapaz retirou a garrafa de uma prateleira empoeirada e serviu o copo. Cícero bebeu aos poucos, deixando embevecer-se pelo leve torpor que o álcool produzia. Há muito tempo não bebia, Arlete tornara-se extremamente rígida com o pouco dinheiro que tinha depois que ele perdeu o emprego. Quis comprar mais uma dose de uísque, porém dinheiro era insuficiente. – Vamos honrar nossas raízes! Me sirva uma dose de pinga! Pagou duas e ganhou a terceira de brinde. Cícero saiu desnorteado, feito cego que palmilha um chão de lodo e espinhos. O efeito da bebida desencadeou uma série de pensamentos que o atormentavam nos últimos tempos. Após muito andar, Cícero finalmente encontrou a avenida e começou a subi-la tomando o caminho de volta, repetindo em voz baixa palavras ininteligíveis, incógnitas das angústias represadas em seu peito. – Arlete me acha um imprestável, preciso de novo emprego, a escola das crianças, condomínio, luz vencida, escuro, escuro, pele macia de prostituta, pecado, pecado, Deus? Onde? A noite suja, um homem sujo, vida inútil. Quanto vale a vida de um homem? O preço do seu sucesso? Fracasso, apenas um fracassado, bêbado, vagabundo. Quem sou eu? Quem se importa? As estatísticas? Os jornais que noticiam as desgraças alheias? Dane-se tudo, a vida, a esperança, o sol, a lua... Uma viatura passou do seu lado. Sem muito pensar, gritou: – Dane-se a polícia! A viatura fez o contorno. Dois policiais desceram ordenando: – Encosta na parede, vagabundo! Abre as pernas! Cícero começou a chorar. – Cala a boca, vagabundo!
Urinou de medo, molhando o coturno do policial que fazia a revista. – Venha cá, meu irmão rato! Me faça companhia nesta noite... O bicho correu assustado. Cícero ainda tentou segui-lo. – Não fuja! Veja, somos iguais, dois seres abjetos na mesma madrugada! O rato se enfiou numa boca-de-lobo.
A aurora rebentava lentamente, numa incômoda profusão de cores. Algumas
padarias já estavam de portas abertas. Aos poucos, o trânsito ganhava
fôlego. Cícero tentava se esconder, envergonhado da sua condição. Fosse um
rato, se meteria num buraco qualquer. Subiu mais um trecho da avenida,
ocultando a face com a mão direita. Lembrou-se de uma antiga casa
abandonada ali perto. Aproveitou o pouco movimento e saltou o muro. A
porta dos fundos estava arrombada, certamente outros já haviam estado ali.
Encostou-se num dos cantos da sala, em meio à degradação do chão de tábuas
soltas e empoeiradas. Respirou fundo o ar úmido e mofado após as primeiras
chuvas de verão. Sentiu o corpo amolecer e dormiu, desejando ansiosamente
a próxima madrugada. |
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Amaldiçoado foi o dia em que o pai chegou bêbado em casa. O dia ainda tardaria a nascer. Ambrósio caminhava com dificuldade, tropeçando em vazio. A pobre mulher, embevecida na quietude de um sonho distante, acordou com os gestos bruscos e o mau cheiro do marido. Helena não reclamou. Já apanhara outras vezes e agora não se importava mais. Chegavam a ser um alívio as noites em que Ambrósio dormia fora de casa. Ele rolava de um lado para outro, mas não dormia. Uma ladainha vinda do quintal lhe roubou o último quinhão de paciência. Com alguma dificuldade, conseguiu retirar a espingarda que repousava sobre o guarda-roupa. A cada passo torto, um palavrão. Ambrósio bateu com violência na porta do quarto ao lado. – Acorda, moleque! O menino tinha nove anos. O corpo frágil e magro cobria-se apenas com um minúsculo short rasgado. O pai segurava seu braço com força demasiada, a ponto de deixar impressas as marcas dos dedos calosos por longos minutos naquele pedaço de pele e osso. Lucas só percebeu que estava acordado ao pisar fora de casa, sentindo seu corpo arrepiar com a friagem noturna. Impávido, Ambrósio seguia pelo vasto quintal iluminado apenas pelo luar, sem dizer palavra alguma ao menino, apenas segurando-o. De repente, estancou diante de um pequeno cercado, de onde emanava um lamento minguado. – Segure a espingarda! A cadela Chiquita não se recuperara após o parto dos dez filhotes. Quase não comia em virtude da forte infecção. E para piorar, padecia de varejeiras, que se multiplicavam dentro da sua cabeça. Mesmo assim, seus olhos embaçados refletiram a luz da lua ao notar a presença do menino. Ele quis chorar, mas o medo do pai afastou essa possibilidade. – Venha aqui. Chegue mais perto do cercado! – disse o pai. – Pra quê? – Ande logo, moleque, senão lhe dou uma surra! Lucas não conteve o choro. O pai endireitou o corpo do menino na posição correta. Em seguida, ajeitou a mira da espingarda. – Vamos. Aperte o gatilho! O menino não parava de soluçar. – Aperte logo, senão você apanha aqui mesmo! Lucas virou o rosto para o lado e atirou. O coice da arma fez com que fosse jogado bruscamente para trás. Ambrósio riu ao ver o filho derreado no chão de terra batida. Não deu maior importância e foi dormir. O pequeno pedaço de terra sob o rosto do menino se transformou numa poça de lágrimas e saliva. Os dias se passaram, mas Lucas não recobrou seu ânimo normal. Agora andava arredio e agressivo. A professora Arlete queixou-se de uma briga dele com um colega. – Ele era um aluno exemplar... O que houve? A mãe tinha vergonha de falar a verdade. Inventava sempre uma desculpa quando indagada sobre a mudança de comportamento do filho: – É a idade. Não é mais uma criança, está crescendo... Ambrósio bebia cada vez mais e trabalhava cada vez menos. Certo dia, chegou mais cedo que o de costume e reclamou da comida parca. – Arranje dinheiro que eu te preparo coisa melhor! – resmungou Helena. Ele respondeu com uma forte bofetada. Ela caiu aos prantos. Passadas miúdas e decididas em direção à cozinha. Um estampido e o corpo de Ambrósio, ainda tentando se equilibrar, estatelou no chão feito árvore podre. Um imenso buraco no meio do peito esquerdo fazia jorrar um sangue escuro e quente. Lucas olhou com severidade para a mãe: – Esse desgraçado não perturba mais a gente! A pequena cidade não acreditava no acontecido. O menino santo transformado em assassino. Mas por onde ele anda? O que foi feito dele? Lucas fugiu dali para todo o sempre, deixando para trás todos os seus predicados benévolos, incorporando outros que agora casavam com a sua condição errante: giramundo, caçador de recompensas, matador de aluguel. Mas nenhuma alcunha representaria tão bem seu estado de espírito quanto aquela pela qual de fato se tornou conhecido em toda a região: Sete Estrelas. Deu-se num dia de forte calor. Uma cerveja apaziguaria os ânimos – pensou Lucas – que ali estava de passagem em busca de algum serviço rentável que lhe garantisse dois ou três meses de sossego. Tanto podia ser fugitivo da polícia quanto desafeto político, não importava. O que valia era o preço de cada cabeça. Pagamento sempre adiantado, mas o serviço era garantido. Uma morena faceira adentrou a pequena venda. Outros que ali bebiam não deram muita confiança, mas Lucas não resistiu: – A donzela não quer se sentar comigo? Ela sorriu e saiu. O dono da venda veio até a sua mesa: – Fosse o moço ia embora hoje mesmo! – Por quê? – O moço acabou de comprar briga feia. Essa aí é a caçula de oito irmãos, tudo raça de jagunço carniceiro... Os planos dele incluíam uma estadia de pelos uma semana naquele lugar, agora reforçados por um motivo mais que justo: Maria Isabel. – Isso aqui é um cu-de-judas, não acontece nada! – Lucas parecia decido a concordar com o conselho do vendeiro. Não sabia até quando seu dinheiro duraria. – Mais uma cerveja! Foi-se o tempo das grandes guerras no sertão, pensou. Um homem corpulento que mal cabia nas dimensões do portal veio em sua direção, trazendo pelos cabelos uma moça que esperneava em vão. – Quero ver se você é homem de verdade pra mexer com a irmã dos outros! O gigante Hermenegildo meteu a mão na bainha presa à cintura. Lucas sacou da arma presa ao coldre oculto sob a camisa. Em menos de um segundo, Hermenegildo dormia o seu último sono. Maria Isabel aceitou o convite e sentou-se com ele. A notícia correu rápido. Os seis irmãos restantes queriam a qualquer custo a cabeça do santo assassino. Lucas não fugiu. Ficou ali, até matar o último da linhagem. E assim foi feito: Estrogildo, Agildo, Rosenildo, Josenildo, Robergildo e Malaquias, o último era filho de criação. Apesar de profissional nas artes da bala, Lucas nunca tinha feito nada igual. Exterminou praticamente toda uma família. Achou por bem rezar, expurgar, ao menos em parte, tamanho pecado. Ao se aproximar da igreja, um cego que ali esmolava gritou: – É o matador dos sete irmãos! Matador de sete estrelas! Tornou-se perigoso continuar na cidade. A população, assustada com as mortes, exigia máximo empenho da polícia em resolver o caso. Mas e Maria Isabel? Agora que ela estava sozinha no mundo, decidiu que era seu dever protegê-la. Mais, muito mais do que isso. O coração do matador errante se rendia, por mais que relutasse, àquele amor clandestino. Não sabia por onde começar. A noite caiu. À espreita em cada beco, cada muro ou árvore protegidos da luz, Lucas rondou praticamente toda cidade. De manhã, logo cedo, dirigiu-se à venda: – O senhor sabe do paradeiro de Maria Isabel? – Eu não devia lhe falar, mas o senhor fez um grande favor a ela. Fugiu com um tal de Reginaldo, grande cafetão nessa região. Ela fazia a vida. Só os irmãos é que não sabiam e atrapalhavam os planos dela. Hora dessas, já está na capital, fazendo Deus sabe o quê! Dali ele fugiu. Mais uma vez. Por um instante teve a sensação de que queria chorar. A garganta presa, a vista dolorida que inutilmente tentava abarcar todo horizonte infinito, onde o sol purpúreo encontrava seu descanso ao final de mais uma jornada. Aqueles sentimentos o transportaram para a fatídica noite em que matou Chiquita, sua incansável companheira nas brincadeiras da meninice. A infância que só durou até os nove anos. O corpo do pai estirado no chão. A mãe assustada com a frieza e a crueldade do filho. Isabel, Maria, Maria Isabel, o sorriso que teima em não desvanecer. As tantas vidas que tirou, cada corpo na terra, uma estrela no céu, diziam os antigos. Os sete irmãos, sete estrelas luzidias no findar do dia. A cidade já estava longe. Lucas, o santo assassino, sente o peso da vida em suas costas.
Olhou para o céu, depois para si. Só restara uma bala no revólver. Apertou
o cano de metal contra a cabeça. Um corpo no chão, um santo no céu. |
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"Ela é linda; ela está noiva – ela usa Ponds."
A estação chegara mansamente, tal qual a brisa da manhã que adentra a casa e deita em relvas de veludo os corações inquietos. Um corpo morno em vestes de dormir – rosas pétalas de algodão – atravessa a sala. A janela se abre, e o corpo envolto na suave fresca matinal sente arrepios que logo se propagam por toda a epiderme, despertando os louros e finíssimos pêlos espraiados ao longo da delicada superfície de marfim. Ela sorri. Num gesto delicado, o braço esquerdo – delgada garça pantaneira – ameaça alçar vôo. Mas mesmo as garças sabem se deixar render pela quietude dissolvida no ar primaveril e sabiamente postam-se nas copas para em seguida gozarem o seu instante de contemplação. O sol lentamente ascende ao zênite celestial. Raios tangenciam seus lábios escarlates e indiscretamente revelam sob o tecido um mar de ondas revoltas, capaz de provocar a mais inebriante das vertigens. Seus olhos, porém, são embevecidos por uma doce candura, magistralmente contrastantes com o torpor do qual aquele corpo era capaz. Alguns param em reverência, outros fazem pequenos gracejos. Ela agradece. Mal sabem o quão exasperar-se-iam caso decidissem trilhar os tortuosos desertos os quais entremeiam os desejos daquele coração. Certamente padeceriam vítimas do cansaço ou do desespero, acreditando ser o impossível o único destino ao qual seriam conduzidos. Oh, quão tolos! Pois ali, no recôndito daquelas profundezas, está escondido um oásis onde todas as forças pulsantes do universo se convergem por um instante infinitesimal para gerar a eterna pureza do amor. Lindsay, Lindsay! O seu sorriso emoldurado na janela desdenha todas as dores deste mundo.
Anoitece. O luxuoso casarão abre suas portas. Ofuscando as demais flores
do jardim, a orquídea noturna surge na escadaria. Lindsay desenha um ar de
satisfação em seu rosto maquiado. Está pronta para receber os colibris da
madrugada. |
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Bem que eu quis, por muito tempo, traçar o destino em curvas de um gráfico cartesiano: a variável tempo efêmero em função da vida – ou não-vida, essa que é a verdade – que diante dos meus olhos se passou. Pois bem, senhores, aceito a dor. Ainda não sei o porquê dessas palavras que carregam em seu bojo o amargo distante dos jilós que eu comia quando menino na fazenda da minha vó Benvinda. Desculpem os amigos leitores se meu tom parece renitente, mas não poderia deixar de expressar meus sentimentos. Vejamos: Por muito tempo não liguei para o espelho da penteadeira. Ficava ali, a ocupar sua função de refletir a nossa imagem, quando se desse de eu ter que ajeitar a gravata, ou quando minha esposa, sentada à sua frente, tratava de pentear o cabelo. Ontem – e passei a noite em claro revivendo esse ato sob todas as suas perspectivas – depois de anos, décadas talvez, parei diante daquele objeto que, apesar de quarenta e tantos anos, não perecera com o tempo, possuindo a mesma altivez e o mesmo aspecto incólume. Creio que agi por instinto, libertando o resto de macaco que ainda subsiste de maneira ínfima nas virgens florestas da consciência humana. Pois vejam, caros amigos. Ao passar diante do espelho, assustei-me com a imagem ali refletida, pensando se tratar de algum larápio que havia adentrado minha casa. Pulei para o lado, tentando não ser visto. Foi aí que, ao me aproximar, pude perceber que aquele estranho era eu. Mal acreditava: o rosto marcado pelas rugas, o cabelo branco cada vez mais ralo, as orelhas e o nariz maiores que o de costume. Só então pude perceber o quanto Adelaide havia envelhecido. Era uma mulher magra, sem viço, levemente curvada. – O Francisco ligou avisando que vem no fim de semana com as crianças! Crianças... O Francisco mal saiu dos cueiros e já sou avô. Meu neto mais velho está prestes a se formar em Direito, mas Adelaide ainda o trata como criança. E eu, onde estive esse tempo todo? Lacunas da alma, essa é a dolorosa verdade. São impreenchíveis, amigos. Vive-se para muitas coisas, projetos... menos para a vida. Como disse, aceito a dor. Antes que eu me esqueça, preciso tomar os remédios. Não sei por quê, mas tenho a nítida sensação de que, dia após dia, pedaços do meu passado vão sendo sepultados em vala comum, feito corpos indigentes. Vejo Adelaide vindo com um copo d'água na mão. Pára diante de mim e sorri meigamente.
– Toma, meu velho! Esse mal de Alzheimer te deixa muito triste. Toma o
remédio, toma! |
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Hilda ajeita calmamente o vaso de crisântemos, para em seguida colocá-lo ao lado da cabeceira do pai. Assim era nas quartas-feiras. Nas quintas, tinha-se o vaso enfeitado com rosas brancas. Nas sextas, copos-de-leite. Aos sábados, gerânios. Nos domingos, tulipas. Segundas, logo pela manhã, lírios. E as terças pediam cravos. Girassóis para dias de chuva ou de tristezas profundas. – Filha, você acredita em céu? – Não sei, pai... O velho morria aos poucos, como o findar da corda de um relógio. Sentia as debilidades do corpo aumentarem progressivamente. No máximo um, dois meses..., pensava. Mas a teimosia daquele corpo o impressionava. Praticamente dois anos completados ali sobre a cama, desde que foi constatada a irreversibilidade da doença. Não sentia raiva, apesar de incômodas as escaras supuradas. Só sentia ter que dar tanto trabalho à filha, coitada. Ela o amava. Noites e noites passadas ao lado dele revivendo histórias, infinitas lembranças da vida de aventuras do velho fotógrafo. Lembra que ele pagou dez dólares por aquele vaso chinês da dinastia Ming a um pobre camponês morto de fome. – Filha, preciso te confessar! Mas antes quero que me prometas que vai perdoar-me por essa imprudência que cometi no passado... – Que imprudência, pai? – Certa vez, quando estive no vale do Ganges, um velho feiticeiro hindu me fez uma proposta irrecusável... – E qual foi a proposta? – Ele me ofereceu um elixir da imortalidade. Tomei uma cuia cheia. Por isso que ainda estou vivo... – Bobo! Ela sorriu. Ele agradeceu o presente. Não dormia mais que duas horas por noite. Apenas sonhos, miragens. Lembrou-se de Ahmed, o beduíno, e de como era bom tomar leite de camela no frio amanhecer do deserto. Pela manhã, Hilda veio colocar os lírios frescos no vaso. – Acho que já sei como é o céu... – E como é? Apontou para o vaso. – Um jardim de lírios? – Não... Pediu que ela lhe desse o vaso. Com o indicador ia contornando o desenho das minúsculas flores do vaso que compunham aquela paisagem bucólica presente em algum lugar da China antiga. Hilda observava atenta os gestos perdidos do pai. – Um jardim de minúsculas flores chinesas... rosas cultivadas nos imensos jardins suspensos de Pequim! – disse olhando a esmo, como se estivesse vagando solitário na imensidão daqueles campos floridos. Hilda veio com a sopa do jantar. O pai tinha dificuldade para engolir. Contudo, esforçava-se para não desapontá-la. – Filha... quero girassóis amanhã! – Mas por quê? O senhor está triste? – Nunca me senti tão bem!
A filha saiu do quarto. Mas ele sentia que não estava só. Talvez ali
estivessem o beduíno Ahmed, ou Avinash, o menino encantador de elefantes.
Pela manhã, Hilda veio com o ramalhete de girassóis. Encontrou o pai
morto, com um sorriso contemplativo no rosto. A janela estava aberta e por
ela entrava um vento cortante. O vaso, caído ao chão, totalmente
fragmentado. As flores da paisagem permaneceram intactas. |
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Glauber Ramos |