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– Alô. (Nervoso.) – Eae Daniel... hehehe. – Almeida? – É... – Beleza, cara? – Beleza... quer dizer... – Ihhhhhh, que foi? – Cara... lembra da Gram´s? – Lembro... sua nova namorada. – Namorada o caralho... aquela puta me paga! – Aiaiai... o que aconteceu? Ela te roubou? – Não... pior. – Fala, mano. – Agora não dá... mas preciso tomar uma com você e perguntar sua opinião... Hoje... por favor. – Tá. Mas o que foi? – Olha... Vai umas seis na Puppy e eu falo tudo. – Beleza... Seis na Puppy. – Falow... Olha... vou estar lá às seis em ponto. – Relaxa... Falou. – Falou Ás seis em ponto eu saía do metrô na estação Brigadeiro. Da estação até a Puppy não passam nem cinco minutos. É bem pertinho. Caminhar pela Paulista sempre é bom. O tempo voa... o bar chega logo. O Almeida estava lá. Parecia que tinha vestido uma máscara de bosta. Sua cara estava horrível. Quando percebeu minha chegada, levantou e acenou para mim. A Puppy é um bar com muitas mesas na calçada da Paulista. Muito lotado. Mas é um lugar gostoso... digo sempre que é nossa praia. Praia de cimento. – Você está horrível, Marialva! O que foi? – Calma... pega um copo primeiro... Peguei. – Hã... desembucha. – Lembra da Gram´s? – Sabia! – Não... calma. – Fala logo... o que foi?? Você está apaixonado? – Não, cara... bem pior. – Fala logo, porra. – É meu pau. (Abaixa a cabeça.) – Xiiii... como assim? – Está parecendo uma couve-flor... – O quê?????? (Nojo.) – Está com uma cor avermelhada... – Aaaaaaa. – E fede defunto. – Parei. – Toda vez que eu vou mijar, molho o banheiro inteiro... apareceram mais furinhos nele... o mijo sai por muitos furos... molho minha cara quase sempre. Meu pinto deformou. – Cara... ..você está fodido! – Vai se foder! Peço uma ajuda e isso é tudo que você pode fazer? – Você quer mais o quê?? Que eu lave seu pau?? – Cara, fudeu!
Infelizmente não podia fazer mais nada. Deixei que ele chorasse. Nunca
mais pode usar o pinto e sempre que ia mijar, voltava com a cara molhada
de urina. Pobre amigo. Maldita Gram´s! |
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Hoje foi um dia produtivo... Caminhei num bairro judaico e tive que me
segurar para não comprar mais um saquê de cinco reais (e olha que é bom)
numa loja coreana. A loja coreana. Vendem tudo que é estranho... Ainda não
tive o prazer de beber o vinho de sapo (animal mesmo... vinho de
sapo) nem de comer aquela massa prensada de carne da cabeça de um porco.
Vendem também perninhas de porco tipo salgadinho, dentro de umas
embalagens práticas e plásticas. Mas tenho que falar: existem coisas mais
estranhas por aí. Estranhas como Carl Solomon? Talvez... porém acredito no
fato: sempre podemos descer mais um pouquinho. Após um pouco de
burocracia, pude tomar umas com meu amigo Gonz e depois sozinho num boteco
lá na Ana Rosa. Tomei umas três e fiquei lendo. Quando começou a chover,
eu saí... de propósito... adoro a chuva. Daniel Wiegel chove, chove chove
chove. Talvez a idéia de que sempre podemos descer mais... nos afundar
mais... nos chover mais, explique "por que sempre pode foder mais um
pouco?" Pois, em resumo, foi isso que acabou de me acontecer. Quando parei
de chover e vi o sol chegar, aproveitei a alegria. Mas essa durou tanto
quanto: três horas do lado da pessoa que você ama terminaram em chuva.
Três horas e a pessoa vira um corvo. Três horas e eu continuo tendo que ir
embora de uma vez... que chuvinha chata... que corvo feio... que amor que
nada. |
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Sempre sonho com uma vida que não existe. Não foi diferente cinco anos atrás, quando conheci Suzanne. Era uma moça comum... magra... calada nas aulas... ria pelos cantos sozinha. Sempre duvidei da sua índole, mas não foi o suficiente para nos separarmos. Ela jogava cartas como ninguém. Na época do colegial, baralho era tudo. Ela carregou isso para a vida. Oi... Oi Daniel. Onde está todo mundo? Coloquei-os no freezer Ah. Esse foi nosso único diálogo até o dia em que a vi na minha frente. Ela ironizava mas no fundo era real. Tive medo de ir para lá, para o freezer. Suzanne me olhou nos olhos. Fiquei parado na frente do seu olhar. Colocou a mão no meu rosto e me propôs, na verdade mandou: – Você me mostra o que tem aí e eu o que tenho aqui. Era uma ordem e eu sabia que a bisneta do Barão Vermelho era um tipo "mandona". Abaixei tudo. Até os joelhos. Suzanne apertou. Eu acreditava que tinha um ás... Ela mostrou sua dama e nós metemos no chão. Depois, Suzanne pediu que eu matasse seus pais... dei um tapa na cara dela e saí arrumando o cinto.
Foi isso doutor. |
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Noite de domingo... Nutz, Gonz, Fernanda e Daniel bebem em uma mesa suja em uma esquina suja. Está calor. A cerveja não condiz com a necessidade de estar tão gelada, não trinca os dentes nem doem as cáries. Bebem... Bebem... Bebem. Falam muita merda. O dinheiro está quase no fim e é nessa hora que são surpreendidos por Maria virando a esquina vestida de noiva. Maria fora namorada de Daniel quando ele tinha 15 anos, ela 17. Nessa época enganou o garoto dizendo-lhe que era virgem... virgem uma ova. Maria estava feliz, cumprimentou todos e sentou-se à mesa. – Acabei de me casar! – Sério? Cadê seu marido? – Agora deve estar com a mulher dele. – Como assim??? Você casou com um cara casado? – É. Ele tem a Atenas dele... eu sou a Afrodite. – Aiaiai. Onde vocês casaram? – Na cozinha de casa... uma amiga conduziu a cerimônia. – Maria... você casou na cozinha de sua casa com um cara casado... você está legal? – Tô. Quero beber. – Tarde demais... a grana acabou. – Eu pago. Baxinho, trás uma gelada. Sem dúvida que este foi o assunto da mesa por muito tempo... todos falavam disso, até que Maria mudou de assunto: – Daniel... tô escrevendo uma peça e quero que você atue. – Qual o papel? – Você vai representar sexo com uma égua... – Cala a boca... chega disso. – Vocês vão ficar ricos às minhas custas... – É? Como? Vamos abrir um puteiro? – Não... minhas peças. – Vai se foder, Maria... Vai se foder. Depois disso, todos tentavam mudar de assunto... assuntos variados... mas ela não estava feliz... queria mais . – Sabe como fazer uma mulher explodir de tesão? – Eu ponho o dedo no cu delas... (Daniel.) – Hahaha. (Gonz.) – Tem que passar a linguinha ali. (Nutz.) – Aiaiai... lá vem. (Fernanda.) – Não... ó... faz assim com o braço, Daniel. Ela demonstrou seu punho fechado... tipo um soco gancho. Ele fez. então ela começou a montar no braço dele. O cara estava cagando-se de rir. Todos estavam... menos ela, vestida de noiva. A Fernanda estava brava com a menina e falava coisas como... menina não pode fazer isso... você está bem?... Os caras riam. Beberam muito... Nutz foi embora e os outros foram para um apartamento onde iriam pernoitar. Gonz resolveu ir andando para casa. Subiram Daniel, Maria e Fernanda. Eles ficaram falando de sexo e bebendo vinho... Fernanda estava brava... ficava mais ainda quando Maria mandava ela beijar a boca do Daniel. Maria então começou a falar que queria casar-se com Almeida ... um dos melhores amigos de Daniel. De repente... ela disse que queria chupar o saco de Daniel. Nessa hora, Fernanda foi embora. Então ele aproximou-se dela com a garrafa de vinho na mão e abriu as calças. Deu-lhe uma pintada na face e disse: – Chupa, sua puta. – Calma... vamos fazer um sexo branco. – Branco o caralho... chupa logo. A pequena Maria foi direto nas bolas. Ela estava vestida de noiva. Ele bebia vinho. Começou a cuspir nela. O cara estava muito bêbado e o pau dele amolecia fácil. Daniel deu-lhe um tapa na cara e a mandou “se fuder”. Arrumou uma cama e foi dormir. Maria ficava vindo nua agora... Daniel estava deprimido com a situação... pensava que estava abusando de uma pessoa desequilibrada. Foda-se... Ele dormiu... Ela também. Daniel teve sonhos malucos essa noite. Rolava na cama... sonhava com sua poodle... tinha um pastor atrás dela. O rapaz acordou com a noivinha gritando: – Fudeu... tenho que ir trabalhar... que horas são? – Sei lá... cala a boca e dorme... – Não... vou trabalhar... tchau.
A garota saiu com o resto do vinho... vestida de noiva... manchada. |
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Já “dormi com o inimigo” mais de uma vez. Claro que eram inimigas, não inimigos. Dormi com uma dessas por dois infindáveis anos. Era bonita. Muito bonita. Era tão linda que tinha a xoxota cheirosinha. Só tinha um probleminha, vim a descobrir isso algum tempo depois, era maníaca, louca, psicótica, sofria de sérios problemas emocionais. Na época em que tentei fazer faculdade, ela era a mais bonita da classe. Isto serve para começar a provar que ela era maluca... nunca ficaria com a mais bonita a não ser por motivos maiores... nesse caso, a loucura da coitada. Ainda mais, eu, um aluno aplicadíssimo... vivia no bar tomando bombeirinho... depois entrava nas aulas cambaleando e esbarrando pelas mesas dos outros alunos... pouco provável que a princezinha fosse querer esse tipo de príncipe. Mas... ela dizia que era meu pau. Gostava até de engolir minha porra. Pedia porra. Numa sexta, seus pais foram assistir a uma peça de teatro e a garotinha me convidou para transarmos na cama deles (que docinho de menina) e eu, claro, aceitei. Fui até a casa dela com uma garrafa de vinho pela metade pois já tinha tomado a outra parte no percurso. Toquei a campainha. – Oi amorzinho (odeio ser chamado de "amorzinho", é coisa de puta)... smack... entra. – Oi linda. Dei um tapinha na bunda linda que ela tinha. A bunda balançava com os passos. Entramos. Foi só ela fechar a porta que já começou a bolinação... ela não quis nem beber. Subimos e começamos. Na hora H, na hora de realmente entrar nela, a moça pediu que eu parasse. STOP. – Que foi, linda? Por quê? – Calma... espera aqui. Qual minha outra alternativa? Tinha que esperar ou ficar com as bolas doendo. Preferi esperar. Ela saiu pela porta do quarto só de calças. Liguei a tv do quarto do pai dela e comecei a bater uma... de leve... para não perder o impulso... cinco minutos depois, ela volta com uma roupinha daquelas de puta... espartilho... meia-calça... salto... estava toda de preto. Já não agüentava mais aquela parafernália erótica. Queria carne. Recomeçamos e eu tentei ser mais ágil. Foi quando ouvi a porta da sala bater. – Caralho... que merda... você não tinha dito q... – Cala a boca. Entra no armário. Fiz o que a piranha mandou. Entrei em um armário que fedia naftalina, pelado. A porta do quarto abriu. Voz de homem. – Porra! Que roupa é essa? – Sai daqui, Júnior (ufa... era o irmão). Não te interessa (uma das coisas que ela não me disse é que ele era viciado em cocaína). – Preciso de dinheiro. – Sai daqui! (berrando) – Não. – Levanta da cam... que é isso? Você não vai cheirar essa merda aqui! – Cala a boca, piranha. Ouvi uma fungada. – Seu idiota. – Cala a boca. Ouvi um tapa. Já chegava, abri a porta do armário, tinha esquecido que estava nu. O cara ficou olhando sem entender nada, parecia um idiota. Notei duas carreiras no criado-mudo. Não pensei duas vezes para dar uma gravata no rapaz. A irmã dele chorava e gritava. Meu pinto balançava. Estava sufocando o coitado. Estava vermelho feito uma maçã do amor. – Que porra está acontecendo aqui? (veio da porta)
Virei e é o suposto pai da vadia. Existem garotas que eu duvido que tenham
pai e mãe. Acredito que algumas vieram do inferno guiadas pelo diabo em
pessoa. Ou era o diabo ou o pai dela. Tinha uma velha gorda ao lado. A
velha tinha o nariz igual ao da vadia. Deveria ser a mãe. Ficamos todos
parados. A menina vestida com aquele espartilho... o rapaz ao lado das
suas carreiras... a velha com os olhos saltando fora do rosto... o diabo
me olhando... eu nu... pelado... com os testículos de fora. |
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Todos os dias tínhamos que fazer valer o nosso maldito despertar, o
momento em que acordamos e saímos por aí fazendo bosta. Bosta é a palavra
certa. Era a isso que fedia. aquele sexo sem barulhos, sem cheiro, sem
caras engraçadas, só existe em filmes. Na verdade, o sexo tem uns
barulhinhos... uns cheirinhos e às vezes, uns peidinhos. Mas com ela, o
barulho era alto, o cheiro era forte. Como se ela fosse uma enorme fábrica
de merda ambulante. É isso que todos somos. Não passamos de uma fábrica de
fezes. Só mudam alguns costumes e é por isso que uns pensam ser melhores
que outros, por costumes que estão ligados ao poder aquisitivo ou à índole
das pessoas. Só isso. O cocô é igual. Todo cocô fede. Ela achava que o
dela não fedia, talvez estivesse acostumada com o cheiro da própria bosta.
Sempre que fazíamos, um enorme cheiro de bosta dominava o lugar. Fazíamos
sempre. Fedíamos bosta sempre. O mesmo cheiro. Mas o dela era mais forte. |
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– Você ganhou um presente e temos que entregá-lo. – Hehehe... presente? Que presente? De quem? – Do seu avô... é um cavalo! – Caralho... como meu avô me deu um cavalo? Ele vive num asilo e não tem um puto... isto é um trote? – Não... Um dia desses ele veio aqui e comprou um cavalo pra você... É um senhor alto... de pele morena e bigode... não é? – É sim. – Chama-se Jorge, certo? – É isso aí... – Caralho... como deixaram ele fazer isso? Que porra vou fazer com o cavalo? – Pode fazer muitas coisas... levá-lo pra corridas... vendê-lo... é um ótimo cavalo. – Era só o que me faltava... um cavalo! – Quando podemos entregá-lo? – Qualquer hora... traz ele aqui agora mesmo... quero ver essa porra logo. A última vez que vi um cavalo, era criança... e lembro que quis fazer carinho nele mas fiquei com medo de levar uma mordida... cavalos mordem? – Hahaha... não... eles são dóceis! Tudo bem... Estamos indo levar o cavalo para você. Até mais, senhor. – Falow! Pupupupupupupu. E agora? Que que vou fazer com um cavalo? Penso nisso durante horas. A campainha. Devem ter chegado. Abro a porta correndo. Merda. É um daqueles crentes. Ele começa a falar e eu bato a porta na cara dele. Cavalo. Cavalo. Cavalo. Triiiiiiiim. Campainha. Agora deve ser o bicho maluco. Presente de grego. Só meu avô maluco pra me dar isso. Correndo até a porta... tem um cavalo marrom e um senhor bicha do lado. – Aqui está. Tem que assinar isso primeiro. – Dá aqui. – Bem, cuidados com seu cavalo, aqui tem tudo que precisar... tudo neste manual. – Claro. Obrigado. – Você quer que eu coloque a sela nele? – Hã?... Claro. Claro. – Okey. Minutos... minutos... minutos. – Está pronto para o uso! Faça bom proveito do seu cavalo. O meu tem ótimos dotes que aproveito ao máximo! – Tenho certeza disso, senhor! Mas pode ter certeza de que ele não vai comer meu cu. – Como preferir. – Adeus velho maluco. – Este é meu telefone, caso um di... – Vai se fuder com seu cavalo... tô fora! O velho bicha vai embora. Bem, acho que vou usá-lo como um carro. Andar com ele pra cima e pra baixo. – Olá, senhor. Como posso chamá-lo? – Caralho, cavalo, você fala? – É. Três idiomas. – O que você quer comer? – Feno. – Que porra... onde compro feno em São Paulo? Escolhe outra coisa... uma pizza? Tem uma ótima na esquina... Flor do Ninho! – Como preferir... – Então vamos lá... posso montar em você? – Claro, é pra isso que sirvo! – Beleza! Na pizzaria amarro meu cavalo num poste. Compro uma pizza de mussarela inteira. Volto. Meu cavalo falante está esfaqueado... Todos apontam pra mim... Foi ele... Esse cara é um excêntrico!... O cavalo me olha e cai no chão. Fecha os olhos e morre... Porém não tenho certeza se ele morre ou foge com uma velha... Em todo caso... Meu avô aparece e me abraça... – Era um ótimo cavalo! Vamos eu te deixo em casa. – Vô... como estão deixando você sair da clínica? – Dei uma vaca pra dona... Agora quando quiser sair é só pedir... Assim é a vida filho...
– Hã. |
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Dia 31 de outubro. Hoje passei a noite numa cela fedorenta. O motivo: agredi uma pessoa dentro do trem... metrô. O cara era infernal. Tocava um violãozinho idiota e um amigo dele tocava um triângulo durante o percurso da Ana Rosa até a Vila Mariana. Não sou uma pessoa agressiva, mas aquilo estava me dando nos nervos. Tive um dia para lá de idiota e estava com a cabeça cheia de porquês quando o imbecil do triângulo chegou perto de mim com um saquinho vermelho amarrado no cinto escrito "gratidão" em branco. Além de fazer a merda do barulhinho, cantava. O cara fazia um sinal com o queixo e com as sobrancelhas pedindo que depositassem alguma merreca por aquilo que ele insistia em tocar. Quando ele fez isso para mim mandei logo um "vai se fudê, viado. Vai tocar essa merda na casa do caralho". Foi nessa hora que ele parou de tocar. – Pô, cara... Fica calmo... Eu sou da paz e do amor... Somos o Forró Muleque... – Forró Muleque é a porra. Enfia essa merda no rabo e desce na próxima estação. – Olha, cara... Sou da paz e do amor mas sei lutar giu e gitissu. Num vem com essa não.
Nessa hora me levantei do assento. Percebi que todos no vagão assistiam à
situação, o amigo dele estava parado. Fiquei olhando pro idiota com a cara
colada. Ele ficava me olhando também. Balancei a cabeça, como quem diz
"vai comer bosta e some" e sentei de novo. Mal terminei de encostar a
bunda no banco e o infeliz começou a tocar o triângulo. Deu três
batidinhas. Levantei muito rápido e comecei a bater pra valer. O cara só
apanhou e seu amigo só olhou. As pessoas femininas idosas berravam. Jogava
o cara de um lado para o outro. Agora ele tinha visto qual que era a do
forró muleque. O metrô parou na estação e as velhotas saíram berrando.
Para o meu azar, tinha dois quardinhas SSO lá na plataforma que me
arrancaram do idiota e nos algemaram. Primeiro me colocaram numa salinha
branca... inteira branca. Sozinho. Nem sei do cara. Nem fiquei mais
sabendo daquele pentelho. Depois fui encaminhado para o 16° Distrito
Policial. O que eu apanhei hoje na delegacia, meus amigos, não foi para
qualquer um. Cheguei lá por volta das onze... apanhei até umas três...
umas seis minha irmã estava lá e me liberou. Graças a Deus que fiquei numa
cela sozinho e não fizeram B.O. Voltei calado no carro da minha irmã,
pensando: levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima. |
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Nunca ouvi tanto barulho de moeda caindo como aquele velho está conseguindo fazer... Parece um músico... Plimplimplimplimplim... Infinito! Velho sortudo... Pensando por outro lado... velho idiota. Um puta bigodão... e uma pança que não nega suas cervejadas no buteco... Sozinho... ele e as fichas. Um pouco mais para minha esquerda, uns caras no balcão... bebendo e rindo... muito mais jovens que o velho, mais velhos que eu. Nas mesas atrás deles... um rapaz (Pedro), sua namorada... e a bela Isabel. Isabel... Isabel... que rabo. Na mesa encostada a deles... uns garotos punks, de moicano e tal, punks pra valer... punks até o último, punks... Isso, punks. Lá fora tem mais um monte de mesas e eu ainda não conheci os respeitosos cidadãos que as habitam... por enquanto são mesas. Hoje eu estou puto. Meu copo está vazio. Minha mente está cheia. Flávio sumiu, e eu não sei bem ao certo o motivo. O desgraçado simplesmente sumiu. Hoje estou sozinho no bar e parece que não faz diferença para ninguém. Flávio sumiu. A mãe dele está louca da vida. O cara sempre foi meio louco. Meu companheiro mais fiel de bebedeiras (o final é o fechamento do bar... sempre foi assim). Meu fiel amigo em situações engraçadas com mulheres. O cara que ria das minhas piadas mais “sem graça”... Hoje o filho da puta sumiu. Todos perguntam: – Cadê o Flávio? A mãe... as meninas... o Baixinho... todos: – Cadê o Flávio? Cadê aquele filho da puta? Cadê seu amigo?... Blá blá blá. – Não sei... não sei, vadia... não sei, cuzão... não sei, mano... Todo mundo tá procurando por ele. Foda-se o cara... logo mais ele chega. Trás um baseado. Conta piada. Faz a gente rir! – Baxinho... outra maria-mole... Trás uma caracu também. – Já vai, Chumbinho. Calma aê. Calma aê... Paciência. Paciência. Vô esperá essa porra... O Baixinho está encrencado... ceeerto, chegaram minhas bebidas! A maria-mole vai de uma vez... Acendo um cigarro... Espero... Ponho a caracu num copo... Sobra meia lata mais ou menos... Odeio caracu em lata. A Isabel vai pro banheiro... Ai ai ai... ela é linda... Rebola como ninguém... Morena... pele clara... cabelos cacheados... magrinha... A musa do bar... a minha musa (vivo no bar). Só fico olhando... ela nem percebe. Nunca percebeu o quanto gosto dela. Tomo um gole em homenagem. Ela volta do banheiro, senta-se à mesa em que estava, pega um copo com elegância (pelo menos eu acho), coloca-o em sua boquinha e dá uma puta golada enorme... Essa é mais uma qualidade dela que eu adoro... bebe que nem louca... sempre bêbada... Vejo passar gente conhecida, acenam para mim... Sentam-se lá fora. Acho que são casais... mas nunca se sabe ao certo quem é ou deixa de ser casal. Continuo bebendo... acaba meu copo e eu encho mais... agora acabou minha lata... tenho dinheiro só para mais uma e uma maria-mole... o cigarro L&M vou ficar devendo para o Buchecha... ele sempre deixa. Dever é normal para mim... dívidas, vivo com elas. Cada dia é pior que o outro... Ficar olhando mulheres... dever no bar... ser ignorado... tudo isso. Alguns me cumprimentam... outros me ignoram... assim é a vida. Acho que todos que vivem no Real têm algum tipo de problema particular: drogas... solidão... querer provar algo para si mesmo... só acho que não é o lugar certo para nada... só para beber. Aqui eu costumava beber com o Flávio... ..mas hoje ele sumiu. Beleza... O bar está ficando cheio, cada vez mais cheio. Pessoas me acenam e eu nem sei quem são... eu respondo... eu sorrio... estou bêbado... de foder. Lembro dos meus momentos de sexo e quero mais... estou fudido. E isso não é engraçado... nada engraçado... sempre tento ser engraçado nessas horas, mas acho que fico inconveniente, tanto que estou sozinho aqui. Continuo observando... esperando alguma coisa acontecer. Agora minha bebida terminou. O Pedro vem até mim, senta do meu lado, me dá a mão. Gosto dele, o cara estuda filosofia e tem umas idéias legais. Ele traz uma garrafa de cerveja junto com ele. – Cadê o Flávio? Não vem hoje? Pega um copo pra você. – Tá, vou pegar, calma aí... aqui. Então, o Flávio sumiu hoje, não sei onde ele se meteu. Deve estar fazendo alguma merda em algum lugar imundo. Ele está ficando louco. – Eu fui ao ateliê ontem, não tinha ninguém. Achei estranho. Ele sempre está lá no período da tarde. – É, eu também não fui ontem. Fiquei escrevendo. – Eu li aquele seu texto sobre um cavalo... – Qual? O que eu ganho um? Ou o que dois caras dão uns tapas na cara dele? – Que os caras betem nele... gostei muito! Me disseram que você estava ficando rico escrevendo essas porcarias... é verdade? – Infelizmente não. Tomo um golão de cerveja e completo meu copo. – E a faculdade, Pedro? Como está indo? – Normal... você ainda vai tentar entrar? – É, isso. – Vamos lá do lado fumar um? – Claro. Tem um aí? – Tenho. – Certooooo! Precisa de uma seda? – Não. Minha mina tem. – Tá. – Faz um tempo. Vou chamar ela e a Isabel. Já venho. – Vai lá. – Pode terminar a cerveja. – Pedro. – Quê? – Eu te amo! – Hehehehehe. Pedro levanta, vai até a sua mesa, apoia as mãos e curva-se pra frente falando alguma coisa. A Isabel dá uma olhadinha para mim e elas levantam. Ela ainda vira um copo cheio de cerveja antes. A amiga não. Esse cara é bom. Adoro esse cara. Certo. Eles chegam do meu lado: – Vamos? – Fomos! No caminho: – Tudo bem, Isabel? – Tudo, Wiegel (leia Víguel... fale Víguel... nome alemão... meu nome... sou alemão). Ela me dá um beijo na bochecha. Sempre me cumprimenta. Sempre dizem que eu “demorei”. – Que friiiiiiooooooo. – Tá foda hoje... – Onde está seu inseparável amigo? (Caralho! Até ela! O cara é foda mesmo!) – Puta, o cara sumiu. Estão procurando o desgraçado o dia inteiro. – Deve estar caído de bêbado num lugar qualquer. – Pode ser mesmo. A cara dele.
Paramos e fumamos no meio da rua mesmo. A gente sempre faz isso. Falei
pouco com a menina. Fico travado nessas horas. Não sei jogar um papo
nelas. Não sou bonito o suficiente para ser agarrado a torto e a direito,
logo não pego quase ninguém. Assim é a vida. – Sua bicha! – Cuzão! Ofensas são como elogios em certas horas. Ele corre, rindo. Tentando chegar a tempo de um pega. Tarde demais. Acabou. Hehehe. – Aahh... tudo bem... tenho outro. Depois a gente fuma! O Freitas cumprimenta todos. Andamos de volta para o bar. No caminho, ele já vem com idéias de drogas mais pesadas. Recuso. Ele concorda. Sensato. Procura uma mesa do lado de fora e acha. Convidamos o Pedro, a namorada dele e a Isabel para sentar. Bom! Todos sentam! – É o seguinte, Freitas... Hoje eu estou zerado, sem um puto, falido. Pega umas, por favor. Você sabe que depois eu te pego. Deixa eu receber o dinheiro dos discos. – Fica quieto! Baxinho! Uma antártica! – Ho-ho... É tu, Freitinha! É pra já! – E uma maria-mole! Mais conh... – Eu sei, Chumbinho. Mais conhaque que martíni. Martíni é bebida de puta. Não sei até hoje de onde ele tirou esse Chumbinho! Mas esse cara me chama assim. Eu não ligo. Todos nós começamos a conversar. Isabel pede uma vodca. Pura. Aiaiai, amo essa mulher! Tudo chega junto... todas as bebidas, nossas drogas lícitas. Viro a m&m e constato que já estou ficando mais alto ainda. Encho um copo de cerveja. Por aí vamos todos. Bebendo. Bebendo e falando merda. Merda. Droga... os demônios chegaram. Tem uma hora da noite em que aparecem demônios. Ou simplesmente ficam dentro do nosso cérebro, ou encarnam em vadias e viciados. Nessa hora, devemos tomar cuidado... posso notar meninas dançando em cima das suas mesas... mostrando os seios... balançando... Nessa hora o Baxinho fecha a porta do bar, a festa começa lá dentro. Uma garota pega a cara do Freitas e esfrega em sua buceta. Ele gosta... tem um demônio nele também... Ele a morde... arranca um pedaço de carne daquele lugarzinho peludo e cospe em mim. Eu ponho tudo para fora num jato imundo de merda. Fezes para todos os lados. O Buchecha começa a se masturbar em pé no balcão. Eu aproveito o delírio coletivo e roubo o máximo que posso de bebidas. Tem umas vinte pessoas fazendo coisas obscenas aqui dentro. Saio do bar e caminho calmamente tomando uma das vodcas que eu roubei (tenho duas garrafas agora!). Subindo a Cardeal Arcoverde, encontro pessoas que ainda não sabem que os demônios estão à caminho... não falo nada sobre isso com eles... apenas converso e divido minha bebida... Procuro um telefone público. Achei. Vou ligar para alguém... quem? Penso penso penso. Ligo para meu avô, no asilo em que ele vive. – Alô? – Tânia? – Sim... – Sou eu... neto do Jorge... – Oi, meu lindo. Como vai? – Um pouco alto... – Um pouco alto... você não toma jeito não, amorzinho? – Nunca experimentei. O que vai? – Engraçadinho... – Cadê meu avô? – Dormindo... – Acorda! – Vou ver se ele acorda... – Está bem... vai lá... espero... . – ............. (vozes do outro lado... a Tânia está gritando) ............ – Alô? – Vô! – Fala, seu vagabundo, o que você quer? Quanto você quer? – Não é dinheiro. Os demônios... nunca vão parar? – Creio que não... isso é desde meu tempo... desde o tempo dos meus pais... avós... acho que desde Roma antiga... – E o que eu faço? – Vai foder as meninas, seu idiota. – É que virou uma Sodoma e Gomorra infernal. Quando saí do bar nem olhei para trás com medo de me tornar um estátua de sal... – É assim mesmo... Chupa meu pau, Tânia... Tudo... (Ai, seu Jorge, acha que minha garganta é tão funda assim?) – Tudo bem por aí, vô? – Melhor impossível... Venha me visitar e traga uma de suas namoradas putas... Agora, tchau. Pu pu pu pu pu pu pu... desligou. Acho que meu avô tem razão... vô lá fodê umas meninas... Caminho de volta pro real. Portas abertas... Tudo normal... foram embora. Merda. Trato de esconder a garrafa de vodca cheia, a outra dou pro primeiro que passa por mim. Vou direto para o banheiro mijar. Abro a porta. Tem uma menina morta ali... vomito nela... vomito fezes... para todos os lados... mijo no cadáver da vadia. Volto para a mesa... estão todos lá... Freitas... Pedro... sua namorada e a Isabel. Talvez eu ligue demais para o sexo... minhas ex-namoradas poderiam me explicar isso melhor... ou não. Melhor não pensar nessas coisas do passado. Não me faz nada bem. Queria saber: por que mentem tanto? Foda-se. – E aí, Marialva? Tem cerveja aí? (Marialva é um dos apelidos do Freitas) – Tem... Recarrega meu copo calmamente... parece que ninguém lembra da hora dos demônios... vou esquecer também. – Limpa a boca, Marialva... tem sangue aí! – Credo... onde eu arrumei isso? Todos riem muito... hahahahaha. Meu copo parece estar sempre cheio. Dá-lhe Freitas. Viro e viro... tenho graus diferentes de bebedeira... quando entro em umas de resolver minhas diferenças com a cerveja sempre perco. Estou brigando com ela. Hoje eu vencerei. Hehehe. Pausa... intervalos comerciais... UM OU DOIS TRUQUES... – Não... Não é aí... Mais para cima... aí! – Assim? – Não, lindo... mais forte... Aiaiaiaiaiaiiiiiii... ahn... Depois de meses... outra namorada... – Isso... aí mesmo... mais forte... aiaiaiaiiiiiiii... ahnn. Mais alguns meses... outra garota. – Isso... ééé... como é bom... põe o dedo lá... – Você gosta? – Arrãm. – Ahn. Mais algum tempo. – Isso... vem... tira o dedo daí? – Foi mal... achei que você gostasse... – Vai... rápido e fraco... tá doendo... – Ahn. Depois de algum tempo... conhece uma garota no bar e sai para ir a um motel boca-de-porco... – Que é isso??? – É meu sexo, garoto. – Nossa... quanto espaço! – Vem... preenche! (continua) A noite está ficando cada vez mais fria. Queria ter uma mulher do meu lado agora. Na verdade eu tenho algumas, mas queria estar apalpando suas nádegas e seus peitos macios. Não posso. Não são minhas. Segunda vez no banheiro em pouco tempo. – Oooooo Marialva... vou mijar... calma aí. – De novo? Dá um nó nesse pinto! – Vai se foder...
Agora eu estou caminhando rápido... corro para o banheiro... tem fila...
merda. O que poderia ser pior?, penso. Nesse momento a Isabel abre a porta
do cubículo que guarda as portas dos banheiros imundos... masculino e
feminino. Ela carrega um botão nos dentes. Dá uma risadinha sem deixá-lo
cair, pega linha e agulha e costura o botão em sua calça. Liberou o
banheiro!!! Que mijo bom!!! Kadaf sempre dizia que mijar bêbado é melhor
que gozar. Olha que ele bebia. Volto e sento. Todos estão lá. Muitos
carros passam. Percebo um carro desgovernado vindo em direção. Continua
vindo. Tá chegando. Caralho! Pulo pro lado... strike. O carro levou todos
as mesas da calçada e parou no balcão. A buzina disparou.
Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii. Vou até lá... ver o
que eu posso fazer... tem muita gente machucada. Chego até o carro. Vejo
Flávio com um fio de sangue do lado da cabeça encostada na buzina. Ele nem
sabia dirigir... o que esse maluco fez? |
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Daniel Wiegel |