Senti uma forte dor nos olhos. Passei o dedo no olho esquerdo e retirei do canto uma gota de sangue. Corri ao banheiro, olhei no espelho e vi meus olhos vermelhos. Eles queimavam como fogo. Lavei-os com água e quando voltei a fitá-los, estavam amarelos. Empenhei-me no ato contínuo de lavagem e a cada momento em que eu passava água límpida meus olhos tomavam uma tonalidade diferente: branco, roxo, rosa, marrom, cinza, azul, verde, negro. Olhos negros com pupilas vermelhas! As minhas pupilas estavam dilatadas e pouco a pouco fui percebendo que os meus olhos estavam bebendo água. Toda água que eu levava até aos olhos para lavá-los era sugada por um desejo incontrolável.

"Meus olhos deveriam liberar água e não sugar", pensei aflita.

Peguei a chave do carro e saí desesperada pela rua, à procura de um atendimento médico. Pelo caminho lembrei de uma amiga e resolvi buscá-la para ir comigo, pois minha visão estava ficando turva, as imagens oscilavam, numa confusão que afetava minha mente: eram imagens coloridas, às vezes ficavam em preto e branco, em outros momentos eu via tudo como se estivesse só contornado com giz de cera, era um pesadelo terrível.

Cheguei no apartamento dela. Toquei a campainha. Ninguém atendeu. Mexi na fechadura e a porta abriu, ela não estava trancada.

– Quem é, por favor?

– Sou eu, posso entrar?

– Sim, a porta está aberta! Entre e se sente! Estou no banho.

Sobre a mesa da sala estava um colar. Colar de pérolas. Lindo! Fiquei tão encantada que desejei ter para mim aquela rara peça de tão tamanha beleza e valor. Senti uma pontada no olho esquerdo, pontada funda, íntima, doída. Abaixei os olhos. Voltei a olhar para o colar, ele não estava mais lá.

– Meu Deus, o que houve? Estou sozinha nesta sala. Esse colar não poderia ter desaparecido!

Passeei os olhos pela sala toda, olhei debaixo das mesas, das cadeiras, do tapete, nada encontrei. Mas eu sentia aquele colar próximo de mim, parecia que estava colado na minha pele, como se eu estivesse vendo, mas não pudesse identificar o lugar exato em que ele se encontrava.

– Colar maldito! Onde você se escondeu?

Corri para o quarto à procura de um espelho para verificar como estavam os meus olhos. Eles ardiam mais intensamente depois que olhei para aquele colar misterioso. De longe percebi que havia um espelho na porta do guarda-roupa. Aproximei-me e fitei minha imagem e nos meus olhos vi o colar.

Saiu um grito rouco e doído de minha garganta.

– O que houve? – perguntou minha amiga correndo desenfreadamente banheiro a fora.

Desviando os olhos de minha amiga, dei-lhe um empurrão e saí correndo. Quando percebi já estava pelas calçadas, sem rumo, numa imensa confusão psíquica. Já era noite e tudo parecia perolado. Sentei-me num banco de praça e comecei a acarinhar os meus olhos. Vi um pequeno espelho jogado no chão. Todo trincado. Sujo. Velho. Peguei-o. Voltei a contemplar os meus olhos e lá estava o colar. O colar estava no meu olho esquerdo. Lá dentro. Brilhava, cintilava e o meu coração sentiu-se contente. Mas o olho direito lançou um olhar duro, como se eu tivesse cometido um crime audaz, sem perdão. Li aquele olhar e ele nitidamente dizia que eu havia roubado aquela jóia, que aquilo não me pertencia. Um olho era totalmente diferente do outro! Um estava perolado, outro totalmente esbranquiçado.

Passou por mim um senhor e vi nos braços dele um maravilhoso relógio de pulso. O meu olho esquerdo parecia que queria saltar fora das faces. Senti uma dor horrorosa, pontiagudas tesouradas, facadas contínuas no meu olho. Eu esfregava os dedos no olho, em ato de desespero, pensando que a qualquer hora não iria mais suportar.

Pessoas começaram a se aglomerar no cruzamento próximo. Algo havia acontecido. Fui constatar. Era um acidente: atropelamento. Fixei os olhos no cadáver, era aquele senhor, proprietário de tão cobiçado relógio. Olhei para o braço dele e o relógio havia desaparecido. Tirei o espelhinho do bolso e olhei nos fundos de meus olhos: de fato, assim como o colar, o relógio também estava lá e eu quase pulei de alegria. Porém, desta vez fui mais esperta, fechei o olho direito para não sofrer incriminações por mais aquele delito grave. E o meu olho esquerdo transferiu aquela alegria toda para o meu coração!

Compreendi que eu podia ter tudo. Arrancaria tudo o que me pudesse interessar das pessoas, bastava eu olhar, desejar e qualquer coisa poderia ser minha. O meu olho era grande, enorme, cabia de tudo ali dentro. O único inconveniente era a dor imensa que eu sentia nesse olho a cada vez que ele engolia algo que não me pertencia.

De volta para casa fui olhando tudo quanto eu podia ver. O que eu desejava meu olho engolia: jóias, roupas, sapatos, carros, eletrodomésticos, comida, até que aconteceu o inusitado. Vi um casal se amando. Eles se beijavam, abraçavam, tocavam-se. Eu desejei um deles. A dor de meus olhos não se intensificou. Então, eu desejei com toda a força de minh’alma.

– Eu quero ter essa pessoa para mim!

Mas nada aconteceu. O casal permanecia intacto. Era tanto amor que meu coração se encheu de rancor e ódio, porque eu queria fazer parte daquele casal: ser um deles. Nunca amei ninguém, e nunca fui amada com tanta intensidade. Uma lágrima brotou de meu olho esquerdo já bastante cansado de engolir as coisas que eu desejava e de sofrer dores. Limpei a lágrima. Ela estava cristalina, não era mais da cor de sangue.

Aquilo me revoltou, porque eu não podia mais ter tudo o que queria. Aquele casal maldito havia derrotado o meu desejo sombrio de possuir todas as belezas do mundo. Eram belezas que ficavam escondidas nas sombras de minhas pupilas.

– Eu quero fazer parte desse casal! Preciso tomar o lugar de um deles!

Corri para casa chorando. Meu coração gritava de dor e revolta. Toda água que meu olho havia engolido quando eu o lavei antes de sair de casa, agora estava sendo expurgada.

Cheguei em casa, chutei a porta, arrebentei a fechadura, dei um pontapé na mesa da sala. Enfurecida fui até a máquina de costura, retirei um alfinete da gaveta e quis que meu olho esquerdo chorasse sangue novamente. Entrei no banheiro. Contemplei o olho amaldiçoado e ele estava azul da cor do céu, como se dentro dele houvesse vários oceanos, mares, rios, lagos. Gritando comecei a alfinetá-lo. Alfinetava, alfinetava e alfinetava.

– Quero fazer parte daquele casal! Quero parte do amor deles! Eu quero, eu quero, quero, que-ro, que...ro...

Eram pingos de sangue que se soltavam, manchando o espelho. Espirravam. Eu já nem sentia mais dores, não estava mais humanizada, eu estava abaixo do animal mais bruto que a terra havia abrigado.

Liguei a torneira, joguei água limpa no espelho. Ele foi sendo limpo pouco a pouco. Minha imagem foi aparecendo. Só me restava um olho: o direito. Percebi, então, que o colar estava no meu pescoço, o relógio no meu braço, roupas novas no corpo, outras jóias penduradas. Eu parecia outra pessoa, uma milionária. Tudo que meu olho esquerdo havia engolido, ao ser destruído tinha me dado como herança. Não demorou e senti uma pontada no meu olho direito. Fixei-me no espelho. Aquele grande olho – o direito – estava me contemplando. Arregalado, invejoso, maldito. Ele estava desejando tudo que era meu. Antes que eu dissesse qualquer coisa imaginei que o único olho que restava tinha sido contaminado pela sede que tinha aquele já destruído.

Repentinamente, senti que aquele olho sedento começava a me puxar para o interior do espelho. Segurei na pia de rosto, mas não resisti. Aquele olho que mais parecia um ímã queria sugar tudo o que era meu: primeiro entrou a cabeça, depois o corpo todo. Eu estava dentro do espelho! Presa no espelho!

Percebendo que eu estava nua, sem roupas, sem sapatos, nem jóias, olhei para fora do espelho. Tudo estava do lado de fora, caído no chão, espalhado. Não tinham mais utilidade para mim, pois eu não podia mais usá-los. A porta do banheiro fechou e muitos anos se foram.

Um dia a porta foi aberta e entrou uma menininha. Olhou no espelho. Não me viu. Ela parecia tanto comigo, quando eu tinha essa tenra idade. Era uma semelhança gritante. Saiu, bateu a porta e não voltou mais.

Depois entrou uma jovem. Fitou o espelho, desconfiou que alguém estava escondido dentro dele, mas nada fez, virou-se e foi embora. A semelhança acentuava-se cada vez mais entre eu e quem fitava o espelho.

Uma senhora muito distinta entrou, pisou no colar que estava no chão, olhou para o relógio de pulso, observou tudo que estava a sua volta. Nada disse, apenas sorriu. O sorriso era para mim. Olhou-se no espelho, passou batom, sempre me olhando. Quis pedir a ela que me ajudasse, mas não tive coragem. Então, foi embora, como se eu fosse o símbolo da insignificância. Eu havia agido assim ao longo de toda a minha vida. Senti que no fim das contas eu poderia ser o reflexo daquela senhora. Será? Essa dúvida permaneceu por anos e anos.

Entre uma pessoa que entrava e outra havia intervalos de tempo bastante grandes.

Muitos anos depois entrou uma senhora muito idosa, mais ou menos entre 80 e 83 anos. Ela estava toda bem vestida. Roupas e sapatos de grife. Pegou o colar no chão do banheiro e colocou no pescoço. Pôs o relógio no pulso. Pendurou todas as jóias que eu havia deixado do lado de fora do espelho no seu corpo todo enrugado e velho. Fitou-me no espelho, muito séria e balançou a cabeça negativamente.

"Quem essa VELHA pensa que é, para julgar os meus atos pretéritos?", imaginei com o coração apertado. Eu estava temerosa!

Depois, surgiu um caixão fúnebre no canto do recinto. Ela abriu o caixão, deitou-se lentamente, fechou os olhos e dormiu para sempre. Comecei a sentir aquela antiga dor nos olhos, como se estivessem com areia, eu estava com sono. Fui fechando os olhos tal como aquela velha senhora. De repente, o espelho trincou. Em segundos os cacos caíram no chão transformando-se em inúmeros pedaços sem utilidade.

Senti alguém varrendo os cacos. Abrindo a tampa do caixão e jogando tudo lá dentro. O caixão fechou-se, ficou tudo escuro. Assim como tudo fica quando você fecha os olhos.
 
 

 
       

 

     


 

 

Agnaldo Rodrigues da Silva
É professor de Literaturas Portuguesa, Brasileira e Teoria da Literatura na Universidade do Estado de Mato Grosso. Dentre suas publicações destacam-se: O futurismo e o teatro (2002), Ensaios de Literatura Comparada (2003) e A penumbra – contos de introspecção (2004). É ensaísta, crítico, ator e contista. Atualmente pesquisa sobre as tragédias áticas e as modernas, indicando rupturas e continuidades entre elas.