O filme de Lars Von Triel confirma uma retórica já muito comum ao homem do século XXI: há os que têm poder e os que carecem do mesmo, sendo que esses não podem ser considerados vítimas. No universo criado pelo diretor – uma cidade de paredes e portas invisíveis –, a existência de perdedores, mas ausência de desafortunados, é justificada pela crença que males como hipocrisia, medo e marasmo social são as verdadeiras ameaças a uma sociedade, seja ela global ou composta por meia dúzia de idiotas. Dogville nos mostra que não existe compaixão desmedida e a bondade é sempre questionável.

Encravada nas Montanhas Rochosas, a patética comunidade de Dogville está a par do mundo. Pode ser lida como uma representação do fly over americano – a região entre a Costa Leste e a Costa Oeste, habitada pela maioria conservadora, republicana e ignóbil daquele país. A personagem de Nicole Kidman, Grace, uma estranha que chega à cidade anunciada por tiros distantes, ouvidos apenas pelo jovem "filósofo" da comunidade, é uma surpresa provinda do mundo exterior. Os habitantes da moribunda cidade a recebem com suspeitas, vendo nela uma ameaça do desconhecido, com o pretexto de quererem "preservar a comunidade". Exatamente como fazem hoje os americanos da Era do Terror.

A globalização nos ensinou que o mundo é uma aldeia global, mas Dogville nos ensina que o mundo é um canil. Ao mesmo tempo em que se importar com o todo é tomar suas dores, preocupar-se somente com os ossos que nos dão para roer nos mantém num coma social. Podemos viver num limitado vilarejo, mas nunca realmente sabemos o que se passa na casa de nossos vizinhos. Em Dogville, a ausência de paredes reforça a idéia da ausência de visão que temos sobre o mundo ao nosso redor. Temos comunicação global, mas não conhecemos nossas esposas, maridos e filhos. Temos a crença na família, no trabalho e na comunidade, mas absurda descrença no amanhã. E no ontem, deixamos de acreditar hoje pela manhã.

Dogville nos apresenta nosso próprio mundo. Um mundo sem salvação, em que debates, discussões, idéias e crenças de nada adiantam sem uma prática funcional. E, ultimamente, quem mais tem demonstrado crença num ideal e posto em prática suas idéias – com grande sucesso e amplo planejamento – são uns certos fundamentalistas que se dizem "islâmicos" e explodem trens e jogam aviões contra prédios.

Nos créditos finais, a música "Young Americans", hit de 1975, de David Bowie, toca sobre imagens de uma América pobre, suja e abandonada. A América que não é vendida por Nova York ou Hollywood. A América entregue aos cães.
 
 

 
       
     
 

 
       
       
   

Segundo Oscar Wilde, no prefácio de O retrato de Dorian Gray, toda arte é inútil. O autor irlandês acreditava na inexistência de uma função prática para a arte, sendo esta apenas uma ferramenta para o regozijo dos prazeres humanos. Olhando para o mundo atual, podemos concluir que Wilde, que se tornou conhecido por criticar a sociedade vitoriana em suas obras, anteviu nosso tempo, em que a arte como protesto, como educação e iluminação das massas deixou de existir, sendo suplantada pela arte por ela mesma, pela beleza e pelo prazer. O que não é, de forma alguma, um retrocesso.

Engana-se quem acredita que a arte é fundamentavelmente didática e a beleza inútil. Cria-se arte por criá-la, não pensando numa função social. Arte não pode mais ousar propor revolução num mundo em que revoluções ocorrem a cada minuto, em diferentes lugares ao mesmo tempo. Há muita revolução acontecendo e pouca arte para expressar isso. A globalização pôs fim à arte revolucionária, mas deu gás ao discurso da beleza.

No mundo hedonista que temos, um John Lennon protestando pela paz é menos necessário que um Anderson Dornelles desfilando por alguma grande grife. Não que a arte com propósito social tenha se tornado inútil. Ela apenas não se atualizou às revoluções. As mudanças atropelaram a arte. E a importância da beleza também.

Alguém muito rápido no julgamento diria que esse panorama é a comprovação da inversão de valores de uma sociedade superficial. Ledo engano. A beleza tem um discurso que, hoje em dia, é mais necessário que nunca. É o escapismo de uma realidade proletária embrutecida pelo dia-a-dia. A frustração diante das revoluções contínuas encontra alento muito mais na beleza que na arte. Isso justamente porque a arte distanciou-se do espírito humano. A beleza, com um lobby muito mais eficiente, roubou esse papel da arte. Porque além de bela e útil, a beleza é esperta.

Longa vida a Oscar Wilde. A John Lennon e a Anderson Dornelles também. A perpetuação e a valorização da beleza são imprescindíveis a uma sociedade que procura viver além do protesto à realidade. Protestemos, mas sejamos belos. Afinal, a revolução é sempre mais elegante num Calvin Klein.
 
 

 
       

 

     


 

 

Vitor Diel
Teve seu conto "Um dia na vida" publicado na antologia "101 Que Contam", lançada em outubro de 2004. Seus contos "Hollywood" e "Tio Sam e o Homem-Bala" figuram na Vitrine Literária do site do escritor Charles Kiefer - www.charleskiefer.com.br/oficina. Outros textos do autor podem ser conferidos no seu blog
http://bumerangue.pitas.com.