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Há muitos anos ela me visita em sonhos com freqüência. Em alguns deles, estamos na mesma praia onde terminamos o namoro, alguns meses depois do congresso clandestino de Ibiúna, onde foi presa. Ela era dirigente da UNE, estava lá. Eu, um covarde quadro de base, ajudara apenas no transporte dos delegados, dirigindo uma kombi com mãos trêmulas e o coração aos saltos. Foi quando comecei a compreender que nunca seria um revolucionário. Mas ia ficando por causa dela. Uma hora ela teria um estalo e me chamaria para mudarmos de vida. Iríamos nos formar e casar, como todo mundo. Em alguns dos sonhos, como dizia, estamos na mesma praia do litoral paulista em que terminamos de uma vez por todas. Foi quando ela me disse que eu não passava de um pequeno-burguês acomodado, e avisou que estava partindo para a guerrilha. Acabara o treinamento militar, partiria antes do final de semana. Depois da conversa dura, voltou a ficar suave, disse entender meus problemas: minha mãe viúva com outros quatro filhos precisava da minha ajuda. Eu poderia ajudar mais adiante, quando a luta vitoriosa chegasse à cidade. Por ora, pedia apenas que não contasse a ninguém de seu destino. Nem a seus irmãos, que ainda moravam no Cambuci. No sonho da praia sei que ela tenta me contar como morreu e onde está seu corpo. Que pede para ajudar a buscá-lo para que sua mãe tenha sossego. Fala de um rio, fala da mata, mas o vento sopra forte e escuto as palavras pela metade. Picotadas, como numa ligação ruim de telefone celular. Lembro-me de que no tempo dela nem havia celular. Acordo tentanto costurar pedaços de palavras e suando frio. Há outros sonhos mas nos outros somos jovens e estudantes de arquitetura na FAU. Há alguns anos, depois de alguns sonhos, passei a colecionar informações sobre a morte dela. Mantenho-as num arquivo com senha. Minha mulher não gosta dessa história sobre minha ex-namorada que morreu no Araguaia. Não diz nada, mas fica emburrada. Ontem encontrei na Internet um trecho que seria do tal “Relatório Arroyo”. Quando já não restava nada da guerrilha, Ângelo Arroyo e um tal Zezinho conseguiram fugir da área, deixando o horror para trás. Dizem que alguns estavam vivos e perdidos na mata. Mas se ficassem, não iam poder fazer nada mesmo, a não ser morrer também. Não tenho nada com a guerrilha, sempre achei aquilo uma loucura. Queria apenas ajudar a achar o corpo dela. Talvez os sonhos cessem, talvez dona Alzira pare de rezar em frente àquele altar com o retrato dela e uma vela acesa. Visito-a também escondido de Ângela, minha mulher, para evitar suas tolices. No relatório de Arroyo, segundo o texto que achei, estaria escrito: “Ela, juntamente com outro companheiro, estava de guarda num ponto alto da mata para permitir a passagem, sem surpresas, de grupos do destacamento. Nessa ocasião, pela estrada vinham tropas. Como estas achassem a passagem perigosa, enviaram 'batedores' para explorar a margem da estrada, precisamente onde se encontravam os dois companheiros. Ele, quando viu os soldados, acionou a metralhadora, que não funcionou. Ele correu mas ela não se deu conta do que estava sucedendo. Quando viu, já os soldados estavam em sua frente. Atirou com uma espingarda 16. Matou um. O outro soldado deu uma rajada de metralhadora que a atingiu. Ferida, sacou o revólver e atirou no soldado, que deve ter sido atingido. Foi presa e torturada até a morte. Elementos da massa dizem que seu corpo foi enterrado no local chamado Oito Barracas”. Também já ouvi dizer que o soldado lhe disse, depois de estraçalhar as pernas dela com uma rajada: – Fala seu nome! – Guerrilheira não tem nome, seu filho da puta! E o teria surpreendido com um tiro à queima-roupa, apesar de ferida. Já ouvi também que morreu dizendo: “Os companheiros me vingarão, a Revolução me vingará!”. Já ouvi dizer que seu corpo ficou ali até ser devorado pelos urubus. Que meses depois uma camponesa achou a ossada e junto dele um isqueiro prateado que reconheceu como sendo o dela. Já ouvi que os soldados violentaram seu corpo para saber se era virgem. Num outro documento sobre desaparecidos, li que há poucos anos uma equipe de busca e localização dos desaparecidos teria encontrado, com a ajuda de moradores da região, uma elevação na curva do rio, semelhante a uma cova. Que abriram a terra e encontraram uma ossada, possivelmente a dela. Que foi levada para Brasília e estaria guardada até hoje num armário do Ministério da Justiça. Penso nela dormindo nesse armário há tantos anos, dentro de um saco abandonado. Mas isso nem contei a dona Alzira. Meu arquivo cresce, e é tudo o que faço. Já pensei em ir à região procurar esse local, Oito Barracas. Sei que não acharia nada sozinho. Nem quero confusão. Continuarei sonhando com ela, o vento abafando suas palavras, e visitando dona Alzira de vez em quando. Ela agora está velha, já quase não fala.
Apenas reza. |
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Tereza Cruvinel |