RESUMO: A influência da moda na pós-modernidade, o quanto ela pode alterar a vida de seus consumidores, e o como ela adquire adeptos, une e separa as pessoas por classes (ou etiquetas), minando os aspectos econômicos e socioculturais é o objetivo maior de nosso texto.

PALAVRAS-CHAVE: Moda, Literatura e Semiótica

ABSTRACT: The fashion influence in the post modernism, in which way it can modify the life of its consumers, and how it recures adepts, join and separaes people in classes (or labels), mining the economics and social-culturals aspects is the major purpose in our text.

KEY WORDS: Fashion, Literature, Semiotic.
 
 

 
   

"Os retardatários – você, com certeza, leitor – pensam que têm gosto porque aprenderam umas coisinhas. São os mantenedores do gosto. O que sai das coisinhas é de mau gosto. Mas nós endossamos o mau gosto e recuperamos para a época o que os retardatários não tinham compreendido e difamavam."
Oswald de Andrade

 

A boutade shakesperiana a que o titulo alude nos diz ser esta a questão, ou seja, que a coisa no mundo da moda é assim, ou você usa, ou não usa, pode ou não pode usar as melhores grifes ou "marcas" que nos impõem. Tais "grifes" rotulam que só os bons, os melhores e os poderosos usam, e que para ser, ou ao menos se tornar um deles, mesmo que na cabeça de cada um, você tem que usá-las. Parece-me que a questão da moda, mais do que resumir, reflete um aspecto cultural significativo. (Vejamos um exemplo: gestantes não têm um plano de saúde sequer; porém, na hora de comprar "fraldas" para o filho procuram justamente aquela que está na "moda". Sabemos o quanto de contradições e de ideologia está por trás, mas o exemplo em si é válido.)

Os adolescentes, a meu ver, são as maiores vitimas do chamado mundo da moda, porque, além da TV, do rádio e da internet, que derramam em cima deles, a cada minuto ou até a cada quinze segundos de um comercial, novidades em calças, tênis, que este ou aquele astro de TV ou de esporte usa; tais adolescentes ainda têm a concorrência com amigos e colegas de escola, de shopping, e até mesmo aqueles amigos virtuais que nem conhecem pessoalmente, mas com os quais discutem que têm este ou aquele acessório de moda que saiu na TV ou em qualquer outro meio de informação. Ainda tem os celulares que são os objetos de desejos de qualquer pessoa hoje – adolescente ou adulto, de toda e qualquer classe social quer ter o seu. O jovem ainda passa por um problema maior que é o fato de ele ser mais discriminado se não consegue ter acesso a tais produtos, os quais seus amigos possuem.

Para ilustrar o que se disse, passo a relatar um fato engraçado.

Um tio, considerado pelo sobrinho como uma pessoa que dita moda – aquele cara que sempre usou o que acha que é "legal", nunca compra o que não deve, e tem o maior orgulho disso e dá orgulho a seu sobrinho e parentes – compra um par de tênis, último modelo, gastando assim uma quantia enorme. Seu sobrinho que regula mais ou menos com ele em preferência de vestuários, apesar da diferença de quinze anos de idade – claro que regulavam, porque o sobrinho é um jovem adulto, enquanto o tio se sentia o "cara", um jovem senhor, com aparência de pós-adolescente – ficou louco com o calçado pelo tio adquirido: perguntou o valor, como comprou, onde, e até afirmou que nunca ia poder ter um daqueles, porque era coisa para gente endinheirada e chegou a dizer o absurdo que "para se ter um tênis daquele, tinha que comprar uma arma junto, para evitar assalto".

Então, o que aconteceu?

O tio ficou com pavor de usar o calçado novo, porque jamais poderia ter gasto tanto em um calçado e ser roubado. Daí a moral da história: o tio não teve coragem de usar o calçado com medo de ser roubado, sobrando o mesmo para o sobrinho, que era uma pessoa que não se julgava um ditador de moda, mas que era amigo de todos e dito da rua.

As pessoas que se acham ditadoras de moda nem sempre podem usar o que têm, porque, como não são pessoas que freqüentam os "guetos" e estão sempre arrotando grandezas, não podem fazer o que querem em qualquer hora e lugar. Assim, às vezes ditam modas para elas mesmas, porque compram o que está na moda, e o que acham que é moda, e têm que deixar guardado em casa com medo de assaltos e de perder os seus objetos de desejo.

É assim que as pessoas ditas de bom gosto pensam; elas acham que por que lêem um pouco mais os ditos literatos da moda estão curtindo o que é "cult", como ter o melhor celular, o ultimo da moda, o melhor tênis, as melhores roupas. Esse comportamento é que leva o ser humano a se sentir o dominador e ditador de moda, o que cria e recria o que deve e o que não se deve usar.

Mas o que é e o que não é moda hoje?

Considera-se moda hoje tudo o que está no gosto e no desejo "popular", tudo o que vira um objeto de desejo de qualquer pessoa, de qualquer idade ou classe social, e que é veiculado em mídia, TV, revistas, rádios e tudo mais. As pessoas, o telespectador, o leitor, elegem o que vai ou não vai ser moda, porque a cobiça por este ou aquele item vira uma opção de vida; há aqueles inclusive que dão tudo para ter tal objeto do desejo, porque um ou outro pop-star usa ou vai usar, ou até nem usa mas porque disseram ou escreveram que tal figura usa, o espectador entra em um estado de exaltação tão grande que é capaz de qualquer coisa para obtê-lo. É isso que torna o objeto de desejo um produto da moda, procurado por todos. Segundo Lipovetsky, "a moda não é mais um enfeite estético, um acessório decorativo da vida coletiva; é sua pedra angular. A moda terminou estruturalmente seu curso histórico, chegou ao topo de seu poder, conseguiu remodelar a sociedade inteira à sua imagem: era periférica, agora é hegemônica". Ainda de acordo com o mesmo estudioso, "a moda não se identifica de modo algum a um neototalitarismo suave, mas permite, bem ao contrário, a ampliação do questionamento público, a maior autonomização das idéias e das existências subjetivas; é o agente supremo da dinâmica individualista em suas diversas manifestações". A moda produz inseparavelmente o melhor e o pior, a informação vinte e quatro horas por dia e o grau zero do pensamento.

Diz por ultimo Lipovetsky: "A moda consumada vive de paradoxos: sua inconsciência favorece a consciência; suas loucuras, o espírito de tolerância, o individualismo; sua frivolidade, o respeito pelos direitos do homem. No filme acelerado da história moderna, começa-se a verificar que, dentre todos os roteiros, o da Moda é o menos pior".

Como se vê, a moda chegou ao topo, ao seu limite máximo, porque não é mais um capricho do ser humano e, sim, um meio de sobrevivência. É nela que se encontra a união e a desunião entre pessoas de classes sociais, ou seja, não existe mais um limite de poder para se ter ou não o que está na moda. As indústrias da moda estão aí para facilitar e ao mesmo tempo retirar o acesso de todos a tudo, podendo assim qualquer pessoa ter acesso aos itens mais cobiçados nos dias de hoje. Sendo assim, a moda não pode ser considerada como um produto só de aproximação, mas também como um produto de distanciamento, individualismo do seres humanos, ou seja, de seus adoradores.

A moda pode ser uma criadora do melhor e do pior, pode pôr seu produto em alta num dia e no dia seguinte retirá-lo das prateleiras, porque a mídia da moda faz este trabalho de acordo com o que lhe convém, dizendo o que serve ao consumidor, com suas enxurradas de comerciais, audiovisuais. E mostrando, com isso, que na verdade a própria mídia vive da moda; logo, por que nós não viveremos, nós que somos apenas simples consumidores dela. Apenas devemos e podemos lembrar que aquilo que hoje está na moda, amanhã pode ser "out" e, portanto, "old fashion". E assim é o mundo da moda: o que te favorece hoje, te prejudica amanhã, o que te dá um prazer hoje, amanhã se torna decepção. É esse vai e vem que faz dela um dos negócios mais criativos e lucrativos nos nossos dias. Nesse sentido, as palavras de Barthes são oportunas: "Ora, a partir do momento que me sinto olhado pela objetiva, tudo muda: ponho-me a `posar´, fabrico-me instantaneamente um outro corpo, metamorfoseio-me antecipadamente em imagem".

A moda vem alimentando e iludindo pessoas desde muito tempo. Desde as épocas mais remotas, ela é um atrativo a mais para o ser humano, Parece-nos que, na verdade, ela contribui com a formação da identidade do homem, além de situá-lo em seu meio sociocultural. O vestuário nos dias de hoje é apenas um complemento levando-se em conta o que a moda nos oferece ou até nos empurra nos dias de hoje. Tem-se o "culto" ao corpo perfeito, que aliás é outro item que já passou por várias mudanças em relação à perfeição, considerando o que é ou não o corpo da moda. Nos tempos da Renascença, por exemplo, o corpo da moda era de formas roliças e bem torneadas; o que leva-nos a concluir: coitadas das "Kate Mosses" naquela época; há poucos anos passamos pela forma de as cadavéricas "kates" serem as "in". Já nos dias atuais o corpo da "moda" apresenta-se saudável, com peles bronzeadas e cabelos bem tratados. Vemos também que o corpo não passa simplesmente pelo corpo em si, mas envolve outros itens, levando o sujeito a consumir vários produtos, como cremes, produtos de beleza, acessórios, para alcançar o tão sonhado corpo perfeito. Esse corpo serve apenas como um cabide para a vestimenta, o que é considerado o cartão de visitas de qualquer pessoa ligada ou não à moda.

De acordo com Lipovetsky, a religião atualizou-se com o consumo, abandonando-se o ascetismo em favor do hedonismo e do espírito festivo, enaltecendo-se os valores da solidariedade e do amor mais que os da contrição e do recolhimento.

Como se vê, até a religião hoje está na moda. Astros de TV, da música e até do futebol usam como acessórios, para enfeites de seus corpos "sarados", imagens, crucifixos, medalhas, e isto não deixa de ser uma reatualização da religião. Porque em outros tempos as religiões eram em número até menor, enquanto hoje temos uma infinidade delas, de procedências as mais diversas e com crédulos cada um mais diferente do que o outro. Cada uma tem um ponto de partida e de chegada; umas salvam de acordo com os dízimos dados pelos fiéis; outras salvam pelas benfeitorias destes mesmos fiéis, que as seguem porque mais uma vez envolvem-se pessoas de renome, ou até mesmo porque este ou aquele pop-star da mídia passa a freqüentar, levando os fiéis a se adequarem e se adaptarem a mais este capricho da moda.

Mesmo que empregado em um outro sentido, lembramos do que disse Eneida de Souza a respeito de Carmen Miranda: "Durante o período de política de boa vizinhança, programa instaurado pelo governo americano para tornar próximas as relações com a América Latina, uma artista é escolhida como símbolo do continente: Carmen Miranda. Entre 1939 e 1945 participou de vários filmes de sucesso de Hollywood, assumindo o papel de representante da cultura musical-popular brasileira nos Estados Unidos".

Como nos mostra o trecho acima, temos uma amostra de que os corpos estão e sempre estiveram em voga e à mercê da moda: no final da década de 1930 e até meados dos anos 1940, Carmen Miranda foi eleita pelas sociedades brasileira e americana como um símbolo sexual por causa de suas curvas e trejeitos, além, é claro, do seu estilo musical. Mas era no corpo que ela era vista como um símbolo de moda, porque tinha formas sinuosas para a época, desejada e cultuada por todas as mulheres, e desejada pela maioria dos homens. Foi até criada uma boneca de papel com as formas do corpo de Carmen Miranda; o modelo trajava peças de banho e os consumidores podiam vesti-las com diferentes saias, turbantes e "balangandãs", acessórios que eram a marca registrada da artista. Os consumidores se deliciavam com essa sensação de poder vestir e despir a qualquer hora, tendo a impressão psicológica de se sentirem vestidos e despidos por tudo que a moda oferecia de mais moderno e atual para a época. Nos dias de hoje ainda temos nossas "carmens", porque a cada minuto surgem na mídia mulheres com corpos maravilhosos, esculturais, como nas propagandas em que tais corpos apresentam-se como verdadeiros cartões de visitas responsáveis pela oferta em massa do produto de consumo.

 


 

Referências bibliográficas

ANDRADE, Oswald de. Serafim ponte grande, 9. ed. São Paulo: Globo, 2004.

BARTHES, Roland. A câmara clara: nota sobre a fotografia. Tradução de Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

LIPOVETSKY, Gilles. Os tempos hipermodernos. Tradução de Mário Vilela. São Paulo: Barcarolla, 2004.

LIPOVETSKY, Gilles. O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. Tradução de Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

SOUZA, Eneida Maria de. Crítica cult. Belo Horizonte: Editora UFMG 2002. p. 177. (col. Humanitas.)
 
 

 
       

 

     


 

 

Marcos Antônio de Oliveira
Decorador. Graduando em Letras pela UFMS. Publicou artigo sobre moda na revista Arandu – Dourados, MS.