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Os leitores devem estar se perguntando por que estou me propondo a escrever sobre um selo de discos de uma rádio estatal. Antes de tudo, não tem nada a ver com o pensamento de algum burocrata e muito menos com velharia, embora a Rádio MEC, fundada em 1923, seja a mais antiga do país, com o seu prefixo PRA2.

Antiga em anos, jovem em ousadia e inovação. Em 1996, ciente de que a tarefa primordial de um disco é a de mudar a vida das pessoas e ampliar o horizonte de suas mentes, um grupo de aficionados começou a desenvolver um projeto audacioso, principalmente quando se considera que o mercado fonográfico hoje pretende produzir música como se fosse refrigerante ou sabão em pó e se resume a algumas gravadoras preocupadas em encontrar um novo Felipe Dylon, um novo CPM 22 ou qualquer outro lixo industrial para vender 60 mil cópias imediatas, porque isso é disco de ouro no nosso Brasil. Pois foi nesse ambiente que nasceu a proposta de fundar uma marca que, no fundo, é uma antimarca, com todo respeito a esse trabalho de guerrilha cultural.

A antimarca "Selo Rádio MEC" abriga desde artistas consagrados como Hermeto Pascal, Nelson Sargento, Sérgio Ricardo, Wilson Moreira, Paulo Moura, a novas promessas, passando por veteranos colocados à margem do mercado. Já recebeu prêmios e foi indicada para outros. Ganhou o Grammy Latino de Música, o Prêmio Tim de Música, o Prêmio Rival e, neste ano, o Prêmio Top Qualidade.

Não há preconceito musical. No entanto, o selo privilegia música erudita, como a de João Carlos Assis Brasil, música popular e instrumental. Também não são dispensados os gêneros alternativos, que têm em Hermeto Pascoal o seu carro-chefe.

A renda obtida com a venda dos cds é destinada inteiramente ao compositor. Atualmente, o pessoal do selo está atento às parcerias para a produção do disco, que envolve remasterização, prensagem, gastos de estúdio e confecção de capas.

"Nosso objetivo é fazer a memória do que está acontecendo. As parcerias são fundamentais pois não somos uma gravadora ou distribuidora. Vale lembrar que somos uma rádio", explica Xico Teixeira, gerente executivo da Rádio MEC.

A resistência cultural nasceu nas comemorações dos 60 anos da Rádio MEC, com o nascimento do selo Repertório Rádio MEC em 1996. Um grupo de amigos da rádio, ou melhor, a Sociedade dos Amigos da Rádio MEC (Soarmec), lançou, em cd, as gravações de artistas eruditos feitas nos estúdios na rádio. Assim, passou a ser editado o selo Repertório Rádio MEC. Já foram realizados 18 lançamentos até este ano.

A briga comprada pela Soarmec não é novidade. Na década de 1970, durante uma política de sucateamento da rádio, as fitas magnéticas, que continham documentos e registros históricos, estavam sendo apagadas para serem reutilizadas. Para evitar que a memória da rádio se perdesse, funcionários gravavam em cassetes, na calada da noite, o conteúdo dessas fitas.

A rádio tem um dos maiores acervos do país, com mais de 40 mil fitas de séries e programas. Existem preciosidades como pronunciamentos de Getúlio Vargas, Luiz Carlos Prestes, Manuel Bandeira, Monteiro Lobato, Millôr Fernandes, Carlos Estevão, Fernando Sabino, Alberto Diniz, John Kennedy e Winston Churchill. No entanto, era época de outra luta, os senhores dos anéis eram outros. Hoje, as rádios MEC AM e FM continuam a funcionar no prédio da Praça da República, no Rio de Janeiro. A MEC 800 AM, que está tendo a sua grade de programação reformulada, dedica 24 horas à cultura e à informação, priorizando a música brasileira. Já a MEC 98,9 FM é a única rádio do Estado do Rio a só tocar música erudita.

Mas continuemos com o selo. Em 1999, outra novidade foi colocada no ar. Foi lançado o Selo Rádio MEC: uma parceria entre a rádio e um grupo de cantores, compositores e músicos. A ordem era ampliar horizontes dentro do universo da música popular brasileira, onde cabem várias correntes.

Segundo Xico Teixeira, "o Selo Rádio MEC se propõe a ser uma alternativa de qualidade ao mercado fonográfico". Em sua sala, imersa em música erudita, ele revela as próximas ações no teatro dessa guerra cultural. "Estamos em entendimento para que o Selo Repertório seja incorporado, passando a ser uma série especial do Selo Rádio MEC, que tem gravado músicas de compositores populares como Hermeto Pascoal, Paulo Moura e Sérgio Ricardo. Com isso, teremos um Selo Rádio MEC completo", explica.

Aliás, a trajetória musical de Hermeto Pascoal, o mago albino, se confunde com a história do Selo Rádio MEC. Lançar Hermeto foi a primeira ousadia do selo. O músico estava há 15 anos sem gravar e lançou então o cd Passe livre para criar. Mesmo com as dificuldades de distribuição que enfrentou na época, o disco rendeu várias matérias jornalísticas no Japão e em países do Mercosul. No Brasil, foi eleito pela crítica especializada um dos melhores do ano. Neste ano, o disco de Hermeto Mundo Verde Esperança foi indicado para o Prêmio Tim de Música, nas categorias arranjador e melhor grupo instrumental.

Não podemos nos esquecer também do simpático sambista Nelson Sargento, que em julho de 2004 completou 80 anos. Pelo selo da rádio, o compositor mangueirense gravou o cd Flores em Vida, que foi indicado para concorrer ao Prêmio Grammy Latino, na categoria de melhor álbum de samba.

"Dos três cds que gravou, dois saíram pela selo Rádio MEC", atesta o assessor de planejamento da Rádio, Sebastião Figueira. Nelson compôs o majestoso samba enredo "Agoniza mas não morre", que de acordo com a crítica especializada é um dos mais bonitos da história. A música é entoada como um hino nas rodas de samba da cidade.

Sobre o sucesso do novo cd, Nelson destila modesta. "Acho que me dão importância por tudo o que fiz ao longo da vida. Realmente fiz muitas coisas, mas talvez eu nem mereça tantas flores em vida", diz o sambista, que hoje pinta quadros. Na última exposição, vendeu 18 telas, que seguem o estilo Heitor dos Prazeres.

Atualmente Sargento, sobrenome derivado da patente que ganhou no exército, está morando em Copacabana mas não perdeu a ligação com o morro, principalmente com a Mangueira. O repertório de Flores em Vida está repleto de composições inéditas e conta com grandes músicos como João Aquino e participações especiais de Emílio Santiago e Marília Barbosa.

Hermeto e Nelson retratam bem o conceito do selo Rádio MEC, cujos 18 cds somados aos 16 do selo Repertório totalizam 34. A iniciativa da Rádio mostra que as gravadoras podem produzir músicos sem colocá-los no mercado como simples mercadorias. Essa turma da MEC, que resiste ao simplismo da lógica do mundo globalizado, está mostrando que é preciso ter alma e não ver o músico como um cifrão ou um número de cópias.

 

 
     
 

Serviço
Rádio MEC
Praça da República,141-A, Rio de Janeiro
Metrô: Central
Entrada Gratuita: Programa Entre Amigos (ao vivo – com artistas consagrados), todas as quartas-feiras às 17h.
Sites: www.radiomec.com.br e www.soarmec.com.br

 
     
     

Fotos não legendadas: Duayer

 


 

           
 
 
 

Zé Luiz Neto
38 anos de serviços prestados à boemia, é profundo conhecedor dos bares, botequins, morros e outras biroscas da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Na década de 1980, tirou uma de poeta outsider, com recitais nos baixos da vida, e teve contato, através do rock'n'roll, com os beatnicks, Marx e Nietzsche. Entrou depois numa de ser repórter, formou-se em Comunicação Social pela PUC-RJ, trabalhou em rádio e em jornal. Hoje em dia, escreve neste site sobre a loucura e a insanidade do Rio de Janeiro, lugar onde nasceu. Nos momentos de lucidez, trabalha em uma assessoria de comunicação.