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EU VI um pássaro no céu
Ele olhou para mim
Como quem diz assim:
– siga o seu caminho na terra,
Que o meu já está traçado no céu.
Sigo apenas o meu instinto,
Que me leva sempre para onde necessito.
– E não para onde eu quero.
Mas tu podes voar sem as minha asas
E correr sem as minhas pernas,
Ou até velejar pelos mares do mundo.
EU VI uma pedra na areia
E ela me falou assim:
– siga o caminho das estrelas
E não te enfraqueças
Se eu for a causa do teu tropeço
Pois não estou sozinha neste mundo
E tu cairás sempre depois de mim
E levantarás com mais força ainda
EU VI uma estrela da noite
E ela me confidenciou:
– Meu brilho só tem valor para ti
Se o teu espírito brilhar como o meu,
Mas se não puderes me ouvir
Eu nada serei para ti,
Senão um grão de luz no teu céu,
Que tem apenas um brilho opaco
Como fagulhas de um firmamento escuro.
EU VI um peixe na água
E ele me falou assim:
– Por que olhas tu para mim
Se não posso sair daqui
Sem que eu morra em teu meio?
Pois no lugar que habito
A luz é pequena
E a escuridão reina
Desde a lagoa mais serena
Até as profundezas do mar sombrio.
Por isso, não me invejes.
Posso até singrar os mares da terra
Perscrutar lugares recônditos
E conhecer os quatro oceanos da vida
Mas meu reino é limitado.
Pois o oceano em que vivo
É o universo para mim
E um mistério para ti
E tu podes muito mais:
A tua razão é mais nobre
Que o cego instinto que me guia
Tu podes estudar minha vida
E eu nada saberei sobre ti
Tu podes me levar para o teu criatório
E eu nada posso fazer contra ti.
Tu podes fazer, com meu ser,
O milagre da multiplicação primeira,
Sem que eu conheça minha parceira.
E tu farás do meu reino
Um grande oceano em viveiro
Onde serei mais um em tua lista
E tu possuirás a chave do meu próprio abismo.
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