A gravidez deu-se em três noites:
na primeira, seduziu-me um vento frio
e afagou-me a nuca...
e pôs-se a me excitar a ponto
de eu me desnudar
e oferecer-lhe o acesso ao corpo
amortecido pelo vinho.

Na segunda, havia um odor de plenitude
impregnando a pele...
e um rosto cansado,
e um desalinho nos cabelos,
e uma umidade, vinda não sei donde,
avançando pelas entranhas
e estagnando o tempo nos lençóis.

Na que por último ocorreu,
pus-me a repartir palco e destino
com irmãs enluaradas.
E entre elas maturei,
barriga-enchente fecundada,
vestida com rasgos de seda
e ornada por camafeu...

 
 

   
         
     
 

 
         
         
   

há uma mulher
há uma mortalha
e no topo do andor
uma dor que retalha,
houve fuga de ardor
na antiga fornalha,
um ponto final
um canto de gralha

hoje abafadouro,
antes revoada,
ela apalpa o amor
esculpido à navalha...

e abandona de vez
qualquer coisa que o valha.

 
 

   
         
     
 

 
         
         
   

Você insiste em congelar minhas lembranças:
– Morte, Morte, você tem rondado!...
Espreita o medo, monitora a impotência,
e aguarda paciente que adormeçamos
para sobressaltar-nos no meio da noite,
o soluço (sentido!...) perdido no escuro do quarto.

Peço-lhe que se afaste!...
Não traga a chuva forte e o vento frio
para que denunciem uma patética manhã.
Precisamos constatar calor nos corpos amados,
e não a frieza de sua dança em círculos,
angustiante ausência de ritmo ou compasso.

 
 

   
         
     
 

 
         
         
   

Ah, mas esse mundo já foi de tanta gente!
Tantos rios abraçados por moleques pés-no-chão.
Nadadeiras fortes, pensamentos hesitantes,
e a tão velha Leopoldina, negra ativa do sertão?

Grandes bacias de cobre no asseio da velha cozinha,
mãos calejadas, queimadas, no eterno catar-de-feijão.
Quadris medonhos, carnudos, assentados na palhinha,
pés descalços, talvez frios, no assoalho do salão.

Roda e rodopia,
vem a vida e a vida vai...

Ah, mas esse mundo já foi de tanta gente!
Quantos meninos tenazes mergulharam nas escolas,
seus sapatos ensopados pela chuva e o lamaçal.
E os olhares pensativos, transpondo os limites do sonho...
a professora, os cadernos, o rio sujo e o anzol.

Roda e rodopia,
vem a vida e a vida vai...

Ah, mas esse mundo já foi de tanta gente!
E o ancião tão sozinho na troca injusta da sorte,
vai a vida, vem a morte...
E a alma, clamando auxílio,
não propaga pelo corpo todo furor que carrega.
Os olhares são aflitos, ansiosos pelo quarto,
lembranças passadas no campo, o velho amigo do bar...
Onde ele está que não chega pra morte do velho afastar?
O cheiro da namorada, a colônia de alfazema,
perdeu-se entre o cheiro das flores e o choro das carpideiras?

Roda e rodopia,
vem a vida e a vida vai...

E esse mundo já foi de tanta gente!
Louvado aquele que puder abocanhá-lo,
sangrar-lhe a carne, castigá-lo na ferida.
Fazê-lo nos devolver a boa negra Leopoldina...
seus olhos vermelhos de choro, transformados de alegria.
Suas mãos se tornem macias, graciosos os traseiros,
pés delicados calçando belos pares de pelica.

Aos meninos, retornem as balas;
a nós e ao velho, a Vida!...

 
 

   
         
     
 

 
         
         
   

Quanto olhar
de riso triste
na vida! ...

O pranto
– sabias?

segue o rumo
das águas geladas
dos rios do sul.

 
 

   
         

 

     


 

 

Maria Georgina Albuquerque
Sou mineira de Leopoldina, uma pequena cidade da Zona da Mata. Mudei-me com minha família para o Rio de Janeiro aos cinco anos de idade e passei a residir e estudar no nostálgico bairro de Santa Teresa. Cresci com os encantadores bondinhos a percorrerem o calçamento antigo, as mangueiras e os pássaros compactuando com a magia local. Psicóloga clínica, graduei-me pela PUC-Rio. Tenho material publicado em alguns sites, entre eles Jornal de Poesia (Soares Feitosa), Blocos Online, Nave da Palavra, Usina de Letras, A Confraria, PD-Literatura, A Arte da Palavra, Vânia Diniz, Novos Talentos da Literatura, Recanto das Poesias, A Garganta da Serpente, Palanque Marginal e Varal de Poesias. Os animais são de suma importância na minha vida, tendo como cúmplices e concorrentes desse afeto os meus filhos Marcos e Ana Carolina.