a agulha
puxa a linha
junta carne com a carne
e o sangue com o sangue

segue-se uma onda
de calor e frio
o suor corre na testa
para formar uma gota
que corre o espaço vazio
entre o chão e a testa
                   (da nova agulha)

o frio quebra o gelo
um iceberg num copo
e um pouco de scoth

o toque do aço
abriga
carinho a carvão

corre por dentro do tecido
cose músculo e nervo

o espanto
não cabe
em uma sala branca
e anticéptica
(é preciso sair e fumar um cigarro)
                   (o último do maço)

escuta a dor
subindo do chão de ladrilhos
exuda agulhas pelo braço
rompe a pele frágil da barriga
                   (apenas uma menina)

empapa em sangue a camisa
                   (obra demoníaca ou milagre)

a agulha é do aço
mais puro
ponta de irídio
cura, do carvão e do cal

 
 

   
         
     
 

 
         
         
   

Sempre imaginei que livros queimados em praça pública em manifestações nazistas, livros queimados em fogueiras de autos de fé, livros triturados e amalgamados em novo papel higiênico se transportavam para as bibliotecas do inferno. Os destruidores da Biblioteca de Alexandria, trazidos ali originalmente para cuidar dos volumes desta, catalogavam e cuidavam desse precioso acervo. Depois, bibliotecários sádicos, maus poetas e beletristas, passaram a cumprir ali seu castigo eterno. Mais tarde ainda censores papais e de insipientes ditaduras completaram os cargos remanescentes.

Demônios são criaturas que têm o saber como uma de suas fomes,
a ignorância dos homens aguça mais os seus apetites.

ratos devoravam pergaminhos
como queima agora
o azeite desta lâmpada

Xeque Ahmed Yassin
cumprimenta seus convidados
com seu sorriso senil

(vi o sorriso do demônio
quando devorava crianças
com lambidas de fogo)

no dia de sua morte
uma jovem
preparara seu chá
antes de lavar seus pés

a velhice
não traz confortos
Xeque Ahmed Yassin
lembra
de sua mocidade

esta noite
além de almas jovens
imoladas no fogo
o velho morrerá na porta da mesquita

 
 

   
         
     
 

 
         
         
   

minha primeira carta suicida, dirigi palavras para mim mesmo. embora tivesse firme determinação, sabia que no decorrer do tempo me faltaria a coragem de ir até o fim

os dias passaram invernos, as minhocas produziram húmus sob a terra, pus a termo idéias que não sobreviveram

minha segunda carta suicida, nem cheguei a terminar, num rompante de embriaguez, quebrei uma garrafa de um fino vinho, para cortar os pulsos com os cacos. A visão do vinho derramado antecipou o sangue, esvaecendo novamente o velho pensamento

guardei duas cartas no sótão do pensamento, vivi a inércia dos dias e das noites. Veio um tempo onde não eram possíveis mais cartas

quando senti a hóstia do pó
sob a língua
sangrava-me o nariz
feito beata e santa

bacias e pratos
recebiam goteiras
como relógio de água
neste
contava o intervalo
entre as chuvas
                   ratos corriam escadas

os cabelos brancos
caíram
vislumbrando a careca de crânio

a primavera
me encontrava nu
com um terço de madeira nas mãos
(T. S. Eliot ria em seu cruel abril)

não havia mais o conforto do vinho
não se deitariam mulheres com tão obscena criatura

minha terceira carta suicida
não encontrou quem a lesse

 
 

   
         
     
 

 
         
         
   

o chumbo
pingando lento
gota a gota
a recolher

uma colher
adicionada
sal do metal

observar no cadinho
rara transmutação

descansar no vazio
opaco
de uma noite sem lua

recolher toda chuva
num copo de alpaca

galhos de carvalho
se dobram
para criar a resistência

novas moedas
brilham moendas
de vidro sal

cal de fundição
o piso úmido
a lama breu
amalgamada a dedos pés

os corvos aludem
aos sinos da catedral
retalhos de pedra
vergam a assinatura do obreiro

há um sinal calado
retido na memória líquida
dos aforismos

 
 

   
         
     
 

 
         
         
   

todo caminho para Ítaca
está tomado de espinhos
tomei eu mesmo a mão de meu capitão
para lhe dar amparo

estava cego de fome

para suas pernas bambas e coxas
servi de bengala

mas foi ele
a dar primeiro o alarme
antes do vigia da gávea
dar qualquer sinal

reconheceu nossa terra
pelo cheiro do vento
e pelo que trazia

estrume dos cordeiros
o sol no pasto verde
a grama costada
sob os cascos do boi de arado

descreveu o azul do céu
sem ver
colocou cada nuvem
no seu devido lugar

da lenha queimando
adivinhou o pão assando
nos fornos
do grão pilado
pelas mulheres

todos choramos
pesadas saudades
como se o sal do mar
ainda não fosse o suficiente
mais o salgamos

 
 

   
         
     
 

 
         
         
   

pássaros mortos
possuem asas
                    mas não voam

outra ordem
os mantém
ao solo
                    não voam

grades de aço
são como a morte
abreviada
                    espera(m)

os muros e as roseiras
me acolhem

pedra de granito
não são verdes
                    se tornam
com o tempo
lhe roendo a alma

as goteiras
nas gárgulas do telhado
indicam a chuva
                    que não sinto

asas mortas
já não possuem pássaros
só penar
                    as penas
apenas

 
 

   
         
     
 

 
         
         
   

podia ser
uma única letra
o justaposto
e o princípio

estampei a tinta, aço e sangue
na altura das costas
bem aqui
no côncavo
sobre a omoplata
profundamente
quando não era mais ser

havia
nestes esféricos
de vidro soprado
as flores do século
do outro hemisfério

tatuei então
as letras de seu nome
nas pontas dos meus dedos
para que
no toque do sexo
te reescrevesse

costurei para dentro
o umbigo
para sem a marca
não ser mais nascido

(me desculpe a Mãe)

apaguei a letra de meu nome
e tornei a ser pária
entre os vivos

(me desculpe o Pai)

cabiam nestes hemisféricos
cálices de carmim transparente
álcool negado
às garrafas esféricas
de azul água feito turmalina

 
 

   
         
     
 

 
   

Se vis pacem, para belum
máxima militar romana

 
         
         
   

a cova se mede a palmo
7 (sete) no plano das coisas precisas

o leite se entorna no branco
como branco é corpo do olho
(onde minúsculas veias
parecem a bacia de um rio)

como é branco o topo das nuvens
e das altas montanhas
carregam água além de segredos
carregam a memória do gelo
não é leite apesar de ter cor

quando busco
(também em mim)
a poesia
esqueço a rima, a calma e o clima
pressinto no ar o dilúvio

pedras no chão precipitado
granizo da barrigas das nuvens
quando entorna do branco no negro
derrama a chuva e o sagrado
segreda o tempo e a cor

 
 

   
         
     
 

 
         
         
   

limpar o enxofre
que cobre
os dentes e a língua

lavar a boca
os lábios
com a água abundante

descobrir o rosto
da mortalha de linho
ressuscitar feito Lázaro
todos os dias

:-

afiar
a prata
que preenche
os dentes

para o corte preciso
que precisam
os dentes

lavar o enxofre
que cobre
os dentes

todos os dias
lavar o corpo
com a água abundante
recobrir com a mortalha de linho

para ressuscitar como Lázaro
na manhã seguinte

:-

colher um lírio branco
do novo jardim
se conformar como Salomão
de nunca poder se vestir assim

 
 

   
         

 

     


 

 

Edson Bueno de Camargo
Nasceu em Santo André, SP, em 24 de julho de 1962, mora a partir de seu segundo dia de nascimento em Mauá, SP. Publicou: Poemas do Século Passado – 1982-2000, edição de autor; Cortinas, com poesias suas e de Cecília A. Bedeschi; participou das antologias poéticas As Cidades Cantam o Tamanduateí que Passa, da Prefeitura do Município de Mauá e Poesia Só Poesia, Editora Novas Letras. Junto com os amigos escritores da Oficina Aberta da Palavra, grupo de Mauá, SP, edita o fanzine aperiódico Taba de Corumbé. Coordena projetos elaborados a partir da Secretaria Municipal de Educação Cultura e Esportes da Prefeitura de Mauá, SP – Núcleo de Literatura: Oficina Aberta da Palavra – Inventário Poético da Cidade de Mauá; Sarau Soltando o Verso e Encontro de Escritores do ABC – Usina de Escritores.
www.secrel.com.br/jpoesia/ebcamargo.html
www.paralerepensar.com.br/link_edsoncamargo.htm