“Sim: o abismo oval atrai meus pés.
Leopardo familiar, a manhã se aproxima."
(Murilo Mendes).

 

Um movimento é o quanto basta
para redenção das migalhas da vida
e suas coqueluches.

Me desfaço da bússola do tempo
e perco o ímã de atração dos pontos.

Entregar-se é quase um naco de paralisia
no instante de intenção e gesto.

O que vai à frente. O presente. E o passado.
Istmo das linhas geográficas, os mistérios.

Templos de retidão e fera
embebidos de consolo
na dúvida embriagada:
a indicação do abismo
é protegida por uma ponte
ligando duas margens
dois destinos
duas vidas.

O que vem antes; sobre a ponte; o outro lado.
A manhã, torço sempre, pra que seja gorda
e é só um passo à frente e o começo:
a família atravessa séculos
enquanto eu
só quero atravessar a rua.

 
 

   
         
     
 

 

 

         
         
   

olhos presos castanhos no armário
jaulas cúbicas guardando bandejas de prata
forradas de frutas tropicais.

numa noite quente de verão
soava da serra do Mar
o batuque
cutucando arredores de sons frenéticos
debaixo do oráculo verde de matas mortas.

o sentido da passagem do tempo
mecanismo de roldana
para puxar
um dia atrás do outro.

nada sai do lugar:
os olhos castanhos
as frutas tropicais
a serra do Mar
os barulhos de um oráculo.

 
 

   
         
     
 

 
         
         
   

De vassoura em punho,
varre-se o pó das máculas,
muda-se o rumo das cores,
o sumo das vidas.

O que resta de todo caso,
senão cansaço?
O que vale mudar a vida,
senão metáforas?
O que é enfrentar o mundo,
senão descanso?
O que pode um poema fazer,
senão palavras?

 
 

   
         
     
 

 
         
         
   

Na fuga rápida
procuro sentido
para tentar, melancólico
ou feliz,
escrever um poema.

Vapores se dissipam no ar.
Nem a folha branca do papel
nem a tela do monitor
absorvem o cheiro da escrita.

Barulhos de sons
espumam estridentes
dos papéis amassados ao lixo
dos constantes toques do teclado de letras ao monitor.

Pequena fissura do dique interior
rompendo a força caudalosa da palavra
enquanto desapareço.

 
 

   
         

 

     


 

 

Carlos Alberto Francovig Filho
Vencido pelo destino, invisível estrada, sucumbi aos encantos da literatura. Doce ócio. De libra, nasci aos 21 de outubro de 1960. Agora me lanço e lanço livre minha literatura.