I

A chuva dispensa
o
agasalho
um vício
na pele molhada
a febre chega
e brinda a dor.


II

Estilhaços sobre a velocidade
a idade sai
da ingenuidade do século
o ar que passa
arrasa a privacidade
das palavras.


III

A tarde
com seus conflitos
renega a partitura
do imutável
a voz do instrumento
brilha e veste
o que resta
de notas e acordes.


IV

O título é um achado
semeador de dúvidas
a linguagem acende
as coisas
e dá nome ao repouso
tapete de sombras
e sobras.


V

Na solidariedade do sono
descansa o solitário
o lençol
é um consolo


VI

Segredos da transparência
luva de gesso
o impulso do imediato
flagra
através do tecido
a anatomia
do que é íntimo.

 
 

   
         

 

     


 

 

Almandrade (Antônio Luiz M. Andrade)
Artista plástico, arquiteto, mestre em desenho urbano, poeta e professor de teoria da arte das oficinas de arte do Museu de Arte Moderna da Bahia. Integrou coletivas de poemas visuais, multimeios e projetos de instalações no Brasil e exterior. Um dos criadores do Grupo de Estudos de Linguagem da Bahia que editou a revista "Semiótica" em 1974. Realizou cerca de vinte exposições individuais em Salvador, Recife, Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo entre 1975 e 1997; escreveu em vários jornais e revistas especializados sobre arte, arquitetura e urbanismo. Publicou os livros de poesias e/ou trabalhos visuais. Tem trabalhos em vários acervos particulares e públicos, como: Museu de Arte Moderna da Bahia e Pinacoteca Municipal de São Paulo. Retrospectiva Museu de Arte Moderna da Bahia, 2000. Exposição “pensamentos” no Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, 2002
www.expoart.com.br/almandrade