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Como se comia na Grécia ou na Roma clássicas?
"Pois eu sei como se cozinhava este jantar em Atenas ou Roma, aí pelos
tempos de Augusto e ainda mesmo sob os Antoninos. O peixe, por exemplo,
pode ser uma tainha. E aqui está como ela se prepara, ó estudiosos. Tomai
essa tainha. Escamai e esvaziai. Preparai uma massa bem batida, com queijo
(que hoje pode ser parmesão), azeite, gema de ovo, salsa e ervas
fragrantes, e recheai com ela a vossa tainha. Untai-a então de azeite e
salpicai-a de sal. Em seguida assai-a num lume forte. Logo depois de bem
assada e alourada, umedecei-a com vinagre superfino. Servi e louvai
Netuno, deus dos peixes.
O
outro prato, pois que se trata de um festim ligeiro, pode ser um queque ou
pudim feito pela receita do ilustre mestre Crisipo. Tomai duas ou três
alfaces, bem repolhudas. Lavai e enxugai. Deitai vinho dentro de um largo
almofariz, e pisai, mortificai nele as folhas de alface. Passai por um
ralo para que todo o líquido se escoe; e à alface assim machucada no
vinho, juntai farinha de trigo, uma pouca de manteiga e pimenta. Pisai de
novo, até obterdes uma massa firme. Dai a esta massa a forma de um bolo
chato e redondo. Colocai-o na frigideira com azeite, e frigi em um lume
vivo. Toda a antiguidade considerou este bolo uma delícia, e chamava-se
catillus ornatus. Não sei se gostareis. Era um prato dileto de Pompeu.
Poderemos
depois findar, se quiserdes, pela famosa empada de rosas. Era um acepipe
muito usado em todas as festas do culto de Vênus. Para o realizar, descei
ao jardim, colhei as rosas mais largas e as mais cheirosas. Pisai-as no
almofariz. Ajuntai miolos de galinha, de pombo e de perdiz, muito bem
cozidos, e depois de os terdes desembaraçado das mais pequeninas fibras.
Acrescentai ainda duas gemas de ovos, um fio de azeite puro, pimenta, e
vinho velho, de Malvasia. Depois de ter bem mexido tudo, até conseguir uma
massa leve e fina, deitai numa caçarola nova de barro, e colocai sobre um
fogo lento e contínuo. Logo que a superfície se aloure, servi. Por toda a
sala se espalhará um aroma de rosa – e a vossa alma bendirá Ap¡cio Celio,
criador desta maravilha.
E
já que tivemos rosas em empada, por que não beberíamos o famoso vinho
rosado? As receitas para o fazer diferem – mas a mais simples e rápida é a
de Pausânias. Desfolhai um ramo de rosas, guardai-as durante um dia, e
deitai-as dentro de dois ou três litros de vinho velho (de Bordéus, hoje).
Ao fim de três ou quatro semanas, juntai um arretel de mel. E se pensais
que o gosto e o saber de Heliogabalo podem ser seguidos com confiança,
acrescentai ao vinho, horas antes de o beberdes, um punhado de pinhões
esmagados, como fazia esse esplêndido e imperial estróina.
Aí
está, pois, um muito fácil e acessível jantar greco-latino. Para o
saborearem, condignamente, e com proveito crítico, os convivas deverão
estar reclinados num triclínio, e coroados de flores."
(Eça de Queiroz, Notas Contemporâneas, 1893)
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