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– Alô! O Beto taí? – O sinhô esperaí que eu vou chamá. Era sábado. Meio da tarde. O sol tomava conta do céu azul. As nuvens haviam saído para um pequeno passeio. O Beto tinha me ligado a semana toda, passado correios eletrônicos com avisos, não se esqueça do nosso compromisso de sábado. Combinamos de tomar um chopinho no fim de tarde. Ele estava precisando desabafar, soltar as amarras, despejar a cólera de sua recém-separação com a Zilda, um casamento de 25 anos, três filhos, quase avô, com alguém próximo a ele. Sobrei-me, sobrou-me. Então, pelo código de honra masculino, tratei de ligar ao velho amigo, de quem fui padrinho de casamento, para combinar o já combinado chopinho. O que fazer, acho que se sentia navio sem porto. Esperava a nova empregada do Beto localizá-lo e a ouvia dizer, sô Beto é telefone. – Alô! – Beto? – Não, querida, acho que não. – E por que não? – Beto, é você? – Porque estou fazendo uma pesquisa. Lendo livros aqui, ali, consultando na Internet, procurando em revistas. – Beto, o que tá acontecendo? – E como você teve essa idéia? Santo Deus! Depilação masculina. Se bem que nos dias de hoje os homens estão mais vaidosos que nós, até que deve ser legal um homem sem pêlos. Axilas, peitos, costas, virilhas, pernas... hummmm... – Depilação?! Caramba, Beto, que brincadeira é essa? – Não, minha filha, já te expliquei muitas vezes, os tomates, para um bom molho são os rasteiros. Daqueles que seu pai plantava no sítio ali em Tamarana. A confusão era de linhas trançadas. As mulheres depilavam todos os homens do planeta, eu mesmo já estava me sentindo um verdadeiro despelado, e riam, como riam. Depois apareceu uma senhora falando de tomates com a filha e nada do Beto responder meus chamados. O primeiro impulso foi de desligar o telefone. Depois veio a sensação de que o Beto, velho amigo, poderia ter uma pequena queda depressiva; afinal, passou a semana toda me lembrando para não esquecer do chopinho no final da tarde de sábado. – Ca, é você? – Oi, Beto. Puxa! Até que enfim! – Ai, Cecília, só vi fotos de homens depilados. Eram linnnnndoooos. Depois pedi pro Pedro depilar. Ainda hoje acho que foi por isso que terminamos o namoro. Ele dizia que era coisa de viado e eu fantasiava mais ainda. – Que isso, Ca? Que negócio é esse de depilação de macho? – E o Pedro se depilou? – Aqueles tomates que parecem uma pêra magrela, mãe? A gente comia com açúcar, né? – Isto, Beto, é a tecnologia. São as linhas trançando o ouvido. As depiladas não nos ouvem. Receitas nas linhas do ouvido. A mãe e a filha também não. Somos homens com um pequeno privilégio. Linhas cruzando segredos de mulheres. Ríamos. A Cecília e a ex-namorada do Pedro também riam. A mãe ensinava a filha como escolher os tomates para o molho. Linhas cruzadas. Nenhuma das mulheres podia nos ouvir. O que os olhos não vêem, o coração não sente. Íamos adiante em nossa escuta velada. As tranças do telefone. As tranças dos cabelos. Depilações e tomates. – Uau, Cecília! Você vai entrevistar homens que se depilam? Ai, amiga, quero ir junto com você. Vou de assistente. – Eu te aviso e te levo. Já tenho os telefones deles comigo. – Beto, isso é demais. A curiosidade masculina em conversas femininas. É como aquela coisa de mulher levar mulher para o banheiro em jantar, bailes. Ou se reunirem em chás. – Nem me diga, Ca. Acho que é disso que preciso. – O quê? Levar uma mulher ao banheiro? – Não, claro que não. Dessa conversa mole de Marias. – Mas tem a velha dos tomates. Essa outra ensinando a filha a escolher tomates, vamos escutar aí, ó. – Bom, filha, você entendeu que os tomates são aqueles rasteiros. São fáceis de encontrar. Na feira ou em sacolões. – Entendi, mãe. Aqui em Curitiba tem feira e sacolão. Eu encontro. É que a mãe do Leonardo chega da Itália essa semana e preciso fazer aquela macarronada que você fazia no sítio em Tamarana, aos domingos. A vó dizia que era uma macarronada italiana. Se você pudesse vir pra cá, mãe. Londrina não é tão longe de Curitiba, afinal. – É. Mas não posso. E não quero me encontrar com a mãe do seu marido. Lembra-se de como foi o último encontro? Então. A receita te dou. Não se esqueça: tomates rasteiros, vermelhos e bem maduros.
Macarronada
Primeiro coloque os tomates, cerca de uns 8, em uma panela. Sobre eles despeje água fresca, mas sem cobri-los totalmente, senão ficará aguado. Cozinhe-os até desmancharem por completo. Mexa de vez em quando. Isso pode levar cerca de 1 hora e mais um pouco. Passe os tomates cozidos por um espremedor de legumes, um passa tutto, ou bata no liquidificador. Se bater no liquidificador, peneire. Descarte as sementes e as cascas; use somente as polpas. Pronto, a base de tomates é esta. Despeje de 3 a 4 colheres de azeite de oliva em uma panela já aquecida. Quente o azeite, debruce pouco menos de 1 cebola cortada em pedacinhos miúdos e mexa até que doure. Entre com cerca de ½ cálice de vinho tinto seco e espere o álcool evaporar. Depois agregue a massa de tomate, cerca de 2 a 3 colheres. Mexa bem e deixe a mistura fritar por uns 2 a 3 minutos. Agora despeje a base de tomates. Mexa novamente. Tempere com sal a gosto, manjericão a gosto e deixe ferver até incorporar e engrossar bem o molho em fogo brando. É só isso. Nada de mais nada de nada. Cozinhe o macarrão no ponto al dente, coloque-o sobre uma travessa funda, despeje o molho por cima, agregue bem. Exagere no parmesão ralado. Um vinho tinto seco para acompanhar. Use garfo e colher para comer a macarronada. Devore o molho que sobrar no prato passando, sem medo de ser feliz, pedaços de pão até o prato ficar limpo. Ah, tenha água fresca para beber ao lado do vinho e suco de groselha para a garotada.
A Cecília e a amiga foram em busca de homens
depilados. A mãe fez enes recomendações para a filha, sempre lembrando dos
detalhes da receita. A filha lembrava que comia os tomates rasteiros no
sítio em Tamarana, antigo distrito de Londrina, em panelinhas de plástico
que temperava com açúcar. Eu e o Beto trocamos o chopinho da tarde por uma
macarronada no La Gôndola. Da próxima vez conto como aprendi a fazer
pescada perna de moça no sal grosso. |
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Carlos Alberto Francovig Filho |