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O tempo é assim como aquele dos obreros da reforma da praça da estação em
Sant Cugat. Um tempo muito bem trabalhado, digamos assim. A cada dia – e
não foram poucos, capaz de ainda não terem terminado, como se diz em Minas
– um tempinho muito bem construído na arte de fechar as ruas pras pessoas
não passarem, cada dia fecha um lado e abre outro, a cada manhã você,
passante habitual das ruas ali perto e da praça da estação, tendo que se
desviar, atalhar, escolher um outro caminho pra chegar até o trem, muito
possivelmente indo pro trabalho que é longe, precisa tomar trem,
transporte de gente, infelizmente pouco conceituado no Brasil atual. Pois:
a cada dia a rua fechada de um lado, umas grades de metro, ou apenas
pequenas fitas de plástico sem dizer mas dizendo que ali não pode passar,
às vezes já criando um funil por onde você passar, sem ter o trabalho de
escolher, esquentar a cabeça... Bom era que você aprendia aquele caminho,
mas isso não valia pra nada porque no dia seguinte já não podia passar por
ali, nem tinha mais o funil, era outro, outra trilha por onde se ir, às
vezes nem trilha tinha, você que criasse uma. Nunca se viu, ou ouviu,
nesses vários meses, alguém falar "por ali", "por aqui", "por aí não
pode"... não precisava dizer e às vezes não tinha quem estivesse ali pra
dizer, se houvesse a necessidade. Simplesmente se via que por onde se
passara ontem, hoje não dava mais... Os obreros da obra da reforma da
praça da estação de Sant Cugat, como dizem dos mineiros, trabalham em
silêncio. Eu – e muita gente – tive oportunidade de ver como eles faziam
com esse tempo deles, sentado nas mesinhas do bar
Catalunya, tomando ou
tomado um café con leche, esquentando o corpo pra pegar o trem,
mais das vezes pra procurar piso pra alugar, muitas vezes dia inteiro pra
lá e pra cá, quando achava alguma coisa dentro do orçamento, nunca vi
tanta exigência, as imobiliárias pareciam nada ter a ver com Amélia... que
se há de fazer... e voltar pra casa de noite, correndo pra ver se o
condis inda tava aberto, supermercadinho que abre-e-fecha em horários
improváveis tá ali... e quando chegava de volta, algo cansado, algo
desanimado de mais um dia, algo tranqüilo porque afinal tinha um lugar,
algo intranqüilo porque achava que já tava abusando da disponibilidade do
amigo hospedeiro, algo gostando pouco de mim, culpas por não ter saído
mais cedo, não ter olhado melhor, não ter telefonado "pr'aquele" número,
quem sabe não era tão grande, nem tão caro como parecia no anúncio...
chegava a esquecer do tempo dos obreros das obras da reforma da praça da
estação de Sant Cugat de Vallès... Mas bastava descer do trem, correr pra
descer os poucos degraus das escadas da estação, ganhar a rua,
quase-correndo... por que essa pressa gente?! Porque se corre quando tá
chegando o metrô, quando tá descendo do trem, quando é hora de pegar o
avião, povo entrando correndo na pista, assentos numerados nas mãos?...
Eu, hein!... E aí quando você desce percebe o que "eles" fizeram com o
tempo durante sua ausência, parecia de propósito, mudaram todos os
caminhos, as trilhas, as sendas, tem quem escreva porque dizer sendas
nunca vi, a não ser Casas Sendas, mas aí é outra coisa. Teve
dia, parece
mentira, de o orelhão – que nem orelha parece, veja só! – estar cercado de
tela de arame! Dia não, foram muitos!... E ninguém dizia nada, pelo menos
não ouvi, porque quem sabe do tempo são os obreros, parecendo com Funes o
Memorioso, não sei por que lembra ele, acho que era a me-ti-cu-lo-si-da-de
de assentar uma pedra retangular, com vários calços como se fossem
pegadores de roupa, uma batidinha aqui, uma batidinha ali, se afastavam um
pouquinho pra deixar passar uns tratorzinhos estreitos que tem por ali,
umas caçambinhas, Coisa Linda ia gostar de brincar naqueles carrinhos,
parecem de brinquedo mas carregam muita terra, pedra, muito peso, e tiram
cada fininho!... Mas pra nós mesmos eles não olhavam, acocorados e
prestando muita atenção no assente das pedras retangulares, em outras
partes uns pequenos paralelos quadrados, metade dos que costumava ver
quando o prefeito resolveu calçar Alagoinhas toda, pessoal dizendo que ele
mesmo comprava o paralelo na pedreira a dois e quinhentos e revendendo ele
mesmo à prefeitura por 15!... Quem agüenta a boca do povo?!... A água
lava, lava, lava tudo, a água só não lava a língua dessa gente... Nem o
tempo lá em Sant Cugat acho que a água também não lavaria não, embora
tenha chovido e não foi pouco mas nem... era tam!, e tam!, e tam!, um
esteio enfiado na terra e não se podia passar e acabou!... Jeito era dar a
volta e ficar se perguntando em casa, será amanhã por onde?... E eles
sempre inventavam lugares novos, difíceis de se pensar de véspera... E de
noite, se você olhava direito, tava tudo muito arrumadinho, limpinho, os
montinhos de terra, de pedras, cimento, lona amarela por cima, nem
parecia... E no outro dia, começava, como se não tivesse acontecido nada,
a gente não tivesse se desviado, o telefone cercado, você sem poder falar,
coisa mais triste, mas também dando o que pensar...
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