– Sabe, vó?

– Hm.

– A gente pode vender a alma, se quiser.

– Mesmo? E como é?

– Só escrever num papelzinho, ‘vendida’. E daí entrega pra pessoa que comprou.

– E como a gente fica sem a alma?

– Fica sem bafo.

– ...

– Sem bafo, sabe, vó?

– Não. não sei.

– É a alma que faz o bafo. Se você vende a alma, fica sem bafo.

– Só isso? Vou vender a minha.

– Não, vó. Tem outra coisa. Se você vende a alma, a porta automática não abre pra você passar.

– ?

– A alma é que faz a porta automática abrir, vó! Se você vender a sua, vai ter que ficar esperando alguém passar pra entrar atrás.

– Tudo bem, não vou em shopping, mesmo...

– (enrolando uma mecha do cabelo)

– (digitando)

– Sabe, vó?

– Hm.

– A Diana, na verdade, não ama nenhum dos dois.

– Que Diana?

– A Diana, vó. aquela, sabe?

– Sei, não.

– Hm.

– (digitando)

– Já viu que tenho um dente mais gordo que o outro? Olha aqui. este aqui, vó! Olha!!!

– E não é que é mais gordo, mesmo?

– Hm.

– Hm.

– (enrolando o cabelo)

– (digitando)

– Sabe, vó?

– Hm.

– Se a gente ficar muito tempo em pé o sangue desce pra perna e sai todinho pelo pé.

– Quem te disse isso, menina?!?!?

– Ninguém, mas eu sei. um dia fiquei muito de pé e a perna começou a esquentar, esquentar...

– Hm.

– (enrolando o cabelo)

– (digitando)

– (enrolando o cabelo)

– Se o seu santo é forte, reza aí pra eu terminar este trabalho logo.
– Meu santo é forte, vó. Ele faz academia.

– (digitando e enrolando o cabelo)

– Sabe por que o japonês escreve tudo ao contrário, vó?

– Hm.

– Porque ele escreve com esta mão (a direita enrolando cabelo, a esquerda espalmada pra mim)

– Teu avô escreve também com essa mão e não escreve ao contrário.

– Mas é porque ele não é japonês, vó.

– Hm. Procede. (enrolando o cabelo)

– (enrolando o cabelo, com o dedão na boca)

– (digitando)

– (suspiro) Sabe, vó?

– Hm.

– ...

– Hm!

– ....

– (desligando o micro)

– (enrolando o cabelo, dedão na boca, babando na almofada)
 
 

 
     
 

 
       
       
   

– Sabe, vó?

– Hm

– Eu tenho um amigo hoRlandês.

– É? E ele mora onde?

– Na Horlanda, vó.

– E como é que você conheceu ele?

– Minha mãe conheceu na internet. A gente conversa todo dia.

– Ele fala português?

– Não, vó. Ele mora na Horlanda, só fala horlandês.

– E como é que vocês conversam?

– É que não é conversar falado, é conversar escrito. E letra é igual em todo lugar. Só no japão que é diferente.

– Ah! Procede.

– ...

– ...

– Sabe, vó?

– Hm

– Sabe o Lucas, vó?

– Não sei o Lucas. Não conheço.

– Conhece, vó. Lembra um menino de rosto redondo, com olhinho azul e com um sorrisinho na cara?

– ?

– Um que tem um sorrisinho na cara, com o canto da boca bem assim, olha, vó (sorrisinho-na-cara-com-o-canto-da-boca-bem-assim).

– Ah, claro! Agora lembrei. o que tem o Lucas?

– Nada, vó. Só pra saber se você conhecia ele.

– ...

– Sabe a igreja perto da casa de tio Marquinho, vó?

– Espera um pouquinho, que a Maria Clara agora vai descobrir tudo da tramóia dessa bandida. Novela boa, né?

– Só uma coisinha, vó. Sabe a igreja, sabe?

– Sei. É a igreja da Freguesia do Ó.

– Linda, né, vó?

– Linda, sim. Muito linda.

– Mas sabia que aquela igreja só tem o corpo? A alma dela tá lá na igreja de Laranjal...

– !!!

– (olhando pra Maria Clara, enrolando uma mecha do cabelo)

– Luíza? (olhando pra ela, de queixo caído)

– Péra, vó. Tô vendo a Maria Clara. Traz mais um prato de capelete pra mim?
 
 

 
     
 

 
       
       
   

– Sabe, vó?

– Hm.

– Eu tinha um passarinho...

– Hm.

– O nome dele era Cristal. E daí ele morreu e minha mãe colocou numa caixinha e a gente enterrou no quintal.

– Hm. Acontece.

– Depois, sabe, vó?

– Sei, não. Conta.

– No outro dia apareceu um pardal morto. Minha mãe pegou ele e jogou no lixo...

– !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
 

Esta conversa (que aconteceu quando a bandida nem tinha quatro anos completos) me deixou sem dormir por vários dias. Contei pra meu filho, pai dela, e ele transformou o causo em música, que se chama ‘Sabe, vó?’. Um dia ouvi ele cantando isso num boteco do Bixiga – haja alma de pardal!
 
 

 
       

 

     


 

 

Teresa Melo
São-paulina, tieteense, educomunicadora. Mezzo italiana, mezzo caipira. Mãe de dois, avó de uma. Sem perfume, nenhuma grife. Truco, MPB, naïf. Levaria o Henfil pra uma ilha deserta. Como assim, morreu? Então, iria sozinha mesmo.