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“Vejo a morte como algo tão natural que, sempre antes de deitar para
dormir, despeço-me de meu corpo, pois posso não acordar com ele...”
Você tem a capacidade de produzir Milagres quando, frente a um problema, não declina o aprofundamento do debate a respeito dele, mas enfrenta o problema, produzindo adrenalina o necessário para se fazer forte, útil e produtivo, e, o que parecia uma montanha a ser conquistada revela-se uma solução imediata a curto prazo, e então você, com reservas de caráter, guerreiro e lúcido, parte pra cima do problema, enfrenta-o de frente, vence-o e assim, também, além de vitorioso fica mais forte, adquire técnica de refinamento e caráter. Você tem a capacidade de produzir Milagres quando aquela perda que podia derrubar você, atropelar você, abalar você – aquela dor que você jamais poderia imaginar que suportaria (o mesmo Deus que dá o cobertor depois do frio dá a endorfina e não a dor) – você suporta, verga, sofre, range, dá seu ferido ombro amigo até para o mais fraco do que você, mas depois, dá a volta por cima, surpreende-se e é surpreendido (por aqueles que diziam que você iria desabar) porque o seu espírito tem a resistência do mais puro aço, e a alma tem a firmeza de uma rocha, na graça de Deus. Você tem a capacidade de produzir Milagres quando, olhando para trás vê que era pobre, que os seus familiares eram fracos, mas você mudou você para mudar os outros, estudou muito, trabalhou muito, poupou e mudou as pessoas adjacentes também, hoje, árvores crescidas, impolutas, dando frutos que começaram com a sementinha de seu empenho, sua natureza de luta, seu estado evolutivo de abrir caminhos e enfrentar atribulações mas não esmorecer nunca, vencer para ser, e, sendo, distribuir amor e agrados. Você tem a capacidade de produzir Milagres quando seus amigos ficaram rangendo os dentes pelos descaminhos da vida, muitos até, sem você querer ou pensar muito a respeito, precisaram de você, vieram até você querendo a guarida de sua proteção, e você nunca tocou no assunto de que eles, aqui e ali, circunstancialmente ou não, magoaram você, humilharam você. Quem agride nem sempre lembra. Mas você usou isso como escada, como combustível, e atendeu sem cobrar nada. Você tem um coração de puro... Você tem a capacidade de produzir milagres quando vai ao lugar onde viveu pobre e humilde, e pode manter a cabeça erguida, respeitosamente, sem se envergonhar do que fez para ser o que é, tendo as mãos limpas, o coração aberto, pois você lutou muito para vencer na vida, e Deus lhe deu bem mais do que você precisa, e você ainda reparte isso com os amigos e parentes necessitados. Então você olha pra trás e tem orgulho de ter sido testado. Você passou no teste. Você é um vencedor. Você tem a capacidade de produzir Milagres quando olha seus bens e vê que nada é ouro, mas há muita cultura, livros, diplomas, artes, e nem mesmo um carro ou uma casa dão vaidade a você, mas ainda sonha, sim, você ainda corre em busca do sonho impossível. Não é fácil. Você sabe que não é. Mas você não desiste. Você é forte. Você é determinado. Você ainda vai ser lembrado por ser um guerreiro. Você tem a capacidade de produzir Milagres quando alguém pergunta se você está rico, e você naturalmente responde que está digno. Porque você está. Ninguém fica muito rico impunemente, você acredita num humanismo de resultados, dedicou quase toda sua vida a ajudar, passou décadas lendo e estudando, e ainda adora crianças... porque são puras. E adora velhos... porque são sábios. Sua geração não compreendeu você inteiramente. Mas você prossegue vivendo intensamente. Você tem a capacidade de produzir Milagres quando lembra que foi desenganado pelos médicos seis vezes. Esteve para morrer, quando muito pequenino ainda, mas você sobreviveu, você subsistiu, pois você ouviu de sua mãe que, por tantos problemas de saúde que teve, deu dez vezes mais trabalho do que todos os seus irmãos juntos, mas, também, sobrevivente deu cem vezes mais alegrias do que eles. Você tem a capacidade de produzir Milagres quando repara que em terra de analfabetos é professor, em terra em que não valoram a cultura é escritor, e então você, dando murro em ponta de faca, remando contra a maré ou remando a seco, você prossegue atrás do seu ideal: ser lido. E você é lido. E premiado. E choram, surpresos, pelo que você escreve. Como pode ser isso? Você fez limonadas de lágrimas... Você tem a capacidade de produzir Milagres quando, olhando para trás de sua vida (que você fez de seu jeito) você vê riquezas, conquistas, maravilhas, olha para o futuro e ainda o vê ainda mais azul da cor do céu. Sim, você terá um lugar no futuro, pelo que fez de você, você ainda fez muito bonito, depois de tudo o que a vida fez de você. O ser e as suas circunstâncias... Você tem a capacidade de produzir Milagres quando, sabendo dos desertos que tem que atravessar, prepara lastros, técnicas de vôos, iluminuras, surpresas; você tem cartas nas mangas – não mostra tudo o que escreve todo santo dia – porque, quer mesmo – está escrito – Maktub – que surpreenderá o mundo por escrever sobre coisas que ninguém jamais pensou que um dia um ser humano poderia escrever. Você sabe do que está dizendo. Você sabe o que está criando. Você sabe. O século trinta clamará seus criares. Você é teimoso como uma estrela de Davi. Você tem a capacidade de produzir Milagres quando, feito um boêmio-rex (espécie em extinção? – não atirem amendoim, só cervejas), você dá testemunho de seu tempo, antena da época (citando Rimbaud), porque sabe que muitos são chamados e poucos escolhidos (há olhos de enxergar e olhos de ver) e sabe que também será cobrado muito, então você prepara acervo, luz, ninhal, encantário e embasamento literário para acessar o arquivo espiritual da luz. Você tem a capacidade de produzir Milagres quando, depois do que fez, dentro do que faz, tem a consciência tranqüila, está preparado para morrer a qualquer tempo e por qualquer motivo. Veio ao mundo como um acidente, aqui foi largado como um E.T. e foi rejeitado pela sociedade, mas você fugiu nas leituras... Benditos sejam os livros! E se libertou na criação obssessiva. Como se pedisse socorro (na casa do pai há outras moradas) nos poemas, você vacilou mas não caiu, entregou a alma a Deus e enfrentou mundos e fungos, mas você é ruim de morrer agora, você ficou casca grossa, você ficou osso duro de roer, mas sabe que a morte virá como um ladrão de noite, e está preparando testemunho de sua estadia aqui, para quando ascender, antes da evacuação final, dizer que a vida na terra foi um inferno, mas você cantou o amor e a libertação em verso e prosa. Houve fogo, e você leu nas entrelinhas do fogo. Você sabe que seu reino não é desse mundo, então você está pacote pronto, produziu kit essencial, para quando chegar a hora, você pagar a duplicata do castigo de existir, e virar andorinhas sem breque...
Você tem a capacidade de produzir Milagres quando... aqui e agora, sem
remorso, sem ressentimentos (Deus só dá inimigo para quem quer provar a
perseverança) está pronto para partir, e sabe que a hora de voar não é a
hora de se preparar para o vôo. Você enxerga longe. Você será bem
pranteado e, muitos anos depois que houver saído desse estágio-dimensão,
ainda será estudado, para muitos será incompreensível, enquanto para
tantos terá sido um elixir de luz, porque, você sabe, o amor é o melhor
remédio... |
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No antigo carro velho e mal-acabado, bem merreca, cor de burro quando foge, queimando óleo diesel, observei o adesivo encardido dizendo: Leia Kardec. Pensei alto e bem melhor: Leia Jesus. To certo ou tô errado? Depois, num Ford Ká vermelho como pimenta-camari, eu li de soslaio: Consulte Sempre Um Advogado. Pensei, retrucando mentalmente: Consulte Sempre Seu Coração. Consulte Sempre Sua Mãe. Das duas uma. Carros com muitos adesivos colados, com um monte de tranqueirada aqui e ali, “informam” que tem baby ou teen na família. Ou o dono é brega mesmo. Cafona. Ainda usam essa palavra? Já vi também: Cuidado, Bebê a Bordo. E, pior: Cuidado: Bêbado a Bordo. Essa é de lascar. Já vi de tudo. Até bolei, claro, coisas minhas. Mas já li ainda: Ame um Gordo. Contém Mais Zona de Afeto. (Nem preciso dizer que, além de algo calvo, estou algo obeso.) Num caminhão de feira cheio de frutas, li o adesivo: Dirigido Por Mim, Guiado Por Deus. Mas também já li: Se Me Vir Abraçado Com Mulher Feia, Aparte Que é Briga. Nesses tempos bicudos do padre Marcelo Rossi batizando o Gugu no Rio Jordão (devia ser no Mar Morto?) tem muito veículo normalmente de mulher beata ortodoxa com o adesivo: Tenho Orgulho de ser Católico. Mas também já vi: Tenho Orgulho de Ser Cristão. Ou: tenho orgulho de ser GLS... Sim, porque o Cristianismo (pra mim uma filosofia) veio antes da Igreja de São Paulo dos Apóstolos. É o berço-matrix-ninhal. Vale o estudo bíblico, não é nem uma questão de hermenêutica teosófica, filologismo ou história medieval. Aliás, contrariando o adágio popular bocó, Política, Mulher, Futebol e Religião se discutem sim. E quem puder que banque o conhecimento. Quem pode mais chora menos. E quem quiser que volte a estudar tudo de tudo, muito de muito, para saber um tiquinho de um milésimo por cento de quase nadica de nada. Somos todos eternos aprendizes, nenhuma verdade é cientificamente comprovada, só Deus é o Numero Um. E Gandhi dizia que todas as religiões são imperfeitas, porque foram inventadas pelo homem. Falou e disse. Fanatismo é outra coisa. Loquacidade e dialética não provam um caso concreto. Eu sou do tempo em que se ia ao Rio de Janeiro até para assistir um Fla-Flu entre o Vasco e o Botafogo. Valia era a viagem com qualquer desculpa que pintasse na ocasião. Mas há os sarristas e seus disparates hilários. Carro rico: Rastreado por Satélite. Carro de bicheiro: Rastreado por Autoridade Corrupta. Carro de traficante: Rastreado pelo Fernandinho Beira-Mar. Carro de sujeito metido a galã de meia-tigela, um Antônio Fagundes qualquer depois da dengue: Rastreado Por Fofoqueiras. E vai por aí o trololó. Aliás, carro de pobre é rastreado por uma indústria de multas e vazamento de óleo cru. Mas também já li, num fordeco bigode de um tipo metido a desbocado: Rastreado por Biscates. Imaginem só. Li também, e não acreditei: Sou Professor. Não me assalte. Se tivesse espaço eu colocaria embaixo: Vá assaltar quem rouba mas diz que faz, vá roubar quem é corrupto e ladrão. Aí seria pegar pesado? Vão sacando. Já vi também: Deus é Fiel. Claro. E da Gaviões da Fiel. Muitos carros de novos crentes têm: Propriedade de Deus. E, sem querer fazer chiste ou escrever baixaria, mas já li também: Aprenda a Emagrecer Fazendo Sexo. Tem de tudo. Pra todos os gostos. Ou muito me engano, ou muitos me enganam. Andei vendo aqui em Sampa, uns adesivos assim: Eu Não Votei Em Nenhum Fernando. Ou: Tucano Nunca Mais! Um amigo meu jura que viu um assim: Visite O Rio de Janeiro, Antes Que o Garotinho Volte. Piada. Também li poucas e boas, tipo: O Homem-bomba Nunca Terá a Segunda Chance. Já bolei das minhas. Sou bom nisso. Como Itararé é bonita, tem muito verde, ar puro, saquem só: It(Ar)(Ar)é. Pegaram o insight? Claro que, em terra de cego, Garotinho é secretário de Segurança Pública, mas, no frigir dos ovos, todo omelete é colesterol puro. Hoje ando meio eclético. Deve ser essa chuvinha fiada. Depois da tempestade vem a leptospirose? Vi-me fechado em ensaios e revisitanças, daí dei-me a escrever essas abobrinhas quase picles etílicos. Mas leio de tudo. De bula de purgante a olhos com vermelhidão. De entrelinhas a mundos e fungos. De gibi a Bíblia. De Platão a Seleções. De jornal a entrevistados nos talk-shows, nos movimentos consentidos, tácitos, implícitos, gestos impugnáveis, desdizeres e coisas assim. Apreendências... Algumas amigas dizem que sou mago. Outra acho que sou louco. Tem até quem ache que sou bruxo. Um amigo diz que sou médium. Tento ser inteiro. Vai por aí a cantilena das carentes, bondosas, sensíveis e que pegam amizade facilmente. E, claro, leio placas de picapes e caminhões. E placas de beiras de estradas. E de anúncios. Propagandas enganosas saco fácil. E me divirto. Tudo é conhecimento, quase filosofia pop. Dá pra ver a cara do dono do carro, pelo tipo do carro. De santinhos a patuás. De cruzes a adesivos. E, falando sério, quem ri por último não entendeu a piada. Pior: no vestibular da vida, os primeiros serão os únicos. O último a sair sempre paga a conta, não é assim que funciona sempre? Afinal, o preço da boemia é a eterna indisposição fisiológica. Tô indo. À bença, mãe. Guarde pudim de ameixa e manjar de baunilha pra mim que nesse Natal eu volto com tudo. Quem estava com a corda toda era o Tiradentes. Quem não deve não tem. De divagar se vai a deriva. Rir é o que vale. O mau humor faz mal pra vida. Nesse pique de violência, no Rio tal qual em Sampa, logo estaremos usando faixas à prova de bala no peito dizendo: Não Atire em Mim. Sou Ser Humano. Acredite se quiser. Então, mais do que nunca, teremos que pelo menos parecer com um humanus, quando a hora agá pintar na zona de agrião do perigo emergencial. Humanus sem adesivo, claro. E sem tatuagens que identifiquem concorrências e deslealdades. Descobriram vida em Marte? Sim, porque na Terra, nadica de nada. Ave Césio. Até porque o marginal pode ser analfabeto e não saber ler. E a pior ignorância é saber ler e não ler.
(Texto da série Eram os deuses corinthianos?) |
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Silas Corrêa Leite |