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Entrego minha simplória existência em suas competentes mãos. Sobre minha cabeça recai o maior dos males que um homem poderia receber em vida: sou traído! Um corno! Desculpe o tom virulento destas últimas palavras, doutora Miraglia, mas quando penso no meu infortúnio (e penso durante as vinte e quatro horas de nosso dia, todos os dias, ao longo de desgraçados meses), meu sangue pulsa, ferve e me inspira a atos pouco recomendáveis para a nossa sociedade. Preciso realmente de sua ajuda, antes que eu cometa um ato de loucura. Nunca faltei aos compromissos do lar. Dinheiro honesto com o meu trabalho de funcionário público (sou um arquivista exemplar), geladeira abastecida, mimos para a patroa, e posso garantir-lhe (afinal, o que mais me envaidece) que nunca neguei fogo! No duro! Sempre atendi de pronto os desejos daquela ingrata! A cínica, que antes só me chamava com sua voz de seda pura de “vida”, “vidinha”, “meu fofo” (ainda posso ouvir seus sussurros em meus ouvidos), agora, me trai. Cidinha nunca foi mulher atirada. Sempre de modos recatados, foi protegida no nosso fausto lar, durante vinte anos de uma sólida união abençoada pela Santa Madre Igreja e todas as sogras. É certo que fui homem de algumas tórridas escapulidas, um afair aqui e acolá, com as moças da repartição. Nada que comprometesse nossa ordenada vida conjugal, ou que pudesse ser contabilizado para além dos dedos de uma única mão. Bom, talvez precisasse utilizar alguns dedos da outra... Vinte anos, em vinte anos! Sempre fui homem muito discreto, em algumas épocas, entretanto, Cidinha parecia me olhar com um certo ar de reprovação e desgosto, sentia como se um pesado martelo estivesse apontado sobre minha cabeça, mas logo aquela doce voz avisava, deixando distante meus temores: “Vidinha, o jantar está na mesa”. Ah, todos os espaços de nosso lar eram ocupados por esta cotidiana canção! Porém, esta mesma mulher, de poucas palavras e vaidade, nos últimos tempos passou a revelar estranho comportamento. Veja, doutora, nada tenho contra a modernidade, o avanço das mulheres, suas conquistas... mas convenhamos, minha Cidinha, logo a minha Cidinha! Não! Nenhum discurso feminista poderia ter mudado tanto a minha Cidinha. Algo de novo se apoderou do seu terno olhar. Passou a carregar no canto da boca uma ponta de estranho sorriso. Cores! Uma profusão de cores tomou conta de suas vestes, todas decotadas! Aquela desavergonhada... não sei... parece sempre rir às minhas costas. Já não ouço o aviso que antes me convidava para o jantar. Uma voz apressada, segundos antes de um bater de porta, passou a sugerir que eu desse um jeitinho com os restos do fim de semana, ou que eu fizesse um sanduíche que, convenhamos, é muito pouco para após um longo dia de trabalho. Não existe mais respeito por um chefe de família. O mundo realmente está perdido, minha Cidinha se perdeu, e eu, eu tornei-me um corno. A senhora, douta em muitos conhecimentos, deve estar pensando que tudo isto não passa de fantasia de um senhor de vida monótona. Que as misteriosas saídas noturnas de Cidinha nada significam. Não, doutora! Ainda não contei o que me levou a tão terrível descoberta, logo a senhora me dará razão. – Os tapinhas, os malditos tapinhas! Recebo tapinhas nas costas de praticamente toda a vizinhança masculina do bairro. Tapinhas nas costas, doutora! Ora, todo homem sabe que só homem traído recebe esse tipo de cumprimento. E ainda ouço, acompanhando os tais tapinhas, as mesmas frases, dia após dia: “Sua esposa, dr. Geraldo, como vai?” “A dona Cidinha está boa?” Compreende agora a inquietude de minha alma? G. C. M.
OBS: Doutora Alba Miráglia foi despedida da redação do jornal antes que a
carta do senhor Geraldo chegasse às suas mãos. |
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