Ainda falando sobre os meus atendimentos telefônicos, para o bendito adiantamento do 13º salário dos servidores municipais do Rio de Janeiro, deparei-me com uma situação inusitada: a servidora, do outro lado do aparelho, não conseguia emitir os fonemas, cujos sons fossem “ca”, “co”, “cu”. O “ce” e o “ci”, que são ouvidos como “s”, saíam facilmente. Então, nas palavras que tinham aqueles fonemas, escutava-se apenas o som da vogal que acompanhava o “c”.

Assim, quando ela falou que era “olega” servidora, estranhei um pouco. Mas logo percebi o problema, quando ela pediu para ver “omo” estava o andamento do seu processo. Como aqui nada temos a ver com sabão em pó, deu pra entender bem a situação.

Até aí, tudo bem, o que é que tinha de mais a mulher ter uma deficiência dessas e trabalhar na Prefeitura? Acontece que eu fui verificar o processo e quase caí para trás, ao ler que a “olega” era professora do Ensino Fundamental, em escola municipal.

Imediatamente a imaginei explicando aos seus alunos que “quem desobriu a Améria foi Istóvão Olombo. Ou, mais por aqui, quem “desobriu o Brasil foi Abral”.

Claro que também vislumbrei a dificuldade da professora de pedir uma “oa ola” na lanchonete.

Já estava até ouvindo: “Ianças, abram seus adernos na página atorze, e respondam à aneta, não serve lápis de or”.

Ou então: “Amila, peça para a Arolina onferir os exercícios de asa”.
Se as crianças não aprenderem nada, pelo menos vão se divertir um bocado.

Fico aqui pensando, uma criança de seus oito anos, aprendendo com essa professora a respeito dos animais: “vaa, achorro, avalo, oelho, oruja, aranguejo, obra, amaleão, anário belga, amêlo, oodilo, olibri”...

Ou os meios de transporte: “aminhão, arro, aminhonete, arroça”...

No entanto, o mais interessante devem ser as instruções:

“Ianças, não esqueçam de fazer o dever de asa, no aderno de álculo! Tragam, na segunda, o aderno de português, o de desenho e a aixa de lápis de or. Boa Pássoa! E uidado om a essada, ao descer para o reeio”.

Bem, de volta à realidade, quando terminei de ver o processo, e fui contar o que encontrei, acabei por me trair, ao dizer que “não ompete a mim adastrar seus dados atuais, uma vez que a senhora deu entrada por doença ônica, não por endividamento, e que o laudo médio indiando a doença seria suficiente, sem necessidade de aescentar as ontas banárias”.

Depois do término desse adiantamento do 13º salário, vou precisar de um spa (é spa mesmo...)
 
 

 
       

 

     


 

 

Lilian Maial
Médica, carioca, escrevo desde garota. Apenas um livro solo publicado (Enfim, renasci!, Ed. Impetus, Jul/2000) e participação em algumas antologias (duas de concursos, que devem ser editadas até o final do ano). Estou com mais dois livros prontos, sendo um deles de Poetrix, ainda aguardando publicação. No mais, poemas espalhados em inúmeros sites pela rede.
www.lilianmaial.portalcen.org
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