A fumaça densa do cigarro permanecia. Tensa. Os olhos amiudados pelo cansaço espiritual estavam sombreados pela dor da dúvida. O tempo passava e a madrugada esgueirava-se pelo quarto. Som de chave na fechadura. Passos lentos e trôpegos. Malcuidado andar. Desconfiança de quem perdeu o caminho. Olhares trocados. Não tocados. Nenhuma palavra. Um som de porta batendo e um estalo da cortina sacudida pelo vento de agosto.

Novamente o cheiro do cigarro e passos arrastados indicando insegurança. Nada mais do que este vazio. O verde do tapete tornara-se musgo. Triste e amarga circunstância do desencontro. Sons vindo da noite escura incomodavam. A voz comprimida pelo silêncio forçado. Explode a dor aguda que sufoca o peito. Um silêncio solitário. Nenhuma palavra. Nenhum gesto. Mesmo que fosse necessário. Expressão muda do desencanto.
 
 

 
       
     
 

 
       
       
   

Olhavam-nos subitamente confrontados pela realidade que se descortinava aos nossos olhos inquietos. Doce instante! Inebriados pela onda de calor que nos acalentava e na noite fria nos aconchegamos compartilhando a efêmera ocasião, tão efêmera que noite adentro se desvanecera.

Assim sonhávamos e percorríamos os atalhos das ilusões esquecidas retornando aos projetos venturosos. As nossas representações imaginárias tornavam-se reais e se desnudavam em nossas incríveis fantasias. Pudera, quem sabe? E se não acolhemos um tempo em que o significado perde-se na sua própria história? Mesmo assim navegamos atônitos pela maré quente e morna de nossas realizações. Mergulhando fundo na crença de uma nova paixão fomos inteiros, um no outro, muito embora depois nos despedaçássemos em desencontros cotidianos.
 
 

 
       
     
 

 
       
       
   

Dizia para si mesma. Seu conforto estava na crença do sentido de sua vida. Sim, dar sentido mesmo ao que parece não ter. Revestir de significado as situações corriqueiras, comuns. Seriam a mesma coisa? Seria a essência? Aí então percebia a incomensurável capacidade do ser humano em descobrir elos que parecem perdidos. Viver é jogar-se na plenitude do tempo não esquecendo a natureza do relativo e do finito. Como então compreender o infinito na compreensão do ser finito? Quando conhecemos a consciência do tempo humano? O que fazer com o tempo se ele está revestido de uma dimensão não alcançável pela finita natureza humana? Incógnita?

Conforta-me saber que não estou só na imperscrutável solidão desses pensamentos. A busca do sentido tem estado presente na existência do homem. O estar sendo. O devir. Desconstruir para reconstruir significados temporais. Quem não busca? Por mais difícil que seja, o homem ao pensar sobre a sua existência expressa um movimento curioso que pode ser uma trajetória de sonhos. Ou pesadelos?

Não sei.
 
 

 
       

 

     


 

 

Regina Lúcia Barros Leal da Silveira
Cearense, professora da Universidade de Fortaleza, UniFor, membro da Comissão de Avaliação Institucional dessa universidade. Membro da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil – Ajeb que lançou uma antologia nacional da qual faz parte, com uma crônica. Mestre em Educação. Escreveu artigos para revistas especializadas, livros e crônicas. Está com um livro no prelo.