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Meu pai anda a cavalo sem medo e com o corpo reto. Meu pai compra peixes na feira e os disseca para mim, explicando tudo sobre escamas, respiração embaixo d’água e guelras e dá aulas de astronomia para as crianças usando laranjas e lanternas. Meu pai castrou a gata do vizinho e me leva todos domingos à Cidade da Criança. Meu pai diz que me ama, elogia meu cabelo e canta "Se essa rua fosse minha” para eu dormir. E eu durmo muito bem.
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As duas amigas trocam confidências no sofá cor de vinho. – Homens e mulheres dos anos 90, é tudo tão complicado! Em que puta confusão a gente foi se meter. – Bah! Bota confusão nisso. Mas por que será, hein? Que será que a gente está fazendo de errado? Acho que as coisas estão mudando muito rápido. E a gente não tem competência para acompanhar. – A gaúcha dá uma tragada funda no cigarro. Ela não fumava há onze anos.
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Ele me promete colo e sussurros, vinho e conversa. Quando podemos, nos encontramos. Sorrimos e somos encantadores, extremamente cuidadosos. De vez em quando, indo para casa, ele me telefona da Marginal pelo celular... e ri das minhas piadas e ouve como foi meu dia e sorri quando digo que sinto saudades. Diz que me adora. Gostar dele é tão fácil que dá medo.
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Ele me liga dizendo que vai ficar até tarde na empresa, pondo uns papéis em dia e que depois vai ter uma reunião no Sebrae. Digo que tudo bem, dou jantar para as meninas e as ponho na cama. Antes de dormir suspiro e me pergunto como ele não se lembra que era isso que ele dizia para a ex-mulher quando ia sair comigo.
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Perguntei o que ela achava e ela me respondeu. Disse
que era para eu pensar direito. Que aventura, sexo selvagem e risadas eram
difíceis, mas não impossíveis de se encontrar. Mas que companheirismo, pés
quentinhos encostados aos meus nos domingos de manhã, planos, vontade de
criar filhos, paciência para aturar minha mãe, carinho e intimidade não
eram assim tão comuns no mercado. Que um homem para me agüentar com TPM,
com espinhas e medo de trovão e com saco para ouvir sobre as pescarias que
o cunhado insiste em descrever não seria tão fácil. Que por um amor como o
nosso, tão profundo e cúmplice, a maioria das pessoas procurava toda a
vida, sem sucesso. Fiquei tão irritada por ela ter razão que quase bati o
telefone. |
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Fabia Vitiello de Azevedo Cardoso |