Em 1970 conheci uma mulher chamada Sebastiana, para os amigos, Nica. Convivemos em encontros socioprofissionais de nossos maridos por uns três anos. Ela era costureira, tipo físico mignon, tinha duas meninas e todas as pessoas diziam que ela mandava no marido, mas nunca prestei atenção a este boato. Um dia ela me disse que na outra encarnação preferiria ser um homem lixeiro que uma mulher doutora... Ao ler essa crônica me lembrei imediatamente da Nica:

(De 17 de novembro de 1892, republicada na história do JB.)

 

“A vida morna fluminense não dá muito assunto para crônicas. Por isso ofereço-lhes uma versão de Alberto Milland publicada há pouco tempo no Figaro:

 

Virgínia: Diga a seu patrão que saí... Tenho que amputar duas pernas hoje de manhã, além de realizar quatro operações de litotricia perineal ainda agora, antes do almoço.

A criada: Minha ama ainda não viu, falta um botão no seu casaco.

Virgínia: Não estou aí, bem o sabes, para essas futilidades. (Vendo que chega sua amiga) Sejas bem-vinda, Aglaé!

A criada: Sabes a que horas vais voltar?

Virgínia: Espero estar aqui a uma hora para dar consultas. Tenho um encontro profissional às quatro horas, depois vou ao Instituto Pasteur apresentar uma tese sobre o mosquito do defluxo. Às nove da noite, prepara-me a beca, pois vou fazer uma conferência.

A criada: Minha ama não se esqueça de que está no nono mês e de um momento para o outro pode cair de cama...

Aglaé: Que ouço! Está assim?

Virgínia: É o resultado da estupidez do meu marido... Garanto-te que entre os novos direitos da mulher, hei de propor a abolição da maternidade. Somos superiores aos homens, mais capazes, mais organizadas para mandar e sermos obedecidas. E basta um segundo, um mísero segundo para cairmos neste estado.

Aglaé: É para nos convencermos de que não passamos de mulher..."
 
 

 
       

 

     


 

 

Ana Costa
É jornalista e trabalha como repórter na Secretaria de Comunicação Social do GDF.