FINAL 1

       
   

A um palmo da tampa selar o destino de D. Maria, projeta-se no ar um pé. Meia preta, sapato preto – a viúva pedia arrego! Risos cúmplices na platéia, abanos de cabeça, queixos projetados indicando o caixão. Eu até podia não ser muito correto na apropriação de frutas, mas sabia reconhecer quando a tarefa a mim cabia – caminhei até o centro da sala e escancarei a tampa.

De lá de dentro saltou seu Antônio, limpando as mangas do terno escuro. Postou-se ao lado do féretro, deu duas batidinhas na madeira e ordenou:

– Sai do caixão, Maria! Deixa-te de palhaçadas – e fincou-se no corredor, afrouxando a gravata.

Não fosse seu Antônio o defunto, D. Maria, a viúva, tão habituada a despautérios a vizinhança, uma outra cena se seguiria. No entanto, ouviram-se dois ou três suspiros e o pigarro de Dr. Aristeu, que saía estrategicamente da sala. O rábula seguiu-o, catando no caminho cada pedacinho do atestado de óbito atirado ao chão. As mulheres abandonaram suas bacias e terrinas, e, terços nas mãos e olhos nos maridos, saíram também em silêncio. Ficamos o italiano Stapanato, o boticário Salatiel e eu.

– Cataléptico! – exclamou o boticário.

– Furfante! – vociferou o italiano.

– Quer ajuda? – murmurei para D. Maria.

 
 

 
   

 

 

 

 

 
   

 

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