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O dicionário diariamente aberto sobre a mesa. Definição de "dissonância": Em música, "intervalo que não satisfaz a idéia de repouso e pede resolução em uma consonância". Necessário fazia-se saber lidar com as dissonâncias de tempo e espaço. Gostava de brincar com as palavras, com seus significados, despindo-as e vestindo-as, como se fossem bonequinhas de papel, daquelas com muitas roupinhas que se fixam por abas de papel. Ninguém entendia que estranho prazer ela encontrava em virar, pular, voltar páginas. Os olhos iam esquerda-direita-esquerda-direita. Os três maiores dedos acompanhavam as linhas, acariciando lentamente o papel. Havia alguns anos caíra num mutismo inexplicável. Uma tarde, ao vir da loja em que trabalhava, chegou em casa naquele estado. Sentou-se à beira da cama e começou a olhar fixamente a reprodução de um quadro de músico tocando acordeom. Não importava mais de quem ganhara aquela imagem; interessava apenas que, desde o primeiro olhar, sentira-se totalmente seduzida. Gostava de imaginar a sanfona abrindo e fechando, criando espaços e suprimindo vazios. Intrigante tão grande amor pelas palavras, consumido em horas e horas de bizarra leitura e de escritas enigmáticas, arquitetadas em jogos de palavras, anagramas... tudo em estéril vocalização. Dispensada do trabalho, passava os dias em casa na diária tarefa de ler e escrever. De tanto em tanto, os olhos se erguiam do papel à gravura do músico. Sua mãe não sabia o que fazer. Aproveitando os momentos de sono, higiene ou alimentação da filha, ela furtivamente lia seus escritos. Não conseguia entender por que as palavras se relacionavam, quase todas, à música. Um dia observou que ao lado da gravura havia um papel – ali transcritos uns versos de Drummond:
Arte poética
Uma breve uma longa, uma longa uma breve
Certa vez trouxe-lhe a mãe uma caixa de lápis coloridos, papéis, alguns pincéis e uns poucos potes de guache; é que alguém lhe dissera que desenho ou pintura poderiam ser eficazes. Ao receber os apetrechos, os olhos da filha manifestaram um quê de luminosidade, um certo brilho. A mãe tivera mesmo a impressão de que ela então teria agido com maior rapidez do que o normal; quem sabe um ligeiro entusiasmo – e daí a presteza. A mãe, disfarçando a ansiedade, retirou-se do quarto, deixando a moça entre o novo material. À tardinha veio ver a filha: permanecia sentada diante da escrivaninha e havia desenhado em várias folhas de papel. Em cada uma delas, invariavelmente havia uma breve, uma longa, uma longa, uma breve, uma longa, duas breves, duas longas, duas breves entre duas longas. E por uma semana, os desenhos se repetiram. Na segunda semana, a moça inaugurou os guaches. Pintou instrumentos de sopro, enfeitando as bordas de cada folha com claves de fá e de sol. Por que a obsessão? Desesperada, a mãe resolveu presentear-lhe com uma flauta e uma gaita. Não gostava tanto de música? Que fosse feliz assim. A moça sorriu ao abrir os embrulhos e a mãe esperou que tentasse tocar algo. Uma breve melodia, um som que fosse. Contudo, os instrumentos foram cuidadosamente reembalados e guardados na gaveta de uma cômoda. Decepcionada, mas ainda esperançosa, a mãe trouxe uma nova flauta. Tocou ela mesma "Luar do Sertão", que a menina tanto apreciava. Repetiu a execução por seis dias. Nenhuma reação. No sétimo, a filha resolveu usar a nova flauta. Revezavam-se: enquanto a mãe tocava sempre a mesma melodia, ela emitia notas destoantes. Atônita, a mãe continuou a repetir e repetir o "Luar". A moça, então, cuidadosamente entregou-lhe a definição de "dissonância". Suspiro fundo, na mãe, para prender as lágrimas; suspiro fundo, na filha, para dizer "Agora me faz um desenho do sertão em luar, mamãe?"
11/08/2004 |
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Teresa Coutinho Andrade |