Carro importado, estrada na periferia da cidade, limites da zona rural, dois homens entrando na meia-idade. O que dirige é gordo, tem queixo duplo e olhar blasé. O outro é magro é parece meio tenso. Reclama.

– Que fim de mundo!

– Foi você quem quis vir.

– Pudera! Com a propaganda que você fez…

– Você vai gostar. Tenho certeza.

Quarenta e cinco minutos depois, o carro diminui a marcha num recanto de estrada. De um lado, um bar de esquina com uma longa varanda coberta, com mesinhas e cadeiras. E um posto de gasolina. Do outro, o portão discreto de uma casa grande, semi-oculta pelas árvores do jardim.

– Chegamos.

– O que que é isso aqui?

– Perto de Xerém.

O Gordo estacionou ao lado do posto, onde já se encontravam dois outros carros de luxo.

– Tem mais gente aí.

Desceu e entrou no bar. O Magro sempre atrás dele. Pegam duas cervejas no balcão e escolhem uma mesa isolada. O ambiente está deserto, salvo alguns gatos-pingados.

– Deixa que eu pago.

– Dando uma de Mamãe-Noel, é?

Ignorando a pergunta, o Magro bebe um gole.

– Calma, Clotilde. Tá nervosa?

– Precisa humilhar? Precisa?

– O que é que eu fiz, criatura?

– Ficar me chamando de mulher.

– Ora, meu bem, queria que eu chamasse de quê? Isso aqui é lugar de viado. Você não quis tanto conhecer?

– E os tais rapazes?

– Calma.

– Esse bar parece um deserto. Só de pensar, sinto um frio na barriga. Sinistro!

Uma algazarra masculina se aproxima. Quatro rapazes entram e vão para o bar. Olham para os dois. Cochicham. Riem. Sabendo-se olhados, exibem-se.

– Não disse, Denise?

– Não me chame mais desses nomes… pelo menos em público.

O Magro olha obsessivamente um dos rapazes, cafuso, cabelo com corte militar, calção de futebol, sob o qual insinuam-se possibilidades mil. O Gordo logo percebe.

– Se acenar com uma nota de cinqüenta ele tira a roupa aqui mesmo… Ou nos enche de porrada. Não deve ser dos mais difíceis. Já passou dos trinta.

– Nunca paguei homem na minha vida!

– Ora, Eduína…

– Não me chame mais no feminino, tá boa?

– Tudo bem, querida. Mas vê se desce do pedestal. Aceitou vir num lugar desses e não quer gastar?!

– É diferente. Pesquisa sociológica. Não sabia que esse aí fazia parte…

– Não faz. Mas pode fazer. Acaba logo essa merda e vamos falar com o Gilson.

Atravessaram a estrada, tocaram a campainha, abriu-se o portão do sítio de muro alto, e entraram. O Magro teve uma surpresa. Nada indicava estar dentro de uma casa de prazeres. O jardim em torno, discreto; a casa semidistante, quase ascética; o silêncio sepulcral; tudo lembrava mais um centro espírita ou um hospital.

Atravessaram uma alameda de sapucaias, e, diante da casa, deram de cara com uma bicha muito feia e alta e velha, toda de branco, com uns colares de contas. Moreníssima, era quase impossível identificar o seu tipo étnico. No resultado final, parecia malaio, como um personagem de Joseph Conrad. Era careca no alto da cabeça e na testa, porém tinha longos cabelos grisalhos nos lados e atrás. Vinha acompanhado de um jovem de cabeça raspada, sempre alguns passos atrás. O velho levantou a mão nodosa num cumprimento.

– Salve! Quem é vivo sempre aparece.

Era o célebre Gilson da Pedra Branca, ex-suboficial da Marinha de Guerra, ex-carnavalesco de escola do segundo grupo, ex-babalorixá vinculado ao Opô Afonjá, atualmente guru da Plenilúnio, seita fundada por ele mesmo, dizem que por inspiração do próprio Tinhoso. Nas folgas de fim de semana, divulga o Amor Grego, ou seja, o homossexualismo entre machos. Os muito efeminados e as travecas não são bem-vindos. Mas, dependendo do poder aquisitivo do convidado, todo mundo que não tenha peito nem silicone nas bochechas pode comparecer. O Gordo, embora fizesse o tipo Oscar Wilde, foi introduzido por um famosíssimo diretor de telenovela, tido pela opinião pública como destruidor de corações femininos, e já freqüentava o local há pouco menos de um mês.

– Não vai me aprontar, hein? – recomendou.

O Magro nem teve tempo de responder, pois a proximidade já era o suficiente para que o anfitrião escutasse a arenga dos dois.

– Salve! voltou a saudar Tio Gilson, como o místico era chamado na intimidade pelos seus garotos. (Durante as sessões da Plenilúnio, era apenas Mestre, com todo respeito). Salve meu dentista favorito!

– Esse é o amigo de quem falei…

– Ah, o professor de Mitologia!

O Magro abriu a boca para se apresentar.

– Cuidado! Seu nome lá de fora não tem nenhuma utilidade aqui dentro. Batizo cada um do jeito que eu sentir. Esta semana o tema são pedras. Você vai ser Esmeralda. E você, sua gorda, vai ser Safira.

Colou nas costas da mão de cada um uma espécie de selo redondo, azul rei para Safira e verde bandeira para Esmeralda.

– As cores me ajudam a lembrar dos apelidos.

– Quem está aí?

– Água-Marinha e Turmalina. Não posso dizer os nomes. Talvez você conheça, mas finja que não, a não ser que eles tomem a iniciativa. E também a Ágata, que eu nunca vi mais gorda, mas veio recomendada.

Deram a volta na casa, diretamente para os fundos, onde uma espécie de festinha os aguardava. Vários homens, cerca de uns doze ou treze, de calções e bermudas a maioria, alguns sem camisa. Iam de quinze a trinta anos, quase todos mulatos das mais variadas tonalidades, mas também negros e brancos, inclusive um louro sarará. Uns poucos não tinham alguns dentes em seus sorrisos. Tomavam cerveja e conversavam sentados em bancos ou mesmo numa espécie de muro baixo. Um cd tocava Grandes sucessos de Clara Nunes ou coisa assim. O pequeno grupo assistia dois jogadores numa mesa de sinuca. O Magro os viu como um grupo de Minotauros, cabeças animalescas e mal-acabadas em corpos magníficos de trabalhadores braçais. Dois dos clientes estavam numa mesinha. Meia-idade, um bem grisalho. Muito bem vestidos. O terceiro, sozinho, era careca e vestia-se de modo mais informal.

O olhar do Gordo brilhou.

– Uau! Água-Marinha é o gerente do meu banco; e Turmalina, o Serginho d’Alençon, habitué de todas colunas sociais do eixo Rio-São Paulo... Mas quem será o careca, a tal de Ágata?

As duas granfas não moveram um músculo. Foi mais prudente Safira e Água-Marinha não se cumprimentarem. O olhar guloso do Magro não saía dos bagos expostos de um dos minotauros, de bermuda larga sem cueca, sentado de pernas abertas. Pareciam marrons-glacês tamanho gigante. Tio Gilson os acomodou numa outra mesinha, mandou o cambono trazer duas bebidas, e sentou-se .

– Pra quem é a primeira vez, a coisa funciona assim. Você escolhe o garoto, fala comigo, eu dou as dicas, e mando chamar. Podem se retirar lá para dentro, tem uns dez quartos. É só escolher. Na saída, deixa uma contribuição a seu critério. Safira já deve ter te passado a tabela.

– Claro – balbuciou o Magro, pensando na quantia bem salgada, a ser esbanjada nessa época de vacas magras.

– Três coisas não pode fazer. Primeiro: dar dinheiro diretamente pro bofe. Segundo: dar o telefone e querer marcar encontro fora daqui. Essa é pra sua própria segurança. Terceiro: querer forçar o garoto a fazer o que não quer. Por isso tem de falar comigo antes, pra eu dar as dicas. Tem uns que são mais liberais que outros, você está me entendendo…

Deu uma gargalhada debochada. Apontou discretamente para o louro sarará.

– Aquele ali, por exemplo, o Enéias. É completo. Tem as quatro estrelas: come, dá, chupa e beija na boca. Já o do lado, o Perseu, tem só duas: não gosta de chupar nem beijar.

À pouca distância, dois homens musculosos conversavam de modo cordial, um acendendo com o seu o cigarro do outro. Um certo ar de paganismo dominava o ambiente.

– Parece um desenho do Tom da Finlândia!

– Magnífico! O Minotauro e o Gladiador – filosofou o Magro com seus botões.

– Posso comprá-los pra você, se me pedir de joelhos… – ricocheteou o Gordo.

– Que maldade, Safira… É a primeira vez dela. Quer que eu conte a sua, quer?

– Se fizer, eu abro um buraco no chão e desapareço! Please

– Não pense que eu esqueci, não. Vexame, meu Pai-do-Céu… Mas o melhor pra nossa Esmeralda acho que é o Baixinho – decidiu Tio Gilson apontando um rapaz moreno, de braços cruzados, calado, meio longe dos outros. – É a primeira vez dele também. Olha, é muito bem dotado e tem três estrelas. Só não solta a rabiola – cochichou de modo quase inaudível.

O Gordo esticou as orelhas, mas não escutou nada. Sem perceber, quase derrubou seu copo. A um sinal do Tio, Baixinho se aproximou com andar de malandro. Parecia misturado com indígena, olhos meio puxados. Camiseta sem mangas, tatuagem nos braços e ombros.

– Minha amiga Esmeralda quer fazer um programa com você. Vai com ela lá pra dentro.

Baixinho concordou com um aceno de cabeça. O Magro titubeou, paralisado de medo e de desejo. “Assim sem nem uma conversinha? Como uma puta?” Lembrou-se então de que estava num puteiro. Um silêncio desagradável se impôs.

– Vai logo, mulher – agrediu o Gordo.

O Magro teve ímpetos de cuspir-lhe na cara (“Cachorra!”, rangiu entre os dentes), mas, de repente, levantou-se e seguiu com o exótico minotauro em direção à casa.

– E você, bela Safira?

– Na mesma. Ele passou por aqui?

– Não. Já te expliquei que o Jura não vem mais. Voltou praquele velho grande amor da Avenida Atlântica.

– Maldito! O que é que ele tem que eu não tenho?!

– Um apartamento na Avenida Atlântica.

O rosto do Gordo se transformou numa máscara de sofrimento e suor. Parecia a Katina Paxinou, a mãe de Rocco e seus irmãos.

– Eu, se fosse você, escolhia outro pra se divertir.

– Vou tentar me animar.

– Vê se dá uma dançadinha. Relaxa…

Tio Gilson foi para a mesa das granfas, discutir a transação dos rapazes. Alguns foram chamados e devolvidos ao grupo. D’Alençon finalmente aceitou um e saiu dançando de rosto colado. O Gordo pensou no belo Jurandir, mulatão pra quarenta talheres. O careca continuava na sua, parecia voyeur. Tudo na mais perfeita ordem.
Foi então que aconteceu.

Dali a tempos, quando os sobreviventes desse dia o recordaressem (o que aconteceria com certa freqüência), os acontecimentos surgiriam cheios de detalhes. Mas na realidade, tudo se passou naquele ritmo vertiginoso que transforma minutos em segundos, e vice-versa.

Tio Gilson e o Gordo os viram quase ao mesmo tempo. Um grupo de homens fortes, seis ou sete, com máscaras ninja e todos armados, inclusive com uma metralhadora portátil. Anunciaram o assalto com um tiro pro alto.

De repente, o careca, a tal de Ágata, que estava desde o início sentado na sua, puxou do bolso um revólver e juntou-se ao bando. Logo renderam todo mundo: minotauros, clientes, empregados e dono. Tio Gilson foi trazido pelos cabelos, de joelhos, até o Careca.

– Queremos o ouro!

- Num tem ouro, não senhor.

- Onde é que tá o cofre?

- Num tem cofre, não senhor.

– Sai dessa, bichona. Sei que tu é cheio do ouro, viado! E o bicheiro que banca essa porra aqui? Não molha o teu bico, não?

- Num sei do que o senhor está falando…

Careca deu-lhe um socão na cara. Tio Gilson caiu pra frente, e logo um ninja lhe deu um pontapé nas costas, que fez o barulho surdo de uma coisa oca. Foi levantado com brutalidade e arrastado pra dentro. Depois de procurarem aposento por aposento, não se achou cofre nenhum, nem dinheiro que valesse a pena. Entraram numa de barbarizar. Quebraram seus dedos numa gaveta, obrigaram a beber mijo. Depois mataram com um tiro na cabeça.

Tudo em menos de meia hora.

Careca mandou chamar três minotauros bem fortes, trouxe os carros dos clientes, mais os dois que tinham trazido o bando e mandou carregar com tudo de valor que tinha na casa. Não sobrou praticamente nada. Só a imagem de Maria Padilha, com uma expressão irônica e debochada, cercada de flores e velas pretas e vermelhas.

Esticaram umas fileiras na mesa da sala.

No pátio, o clima era de apreensão. Os três clientes, depois de devidamente depenados, estavam como os minotauros, sentados no chão, cabeça baixa entre as pernas como nas penitenciárias. Ouviam ofensas e gracinhas dos quatro ninjas que os vigiavam. Estavam nervosos com os gritos e os gemidos que vinham de dentro da casa. O tiro foi como uma gota d’água. Os ninjas, sob o efeito da cocaína, ficavam cada vez mais excitados.

– Ei, você aí! – apontaram para um moreninho.

O rapaz se levantou.

– Quer dizer então que aqui todo mundo é boiola?

O moreninho dá um sorriso amarelo.

– Como é que é, não responde?

Um deles engatilhou a metralhadora e apontou.

– Responde, anda. “É, sim senhor.”

– É, sim senhor…

– Então, quero ver todo mundo nu fazendo trenzinho, um botando na bunda do outro!

Um murmúrio de protesto se fez ouvir.

– Que é que tão esperando, cambada?

O ninja deu outro tiro pro ar. Todo mundo se levantou. A maioria dos minotauros logo se libertou das bermuda e do calção, ficando nus. Outros, como Safira, Água-Marinha e Turmalina, que usavam sapato e meia, demoraram mais. Minutos depois, estavam todos completamente despidos, estranha Via Ápia em local tão improvável.

– Quero ver beijinho na boca!

Debaixo da ameaça das armas, formaram-se duplas espontâneas, que se beijaram, algumas constrangidas, de boca fechada. O Gordo adorou.

– Agora cada um patolando o pau do outro.

Dessa vez a adesão não foi assim tão fácil. Alguns minotauros reclamaram. Um levou uma coronhada no ombro. A sacanagem continuou até a maioria ficar de caceta dura. O Gordo obedeceu feliz, sem pensar em maiores conseqüências.

– Agora é no boquete.

Mais da metade dos minotauros se recusou, iniciando uma discussão muito violenta com os ninjas. Outros não. Safira, Água-Marinha e Turmalina aproveitaram pra dar uma boa abocanhada. Nesse exato momento, Careca, que estava ausente supervisionando o carregamento dos carros, entrou no pátio, irritado.

– Vamos acabar com essa porra e pular fora.

– Faz o que com essa gente?

– Passa eles. Passa todo mundo.

Uma saraivada de balas derrubou os reféns. Logo depois, saíram apressados. Ouviram-se mais dois tiros e depois o barulho dos carros partindo. Um monte de corpos ficou estendido no pátio, nus, uns por cima dos outros. No portão, com tiro na testa, dois dos minotauros que ajudavam a carregar. O terceiro correu, quebrou a perna e ficou caído na beira da estrada. Ainda tentaram atropelar, mas não deu.

Ao ouvir o primeiro tiro e sentir um ardor horroroso no pé, o Gordo atirou-se no chão e fingiu de morto. Assim que outros corpos caíram, escondeu-se atrás de um deles e lá ficou. Depois que os carros se afastaram, levantou-se cuidadoso. Viu que D’Alençon e o minotauro Enéias também tinham escapado e já se vestiam. Por causa do ferimento do pé, vestiu calça e camisa com certa dificuldade. Só então, desde que tudo começara, pensou pela primeira vez no Magro e no que poderia ter acontecido com ele.

De repente, os três sobreviventes deram de cara com um menino de uns dez anos, que os observava em silêncio, e ao ser descoberto, correu pra fora do portão.

– É melhor a gente pirar daqui.

– Daqui pouco pinta a polícia.

Dito e feito. Ao longe já se ouvia a sirene. Conseguiram chegar ao portão e ultrapassar a multidão de curiosos que se amontoava, poucos minutos antes da chegada de dois camburões e uma assistência. D’Alençon resolveu ficar observando na varanda do bar, o Gordo e Enéias preferiram se afastar.

– Como tá o pé do senhor?

– Doendo muito. Aqui não tem farmácia?

– É longe.

– Como é que eu vou sair daqui, meu Deus do céu?

– Se o senhor quiser, pode esperar na minha casa até passar a confusão. É aqui perto.

Claro que ele quis. Enéias morava com a irmã e o marido dela, mas não tinha ninguém em casa. O gordo lavou o pé, fez curativo, telefonou pra casa, tomou cafezinho, e ainda transou com o rapaz. Barba, cabelo e bigode. Apesar dos pesares, pode se dizer que teve um final feliz.

No dia seguinte, cada qual a seu modo, os jornais cariocas comentaram o acontecimento.


CHACINA NO ANTRO DE DEPRAVADOS
Doze mortos e cinco feridos – Invertidos fuzilados em pleno ato sexual – Mais dois corpos fora do portão – Casa era local de encontros – Residência saqueada.
 

DEZ MORTOS E UM FERIDO EM XERÉM
Festa de embalo – Chegaram os justiceiros – Entrevista exclusiva com único sobrevivente – “Era a casa do diabo”, afirma a vizinhança – Lei do silêncio.
 

PAI-DE-SANTO MORTO EM CHACINA
Quinze fuzilados em Xerém – Babalorixá era famoso na Zona Sul – Delegado afirma ser latrocínio – Suspeita a quadrilha de Careca e Ratinho.
 

“Mas e o Magro e o Baixinho?”, devem os leitores estar se perguntando. “Sumiram?!”

Vamos lá.

Os dois já estavam em pleno roça-roça na cama quando ouviram o primeiro tiro. Percebendo a situação, vestiram a roupa apressados, pularam a janela lateral e se esconderam no jardim. Ouviram apavorados tudo que fizeram com Tio Gilson e pularam o muro dos fundos antes do massacre final. Telefonaram pra polícia do primeiro orelhão.

Ficaram vagando sem rumo. Baixinho levou o Magro pro alto de um morrinho próximo. Ao escutar o tiroteio, este choramingou pensando na morte do amigo. O Gordo era meio implicante, mas se conheciam havia quase dez anos. Baixinho, que estava cheio de tesão, meio sem jeito, tentou consolá-lo botando o braço no seu ombro. Quando os camburões chegaram o Magro tava dando o rabo, de quatro no meio do mato, como uma cachorra vadia. Pensava no coito das ninfas e dos sátiros nas encostas do monte Olimpo. Por isso não viu a saída do Gordo, vivinho da silva, apenas mancando um pouco, como um Baco depois da orgia.

Incorrigivelmente romântico, pensou ter encontrado o amor de sua vida, e deu seu telefone ao Baixinho antes de ir com ele ao ponto do ônibus. Durante ano e meio teve alguns momentos extremos de prazer e alegria, entremeados com muitos (e põe muitos nisso) de aborrecimento e baixaria. Sobreviveu à chantagem emocional, ponta de faca e escândalo na portaria do edifício.

Quanto ao Gordo, consta que descobriu outra casa dos prazeres em Queimados. No sítio de um guru adepto dos cipós alucinógenos da floresta Amazônica. Foi uma vez, adorou. E, como a vida burguesa é muito monótona, vai voltar. Convidou o Magro, mas este só pode ir na semana que vem…

O amor é mesmo uma necessidade muito perigosa.
 
 

 
       

 

     


 

 

Jango Rodrigues
É o pseudônimo artístico de alguém que prefere manter-se no anonimato. É carioca da Zona Sul, signo de Câncer e seu orixá é Oxóssi. Nasceu nos anos 1960 mas prefere não dizer a data exata. Trabalha como jornalista e pesquisador nas áreas de literatura e cinema. Decidiu agora investir na carreira literária. Só para desafinar o coro dos contentes.