Movido por grande curiosidade, fui conhecer a recém-criada Escola de Medicina Alternativa (EMA), situada na Zona Norte do Rio de Janeiro, cujo edifício situava-se dentro de um bosque, em meio a plantações de ervas medicinais.

Uma pequena alameda ligava a entrada ao pátio interno, e nesse trajeto notei uma coleção fantástica de tipos humanos que desfilavam em diferentes direções, como se estivessem numa cena de Zefirelli. Gurus meditavam na grama, enquanto zelosos funcionários empurravam carrinhos com ervas frescas. À entrada, um grande painel mostrava os nomes dos integrantes do corpo docente e suas respectivas áreas de atuação. Prováveis médicos, ocultistas e dietistas, chineses e javaneses, astrólogos, psicólogos e acunpunturistas, cromoterapeutas, iridologistas e dezenas de outros especialistas na arte de diagnosticar e curar compunham o eclético professorado.

Os alunos eram pessoas de idades extremas, jovens à procura de uma nova e rendosa profissão, idosos em busca do aprendizado da autocura de suas crônicas doenças, e todos desejosos de explorar um mercado fantástico de pessoas que não conseguiam a cura na medicina oficial.

Embora não se tratasse de um hospital, havia inúmeras salas de terapia, cada uma dedicada a diferentes formas e métodos de tratamento. Pairava no ar uma mistura de odores como essências, incenso, ervas, cigarros etc. Todas as salas encontravam-se lotadas de doentes, alunos e mestres. Informalidade aqui, gestos místicos acolá, tudo formava um ambiente confuso, como se fosse o Mercado Modelo de Salvador num templo budista, servido por chineses, indianos e cariocas.

Para entender o modus operandi daquelas práticas terapêuticas e sem me perder nas centenas de alternativas, decidi acompanhar objetivamente um doente em suas etapas de tratamento.
Escolhi um paciente com uma doença física visível. Assim minhas atenções foram dirigidas para um homem de aparência grave, cuja pele bastante amarelada mostrava a intensidade da icterícia. Segundo sua mulher, ele retornava ao departamento de fitoterapia, onde tinha iniciado tratamento.

Inicialmente prescreveram-lhe chá e banhos de picão durante quinze dias, após o diagnóstico de hepatite comum. Como a icterícia não diminuía, foi solicitado o parecer do iridologista, o qual não teve dificuldades em decifrar o que dizia a íris do cansado homem: a doença localizava-se ao nível do fígado; sugeriu a seguir um tratamento intensivo com chá e supositórios de quebra-pedra durante uma semana.

Agora voltava o doente, muito mais amarelo e com visível emagrecimento. O fitoterapeuta e o iridologista levaram-no para a Sala de Medicina Integrada, na qual todos os especialistas se reuniam para meditar e tomar decisões de tratamento. O parecer mais convincente foi do cromoterapeuta, o qual não tinha dúvidas de que uma doença com tão profundo amarelo se devia a um grave desequilíbrio cromático; assim, garantia que três sessões de trinta minutos de irradiação azul deveriam curar aquele mal bilioso e de repulsiva cor.

Com a concordância da maioria, lá se foi o nosso doente para uma envidraçada e silenciosa sala, com uma cama em seu centro. Do teto, filtros de luz azul banhavam o corpo do infeliz, onde ali permaneceria por meia hora.

A pele amarela ao receber toda aquela luz azul mostrava-se ilusoriamente verde. Visto de longe, através do vidro, lá estava um homem verde.

E foi isso que viu um repórter que por ali passava quando ia visitar um amigo. Espanto! Incredulidade! Com o coração batendo forte, seus instintos jornalísticos comandaram suas ações. Repórter sempre repórter. Foto disparada. Do telefone celular chama seu chefe e anuncia a bomba: um ET estava internado no Centro de Medicina Alternativa. Claro que era um ET. Todo verde. Não podia afirmar se estava morto ou hibernando. Mandasse a equipe de reportagem. Podia ser marciano. Cabeça grande, olhos fundos, mais magro do que os terrestres. As palavras jorravam atropeladas pelos seus pensamentos confusos e excitação incontida.

A mesma impressão teve o especialista em Terapêutica Cósmica que estava nas imediações, e tentando parecer o mais natural e calmo possível, admitia que aquele Ser verde era sem dúvida um ET, mas daí a dizer que era um marciano havia uma grande distância. Resolveu tomar uma providência sensata. Telefonou para um conhecido colega ufologista, residente em Varginha, para comparar as experiências.

Enquanto isso, passados os trinta minutos, o paciente foi retirado da sala e levado para uma sessão de cinestesioterapia ou cura pelo pêndulo. Ao voltar à sua vigília, o esperto repórter viu-se obrigado a telefonar à central para dizer que o ET havia desaparecido, aparentemente sem deixar pistas. O editor teria de contentar-se com suas providenciais fotos e o texto que seria redigido assim que voltasse à redação.

Vinte e quatro horas depois, o Diretor da EMA, perante a Polícia Federal e um batalhão da imprensa, jurava que a instituição não recebera extraterrestres, nem como pacientes, nem como colaboradores. Muitos duvidaram. Um rigoroso inquérito iria ser aberto pelo pessoal especializado da Aeronáutica, a exemplo de Varginha.

Enquanto isso nosso amigo amarelinho já estava entregue aos chineses, os quais viram claramente o predomínio das forças do Yang, e contra aquele mal prescreveram dez cápsulas diárias de Mocrea.

O enterro de José Filogônio, assim se chamava o ex-ET, foi pouco chorado, pois a vidente Tia Florúcia já vaticinara a sua desencarnação dois dias antes de sua morte, com absoluta precisão.
 
 

 
       

 

     


 

 

Heitor Rosa
Nasceu em Urutai (GO) e reside em Goiânia. Médico, professor titular de Gastroenterologia na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás. Residiu alguns anos na Europa (Londres e Paris), onde fez pós-graduação. Foi colunista do Jornal da Associação Médica Brasileira (SP), para o qual escrevia crônicas sobre a vida universitária. Seu primeiro livro foi Histórias agudas e crônicas: do apêndice ao avião (1996). A seguir publicou Os ossos do coronel Azambuja e outras mentiras (1997), pela editora Fábrica do Livro, com prefácio de Moacyr Scliar. Em 2000 publicou O enigma da Quinta Sinfonia, pela editora Escrituras. No prelo, pela Prêmio Editorial, encontra-se o último livro Memórias de um cirurgião-barbeiro.